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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Figuras da Terra- por António Pereira

Maria da Paixão
Maria da Paixão, uma mulher de Vila Mendo pois foi ali nascida e criada e ali viveu até à morte. Era filha de mãe solteira, morava na rua da Rua do Cantinho, numa humilde casa (se é que assim se podia chamar). Era uma casinha com apenas uma divisão e que fazia de quarto, cozinha e não só! Junto a esta, tinha uma outra ainda mais pequena que servia para guardar as cabrinhas, que normalmente eram 3. Dizia ela que não tinha mais porque mais já não cabiam nessa dita casa.
Era uma mulher só (eu conheci-a sempre a viver sozinha), era e foi sempre solteira. Houve uma certa altura que chegou a gostar de alguém (dizia ela), e esse alguém era o Manuel Damião de alcunha pavão (criado do Sr. Manuel Domingos). E digo que chegou a gostar de alguém por culpa daqueles que lhe queriam arranjar casamento e que lhe diziam que o pavão era uma bom partido para ela!!! Havia porém momentos que se lhe ouvia que gostava dele, só que bastava haver um malandreco ou malandreca dizer-lhe que o tal Pavão a tinha chamado rasteira (alcunha porque era conhecida talvez por ser pequena!), para ela se exaltar logo, ao ponto de correr em direção a nós com intuito de nos bater… a nossa alternativa era fugir!!!
Como mencionei atrás, ela tinha sempre 3 cabrinhas as quais tratava com muito carinho e até as chamava pelos nomes. Partilhava com elas alguns dos seus alimentos, como por exemplo pão, que a maior parte das vezes lhe era dado pelas pessoas da aldeia. Ao sair com as cabrinhas para o campo levava sempre consigo, nos enormes bolsos do avental, um pedaço de pão e claro está que as cabrinhas estavam tão habituadas a esses mimos que, pela rua fora, iam sempre junto dela e de vez em quando lá lhe iam aos bolsos!!! Por vezes as pessoas diziam-lhe : - Oh Sra. Maria, então dão-lhe pão para dar às cabrinhas ?!! -ao que ela respondia : - Elas não se calam! - e era realmente verdade… enquanto lhe não desse um pouco de pão as cabrinhas não paravam de berrar!
Eram cabrinhas muito medrosas, dizia ela, ao ponto de em dias de mau tempo, como em dia de trovoadas, as levar para dentro da sua casinha onde ela morava… Mais uma vez as pessoas a questionavam : - Porque mete as cabrinhas em casa ? - ao que ela respondia : - Coitadinhas, estavam cheias de medo, não se calavam!!! Nessas noites a pobre mulher nem dormia porque, dizia ela, que as cabrinhas lhe subiam para a cama, tal era o medo que tinham das trovoadas.
Coabitavam também na sua casinha, dois ou três gatinhos, quando não eram mais, e, como não podia deixar de ser, tratava-os com muito carinho. Sempre que algum dia não visse um deles a pobre mulher lá vinha para a rua a chorar e a dizer : - Não sei da minha gatinha. - e era pior, referia ela, quando andavam aos gatos: - Ontem andava lá um gato grande atrás dela e de certeza que deu cabo dela!- ao que nós (malandrecos) aproveitávamos para lhe dizer que sim, que poderia ter sido, ao que ela ainda mais chorava!
Um dia desapareceu-lhe uma gatinha, a mais bonita dizia ela, deu voltas e voltas por todo o lado no sentido de a encontar, e só parou de a procurar quando finalmente a encontrou, passados 2 dias! -Onde estava a gatinha? - Perguntámos-lhe. - Estava na arca! ( uma pequena arca de madeira, talvez uma arca onde guardava a roupa). A arca tinha-se fechado, não se sabe como, e a gatinha esteve lá 2 dias fechada. O pior é que quando a encontrou e ao abrir a dita arca, a gatinha, assustada , agarrou-se-lhe à mão e à cara tendo-a deixado em miserável estado! Mas nem por isso ela deixou de gostar da gatinha… dizia que lhe perdoava, que lhe tinha feito aquilo porque estava assustada!
Mas voltando a falar no amor dela com o Manuel Pavão, com o qual nunca chegou a casar pois entre eles havia sempre uma guerra quando se encontravam, devido ao facto de alguns dos tais malandrecos dizerem à Paixão que o Pavão a tinha chamado rasteira, e ao Manuel Damião lhe dizerem que ela o havia chamado pavão!.. aí começava a guerra entre eles (guerra de palavras, claro), e talvez por isto, ou talvez não, nunca conseguimos juntar, muito menos casar, o PAVÃO com a PAIXÃO ! Para muitos foi uma grande desilusão, ou talvez não!!!
                                                                       António Pereira Gomes

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Figuras da Terra- por Manuel Silva

O admirável contador de estórias- parte III
Nas noites de verão, as varandas e os quinze degraus de acesso das duas casas transformavam-se num improvisado anfiteatro invertido, pejado de crianças e adultos. O nosso contador de estórias, de pé, com os antebraços apoiados na resguarda que separa as duas varandas, divisória constituída por um monobloco granítico, dominava as atenções e quando expressamente solicitado ou por sua iniciativa dizia, qual pancada de Molière - “É cmó oto”1. A expressão mágica tinha um efeito arrasador, todos nós nos transformávamos em espetadores atentos e silenciosos para ouvir a estória que, inevitavelmente, se seguia.
No final de cada estória comentava-se a mesma e salientavam-se as lições de moral. Tratava-se, portanto, de um verdadeiro “momento do conto” onde o narrador assumia convicta e pedagogicamente a arte da comunicação.
Eis algumas das estórias que o compadre contava mais frequentemente, sem a reprodução fiel da forma como eram narradas mas, depois das expressões acima referidas, o leitor pode imaginar quão maravilhoso e interessante era ouvi-lo.

1.     A mentira grande como o Credo
Uma viúva vivia numa quinta de renda com os seus três filhos: um padre, um doutor e um pastor.
Um dia foi falar com o senhorio e disse-lhe que não tinha dinheiro para pagar a renda.
O senhorio fez-lhe a seguinte proposta:
- Se um dos teus filhos me trouxer uma mentira tão grande como o Credo, eu perdoo-te a renda.
A pobre viúva chegou a casa e relatou aos filhos a proposta que o proprietário da quinta lhe fez. Quer o padre, quer o doutor, não mostraram ser capazes de engendrar tão grande mentira mas o filho pastor aceitou o desafio.
- Fica descansada, mãe, que eu vou falar como senhorio!
No dia seguinte o filho pastor dirigiu-se à casa do senhorio que também era seu padrinho. Ao chegar junto do senhorio disse-lhe:
- Toquei o sino com um badalo de lã e ouvia-se por 10Km de terra chã. Depois fui ao rio colhi agrões (agriões?), vendi agrões e até ao padrinho lhe vendi um cabaz.
Mas isso é uma grande mentira – respondeu o senhorio.
- Então, meu padrinho, minha mentira aprovada, renda da quinta perdoada.

2.      O pintassilgo e o cuco
No tempo em que os animais falavam, um pintassilgo estava a cantar às portas do céu e Nossa Senhora gostou tanto do seu canto que deu instruções ao S. Pedro para que lhe desse tudo de bom para o passarinho comer.
O pintassilgo saiu do céu, todo contente, a cantar e encontrou um cuco.
O cuco perguntou-lhe o porquê daquela alegria toda e o pintassilgo relatou-lhe então a forma com foi tratado no céu.
O cuco foi, também, pôr-se a cantar às portas do céu …
Quando regressou, vinha a chorar e encontrou-se com o pintassilgo, este perguntou-lhe o que tinha acontecido.
O pobre do cuco respondeu-lhe que tinha levado com uma moca e que não lhe tinham dado comida.
Então o pintassilgo perguntou-lhe como tinha cantado.
- Eu cantei cu-cu - respondeu o cuco.
- Ai cantaste com o cu, então cantasses com o bico – disse-lhe o pintassilgo.

3.      O Zé Miséria (ou “De galhoto em galhoto”, como nós pedíamos)
O Zé Miséria foi para o Brasil e deixou cá os pais, um irmão e uma irmã.
No Brasil não lhe correu a vida bem e regressou. Quando chegou a casa dos pais encontrou o irmão a cozer feijões e a comê-los.
- Que estás fazendo, pá?
- Comendo os de cima e esperando os debaixo.
- Então e a nossa irmã?
- Está chorando o riso do ano passado.
- Então e os nossos pais?
- O pai viu um mealheiro no cimo de um castanheiro, subiu lá e caiu de galhoto em galhoto, chegou ao chão e espatifou-se.
- E a nossa mãe?
- A nossa mãe com tudo isto foi-se… Fizemos-lhe um funeral tão lindo que a saia tinha trinta cores.
- Ui! Isso foi uma riqueza!

Compreensão da estória:
O irmão estava a comer os feijões crus à espera que viessem os do fundo já cozidos.
Quanto à irmã, ela namorava um rapaz e ele arranjou-lhe um filho e agora passa miséria porque tem que trabalhar para se governar a ela e ao filho.
O pai com a queda que deu do castanheiro morreu.
Relativamente ao funeral da mãe, a saia tinha trinta cores que correspondiam aos trinta remendos.

O diálogo entre os irmãos continuava:
- Ah, mas ainda existe o mealheiro. Tinha muito dinheiro – perguntava o brasileiro.
- Olha, eram dois ouriços com castanhas podres.
Concluiu o brasileiro, o Zé Miséria:
- Puta que pariu Portugal, se no Brasil há miséria…aqui há muita mais.

N.B.
1. Ao terminar este “folhetim” sobre uma das figuras vilamendenses que recordo com mais saudade e que tentei reportar o mais fidedigna possível a forma singular como o contador de estórias transmitia o seu enorme manancial de saberes.
Quis, também, homenagear e deixar publicamente o meu apreço por este homem que, apesar das dificuldades em se expressar, era capaz de maravilhar crianças, jovens e adultos com as suas estórias.
Um verdadeiro autodidata, este admirável contador de estórias. 
Obrigado, “compadre” José Bragança!
2. Agradeço a todos aqueles que contribuíram para o meu avivar de memória, particularmente à minha mãe.

                                                    Manuel da Silva Gonçalves
41- É como o outro

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Figuras da Terra- por Manuel Silva

 Zé Bragança- O admirável contador de estórias- parte II
O “meu” compadre tinha um problema de dicção e quando falava trocava o r intervocálico ou mesmo sendo dobrado pelo d, e quando o r é precedido ou seguido de uma consoante pura e simplesmente era omitido; com o s/ç a pronúncia assemelhava-se ao anglo-saxão th. Esta particularidade aliada a uma capacidade de descrição e de interação das diferentes personagens da mesma estória ou até de estórias diferentes davam-lhe uma graciosidade nas suas narrativas que, reconhecidamente, faziam dele um admirável contador de estórias.
Para mais fácil compreensão de algumas palavras e expressões que utilizava, aconselha-se a leitura da legenda em rodapé.
Alguns exemplos mais conhecidos:
Ex.1 - “O cavalho1 da badoca2 deita quato3 futos4 pude5 ano: bugalha(th)s6, bugalhinho(th)s7, bolota(th)s8 e maç(th)ã(th)s9 cuca(th)s10.
 Ex.2  Numa situação em que a burra teimava em não sair da loja, gritava ele:
- Buda1112 foda! 13 Buda pá foda!
 Ex.3 Noutra ocasião a pobre da burra caiu numa vala num terreno designado de barroca e então ele solicitava à esposa que gritasse por socorro:
- Guita14, Istminda15, guita! A budanca16 caiu na dibanceida17 da badoca18!
A esposa não o compreendeu e perguntou-lhe se era a tamanca. Ele retorquiu já irritado:
- Não cadalho19, foi a budanca que caiu na dibanceida da badoca! Guita! Guita!
 Ex.4 Num jantar de casamento em que os comensais não ficaram saciados alguém, ironicamente, fez uma rima (rima que se generalizou para todas as situações em que a refeição fosse demasiado frugal). Eis o diálogo entre dois convivas:
- Estou que nem poss(th)o20 - afirmava um. E o outro retorquia:
- Dêmo(th)s21 gaças22 e louvode(th)s23
As no(th)as24 badigas25 e(th)stão26 que nem un(th)s27 tambode(th)s.28
Se  mai(th)s29 não comemo(th)s30
Foi poque31 mai(th)s não no(th)s32 dedam33 noss(th)os34 amo(th)s35
O(th)xalá36 um dia ele(th)s37 fiquem como nó(th)s38 agoda 39 es(th)tamo(th)s 40
 Os pátios da casa dos “compadres” e da casa dos meus avós confundiam-se porque não havia nenhum muro a separá-los e, coisa rara na aldeia, no que concerne à habitação dos meus familiares não havia qualquer muro a separá-lo da rua principal que atravessa a povoação. Esta circunstância retirava a privacidade aos proprietários e, naturalmente, convidava o acesso direto a todos aqueles que quisessem juntar-se numa agradável cavaqueira, especialmente nas noites estivais.
                   
                     Manuel Silva Gonçalves                     Continua...
      
1-carvalho;  2-barroca; 3-quatro; 4-frutos; 5- por; 6-bugalhas; 7-bugalhinhos; 8-bolotas; 9-maçãs; 10-cucas; 11-burra; 12-para; 13-fora; 14-grita; 15-Estamarinda; 16- burranca; 17-ribanceira; 18-barroca; 19-caralho; 20-posso; 21-dêmos; 22- graças; 23-louvores; 24-nossas; 25-barrigas; 26-estão; 27-uns; 28-tambores; 29-mais; 30-comemos; 31-porque; 32-nos; 33-deram; 34-nossos; 35-amos; 36-oxalá; 37-eles ; 38-nós; 39-agora; 40-estamos

                                                                                                          

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Figuras da Terra- por Manuel Silva

Zé Bragança- O admirável contador de estórias-  Parte I 
O pai prolongou o serviço militar durante nove anos, devido aos sucessivos castigos a que foi sujeito. Foi enviado para a India e de lá regressou sem fortuna, com uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, com a saúde debilitada e aos trinta e poucos anos faleceu deixando o humilde agregado familiar composto pela viúva, duas filhas e um menino que face à situação de pobreza da família, cedo se tornou homem. Como diria Soeiro Pereira Gomes, o nosso personagem trata-se, pois, de um “Homem que nunca foi Menino”.
Gastou a vida a trabalhar para outrem, para sustentar a família. Aos doze anos carregava às costas sacas de batatas de cinco e seis arrobas dos armazéns do “ Chico” Lucas para a gare da estação de Vila Fernando. A enxada foi a ferramenta inseparável do nascer ao pôr do sol, no cultivo das vinhas e hortas das famílias abastadas de Vila Fernando e também nos terrenos que possuía nas regadinhas, na horta da peça, na balsa,... Mais tarde, tornou-se num dos principais obreiros da construção dos muros que suportam os socalcos dessa obra ”faraónica”, a quinta do dr. Crespo. 
Os cinco filhos rumaram para França, onde mais tarde se radicaram com as respetivas famílias, com a exceção do Horácio que por lá faleceu, prematuramente, num acidente de trabalho. A velhice passou-a com a sua inseparável companheira, a sua Istminda. Ambos eram analfabetos e quando recebiam correspondência a comadre aparecia na casa dos meus pais, de lágrima nos olhos, para saber as notícias dos ”nossos”, vocábulo que utilizava em relação aos filhos.
Tive o privilégio de com ele conviver quando as marcas da árdua e longa vida já se faziam notar porque vivia paredes meias com a casa dos meus avós. As matanças eram partilhadas, assim como os longos serões de inverno passados muitas vezes a jogar o jogo da sueca de que ele tanto gostava. E quando a coisa não corria a contento lá saía a expressão “O vi-delas ganhou ao (th)sabias.”
Os meus pais apadrinharam o casamento do filho mais novo, o José, e, por isso, tratavam-se por compadres; eu e os meus irmãos adotámos, carinhosamente, esse mesmo tratamento “compadres”. 
O compadre era homem de baixa estatura como a maioria dos seus contemporâneos e, por força do trabalho braçal, tinha os membros superiores bem desenvolvidos parecendo dar razão à teoria da evolução das espécies de Charles Darwin. A este propósito vem-me à memória a expressão do ti António Dias: – Que mãos tão grandes para um corpo tão pequeno! Os membros inferiores, já trôpego, arrastavam-se dentro das botas invariavelmente desapertadas. Dizem que, quando novo, era extremamente veloz e ganhava uma corrida a qualquer um, mesmo com uma saca às costas e os tamancos desapertados.

                          Manuel Silva Gonçalves                                     Continua...

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Figuras da Terra- Michel

Michel, mon Ami!           
- Michel Capelo de seu nome;
- Natural das Quintas de São Bartolomeu, afirma a “pés juntos” que é de… Vila Mendo!;
- Nasceu a 19 de Agosto. O ano?! Não interessa. O Michel é… INTEMPORAL e IMORTAL!!!;
- Residências: Rue Paul Bert, nº 21 – 94500-Champigny Sur Marne (França) e Rua do Cantinho – Vila Mendo;
- 1983 foi o ano em que, pela primeira vez, pisou o Solo Sagrado de Vila Mendo;
- Casado com Isabel de quem tem três filhas (Sevrine, Melanie e Laura);
- Companheiro;
- Simpático;
- Brincalhão;
- É um “Gandilho”;
- Só sabe fazer “o” Malandro;
- Durante o mês de Agosto, em Vila Mendo, apenas faz “o Chefe”. E “Qui c`est que commande?!”. Obviamente, o Michel…
- É de tal maneira sobredotado que apenas trabalha com a… Cabeça!;
- Todos os anos surpreende com os seus novos Truques de pura Magia (utilizando cartas, moedas, etc.);
- Conseguiu elevar a Arbitragem futebolística ao estatuto de Arte;
- Sempre que apita o jogo Casados/Solteiros, da nossa Festa, é o melhor “jogador” dos Casados. Exemplo disso é o célebre jogo que teve 30 minutos de desconto!!! Obviamente só concluiu, já iniciada a noite, quando os Casados marcaram o golo da vitória…;
- Nesses jogos, em caso de dúvida, assinala o que o Tó Pereira lhe disser;
- Já se deu ao luxo, depois de Apitar um desses “clássicos”, de ir receber a Taça, de vencedores, com os Casados;
- Um determinado ano, os Mordomos, queriam que o referido jogo fosse dividido em duas partes de Meia-Hora. O Sr. Árbitro Michel não concordou e decidiu que o encontro seria disputado em duas partes de… 30 minutos cada!!!
- É muito “letero” a jogar à Sueca;
- Quando lhe perguntam de que equipa é adepto apenas responde: Brasil!;
- A equipa de Futebol que mais detesta é a… Seleção da França!!;
- Considera os franceses muito simplórios!!!;
- O Jantar de Curso, realizado na sexta-feira da Festa de Santo André, pela Malta de Vila Mendo, é-lhe sempre dedicado;
- Ano após ano existe sempre um Grupo Musical que, na Festa de Vila Mendo, toca um “slow” em sua homenagem para que ele dance com a Isabel;
- Já, por diversas vezes, recebeu a “coupe” de 1º classificado no “Rally Paper” de Vila Mendo;
- Entre outras, já citadas, é o criador de míticas expressões e frases que já são parte integrante do nosso léxico, tais como: “hê bá oui!”, “leva lume!”, “és muito malandro, tás mal las costas não podes travaiar!” ou “somos os we`ares the champions!;
- Existem plantadas, em Vila Mendo, 5 Árvores por si ofertadas; 
- Gosta de apalpar os Queixos aos amigos. Mas também gosta que apalpem os seus…!;
- Telefona-me, regularmente, durante o ano e passamos às “meias horas”, e mais, ao telefone;
- Mas acima de tudo isto, o Michel, é um… GRANDE, GRANDE AMIGO!


Júlio Manuel Antunes Pissarra

sexta-feira, 29 de março de 2013

Figuras da Terra- T`Zé Pôpo

Apesar de não ser natural de Vila Mendo (o T´Zé Pôpo era natural da aldeia de Santo Amaro - freguesia da Cerdeira-do-Côa), este senhor, com o passar dos anos, sempre foi visto pelas pessoas da nossa Terra como mais um dos nossos.
De nome próprio José Alves, este senhor, nasceu no dia 27 de Março do Ano da Graça de 1924. As suas quatro primeiras décadas de vida passaram-se a trabalhar na agricultura, a ganhar “o dia” e a servir como Pastor. Muitas vezes vagueava pelos Mercados da zona onde procurava trabalho. A esta sua busca Vila Fernando também não era alheia, já que regularmente frequentava a Tasca da Mariazinha. Certo dia, meu Pai, estava no referido local e por la apareceu o T´Zé Pôpo. Depois de alguns “copos” bebidos meu pai perguntou-lhe se queria ir para Vila Mendo trabalhar como Pastor. Logo aceitou. Chegados a Vila Mendo, meu Pai explicou a meu Avô [António Pissarra] o sucedido. Desde esse dia o T´Zé passou a ser mais um funcionário da casa. Mas foi sol de pouca dura visto que passados alguns dias, sem nada dizer, desapareceu. O tempo passou e volvido, sensivelmente, um mês meu Pai reencontrou-o numa Taberna do Adão. Já com o vinho a produzir efeito, quando viu meu Pai, começou a chorar e a suplicar-lhe que lhe desculpasse e o deixa-se regressar a Vila Mendo, pois “nunca tinha sido tão bem tratado”. Mas meu Pai disse-lhe que não podia prometer nada devido à forma como tinha ido embora. No entanto lá foram para a nossa Aldeia. Mas meu Avô já não o queria para Pastor devido à maneira como se tinha comportado. Apesar de tudo, com os pedidos de meu Pai, meu Avô lá acedeu, mas logo o avisou que não tinha outra oportunidade. Desde esse mês de Setembro de 1969 até à sua morte em 1994 esse Senhor foi, em casa do meu Avô, tratado como mais um da família.
Sempre foi uma pessoa simples, humilde, respeitadora, educado e, acima de tudo, muito divertida. Estava sempre disposto para a chalaça, brincadeira ou uma, muito característica, “mugafa” (carantonha). A minha Avó São e minha Madrinha Marques eram, quase diariamente, alvo das suas brincadeiras. As duas irmãs, regularmente, diziam: ”Rela-nos” a cabeça!”
Sempre gostei muito dele e sei que também era meu amigo. Aliás ele dizia que as pessoas de que mais gostava eram meu Avô, meu Pai e eu. Sempre o recordarei com amizade e carinho, até porque, de entre outras estórias com ele, quando lhe perguntavam há quantos anos estava em Vila Mendo, ele respondia: “São os mesmos que o Jú tem de vida. Vim para cá um mês antes de ele nascer!”.
No Rebanho que ele pastoreava existiam algumas ovelhas que lhe pertenciam. Então no dia em que, pela primeira vez, fui nomeado Mordomo da Festa de Vila Mendo ele disse: “Para o ano vamos matar, no dia da Festa, o melhor Borrego que eu lá tiver!”. E assim foi!
Mas o dia de que, ele, mais gostava era o de Consoada! Logo que eu, pela manhã, chegava a Vila Mendo, a “piscar” o olho, perguntava: “À noite vamos lá?”. Depois de Consoarmos começava, tentando disfarçar, a dizer: ”Tou” com uma soneira. Já vou para a cama!”. Eu, então, fazia-lhe sinal e, ele, lá dizia “boa-noite” e descia as escadas. Depois de me esperar, lá iamos os dois para a Fogueira de Natal, mas antes disso entregava-me, sempre, dinheiro para “pagar a minha parte e a sua” - dizia. Por ser simpático e divertido toda a gente gostava da sua presença, por isso essa noite terminava sempre com a tentativa de lhe comprarem um Borrego e uma grande… borracheira! Várias vezes, com a ajuda de alguns amigos, tive de o levar em ombros para a cama!
Uma característica sua era gostar bastante de fumar e comer/beber coisas doces. Diariamente fumava “Kentucky”, no entanto meu Tio Victor Moura e meu Pai (mais regularmente) sempre que iam a Vila Mendo ofereciam-lhe “SG Gigante”, então cheio de felicidade fazia uma “mugafa” das suas e exclamava: “Gosto! Gosto! Gosto! Quando Gosto, Gosto!”. Mas os Doces eram a sua grande perdição! Desde o café, ao refresco de café preto com água, das sobremesas, às Sopas de “Cavalo Cansado” tudo tinha que estar carregado de açúcar. Muitas vezes, principalmente no Verão, quando carregávamos feno ou palha ele dizia: “Se cá apanhasse um litro de água, um de vinho e um quilo de açúcar…! Ia tudo de uma vez!!!”.
Mas com o passar dos anos aliou todo este espírito divertido a uma preocupação: o T´Zé Pôpo tinha medo que meu avô falece-se primeiro do que ele (o que não se verificou). E só perdeu, em parte, essa preocupação quando meu Pai lhe prometeu que se isso acontecesse ele iria trabalhar e viver para “a nossa Quinta de Vale de Estrela”
Com o aparecimento de problemas de saúde, que foram fulminantes, foi internado no Hospital Distrital da Guarda. O Médico que o acompanhava logo informou de que era situação irreversível e que o tempo de vida seria curto. Então minha Mãe questionou o Médico sobre a possibilidade de lhe dar, diariamente, algo que o satisfizesse e lhe aliviasse o sofrimento. O Médico concordou. Desde então, diariamente, minha Mãe alimentava-o com um dos seus manjares prediletos: “Café Preto” bem doce! Para ele era reconfortante e uma enorme felicidade!
Certo dia enquanto eu e minha Mãe faziamos a visita, o T´Zé, com as lágrimas a correrem pela cara, afirmou: “ Jú, obrigado por me vir ver. Já nunca mais volto a Vila Mendo!”. Passados poucos dias, faleceu…
                                                                                 Júlio Antunes Pissarra