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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Estórias de Vila Mendo

Depois da intervenção dos militares na casa da escola, ou casa da professora, após o 25 de Abril de 1974, criámos o Clube da Juventude nesse espaço. Esta experiência foi mal sucedida porque nessa época não se conseguiu reunir as condições e apoios para que o projeto tivesse pernas para andar.
No entanto, passaram-se ali alguns serões agradáveis e recordo, particularmente, mais dois episódios: 
A galinha decepada que caminhava
Recordo-me de uma noite em que, depois de um jogo de “lerpa”, o Adérito para pagar as dívidas foi buscar uma galinha à capoeira dos pais para fazermos uma patuscada. Eu e o Jorge Pereira ficámos com a tarefa de matar a pobre da galinha. Saímos do salão e fomos matá-la num dos terrenos que ladeiam o largo. Segurei-a com as duas mãos, enquanto o Jorge lhe agarrou na cabeça e cortou o pescoço. Para não me sujar com o sangue larguei-a e, para espanto nosso, o animal começou a andar… parecia fugir ao destino. Claro que nós fugimos para o lado contrário e fomos para o salão relatar o insólito acontecimento.
Só a fomos buscar depois de uma grande galhofa e a pobre da galinha acabou por ser cozinhada mas de tão rija, estava verdadeiramente intragável. Devia ser a mais desdentada da capoeira!
Patifaria
Noutra noite, depois do fecho, decidimos colocar todos os carros de bois e carroças que estivessem na via pública virados de lado, isto é com uma das rodas no ar. Para disfarçarmos a autoria da brincadeira nem os dos nossos familiares escaparam.
Na manhã seguinte a pacata aldeia acordou em verdadeiro alvoroço. Só podia ser coisa de gente estranha à aldeia diziam.
A sra. Maria afirmava “os nossos não foram pois até nos colocaram o arado de madeira em cima do portão”; a minha mãe retorquia “ai os meus também não porque os nossos carros também estão virados”.
A estratégia resultou!
Devo acrescentar que fomos cuidadosos e, para além do incómodo, não causámos prejuízo a ninguém.

                                                                          Manuel da Silva Gonçalves

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

estórias da Terra- Júlio Pissarra

As Calças
Era um, quente, final de tarde de Agosto dos saudosos anos 80. Terminado mais um árduo dia de trabalho a “malta” de Vila Mendo juntou-se aos tanques para uma alegre cavaqueira, saciar a sede e aliviar o calor, com a refrescante água do nosso chafariz. Nesses tempos quer fosse fim-de-semana ou meio da semana, praticamente todas as noites concluíam na discoteca da moda (“Night and Day”- Alto de Pêga).
Quem vai, quem não vai…! Eu, o meu amigo e primo Zé Gonçalves e o meu amigo (agora também Primo) Víctor Soares decidimos ir! Depois de jantar, e chegada a hora, aí vamos nós para a “noite”! A viagem realizou-se numa carrinha de transporte de gado que pertencia ao meu tio José Marques (pai
do Zé). Chegados à porta, da discoteca, deparámo-nos com um problema:
- Zé, o teu primo vem de calções, não pode entrar! – disse o Porteiro.
- Então porquê? – questionou o Zé.
- São regras da Casa! - respondeu o funcionário.
- Mas já vi aí dentro várias mulheres de calções! –disse eu.
- Mas com as mulheres é diferente!!! – exclamou o Porteiro.
- Esta é boa! Vimos de Vila Mendo, chegamos aqui, e não entramos?! – respondeu o Víctor.
Depois de duras negociações, nem com a grande influência que o Zé detinha, nesta discoteca, conseguimos entrar. Então para não prejudicar os meus amigos sentenciei:
- Entrai vós, eu vou para a carrinha dormir!
Aí o Zé foi perentório:
- Não, ou entramos todos ou nenhum!
- Vamos embora! Não estamos aqui a fazer nada! – disse o Víctor.
Aquilo que se ia tornar numa alegre noite estava-se a transformar num pesadelo. Na curta viagem para a carrinha os três amigos mostravam a sua indignação e surpresa pelo sucedido. Mas será que tudo estava perdido…?
Quando entrávamos para o nosso meio de transporte, o Víctor disse:
- Zé, por vezes os teus irmãos trazem umas Calças, suplentes, para carregar e descarregar o gado. Vê lá se há por aí algumas!
Depois de breve busca, o Zé, carregado de felicidade, exclamou:
- Olha aqui uma Calças!!! Há! Há!…e bonitas que elas eram!!! Cor bege, feitas de fazenda da primeira qualidade, vincadas e com umas elegantes pregas! Mas o desejado objeto de roupa não tinha, nesse dia, as condições mínimas para entrar no referido espaço noturno. Estava completamente amarrotado, cheio de grandes nódoas e abarrotava de sujidade seca (vulgo *M…) inerente ao trabalho que ajudava a desenvolver. Mas era o que havia…!
- Experimenta lá as Calças! – disse o Zé.
Quando as experimentei reparámos que me ficavam demasiado curtas, mas rapidamente solucionámos o problema. Fiz uma espécie de dobra, que dava o efeito de bainha, e assunto resolvido.
- Assim não me deixam entrar! – exclamei.
O Zé respondeu:
- Então não queriam umas Calças? Já as tens vestidas! Vamos embora!
Depois de muitas gargalhadas tocámos à campainha da discoteca. A porta abre-se e o Zé dirige-se, apontando para mim, ao porteiro e diz:
- Agora já pode entrar?!
O porteiro, com um sorriso de espanto perante o cenário que tinha à sua frente, não soube o que responder. Então o Víctor sentenciou:
- Não querias que o rapaz vestisse umas calças?! Aí as tens!!!
Resignado e espantado, o porteiro, não teve outra alternativa.
– Sim… agora pode entrar… mas…, senta-se lá a um canto. Pode parecer mal!
- Para me sentar a um canto prefiro não entrar! – respondi.
Entrado na discoteca assumi a postura normal que sempre tinha quando frequentava esse espaço. O Zé logo fez questão de publicitar a situação e, com o seu sorriso matreiro, dirigiu-se às minhas primas Guida e Paula que, também, diariamente frequentavam esta discoteca:
- Já vistes o vosso primo? – Não – responderam. – Mas porquê?!
- Ide procurá-lo e depois dizei alguma coisa!
As minhas primas quando me encontraram ficaram estupefactas.
- Hhááá!!! – disse a Guida. – A minha alma está parva!!! – exclamou a Paula.
Explicada a situação terminámos todos em enormes gargalhadas. Ao mesmo tempo, questionávamos o porquê de não poder aceder à discoteca com uns adequados calções e poder fazê-lo com aquelas originais Calças!
Com muita dança e saudável convívio assim decorreu uma das noites mais divertidas da minha juventude! Importa realçar que nunca mais, até hoje, me senti tão observado como nessas “porreiras” horas!
Júlio Antunes Pissarra

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

estórias da Terra- Manuel Silva Gonçalves

O diabo que tocava o sino
Era tradição no sábado de aleluia tocar-se o sino depois da meia-noite, mais propriamente no domingo de páscoa, até de madrugada ou até que os moradores mais próximos da capela esgotassem a paciência e nos solicitassem para pararmos pois precisavam de descansar. Esta é uma manifestação de regozijo para os crentes na ressurreição de Jesus Cristo e é tradição em toda a região beirã.
Numa dessas noites, depois de termos jogado uma partida de futebol no largo da escola ao luar, pois energia elétrica ainda não havia, resolvemos ir tocar o sino ao Monte Carreto.
Claro que esta ousadia não passava de uma provocaçãozita para com os habitantes daquela aldeia vizinha!
Mas a coisa tinha de ser bem engendrada…
Devíamos ser para uns quinze malandros. Alguém arranjou uns metros de cordel de atar os fardos do feno e pelas duas ou três da manhã aí vamos nós a pé pelos trilhos e caminhos rurais. Quando nos aproximámos da capela da aldeia vizinha, vimos que havia meia dúzia de jovens locais à volta de uma pequena fogueira. Sem que nos tenham visto, escondemo-nos num terreno próximo e, pacientemente, esperámos que o grupo dispersasse e recolhesse às suas residências. Assim aconteceu. Quando se afastaram o suficiente para não darem pela nossa presença, passámos à ação. Acompanhado por dois ou três companheiros subimos a escadaria exterior que nos levava até ao sino e atámos o cordel ao badalo. Depois foi só desenrolar o cordel até passar o muro do quintal mais próximo onde tinha ficado o resto da equipa escondida no meio do centeio. Antes de regressarmos ao grupo, um de nós deu uma valente “carreirinha” do género “tocar a rebate” e depois, de forma mais espaçada e com adequada cadência, o sino tilintava o dlim-dlão cada vez que o cordel era puxado.
Aconteceu aquilo que prevíramos…
Os jovens residentes que momentos antes tinham estado à volta da fogueira começaram a regressar à capela, assim como outros residentes, para tentar perceber o que se estava a passar.
Dizia uma das raparigas: “ Isto é o diabo! Então o sino toca sozinho, é o diabo!”
Imaginam o gozo que esta cena nos deu.
Quando os pasmados moradores se aproximaram o suficiente, nós, os diabretes, largámos o cordel e fugimos para não sermos reconhecidos.           
 Manuel Silva Gonçalves

sexta-feira, 3 de maio de 2013

estórias da Terra- Júlio Antunes Pissarra

Três horas... sentados à mesa
 Durante aqueles maravilhosos anos 80 o Fim-de-semana de Agosto era preenchido a percorrer todas as Festas da região e com Matinés e Soirés na Discoteca de Pêga. Um determinado Domingo o Vitinho, o Zé e o Víctor, depois de passarem a tarde na “Night&Day”, palmearam as Festas que por ali existiam. A última a ser visitada foi a de Pêga. Chegaram a esta Aldeia por volta das 22:30 horas. O dia tinha sido “cansativo”. Alegre convívio, muita brincadeira, alguma cerveja, mas comer, nada! A última refeição tinha sido o almoço. Como o dinheiro já escasseava os três amigos viviam na esperança de que alguém os convidasse para comer/beber algo que é comum, nos dias de Festa, em algumas Aldeias da nossa região. Mas esse convite não aparecia, o que os estava a deixar preocupados. Então o Vitinho, “envergonhado” como é, descobriu alguém que lhes podia resolver o problema. É assim que se dirige a um rapaz emigrante em França, que por acaso tem família na nossa freguesia, e lhe pergunta:
- Então pá?! Tens Festa na terra e não ofereces um “copo” em casa?!
A referida pessoa, querendo ser simpática, acedeu à proposta.
- “Há oui!” Sim…, ainda é cedo…, “s`etu queres”…, o baile ainda não começou…! … podemos “lá`ir” beber umas “bières”!
Mas a “malta” de Vila Mendo estava “cheia” de cerveja! O que ela queria, mesmo, era comer!!! Então, novamente, o Vitinho assumiu as rédeas da situação.
- Não há por aí nada que se coma? – perguntou.
- Sim! “Bá`oui”! Claro! – respondeu o anfitrião.
O Vitinho não esteve com “meias-medidas”, levantou-se e dirigiu-se ao frigorífico onde encontrou carnes frias, bolos, sobremesas, enfim, de tudo um pouco o que é normal existir nos dias de Festa na Aldeia. Desde esse momento os três amigos de Vila Mendo não quiseram mais conversa! O tempo passava, passava, o dono da casa estava cada vez mais desesperado (mais à frente veremos porquê), olhava impacientemente para o relógio, mas os “mosqueteiros” da nossa Terra não arredavam pé.
- Já “s`ouve” o “Cunjunto”! O Baile “já`stá à`ndar” e deve “d`haver” “beaucoup” de pessoas! – afirmava.
- Já vamos! Temos tempo! Senta-te e come connosco! – respondeu um dos “nossos”.
Uma da manhã, uma e meia, mas nada! Ninguém se levantava. O anfitrião, sem saber o que fazer, tentava, subtilmente, que os “ilustres” convidados terminassem a refeição mas, estes, não estavam pelos ajustes. Só passadas as 2:00 horas, e já convenientemente saciados, o grupo de Vila Mendo terminou o Banquete!!!
Quando os quatro chegaram ao recinto do Baile já este estava praticamente concluído. Aí, quem ofertou o Jantar, mais incomodado ficou, já que a pessoa que o esperava já não se encontrava no lugar combinado e já partira para a Discoteca! Enquanto isso, os três amigos, lá foram concluir a noite numa outra Festa!
Nesses tempos eu, meu Pai e minha Mãe, no Domingo e/ou Segunda-feira da Festa de Pêga, almoçava-mos sempre na casa que, meus tios [David e Clara], possuíam na referida aldeia. Nessa Segunda-feira quando lá cheguei, minha prima Paula, logo me informou do sucedido na noite anterior com os nossos amigos de Vila Mendo. A pessoa, que no Baile esperava o anfitrião, era minha prima Paula!!! Foi ela quem em primeira mão me descreveu o que tinha acontecido! Quando ela, já na Discoteca, ouviu, do amigo, o relato do porquê de tanto atraso, exclamou:
- Tinham que ser os de Vila Mendo! Tu não os conheces?! Não sabes como eles são?!
- “Oui!” mas…, …nunca pensei que estivessem TRÊS HORAS a comer!!! De Vila Mendo NUNCA mais convido ninguém para lá ir a casa!!!
P.S. – Os pormenores desta estória foram-me relatados pela minha prima Paula e pelos Três protagonistas principais.
                                                                       Júlio Antunes Pissarra


sexta-feira, 12 de abril de 2013

estórias da Terra- Júlio Antunes Pissarra


As Calças.
Era um, quente, final de tarde de Agosto dos saudosos anos 80. Terminado mais um árduo dia de trabalho a “malta” de Vila Mendo juntou-se aos “tanques” para uma alegre cavaqueira, saciar a sede e aliviar o calor, com a refrescante água do nosso Chafariz. Nesses tempos quer fosse fim-de-semana ou meio da semana, praticamente todas as noites concluíam na Discoteca da moda [“Night and Day”- Alto de Pêga].
Quem vai, quem não vai…! Eu, o meu Amigo e Primo Zé Gonçalves e o meu Amigo (agora também Primo) Víctor Soares decidimos ir! Depois de jantar, e chegada “a” hora, aí vamos nós para a “noite”! A viagem realizou-se numa carrinha de transporte de gado que pertencia ao meu Tio José Marques (pai do Zé). Chegados à Porta, da Discoteca, deparámo-nos com um problema:
- Zé, o teu primo vem de Calções, não pode entrar! – disse o Porteiro.
- Então porquê? – questionou o Zé.
- São regras da Casa! - respondeu o funcionário.
- Mas já vi aí dentro várias Mulheres de Calções! – disse eu.
- Mas com as mulheres é diferente!!! – exclamou o Porteiro.
- Esta é boa! Vimos de Vila Mendo, chegamos aqui, e não entramos?! – respondeu o Víctor.
Depois de duras negociações nem com a grande influencia que o Zé detinha, nesta Discoteca, conseguimos entrar. Então para não prejudicar os meus amigos sentenciei:
- Entrai vós, eu vou para a Carrinha dormir!
Aí o Zé foi perentório:
- Não, ou entramos todos ou nenhum!
- Vamos embora! Não estamos aqui a fazer nada! – disse o Víctor.
Aquilo que se ia tornar numa alegre noite estava-se a transformar num pesadelo. Na curta viagem para a Carrinha os três amigos mostravam a sua indignação e surpresa pelo sucedido. Mas será que tudo estava perdido…?
Quando entrávamos para o nosso meio de transporte, o Víctor disse:
- Zé, por vezes os teus irmãos trazem umas Calças, suplentes, para carregar e descarregar o gado. Vê lá se há por aí algumas!
Depois de breve busca, o Zé, carregado de felicidade, exclamou:
- Olha aqui uma Calças!!! Há! Há!
…e bonitas que elas eram!!! Cor bege, feitas de Fazenda da primeira qualidade, vincadas e com umas elegantes pregas! Mas o desejado objeto de roupa não tinha, nesse dia, as condições mínimas para entrar no referido espaço noturno. Estava completamente amarrotado, cheio de grandes nódoas e abarrotava de sujidade seca (vulgo *M…) inerente ao trabalho que ajudava a desenvolver. Mas era o que havia…!
- Experimenta lá as Calças! – disse o Zé.
Quando as experimentei reparámos que me ficavam demasiado curtas, mas rapidamente solucionámos o problema. Fiz uma espécie de dobra, que dava o efeito de bainha, e assunto resolvido.
- Assim não me deixam entrar! – exclamei.
O Zé respondeu:
- Então não queriam umas Calças? Já as tens vestidas! Vamos embora!
Depois de muitas gargalhadas tocámos à campainha da Discoteca. A porta abre-se e o Zé dirige-se, apontando para mim, ao Porteiro e diz:
- Agora já pode entrar?!
O Porteiro, com um sorriso de espanto perante o cenário que tinha à sua frente, não sobe o que responder. Então o Víctor sentenciou:
- Não querias que o rapaz vestisse umas calças?! Aí as tens!!!
Resignado e espantado, o porteiro, não teve outra alternativa.
– Sim… agora pode entrar… mas…, senta-se lá a um canto. Pode parecer mal!
- Para me sentar a um canto prefiro não entrar! – respondi.
Entrado na Discoteca assumi a postura normal que sempre tinha quando frequentava esse espaço. O Zé logo fez questão de publicitar a situação e, com o seu sorriso matreiro, dirigiu-se às minhas primas Guida e Paula que, também, diariamente frequentavam esta Discoteca:
- Já vistes o vosso primo? – Não – responderam. – Mas porquê?!
- Ide procurá-lo e depois dizei alguma coisa!
As minhas primas quando me encontraram ficaram estupefactas.
- Hhááá!!! – disse a Guida. – A minha alma está parva!!! – exclamou a Paula.
Explicada a situação terminámos todos em enormes gargalhadas. Ao mesmo tempo questionávamos o porquê de não poder aceder, à Discoteca, com uns adequados calções e poder faze-lo com aquelas originais Calças!
Com muita dança e saudável convívio assim decorreu uma das noites mais divertidas da minha juventude! Importa realçar que nunca mais, até hoje, me senti tão observado como nessas “porreiras” horas!

                                                                   Júlio Manuel Antunes Pissarra

sexta-feira, 22 de março de 2013

estórias da Terra- Júlio Antunes Pissarra


As Malaguetas
Entre, sensivelmente, meados das décadas de 50 e 60 o meu avô António Pissarra e minha avó Purificação detinham, em Vila Mendo, um pequeno estabelecimento comercial que se repartia por Mercearia e Taberna. A diversidade de produtos não era muita mas, sempre se encontravam Massa, Açúcar, Arroz, Conservas, Farinhas, Azeite, Pão, entre outras Miudezas. Na Taberna algumas Laranjadas e o Vinho eram reis.
O “gestor” deste espaço era o meu pai (José Pissarra) que repartia a sua atividade profissional entre o referido espaço e a colaboração, com meu avô, nas tarefas agrícolas e do negócio de gado.
O dia de maior clientela era o Domingo. Mas esse facto colidia com a vontade de meu pai acompanhar os seus amigos para um passeio dominical, que regularmente concluía com a visita a algum baile da região, e com a presença do fornecedor de pão. Este Senhor, que semanalmente se deslocava, de Burro, da Malhada Sorda até à nossa Terra, depois de descarregar os alforges fazia questão de beber vários “meios quartilhos” de vinho e antes do anoitecer não iniciava a viagem de regresso para a sua aldeia. Com o sucessivo repetir desta situação, meu pai e alguns amigos (Sr. José Vinhas, Sr. Clementino e Sr. António Vinhas) tiveram que encontrar uma forma deste honesto Moleiro deixar de perturbar as tardes de Domingo.
Depois de muita reflexão a solução foi encontrada!
O Domingo chegou e com ele regressou o Moleiro vindo da Malhada. Desta vez nem foi necessário, o senhor, pedir bebida já que o grupo de amigos fez questão de o obsequiar com uns “copos”. Com o líquido a subir à cabeça o Moleiro começou a dormitar, então meu pai e o Sr. José Vinhas iniciaram a “Operação Malaguetas”!
Enquanto, o Sr. José Vinhas, levantava a cauda do jumento, meu pai utilizando um pau, introduzia-lhe, no ânus, algumas malaguetas!!!
Com certeza a temperatura corporal do animal iniciou uma vertiginosa subida…! Subida essa que provocou uma tremenda reação que se manifestou no pular, urrar, dar coices ou rebolar pelo chão. Com este “chim-frim”, o seu proprietário, acordou. Desesperado com o comportamento do seu companheiro de tantas viagens, o Moleiro, tentava, em vão, consolar o animal. A chorar, “falava” com o animal e pedia-lhe para se acalmar, rezava a todos os Santos existentes e fazia promessas, a Deus, para que o animal não morresse! Volvida hora /hora e meia o sofrimento começou a decrescer e foi então que, já pela caída da noite, os dois companheiros seguiram viagem com destino à Malhada Sorda.
O Moleiro continuou a fornecer de pão, a Taberna, mas depois de contas feitas e de dois ou três “copos” bebidos lá regressava ao seu destino e desde então nunca mais o referido grupo de amigos viu prejudicadas as suas tardes e noites de Domingo.

P.S. Esta Estória foi-me relatada por meu pai (José Marques Pissarra).
                                                                       Júlio Manuel Antunes Pissarra

sexta-feira, 1 de março de 2013

estórias da Terra- Manuel da Silva Gonçalves

Depois da intervenção dos militares na casa da escola, ou casa da professora, após o 25 de Abril de 1974, criámos o Clube da Juventude nesse espaço. Esta experiência foi mal sucedida porque nessa época não se conseguiu reunir as condições e apoios para que o projeto tivesse pernas para andar.
No entanto, passaram-se ali alguns serões agradáveis e recordo, particularmente, mais dois episódios: 
A galinha decepada que caminhava
Recordo-me de uma noite em que, depois de um jogo de “lerpa”, o Adérito para pagar as dívidas foi buscar uma galinha à capoeira dos pais para fazermos uma patuscada. Eu e o Jorge Pereira ficámos com a tarefa de matar a pobre da galinha. Saímos do salão e fomos matá-la num dos terrenos que ladeiam o largo. Segurei-a com as duas mãos, enquanto o Jorge lhe agarrou na cabeça e cortou o pescoço. Para não me sujar com o sangue larguei-a e, para espanto nosso, o animal começou a andar… parecia fugir ao destino. Claro que nós fugimos para o lado contrário e fomos para o salão relatar o insólito acontecimento.
Só a fomos buscar depois de uma grande galhofa e a pobre da galinha acabou por ser cozinhada mas de tão rija, estava verdadeiramente intragável. Devia ser a mais desdentada da capoeira!
Patifaria
Noutra noite, depois do fecho, decidimos colocar todos os carros de bois e carroças que estivessem na via pública virados de lado, isto é com uma das rodas no ar. Para disfarçarmos a autoria da brincadeira nem os dos nossos familiares escaparam.
Na manhã seguinte a pacata aldeia acordou em verdadeiro alvoroço. Só podia ser coisa de gente estranha à aldeia diziam.
A sra. Maria afirmava “os nossos não foram pois até nos colocaram o arado de madeira em cima do portão”; a minha mãe retorquia “ai os meus também não porque os nossos carros também estão virados”.
A estratégia resultou!
Devo acrescentar que fomos cuidadosos e, para além do incómodo, não causámos prejuízo a ninguém.

                                                                             Manuel da Silva Gonçalves

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

estórias da Terra- Manuel da Silva Gonçalves

"O diabo que tocava o sino"
Era tradição no sábado de aleluia tocar-se o sino depois da meia-noite, mais propriamente no domingo de páscoa, até de madrugada ou até que os moradores mais próximos da capela  esgotassem  a paciência e nos solicitassem para pararmos pois precisavam de descansar. Esta é uma manifestação de regozijo para os crentes na ressurreição de Jesus Cristo e é tradição em toda a região beirã.
 Numa dessas noites, depois de termos jogado uma partida de futebol no largo da escola ao luar, pois energia elétrica ainda não havia, resolvemos ir tocar o sino ao Monte Carreto.
Claro que esta ousadia não passava de uma provocaçãozita para com os habitantes daquela aldeia vizinha!
Mas a coisa tinha de ser bem engendrada…
Devíamos ser para uns quinze malandros. Alguém arranjou uns metros de cordel de atar os fardos do feno e pelas duas ou três da manhã aí vamos nós a pé pelos trilhos e caminhos rurais. Quando nos aproximámos da capela da aldeia vizinha, vimos que havia meia dúzia de jovens locais à volta de uma pequena fogueira. Sem que nos tenham visto, escondemo-nos num terreno próximo e, pacientemente, esperámos que o grupo dispersasse e recolhesse às suas residências. Assim aconteceu. Quando se afastaram o suficiente para não darem pela nossa presença, passámos à ação. Acompanhado por dois ou três companheiros subimos a escadaria exterior que nos levava até ao sino e atámos o cordel ao badalo. Depois foi só desenrolar o cordel até passar o muro do quintal mais próximo onde tinha ficado o resto da equipa escondida no meio do centeio. Antes de regressarmos ao grupo, um de nós deu uma valente “carreirinha” do género “tocar a rebate” e depois, de forma mais espaçada e com adequada cadência, o sino tilintava o dlim-dlão cada vez que o cordel era puxado.
Aconteceu aquilo que prevíramos…
Os jovens residentes que momentos antes tinham estado à volta da fogueira começaram a regressar à capela, assim como outros residentes, para tentar perceber o que se estava a passar.
Dizia uma das raparigas:  “ Isto é o diabo! Então o sino toca sozinho, é o diabo!”
Imaginam o gozo que esta cena nos deu.
Quando os pasmados moradores se aproximaram o suficiente, nós, os diabretes, largámos o cordel e fugimos para não sermos reconhecidos.
                                                                              Manuel da Silva Gonçalves

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

estórias da Terra- Júlio Pissarra


        Júlio Pissarra                  Paulo Soares               Zé Gonçalves


A Guita
Nesses tempos Vila Mendo possuía, propriedade da Lurdes e do Filipe Barbeira, um Mini-Mercado.
Era nesse local que eu e o meu amigo Paulo Soares iniciávamos muitas tardes de Verão. Depois do almoço nada melhor, para sobremesa, que um delicioso gelado. Certo dia, enquanto saboreávamos o referido refresco, surge, de carro, o meu primo Zé Gonçalves. Eu e o Paulo fizemos logo sinal para ele parar. Assim fez! Mas logo avisou que “… só ia a casa do Carlos das “Ínsuas” buscar a Guita que ele tinha trazido da Guarda, para ir enfardar feno”. Mesmo assim fizemos questão de ir, mas de seguida, o Zé, sentenciou:
- Hoje não vai haver “Festa!!!”... há muito que fazer..!
Em casa, o Carlos, não estava.
- Deve estar no “Beto” - Disse o Paulo.
Mas não estava.
- De certeza que está no “Boteco” da Quinta de Cima - Disse eu.
- Já sei o que quereis, mas não estais com sorte! …muito que fazer!!! …buscar a Guita e “vou-me b´ora”!!! - exclamou o Zé.
Voltamos a parar no “Beto”, mas só para bebermos mais uma cerveja, visto que do Carlos das “Ínsuas” nem rasto.
- Deve andar para a Estação. - Comentou o Paulo.
Na tasca da “Mariazinha”, nada!
- Sr. Costa, esteve aqui o Carlos das “Ínsuas”? - Não! - Respondeu.
No “Zeca Lucas” ninguém o tinha visto. Quem sabe no café do Sr. Carlos Alberto?! Mas também não se encontrava.
- Onde andará o Carlos? E logo hoje que preciso tanto da Guita! – exclamou, desanimado, o Zé…
No fundo, este Roteiro, apenas estava a servir para se saborearem umas frescas “Minis”! Mas como a esperança é a última a perder …
De repente o Paulo dá com a solução.
- Já sei onde está!
- Onde?! - Questionámos eu e o Zé.
- Está no Albardo. É lá Festa!Na viagem par o Albardo o Zé foi peremptório ao afirmar que se não encontrassemos o Carlos regressaríamos a Vila Mendo ou então deixar-nos-ia, a mim e ao Paulo, em Vila Fernando. Mas do Carlos nem sinal. Quanto mais da Guita..! Bebidas mais algumas cervejas o Zé avisou:
- Bebemos mais uma e “vaz´ebora”! Tenho muito que fazer!!! Tal…! … ver do Carlos “da Quinta”… tem lá a Guita… Tal..! … enfardar o Feno…
Quando saíamos desta localidade encontrámos os Mordomos da Festa munidos de alguns foguetes.
- “Oh amigo” posso deitar um foguete? - Perguntou o Zé.
- Claro que sim. - Respondeu o Mordomo.
Depois de deitar o foguete e já resignado, o Zé, vira-se para os dois amigos e diz:
- “Quereis Festa. Não é?! Já não enfardo o feno, hoje não faço mais nada, mas já estais *Lixados comigo!!!
Mais uma ronda por todos os Cafés da nossa Freguesia, mas só para beber cerveja, porque pelo Carlos já nem perguntávamos…
Com a tarde a avançar, a fome começou a chegar. Então, eu e o Paulo, começámos a pedir ao Zé para regressarmos a Vila Mendo. Mas o Zé não esteve pelos ajustes.
- Até aqui andei ao vosso mando, agora quem manda sou eu. Vamos ao “Beto”!
Aí “estacionámos” e muito tarde de lá saímos. Bem suplicávamos, ao Zé, para irmos comer. Mas o Zé respondia:
- Agora aguentais! Beto, põe aí mais umas “Minis”!!!
O que nos salvou foi o facto do Sr. António Pires ter oferecido um queijo para o pessoal petiscar. Foi como uma dádiva de Deus! Vá lá, ainda serviu para “enganar” o estômago… Nessa altura, até, já o Carlos das “Ínsuas” confraternizava connosco…!
Entretanto a minha Tia Lídia, mãe do Zé, ligava regularmente para o café do Beto e perguntava pelo filho. O meu primo fazia então sinal, ao Beto, para ele dizer que já tinhamos saído… Mas como as chamadas não paravam o Zé teve que atender.
- Mãezinha, mãezinha do coração! Vou já, vou já! - Exclamava o Zé.
Já ultrapassadas as 22h regressámos, finalmente, a Vila Mendo!
No Largo da Amoreira um grupo de Senhoras esperava pelo nosso regresso. A expressão facial da minha Avó Purificação, da Tia Lídia e da Sra. Lurdes mostrava a preocupação e mal-estar que sentiam.
- Louvado seja Deus! – Disseram em uníssono a Avó Purificação e a Tia Lídia.
- Andai cá que já levais!!! - Sentenciou a Sra. Lurdes.
- Fala tu com elas. - Disse o Paulo.
Então o Zé sai do “Golf” e numa atitude de quem dá uma ordem e quer vê-la imediatamente cumprida esclarece:
- Vá! Vá! Pouco barulho! Pouco barulho! As três já para casa e caladas! Porque se não voltamos já atrás!
Resignadas e menos preocupadas, as três ilustres Senhoras, lá regressaram a casa. Então eu, o Paulo e o Zé fomos “deitar de comer ao gado” do Zé, que já desesperava por uma retemperadora refeição…
E assim conclui a estória de uma tarde de Agosto que, ainda hoje, os seus protagonistas recordam com humor e alguma nostalgia.
Ah! Já me esquecia! A muito procurada e desejada Guita nunca chegou a Vila Mendo!!!
O Feno?! Bem… o Feno… apenas foi enfardado passado dois meses!!!
Abraço e até à próxima Estória da minha amada Vila Mendo!



sexta-feira, 9 de novembro de 2012

estórias da Terra- Telmo Conde

Estórias de Vila Mendo...quem as não tem?!.
Por motivos de idade, o relato que vos trago, não é por certo muito longínquo...contudo fez parte da minha infância e contribuiu de forma determinante na minha formação enquanto homem!
Desde tenra idade que uma ida a Vila Mendo é motivo de alegria. Convívio e boa disposição são ingredientes que facilmente encontramos quando vamos até lá!
Normalmente de bicicleta, do largo ao chafariz passando na vacaria do Zé até ao Regato, assim se passavam os dias de recreio.
Tiago, Filipe, Élio estavam sempre preparados para uns momentos de diversão. Embora com alguma diferença de idade, a interação era perfeita.
O Filipe, normalmente, durante a tarde ausentava-se para ajudar o pai (Sr. Ismael) nas lides da quinta, mas ao final da tarde lá chegava ele de bicicleta vindo da rua de cima, onde eu ansiosamente o esperava junto aos tanques.
Ao início da noite o ponto de encontro dos mais velhos era junto ao chafariz; então lá íamos nós, a medo, rondar a zona, ouvir conversas e piropos que na altura de verão eram "lançados" às meninas que estavam ali de férias... Neste domínio, o Carlos e Paulo eram os líderes, ao que nós achávamos muita piada.
Não podíamos permanecer muito tempo... os "avisos" para a "canalha" eram uma constante!
A par disto íamos ver o Zé, que trabalhava sempre até mais tarde! Numa dessas visitas, com uma bicicleta avariada, eu e o Filipe resolvemos ir no mesmo veículo a pedais!!! Tudo rolava sobre rodas, quando à chegada, numa zona de salto, sobejamente conhecida por nós, o voo não foi bem calculado e a aterragem resultou em queda livre...para o chão claro!!!
Entre os arranhões e o pó, saiu também uma característica gargalhada do Zé ao jeito de "quem não sabe não faz"!
Mazelas nenhumas, vamos mas é treinar para que para a próxima saia melhor!
Havia também uma atividade que só fazia em Vila Mendo que era "conduzir" o trator...algo que a minha avó "abominava" completamente, mas que o meu avô, como sempre, consentia numa perspetiva de me dizer sempre "com o volante não se brinca"...
Passaram vinte e muitos anos, o gosto por Vila Mendo não se mantém... aumenta!.. Assim vai por certo continuar, de geração em geração...
Numa oportunidade futura poderei contribuir com mais estórias e histórias vividas na bucólica localidade Vila Mendo.
                             Telmo Conde

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

estórias da Terra- Pereira

Há muitos, muitos anos!..
Quem se lembra de ter aprendido a nadar no rio Noéme?!.
Haverá alguém que tenha aprendido noutro local? Talvez não. Não antes de 1976, mais ou menos!
Era nesse rio que os jovens (meninos!) de Vila Mendo, aprendiam a nadar, e era fácil aprender, porque os mais velhos ensinavam (ou obrigavam) os mais novos a cobrir-se de água pois, assim que se apercebiam da presença destes, iam logo guardar-lhes a roupa... Assim sendo os mais novos tinham que se juntar aos “monitores”, pois não queriam ir em pelota (nus) para casa, pois na altura era assim que se nadava (calções de banho não havia e as cuecas tinham que estar junto do resto da roupa para que quando terminasse o banho não irem molhadas!!!).
Não era fácil para alguns, principalmente aqueles que nadavam em locais onde a água chegava pouco mais do que ao umbigo, pois tinham que ir mergulhar no local onde os mais velhos já faziam voos do alto dos amieiros em locais muito profundos. O local mais conhecido era o "barroco", porque justamente havia lá um barroco e era dali que se saltava normalmente para o rio; para aqueles que não saltavam, não havia problema: os mais velhos encarregavam-se deles pegando-os pelas pernas e braços e encaminhando-os para o local certo!!!
Vou contar uma, duas, das muitas estórias passadas no rio Noéme. Quando íamos nadar, quase sempre, também pescávamos, ou melhor apanhávamos peixes. Foi num desses momentos que, no final do banho, começámos a apanhar peixes entre as raízes dos amieiros e foi aí que eu pensei ter agarrado o maior peixe do rio… como era grande apertei-o bem com a mão, para que este não escapasse, só que quando tirei a mão da água, vi (ou quase não vi) uma cobra de água e, talvez por instinto, fi-la voar uns bons metros… Foi assim a minha última apanha de peixes entre as raízes dos amieiros!..
Pescava-se de toda a maneira, era assim nessa altura. Um belo dia até com dinamite fomos pescar!.. Aí sim os peixes voavam nas alturas, e que alturas… e não só os peixes; nesse dia voou a minha bicicleta e a ponte de madeira, uma ponte que dava acesso para Vila Garcia. Os peixes voaram tanto que não mais os vimos, até porque nós não mais olhámos para trás... fo**** !!!
Outras estórias do rio e não só ficam para uma próxima!
Oh rio que tanto nos deste
Quando voltarás?
Amigos sempre tiveste
A morte penso que não merecerás…
                                                                           Pereira

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

estórias da Terra

Falar de histórias e estórias da nossa terra, não é nada de extraordinariamente difícil. Existem pessoas em que a sua vida dava um bom livro. É o caso do Sr. Raúl, chamado de “Casona”. No alto dos seus setenta e cinco anos (se não me engano) tem um reportório de estórias que só visto (um dia havemos de escrever vários capítulos sobre ele). Por agora, só vos damos uma amostra pequena das inúmeras vivências que poderíamos contar acerca de tal personalidade. O Sr. Raúl é um homem relativamente bem constituído com cabelos já brancos, escondidos na boina que o acompanha desde sempre; barba de sete/oito dias meia arruivada, cajado na mão; cigarro na boca, arma no bolso: “a gente por lá, nunca sabe o que pode encontrar, pá!..” De há uns bons anos a esta parte é pastor: Chegou a ter mais de cem; hoje terá cinquenta; daqui a uns tempos não mais de dez: “já tou a ficar velho pá, quem cá fique que trabalhe” diz ele num tom e numa postura improváveis de recriar em palavras. Com uma história sempre pronta para contar, com uma estória indelevelmente incrível para nos surpreender, num jeito que de si nos coloca imediatamente sintonizados empaticamente com ele: se calhar pá…” (apostamos que quem o conhece está neste momento a visualizar o gesto subsequente a esta frase enigmática e a esboçar um sorriso). Contamos agora um episódio… só para vos aguçar a curiosidade!
O Sr. Raúl, casado com a Sra. Ester, vai, como é normal, para os terrenos dele tratar dos afazeres agrícolas. Numa dessas idas aconteceu algo atípico: “queres ver pá, íamos para as Lugueirinhas (lugar em Vila Mendo; pensamos ser este o sítio para onde se dirigiam) no carro do burro e ela sempre a bater no burro. Sabes, ia com a pressa, como sempre… aquela parece que tem fogo no rabo, num pára, sempre a trabalhar; eu se fosse da ideia dela pá, já tínhamos volto Vila Mendo ao contrário, eu que não tou p´ra isso… se calhar pá… Oh pá, eu já tava a ver o caso mal parado e pensei- o Raúl tem de descer do carro. Cheguei-me ao pé dela e disse-lhe- Ouve lá, pára aí o carro que eu preciso de ir urinar, tu vai andando que eu já lá vou ter. Oh pá... o burro parecia um tiro por o caminho afóra. Nem de propósito, na curva a seguir o carro do burro passou por uma pedra e com a velocidade que ia virou-se. Quando lá cheguei, lá tava a Ester tombada debaixo do carro do burro; Cheguei-me ao pé dela e perguntei-lhe- Ouve lá pá, magoaste-te?- Não- Então foi-te bem feita!..”
Conta isto bebendo de lampejo um trago de vinho e enquanto acende mais um cigarro, de enrolar... na boca, o cigarro, percorre-a incessantemente deixando-o todo molhado, consumindo-se praticamente sozinho e as piriscas… as piriscas, senhor, vão, invariavelmente, parar ao chão. Toda a postura, toda a entoação das palavras, diríamos mesmo todo ritual que configura todo o contar das suas “aventuras”... são manifestamente impossíveis de descrever, contudo vamos contar mais uma… ou se calhar não… fica para a próxima “estória da Terra”!