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sexta-feira, 22 de abril de 2016

A lareira

A lareira, a chaminé, a lenha, os cavacos, as giestas, as brasas, o calor. Os momentos. Os pensamentos… silenciosos… falados… realizados… inusitados…
O lume… símbolo da vida… chama eterna… que nos aquece… o coração. Ao seu redor, olhares cúmplices cruzam-se em conversas demoradas, compassadas, ardentes por vezes, como o ardor do lume que arde vagarosamente.
Noites frias convidam ao recanto da casa, ao recanto da cozinha. O lume. A lareira. Um canto, um espaço pequeno transformado na centralidade da casa, da família, da vida… Ali traçam-se planos para o amanhã, alcovita-se o ontem, entrelaçam-se sonhos de um futuro maior… sugere-se, debate-se, refila-se, silencia-se.
Olhares quietos perdem-se na finitude das chamas que teimam em consumir os últimos resquícios de um pau moribundo.
Olhares melancólicos deixam-se adormecer na imensidão das brasas incandescentes e… sonha-se um mundo… o mundo. Respira-se um tempo; respira-se o tempo… único, irrepetível, intransmissível…
                                                                                              Luís Filipe Soares

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Era uma Vez... Vila Mendo

Faleceu a última pessoa que vivia em Vila Mendo. Vila Mendo é agora uma terra sem vida, uma terra de ninguém… como a esmagadora maioria das aldeias vizinhas, das aldeias do interior, das vilas do interior, das cidades do interior. 
Restam as pedras, caídas, desordenadas nas ruas poeirentas. Algumas casas ainda resistem à acção inexorável do tempo que já não passa; teimosamente, mantêm-se em pé desafiando toda a lógica da engenharia; são elas as últimas guardiãs das memórias de tantas e tantas gerações, de tantas e tantas gentes que viveram, amaram, sentiram Vila Mendo. 
Não existe mais o pulsar de um único coração, o bafo do cansaço de uma única alma, o frenesim da vida do campo pautado pelo respirar demorado das estações.
Não existe o cheiro… o cheiro das memórias, dos momentos… o cheiro das histórias e das estórias… o cheiro dos lugares… o cheiro das pessoas… o cheiro da vida… Vila Mendo morreu… o Interior morreu e com isso Portugal morreu… 
Ninguém vive quando o seu interior morre… Um país não sobrevive quando uma parte dele definha em agonia… lenta. 
Vila Mendo morreu… Restam as lágrimas das gentes… mortas… Vila Mendo morreu… Ahhhhhhhhhhhhh! – O que foi?!. – O que foi?!. 
Era só um sonho… sinistro…. 
Não me deixem sonhar assim… Vila Mendo… Vila Mendo não morreu… Vila Mendo nunca morrerá…

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Pequenos retalhos da Vida...em Vila Mendo...

Em Vila Mendo, tal como na maior parte das aldeias, é costume os padeiros, merceeiros e outro tipo de comerciantes irem vender os seus produtos. Aliás já têm dias determinados para o efeito; assim as pessoas durante todos os dias da semana, à excepção do Domingo, sabem, mais ou menos, quem é e o que vêm vender. Contudo o apito, com que se fazem anunciar, ainda constitui motivo de alguma incerteza e traz uma certa agitação e curiosidade que vem quebrar o lento respirar dos dias: “- Este apito deve ser o padeiro do Marmeleiro.”; “- Então hoje o padeiro de Pêga ainda não veio?”; “- Este apito não é o do Silvino, mas hoje é Quinta-feira?”; “- O Dias já chegou.”… Às vezes chegam a juntar-se no Largo do Chafariz (antigamente Largo da Amoreira) mais do que um vendedor. São momentos intensos, de conversas cruzadas, em que as pessoas (normalmente as mulheres) trocam argumentos a favor de uma causa, lamentam-se pelas maleitas que teimam em surgir em catadupa, esgrimem previsões acerca do tempo que vai beneficiar ou prejudicar as hortas, fazem dois ou três comentários sarcásticos e altamente corrosivos acerca deste ou daquela e falam... falam… e zangam-se, por vezes… e falam… e vão-se embora… e voltam… de novo para principiar do princípio mais um dia surpreendente e previsível; mais um momento enfático e frívolo… para simplesmente… a existência dos dias demorados ter… sentido… o seu sentido… o seu próprio sentido… São retalhos pequenos de uma vida… da vida em Vila Mendo… da Vida…

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Pequenos retalhos da Vida... em Vila Mendo...

Em Vila Mendo, tal como na maior parte das aldeias, é costume os padeiros, merceeiros e outro tipo de comerciantes irem vender os seus produtos. Aliás já têm dias determinados para o efeito; assim as pessoas durante todos os dias da semana, à excepção do Domingo, sabem, mais ou menos, quem é e o que vêm vender. Contudo o apito, com que se fazem anunciar, ainda constitui motivo de alguma incerteza e traz uma certa agitação e curiosidade que vem quebrar o lento respirar dos dias: “- Este apito deve ser o padeiro do Marmeleiro.”; “- Então hoje o padeiro de Pêga ainda não veio?”; “- Este apito não é o do Silvino, mas hoje é Quinta-feira?”; “- O Dias já chegou.”… Às vezes chegam a juntar-se no Largo do Chafariz (antigamente Largo da Amoreira) mais do que um vendedor. São momentos intensos, de conversas cruzadas, em que as pessoas (normalmente as mulheres) trocam argumentos a favor de uma causa, lamentam-se pelas maleitas que teimam em surgir em catadupa, esgrimem previsões acerca do tempo que vai beneficiar ou prejudicar as hortas, fazem dois ou três comentários sarcásticos e altamente corrosivos acerca deste ou daquela e falam... falam… e zangam-se, por vezes… e falam… e vão-se embora… e voltam… de novo para principiar do princípio mais um dia surpreendente e previsível; mais um momento enfático e frívolo… para simplesmente… a existência  dos dias demorados ter… sentido… o seu sentido… o seu próprio sentido… São retalhos pequenos de uma vida… da vida em Vila Mendo… da Vida…

terça-feira, 12 de junho de 2012

Era uma vez... Vila Mendo I

Faleceu a última pessoa que vivia em Vila Mendo. Vila Mendo é agora uma terra sem vida, uma terra de ninguém… como a esmagadora maioria das aldeias vizinhas, das aldeias do interior, das vilas do interior, das cidades do interior. Restam as pedras, caídas, desordenadas nas ruas poeirentas. Algumas casas ainda resistem à acção inexorável do tempo que já não passa; teimosamente, mantêm-se em pé desafiando toda a lógica da engenharia; são elas as últimas guardiãs das memórias de tantas e tantas gerações, de tantas e tantas gentes que viveram, amaram, sentiram Vila Mendo. Não existe mais o pulsar de um único coração, o bafo do cansaço de uma única alma, o frenesim da vida do campo pautado pelo respirar demorado das estações. Não existe o cheiro… o cheiro das memórias, dos momentos… o cheiro das histórias e das estórias… o cheiro dos lugares… o cheiro das pessoas… o cheiro da vida… Vila Mendo morreu… o Interior morreu e com isso Portugal morreu… Ninguém vive quando o seu interior morre… Um país não sobrevive quando uma parte dele definha em agonia… lenta. Vila Mendo morreu… Restam as lágrimas das gentes… mortas… Vila Mendo morreu… Ahhhhhhhhhhhhh! – O que foi?!. – O que foi?!. Era só um sonho… sinistro…. Não me deixem sonhar assim… Vila Mendo… Vila Mendo não morreu… Vila Mendo nunca morrerá…

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Era uma vez... Vila Mendo

Vila Mendo tem 150 habitantes; muitos são jovens. Vários naturais e descendentes estão a regressar, aos poucos. Fruto de investimento privado, o turismo rural marca o ritmo da aldeia durante todo o ano. Portugueses e estrangeiros dão vida à nossa terra participando, principalmente, nas tarefas agrícolas de alguns residentes que têm ajuda nos seus afazeres e ainda recebem uma compensação por isso. Naturais e forasteiros vivem numa troca de experiências extremamente enriquecedoras para ambas as partes. Existe já uma fábrica que produz os mais variados produtos característicos da região, empregando mais de trinta pessoas. Neste momento, na aldeia, existem mais de cinquenta empregos. Em pouco tempo serão muitos mais. Decorrente de todo o investimento privado, as autoridades públicas apressaram-se a colocar o saneamento básico e a canalização de água da rede. As ruas estão todas calcetadas e arranjadas e já está pronta a nova estrada para Vila Fernando. Todas as casas velhas estão recuperadas e aquelas que eram de cimento estão revestidas com pedra. O campo de futebol na Balsa está completamente requalificado e a sede da Associação, na antiga escola, está um encanto.  Um arquitecto famoso projectou e reconstruiu  a capela. Como está linda a nossa terra! A associação está quase a inaugurar um centro/escola de artes performativas que vai ter a colaboração estreita do Teatro Municipal da Guarda e de outras colectividades como o Aquilo Teatro. Para breve está o lançamento de um projecto com um novo conceito de lar para idosos... 
Trim! Trim!Trim! - O que foi?!. O que foi?!. - F***! Era só um sonho... lindo... 
A realidade é dura... DEIXEM-ME SONHAR... VILA MENDO...