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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Memórias de Vila Mendo- Victor Brito Moura

Victor Brito Moura- Natural de Loriga- Seia. Residente em Seia. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra. Foi criança feliz, adolescente assim assim, funcionário público e não público, militar pouco aguerrido. Advogado, Vereador na Câmara Municipal de Seia, Deputado na Assembleia da República. Atualmente, é Presidente do CA da ProSena, S.A.- Escola Profissional da Serra da Estrela.
A sua ligação a Vila Mendo advém do casamento com Maria Alcina da Corte Pissarra. Nas redes sociais só frequenta, por enquanto, o facebook...

A inauguração da luz elétrica em Vila Mendo foi, também a inauguração do meu relacionamento com esta tão peculiar povoação. Do grupo, que de Coimbra se deslocou para este evento, só eu era o estreante. Em compensação fui, desse grupo, excluindo obviamente a anfitriã que nos convidou, o que mais vezes repetiria esse contacto. 
A minha estreia começou, aliás, pelas sensações novas; nunca tinha vivido sem energia elétrica e por isso foi bom ter apreciado a alegria que se espelhava nas pessoas com a chegada deste tão essencial melhoramento. Pena foi que dela estivessem privadas tantos e tantos anos. Só quem experimenta essa carência lhe sente a falta. Daí se entender que a virtude maior do poder local, que Abril instituiu, tenha sido a realização de obras para dotar as povoações de infra-estruturas básicas. Era um mundo novo, com outra luz, esse de poder transformar, com um simples clique, a noite em dia. Era um sonho acalentado que estava à beira da sua concretização. 
O dia da inauguração foi de festa. E as festas portuguesas celebram-se à mesa…desse dia recordo a cerimónia, junto do poste onde estava (e ainda está, creio eu) o transformador e que foi onde o Abílio Curto, Presidente da Câmara da Guarda, moveu o manípulo mágico que fez luz. Nessa cerimónia usou ele da palavra e também, em representação de Vila Mendo, mas sem mandato expresso… a nossa anfitriã. Foi a primeira vez que tive contacto com Abílio Curto, muito justamente cognominado o “Presidente das Aldeias”, pelas obras de infra-estruturas que executou nestes aglomerados do concelho da Guarda. Recordo também a presença do Gandarez em serviço da Rádio Altitude. Depois, cada um dos presentes recolheu às suas casas, levando os convidados para, à volta da mesa, fazerem verdadeiramente a festa! 
Foram tempos deliciosos os que passei em Vila Mendo. Recordo com muita saudade as idas até ao Lanceiro, Chão do Enchido, Eira, Lameira de Touco, atravessar um riacho no trator que o meu sogro conduzia temerariamente, mas com grande perícia. Também foi uma aprendizagem. Nunca tinha andado de trator, nunca tinha presenciado tão de perto as atividades agrícolas, desde a ceifa do centeio, ao armazenamento da palha nas altas “medas” ou em palheiros, da sementeira e apanha da batata… onde tinha enorme prazer de dar uma mais que ineficaz ajuda, que depois se ressentia nas dores de cintura que sentia, na 2ª feira, e que no princípio atribui a uma qualquer crise de rins, que de verdade, nunca tive. Só com o passar do tempo e a experiência adquirida, concluí que era a falta de hábito … é sobretudo desses trabalhos que guardo recordações muito gratas. Porque irrepetíveis. 
O saber-fazer do senhor António Pissarra, meu sogro, permitiam-lhe… nunca estar inativo. Na atividade agrícola estava permanentemente sincronizado e, conhecendo como conhecia os seus segredos, não se permitia desperdício de tempo. Chegado ao local da ação, de imediato tudo mexia…Fosse na sementeira, na rega ou na colheita…ou qualquer outro trabalho de manutenção ou reparação. Mas se fosse de carpintaria de mecânica ou na forja, não era diferente. Não havia pausas, dúvidas ou hesitações: tudo sincronizado e em sequência perfeita. 
Ouvir o rebanho, o cantar dos galos e dos pássaros, as vacas a circularem livremente, sabendo onde se dirigir sem necessidade de guarda/guia, permanecem na minha memória sensorial.
Comprometi-me há muito (mais de 1 ano, seguramente), a escrever algo sobre esta minha memória de Vila Mendo. Hoje, depois de muitas promessas que não cumpri, envio este alinhavado que não é, nem o que tinha idealizado, nem o que, seguramente, de mim esperava quem me fez a solicitação. Os afazeres e responsabilidades assumidas noutros âmbitos não me permitiram outro contributo. Quero no entanto reiterar que este poderá ser um início de colaboração. Não quero deixar de sublinhar que é ditosa a terra que tem um conjunto de jovens que se lhe dedica de alma e coração e, com grande dinâmica, desenvolve atividades que mantêm Vila Mendo no mapa. Ora, a par da proximidade com a Guarda e com a sede da freguesia, traduzida numa razoável ligação rodoviária, que permite contactos rápidos e torna apetecível, por exemplo, viver em Vila Mendo e trabalhar na Guarda. A meu ver, o problema do interior reside, sobretudo, na ausência de gente, de pessoas. Vila Mendo tem todas as condições para fixar pessoas que trabalhem na cidade. Se o fizer, os filhos e outros familiares dessas pessoas podem residir aqui todo o dia de todos os dias. As receitas, as soluções para o interior não são unívocas nem iguais. Nasci numa terra bem maior, com indústria que dava trabalho a muitas centenas de pessoas, que sustentavam 8 salas de aula da instrução primária, com ensino pré-primário… hoje está reduzida a 1 sala e a indústria desapareceu, estando reduzida a 1 fábrica de malhas. Assim as perspetivas, a médio prazo, são bem piores do que as de Vila Mendo, dadas as distâncias a centros populacionais maiores (dista, por ex, 20 kms da sede do concelho com uma estrada de montanha). Os hábitos de vida, ligados à indústria, dificilmente voltarão, sendo a desmotivação muito maior do que em Vila Mendo. E, sobretudo, não tem um núcleo de jovens com a dedicação e a capacidade destes de Vila Mendo.





sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Vila Mendo nos anos 60/70- Manuel Corte

A Vida no Campo
O que a seguir descrevo reporta-se à minha memória e tempos vividos na nossa aldeia Vila Mendo.
Na generalidade todos os residentes viviam daquilo que a terra dava, com pequenas excepções; algumas famílias dedicavam-se ao comércio bovino, ovino, caprino e suíno. Todos os terrenos eram cultivados, quer para plantações (batata, feijão, hortaliças…) quer para o cultivo de cereais (milho grosso, milho miúdo e centeio). O dia era inteiramente passado no campo e os meninos de tenra idade também acompanhavam os seus pais. A vida era alegre e feliz, mesmo para aqueles que pouco ou nada tinham.
Ao romper da aurora e ao cantar do galo todos despertavam para a jornada. Cada casa albergava em comum galinhas, coelhos, vacas, porco, burro, cães, gatos… Quem não conhece o ditado “se o mal não dobra galinha não prova”. Como falei de galinhas o seu papel era pôr ovos porque só era abatida em dias de festa ou quando o seu dono estava para partir. O porco era o bem fundamental na alimentação de cada lar; para além do presunto e dos enchidos sobejamente conhecidos por todos, havia alguma carne que se guardava na salgadeira, coberta por sal e que perpassava de ano para ano.
Analisemos o que a vida mudou!..
A água dos poços era tirada a balde pelos “picanços”, que mais tarde deram origem às tão cobiçadas “noras” e só nos anos 60 se implementaram os motores de rega que deram aso às moto-bombas actuais. Curioso e digno de registo: havia quem comprasse um ou mais burros para pôr à nora na Feira de S. João da Guarda (24de junho) e que vendia após as colheitas na Feira de S. Francisco (4 de Outubro); fica outra nota: havia quem pusesse dois “cambões” na engrenagem da nora a fim de engatar dois burros, o que fazia com que se algum quisesse parar o outro obrigava-o a andar!..
Havia tarefas no campo bastante árduas e que só podiam ser feitas pelo calor ardente do verão. As ceifas dos cereais eram feitas de forma geral por ranchos (4/5 homens e 15 ou mais mulheres e raparigas) e ainda as “camaratas” de homens (12/15) em especial do Azevo-Pinhel que tinham a particularidade de cortar o centeio com foice-gadanha. A acompanhar todo este pessoal andava o proprietário que abastecia de bebida o grupo e, ao mesmo tempo, ia pondo os molhos em “rolheiros”. De seguida era feita a “carranja”, o transporte em carros de bois que iria dar lugar à meda. Ainda registo a debulha do centeio ao “mangual”, mas em pequenas quantidades. Mais tarde surgiu a debulhadora (malhadeira), máquina de extrair o grão que, à época, era uma opção maravilhosa. Antes desta, de que temos um exemplar na aldeia, surgiram com rodas de ferro e motores a diesel “Lister” para se fazerem movimentar. A palha que saía dava lugar ao palheiro (amontoado em forma de cone que persistia ao temporal, em geral por vários anos).
Na “Eira” ou “Laja” eram necessários doze a quinze pessoas que se ajudavam mutuamente, cada qual com tarefas distribuídas, sendo de salientar os “vergueiros”, quatro a cinco homens que transportavam às costas as “faixas” de palha que davam origem à formação do palheiro.
Passemos à tarefa dos fenos: os lameiros eram cortados normalmente à gadanha marca “Sol” por grupos de três ou quatro homens que levavam cada um o seu carreiro ou "eito", seguindo uns atrás dos outros. Havia sempre alguém que dava o seu jeito especial no picar da gadanha, realizado com dois instrumentos de que a maioria se recorda: safra e martelo. O efeito do corte do feno dava de seguida lugar ao “espalhar, virar, emborregar e atar”. Faziam-se molhos de três faixas para dar lugar ao carregamento, transporte e armazenagem. O carro do feno, transportado por animais, equivalia a sessenta faixas. A denominada faixa era atada com nagalhos de palha devidamente humedecida, normalmente pela manhã, a fim de se tornarem mais macios e resistentes. A “emborregar” o feno, com o chamado ancinho, eram três a quatro pessoas para um a atar.
Se hoje achamos difícil o trabalho do campo, com todo o equipamento de que se dispõe, que seria se nos reportássemos a esses tempos… e não são tão longínquos, porque aqui me reporto aos anos 60/70.
Manuel Corte

quinta-feira, 26 de junho de 2014

O Forno- Zé Eduardo

In illo tempore foi construído no coração da aldeia o forno comunitário, num beco estreito, escuro e envergonhado, ainda que as demais ruas não fossem largas, iluminadas ou extrovertidas, transformando-se, também elas, em lodaçais constituídos de areias, folhas de árvores e dejectos de gado vacum, ovino e caprino logo que se iniciavam as chuvas de Outono e se prolongavam até à Primavera.
            Per saecula saeculorum ali se cozeu pão, sobretudo de centeio, pedra angular da “roda dos alimentos” nas beiras interiores, sendo a sul do país de trigo e a nordeste e beira litoral de milho, tudo de acordo com a melhor exploração possível da capacidade dos terrenos e condições climáticas, tendo presente os princípios da rotação bienal/trienal do cereal – pousio - herdada do Neolítico.
            As referências ao pão remontam aos primórdios da idade do ferro, mas a técnica da fermentação só viria a ser descoberta no Egipto, posteriormente apreendida pelos gregos que a difundiram em Roma e pelos romanos divulgada na expansão militar pela restante Europa.
            Nos sécs. XII e XIII incluem-se na dieta alimentar dos povos da beira o pão de milho-miúdo, centeio, castanha, legumes variados, com predomínio para as couves, o grão e as favas e, relativamente a frutas, as maçãs, as uvas e os marmelos. 
Gastronomia beirã que não ficou indiferente aos descobrimentos a partir do séc. XV, donde terem sido paulatinamente introduzidos produtos como a batata, a abóbora, o amendoim, o ananás, o cacau, o feijão, o girassol, o milho, o pimento e o tomate.
Entrada, por certo, lenta, pois que em questões alimentares é a sociedade prisioneira de usos legados de geração em geração e que só raramente se alteram (cfr. Georges Duby, Guerreiros e Camponeses, Lisboa, Estampa, 1980, p. 29).
Estamos perante mais uma noite de invernia em que chuva miudinha cai lenta, lentamente, como que à espera que o frio glacial vindo da serra da Estrela a solidifique em neve. Amanhã, de manhã, será um dia resplandecente com as casas, as ruas, os caminhos e os campos cobertos de neve. Mas nesta noite, tão comprida quanto húmida e fria, nada melhor que um serão no forno para secar a roupa húmida que se cola ao corpo e dar dois dedos de conversa com as duas famílias que, decorridos que são quinze dias, ali regressam para desamuar à due o forno e cozer o pão de centeio.
Apesar de se tratar de uma noite escura como breu, sem que se vislumbre vivalma ou uma réstia de luz por detrás de alguma janela ou janelo, não há qualquer risco de nos enganarmos no percurso a tomar, pois que a morfologia urbana radioconcêntrica, como é característica da maioria das aldeias medievais, desembocará inexoravelmente no centro da aldeia e daí ao forno são dois passos (ao centro confluem a Rua Principal, Rua do Regato, Rua de Baixo, Rua do Pocigo e Rua do Forno, algumas delas interligadas pelas radiais - Rua José Velho, Travessa da Rua de Baixo, Rua a Porta do Campo – ou delas emanando becos como a Rua do Cantinho)[1].
Chegados ao centro da aldeia, a escuridão não nos permite decifrar se se ergue ainda à intempérie a árvore que lhe dará o nome pelas gerações seguintes ( Largo da Amoreira), ou se as ruas já foram calcetadas (+/- 1952), ou os tanques construídos (+/-1954), ou mesmo as casas em redor reconstruídas, sendo que as de José Elias, Manuel Dente e o cabanal de Ana Corte o foram nos últimos anos da década de sessenta, pelo que não é possível, por ora, fixar qualquer data, ainda que por mera ficção.
Tomada a “Rua do Forno”, manda a prudência que se caminhe junto à parede do lado esquerdo a fim de não encharcar os tamancos, adquiridos na “Feira de São Francisco” e com rasto em pneu de poucos dias, no atoleiro que ali se foi formando em virtude do bueiro que dali emana e passa pelo curral - que foi ou há-de ser - de Ana Corte em direção à eira se encontrar entupido.
Ao aproximarmo-nos do forno, vislumbra-se por entre as largas frestas da carcomida porta de madeira uma réstia de luz que aumenta e diminui de intensidade à medida que as chamas saem da boca da fornalha. A porta encontra-se encostada, de resto como sempre, num permanente convite à entrada de quem quer que seja; ainda que, reza a história, se trate de um mendigo que ali procurou abrigo numa malfadada noite glacial de inverno – como esta - e, apercebendo-se que a fornalha se encontra ainda quente por ter sido recentemente utilizada, logo nela se introduz para dali mais não sair com vida, pois que a inalação de monóxido de carbono lhe terá sido fatal.
Transposto o umbral que, fora dia, ter-nos-ia informado se já foi alvo da reconstrução de 1904 e sem que se peça licença aos presentes - afinal o forno é público -, mas dada a salvação e recebida a resposta: “Boa noite nos dê Deus!”, logo se vislumbra em frente sobre a direita o vulto de indivíduos semi-deitados sobre restos de palhas, giestas e ramos depositados sobre um tosco muro de pedra irregular com não mais de 50 cm de altura e soterrado até à parede posterior. Ao centro, junto à boca da fornalha, labora o forneiro, por um dia, procurando manter vivas as labaredas e a sua distribuição equitativa por todos os lados.
Sobre a parede da direita, de fronte para os ditos indivíduos, as labaredas que se vão libertando da fornalha por entre o fumo projectam na parede a silhueta de duas ou três senhoras que, encostadas à bancada de granito, dão os últimos retoques na massa de centeio já preparada para a cozedura. Previamente, durante o dia, a farinha fora peneirada, misturada com água morna, sal e fermento natural – levedura – e protegida por cobertores para levedar.
Reconheçamos que é um forno rudimentar, em terra batida e sem que para a sua utilização existam regras, usos ou costumes que salvaguardem a sua manutenção e higiene, sendo apenas de registar a colocação de lenha na fornalha logo que retirado o pão para, de uma assentada, o próximo utente assegurar a sua vez e aproveitar o calor existente para acelerar o processo de enxugamento e secagem daquela.
 Acresce que inexistem outros utensílios públicos para além da pá de enfornar e uns rudimentares lareiros de rapar e varrer.
Nas casas particulares também não existirão, creio, os habituais estendais de fingir e tender o pão, mas tudo se resumirá à masseira (alguidar), espátula e um tabuleiro em madeira – qual pau para toda a colher – que serve para as demais funções, inclusive transporte para o forno e deste para casa, mas também para outros serviços relacionados com as saudosas matanças do porco.
Paulatinamente o fogo vai vencendo a resistência da lenha húmida e verde e as labaredas aumentavam de intensidade, por vezes saíam da boca da fornalha iluminando, ainda que tenuemente, o rosto dos que ali se encontram.
De uma banda as senhoras trajando de negro com as faces semiencobertas pelos lenços que trazem à cabeça e atados ao pescoço, rodeadas de pirralhos de tenra idade que olham fascinados para o crepitar do fogo.
De outra, homens de cabeça coberta, uns com chapéu e outros com boina, samarra pelos ombros e calças de surrobeco, que se entretêm sorvendo o morrão de cigarros da marca “Kentucky” (vulgo mata ratos), “Definitivos” ou mesmo de enrolar, estes feitos na hora num estranho e hábil manusear da mortalha a enrolar o tabaco e colada, a final, com uma subtil lambedela.
Desamuada a fornalha, iniciam-se os trabalhos para colocação do pão. As senhoras, dados os últimos retoques na massa, dão uma última “pulverizadela” de farinha e, uma delas, sinaliza os seus pães com uma ligeira pressão do polegar sobre a massa lêveda, como se da aposição da impressão digital se tratasse, enquanto o forneiro puxa o brasado para o exterior, deixando-o à boca da fornalha e dá os últimos retoques na base da fornalha arrastando uma ou outra brasa que se tresmalhara.
Aproximando-nos ligeiramente, e aproveitando a luz do lampião que até ao momento tinha permanecido esquecido junto aos tabuleiros, com a torcida reduzida ao mínimo para evitar consumo desnecessário de petróleo, podemos verificar que a base, agora esbranquiçada, está uniformemente revestida de tijolo de barro, o que permite precisar com segurança que estamos aquém de meados da década de sessenta do século passado. Com efeito, a penúltima reparação ocorreu na década de sessenta com revestimento da fornalha a tijolo de barro cedido pela Junta de Freguesia então presidida pelo, creio, mourense Silvestre.
O forneiro pega então na pá, dá dois passos à retaguarda e espera que seja colocado o primeiro dos pães. A senhora que o coloca não resiste à repetição de um gesto reiterado pelos seus antepassados ao longo dos séculos: uma cruz seguida, em sussurro, de um voto “Deus te acrescente".
Enquanto o forneiro prossegue o vai-e-vem cadenciado num concertado jogo de pernas e braços, fazendo estes deslizar o cabo da pá até ao extremo, no início, e paulatinamente em menor extensão à medida que os pães vão sendo colocados mais próximos da boca da fornalha, gestos que terminam sempre com o mesmo impulso rápido de avanço e recuo de modo a que a inércia do movimento faça deslizar a massa da base da pá para a da fornalha, os pirralhos que se encontram por perto, seguem atentamente os seus gestos e dele reclamam o maior cuidado e destreza na colocação de três “patinhos” feitos de massa lêveda e dois pães com carne (vulgo ratinhos), presas que pretendiam ver incólumes para posterior repasto.
A bola de azeite fica, também, debaixo de olho, mas é seguramente a terceira opção de tais “felinos”.
Do outro lado, não sendo seguro que a farinha utilizada na feitura de tais pães fosse proveniente de grãos de centeio colhidos pelos actuais proprietários, uma vez que fora adquirida ao moleiro e paga no ato em grão de centeio, medidos ao litro ou ao alqueire (ao que me recordo de 15 litros)[2],[3], perguntavam-se em silêncio os homens que ali se encontravam: em que terras centeeiras teria sido semeado o grão que germinou, cresceu, multiplicou-se e, depois de mil trabalhos, foi moído e dele se fez tal farinha.
Pois que, sabendo eles em que folha ou tapada fora semeado, logo diriam qual foi o lavrador que jungiu a junta de bovinos, arou as terras com a decrua, estravessa ou entravessa (lavragem perpendicular à decrua nos terrenos cuja extensão o permitia), lançou ou não as sementes à terra em época serôdia ou temporã, abriu sulcos aos camalhões ou, não o tendo feito dessa forma, lançou as sementes depois de arado e cobriu-as de terra com recurso à grade.
Mais nos diriam os ditos senhores:
- se tais terras centeeiras, agora de alqueve ou alqueive, foram adubadas com químicos ou estercada dos rebanhos que nelas foram apascentadas;
- quem foram as ceifeiras e ceifeiros que à foice (seitoiras) – com ou sem recurso a ranchos, seguindo ou não o seu eito – ou à gadanha cortaram a pragana;
- quem fora o manajeiro, quem se levantou antes do sol nascer para atar os molhos e de quantas palhas fazia uma nagalheira;
- quem juntou os molhos em rolheiros e, assim, fez migrar o cuco de imediato;
- quem foi o carregador que aprontou a manta de farrapos no chedeiro do carro das vacas, e ali depositou ao comprido molhos com a tora para trás e para a frente e, ultrapassada a altura das rodas, logo iniciou a colocação de travesso para, decorridas que eram cinco fiadas, chamar à razão os estadulhos (ou fueiros) que se haviam desavindo puxando das traves (ou travadeiras). Reposta a postura com tais amarras logo prosseguia com mil cuidados não fosse desequilibrar-se e espetar-se num desses pontiagudos estadulhos enquanto praguejava: “Raios partam as vacas, não param quietas com tanto mosquedo!”. E apostas duas fiadas sobre o cume dos estadulhos terá ponderado o terminus da carga, colocando mais molhos sobre dianteira se esta estivesse traseira e optando por lançar as cordas ao longo do chedeiro ou de través, sendo nesta última hipótese, mediante a colocação de molhos ao comprido, como fizera no início e por forma a permitir que nos declives do caminho nelas se apoiassem para obstar a que a carga tombasse;
- quem na eira ou lajem edificara a “meda” e procedera à malha ou debulha mediante recurso ao mangual ou às ditas “máquinas” (malhadeiras/debulhadoras de cor amarela e da marca S. Mamede ou S. Romão cuja engrenagem de cilindros era accionada por tractores);
- quem na malha fizera companhia a Manuel Carolino a transportar a palha para o palheiro, e destes qual o malandro que sucessivamente largava a facha logo que chegava ao cume da escada, obrigando os demais a esforço acrescido para satisfazer o palheireiro que de ancinho com dentes de madeira gritava lá do estremo: “É p’ra aqui!”. E se o carregador desaustinado com a carga apertada por entre a correia e os braços, de olhos semicerrados e passo incerto procurando o equilíbrio entre as ondas de palha não tomava o rumo certo, logo o palheireiro repetia a ordem acrescida de uma asneira para que a agulha da bússola fosse aferida sem delonga;
- quem, já exausto, fizera soltar da poli uma das muitas correias que acionam os cilindros e provocaram a paragem da máquina por entre uma chiadeira de cilindros a empapar, as correias a rodar em falso derretendo o alcatrão com que haviam sido untadas momentos antes, tudo para desespero do dono da malhadeira e do lavrador, mas com a aprovação em sussurro de todos os demais que logo se dirigiram para a sombra do carvalho ou castanheiro mais próximo.
Ainda que já não se cantassem as quadras de outrora[4], pois que o ruído das máquinas levava inelutavelmente a melhor sobre as gargantas ressequidas da pragana, sempre que a sede despertava alguém gritava em voz alta:
- Como se chama a vaca em espanhol?
Ao que todos respondiam em uníssono: “andúvia”!
E, prosseguia quem dera o mote, o bezerrinho?
Ao que todos respondiam em coro rejuvenescido: “anduvinho”!
Logo o lavrador anfitrião fazia avançar o garrafão de vinho doce e dois copos, sendo que desta repartição beneficiavam claramente Manuel Carolino e seu irmão José Miguel, os únicos a beber por um deles.
Absortos em tais pensamentos enquanto o forneiro fechava a boca do forno com a porta de ferro já carcomida pela ferrugem e com as dobradiças partidas, eram as mulheres quem davam início e alimentavam uma longa conversação enquanto o pão cozia.
Começaram por referir a fuga de mais um jovem mancebo na noite passada. A exemplo de muitos vilamendenses mais velhos, também ele transpusera a fronteira durante a ordem de um passador que, para tanto, cobrara as últimas economias dos seus progenitores. Partiu em busca de uma vida melhor, fugiu de uma guerra colonial que nada lhe dizia.
Do regresso nem pensar, pois que depressa passará a refractário e, consequentemente, será emitido mandado de captura para cumprimento de pena de prisão. Cumprido o mandado, seguiria para uma das Casas de Reclusão da zona militar onde deve assentar praça e, cumprida a pena de prisão, integraria uma companhia ou batalhão para, decorridos três meses de instrução, rumar a terras de áfrica em algum navio, mormente «Santa Maria», «Vera Cruz», «Príncipe Perfeito», «Infante D. Henrique», etc..
Prisão que lhe teria sido aplicada, por certo, pelo tribunal judicial de Almeida, caso tivesse sido detido a transpor a fronteira na área territorial daquela comarca que se estende, a sul, para além de Vilar Formoso.
Não tarda, é certo, que por ele virão dois soldados da Guarda Nacional Republicana do Posto do Marmeleiro, trajam botas sobrepostas por polainas e grandes sobretudos verdes. Vistos ainda no limite do que a vista alcança, logo as galinhas são recolhidas e uma ou outra porta de casa se fecha para que não ser prestada qualquer informação. 
Mas falam, também, dos que partiram para a guerra em cumprimento da ordem do ditador que, no início da década dissera naquela voz aguda tão singular: “rapidamente e em força para Angola”. Fazem-no sussurrando o nome de Salazar por receio à PIDE/DGS que, dizem, tem ouvidos em todo o lado.
E elevam os olhos ao céu quando pronunciam o nome de quem por lá caiu em defesa da pátria, e fica no ar o pedido: “Que Deus tenha!”.
Mais falam de estórias de galhardia, amor, paixão e desventuras, mas também de intrigas e desavenças entre famílias que vêm de longe por divisão de águas comuns, servidão de passagem, demarcação de estremas, casamentos rejeitados, …
E falam, ainda, do futuro da aldeia com as novas obras que se avizinham, nomeadamente a (re)construção da estrada que liga a aldeia a Vila Fernando e à Santana da Azinha, mediante o alargamento generalizado da existente e com novo traçado (mais rectilíneo) a espaços (actual Avenida Motard no prolongamento da Rua do Pocigo ao Alto das Lombas e do Pinhal do Grilo à estrada que liga Vila Fernando ao Monte Carreto) e a reconstrução da Capela.
A pouco-e-pouco começa a brotar da fornalha o odor a pão cozido. O forneiro levanta-se, retira a porta da boca da fornalha, pega no lampião espreita o interior da fornalha e observa:
- Está quase!
Um dos pirralhos, adormecido no regaço de sua mãe, logo levanta a cabecita e, ainda estremunhado, alerta os demais para em grau de prontidão se prepararem para o assalto aos pães em formato de pato. De nada valerão, por certo, as recomendações dos progenitores de que o pão quente faz mal à barriga.
Os demais presentes que não fazem parte da casa de uma das duas famílias preparam-se para sair do forno, deixando em recato as duas famílias e calando o estômago de um apetite que já se faz sentir – lá diz o povo “olhos que não vêm …”
Um deles dirige-se ainda à boca do forno, acende numa das brasas o cigarro que o há-de iluminar até casa.
Outro, apoia as mãos nas pedras para se levantar lentamente, já de pé leva as mãos aos quadris, puxa as omoplatas para trás num estranho espreguiçar de quem sofre das costas, fecha ou abotoa o casaco e arremata a conversa em tom conformista de quem nada mais espera do futuro que não seja a saúde para ganhar o seu sustento e dos seus:
- Haja saúde, coza o forno, e o pão seja para nós!

José Eduardo (4 de dezembro de 2013)

Post-scriptum – Quis o acaso que o presente texto tenha sido redigido no dia em que Portugal viu inscrita a sua dieta alimentar (mediterrânica) na lista do Património Imaterial da Humanidade. Dieta à base de alimentos sazonais e ricos em fibras, como pão, frutas e legumes, reduzidas carnes vermelhas e o azeite como principal gordura que contribui para uma maior longevidade dos seus utentes em relação aos habitantes dos países desenvolvidos como os do Norte da Europa e Estados Unidos da América.
Por ser justo e devido, termino com o agradecimento aos meus pais pelas informações que à distância me deram sobre factos ocorridos até meados da década de sessenta, bem como dos ensinamentos deles recebidos na arte de amanhar a terra, semear, ceifar, colher, arrancar e tudo o mais que a lavoura encerra.
   





[1] As ruas são seculares, mas a toponímia é recente – aprovada em reunião ordinária da Câmara Municipal da Guarda realizada no dia 22 de setembro de 2009. Estranhamente, omitiu-se qualquer alusão Largo da Amoreira, ou mesmo do Chafariz, por certo nomenclatura consensual na população vilamendense.

[2] O alqueire não contém uma medida certa, introduzido pelos árabes com a designação (al kayl) e sujeito a sucessivas intervenções régias ao longo dos séculos, levaram a que no século XIX se registassem as seguintes discrepâncias:
- 13,1 litros no litoral entre Aveiro e Lisboa;
- 13,9 litros, um pouco por todo o país;
- 14,9 e 15,7 litros, sobretudo no interior e no sul;
- 17,0, 17,5 e 19,3 litros, quase exclusivamente no Entre-Douro-e-Minho.
[3] Outrora, a troca era direta, o lavrador levava o grão ao moinho hidráulico, e o moleiro retirava para si uma maquia que rondava 4 medidas de 1,5 litros por cada fanega (4 alqueires).
[4] Respingam-se algumas quadras de tais cantares:
Nosso amo tem uma vaca,
Também tem um bezerrinho;
A vaca chama-se andúvia,
O bezerro anduvinho.
(…)
Nosso amo anda triste,
Por o Sol já ir baixinho;
Não se entristeça meu amo,
Que o Sol vai devagarinho.

Ao dar da palha, ao dar da palha,
Ao dar da palha, ao dar da beira,
Venha o vinho, venha o vinho,
Venha o vinho à carreira.”

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Lançamento Caderno de Memórias e Jantar de Natal

Pereira (co-autor); Victor Amaral (Vereador da Cultura da Câmara da Guarda);eu; Júlio Pissarra (co-autor); Catarina Tavares (ilustradora). Um cumprimento ao Prof. José Monteiro pela revisão de textos bem como aos demais co-autores que não estiveram presentes: Acácio Pereira; Arlete Conde; Padre Carlos; José Eduardo; José Domingos; Manuel Corte e Manuel Silva. 





quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Lançamento do Caderno de Memórias: "Vila Mendo nos Anos 60/70"

Dia 21, sábado pelas 17h30, a Associação Cultural Recreativa Vila Mendo faz o lançamento do Caderno de Memórias nº1: “Vila Mendo nos Anos 60/70”, com a presença do Vereador da Cultura. Memórias contadas na primeira pessoa dum tempo tão distante da realidade da contemporaneidade mas tão próximo da realidade cronológica. Sem pretensiosismos académicos e/ou científicos, deixámos discorrer a Memória que, em última instância, é o garante da nossa própria identidade enquanto indivíduos, enquanto comunidade, enquanto povo. Para memória futura, as dinâmicas da comunidade Vilamendense desse tempo ficam registadas na eternidade da palavra escrita. Uma edição de autoria conjunta com a Coordenação de Luís Filipe Soares, Prefácio de Victor Amaral- Vereador da Cultura- Revisão Linguística do Professor José Monteiro e Ilustrações de Catarina Tavares. Autores: Acácio Pereira, António Pereira, Arlete Conde, Carlos Fonte, José Eduardo, José Domingos; Júlio Pissarra, Manuel Corte e Manuel Silva. Apoio: IPDJ (Instituto Português do Desporto e da Juventude).

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Vila Mendo nos anos 60/70- O Desporto- Zé Domingos

Preâmbulo
As minhas vivências de vilamendense estão truncadas pelos largos períodos de ausência. Aos dez anos, em setembro de 1967, parti para o Telhal e só voltei a beber da água fresca do chafariz (as melhores águas naturais canalizadas das redondezas… segundo o Dr. Crespo) nas férias grandes, em julho de 1968. Este meu fado manteve-se até ao ano de 1975… Vila Mendo só nas férias de verão! Efetivamente, só de julho de 1975 a 79, passei a maior parte do tempo na nossa terra, ao estudar na Guarda… e, em outubro de 79, emigrei para a bonita região autónoma dos Açores… a nossa aldeia passou para escassos dias de férias.
Sou pois mero narrador não participante de algumas das bonitas páginas que compõem o livro da vida daquela que, orgulhosamente, chamamos VILA MENDO.
Outra condicionante à minha participação em algumas vivências do antanho foi o velho costume que obrigava as crianças e jovens com menos de 15 anos a recolher ao doce lar, logo após o pôr-do-sol. Os mais velhos, cobertos por manta ou casaco, faziam trabalhar o cinto nas pernas do aventureiro  que fosse apanhado, durante a noite, a circular sozinho pelas ruas! Eu vingava-me na leitura de cordel!!! Este uso desapareceu com a emigração… os maiores ficaram sem colegas de brincadeira… a necessidade “adultou”, precocemente, os mais novos!!!
 Antes de entrar no tema principal da incumbência, vou apenas relembrar alguns factos/costumes que ocorreram durante a minha estada no nosso torrão e que eu considero marcos importantes na história da nossa gente.
A emigração: a última família a partir para o Brasil, no inverno de 1963, foi a do senhor Porfírio (eu herdei do Zé Carlos a caneta de aparo e uma ardósia), mais tarde também partiu uma filha do senhor Manuel Domingos e foi o meu tio Manuel Mateus Corte (1965), o primeiro vilamendense que, de comboio com um passaporte de turista, iniciou a debandada de gerações  que percorreram a Espanha a pé, em busca do eldorado francês. O primeiro emigrante a falecer em França, foi o Horácio Bragança (1967/68?)… vítima de electrocussão ao bater com uma picareta num cabo eléctrico enterrado numa rua de Paris. O aparecimento da primeira vaca de leite de raça Frísia, adquirida pelo meu tio José Domingos (foi tema de muitas conversas depreciativas, uma vez que não viam no dito animal forças para puxar o arado… a corte foi, durante algum tempo, local de peregrinação para ver aquele “monstro”)… depois foi a adesão total àquela raça vacum... o “petróleo branco” da nossa terra. A aquisição do primeiro tractor na localidade deve-se à família Pissarra em 1962(?) (já havia tractores na Quinta do Crespo). O novo traçado da estrada para Vila Fernando apareceu em 1972… a sua “pintura a preto” foi obra camarária do então presidente Abílio Curto. O arranjo da capela e a construção do campanário aconteceu por volta de 1971/72, o mestre de obra foi o senhor António Pissarra (pena que se tivesse queimado o retábulo de madeira torneada que cobria toda a parede do altar). A recuperação da escola e do espaço que hoje serve de sede à Associação é de 1975 (obra dos soldados de abril acantonados na casa da senhora Augusta). A luz elétrica chegou em 1979 (a Dra. Maria Pissarra “botou” o discurso e eu, a mando do Manuel Silva, “ botava” os foguetes). O célebre aparecimento de maços de tabaco americano na quinta de Vale Carros e que levou, possivelmente, ao vício pela nicotina de muitos dos nossos conterrâneos (1975)… nunca a criançada se sentiu tão importante … fumar Marlboro… só os de Vila Mendo! A quezília que a nossa gente manteve com o Dr. Crespo por causa das águas da “Balça”…venceu o nosso povo… a heroína foi a minha madrinha Adoração. O papel do senhor Joaquim Pereira na reprodução do gado vacum castanho e depois traçando o castanho com o frísio, quando, a troco de uma maquia de centeio, “tornava feliz” o seu boi de cobrição! Em 1974, sob a batuta do padre Manuel, a juventude de Vila Mendo entrou em força nas atividades culturais de Vila Fernando… o Manuel Silva foi um dos actores principais… e eu, por ter chegado atrasado devido aos exames nacionais do 5.º ano, fui o responsável pela feitura dos cenários.
 Relativamente aos costumes, saliento o hábito de obrigar o jovem estranho que namorasse uma das nossas lindas meninas… a “pagar de bicas”… e havia acordeão. O tocar das matracas na Semana Santa acompanhadas com os gritos “é para o terço”. O vestir do pinheiro com a cheirosa “bela luz” e levantá-lo, com a ajuda dos ranchos de ceifeiros, no dia de S. Pedro. O levar aos “gambuzinos” o jovem que vinha para a nossa terra. De acordeão percorrer as nossas ruas acompanhando os nossos jovens “apurados para a tropa” e que, de cigarro no canto da boca, num desafio ao respeito maternal, marcavam a entrada na vida adulta. No dia de casamento, ao longo do percurso da capela para o local do jantar, as crianças colocavam numa cadeira ou num banco o seu prato para recolher guloseimas (rebuçados… uma moedita) que os convidados ali depositavam. O assalto às cerejeiras (ai que saudades)… a cereja foi a fruta da malta. A criançada sentada na escadaria dos meus tios para ouvir o incansável senhor José Bragança contando estórias de encantar que nunca terminavam…alguns desses contos servem-me para motivar os meus alunos. As malhadas que, a partir de março, serviam de guarida aos rebanhos e, em simultâneo, fertilizavam os terrenos; ah, não posso esquecer quando, sobretudo aos domingos, se ia à ribeira banhar os corpos nus e pescar…e, de quando em vez, também cobras de água!! Por fim, recordo o espírito de cooperação/comunhão que se vivia na nossa aldeia, quando chegava a debulha do centeio, sob o lema: “ajudo para depois ser ajudado”. As malhas mais concorridas eram as dos Pissaras (a troco não de ajuda, mas de giestas para o lume) e, por razões óbvias, as debulhas pertencentes às famílias com jovens para a palha e a do palheireiro.
O Desporto
Relativamente ao… desporto… os divertimentos de adultos, tenho de ter em conta que a geração anterior à minha emigrou para a França tinha eu menos de dez anos, logo sou parco em lembranças. No entanto, lembro-me de ver jogar à bola num campo no "Espinhal" e de ouvir falar de grandes cabazadas sofridas em Vila Fernando e em Albardo. Recordo ter ouvido que, após um jogo de futebol, em Albardo, (quase todos os jogos terminavam à pedrada) o Albertino, filho do senhor Porfírio, ter golpeado um dedo a um sobrinho da professora que lecionava na nossa escola… e com medo não foi à escola na semana seguinte. Quando aparecia uma bola (mesmo de plástico), era festa para a criançada… o luar de agosto era aproveitado até às tantas… no largo da escola. Por altura do exame da 4.ª classe, que era feito na Guarda, os mais velhos pediam aos alunos uma bola e se possível de couro. Estas jogatanas originaram brigas familiares resolvidas… para jogares, só descalço. As botas de couro da escola, duravam menos de um mês! As sapatas de pano espanholas apareceram no início da década de 70.    
Continuar os estudos começou a generalizar-se a partir de 1967, até ali, estudar só os filhos da família Marques/Pissarras. Com os estudantes e sobretudo os seminaristas, (o seminário era, na altura, a melhor escola de formação desportiva) o desporto, quase em exclusivo o futebol, introduziu no mapa do futebol, o nosso Vila Mendo. A habilidade futebolística refinou-se na “Tapada Velha”… num lameiro, (às escondidas do dono) e sobretudo no largo da escola. Também se jogava nos caminhos, pois carros era coisa rara na nossa aldeia. A equipa adversária era recebida, no início, na Tapada Velha e…acabado o jogo… vinha a pedrada. Por falta de campo “condigno”, a nossa equipa jogava quase sempre fora de casa. A deslocação era feita a pé… coitado de quem, durante o jogo, sofria mazelas… o caminho do regresso tornava-se tão longo! Eu que o diga, vim do Marmeleiro arrastando uma perna até casa e o meu primo Tó Terras veio do Barracão a sangrar do nariz… tinha a “cana” partida!!! A terra mais difícil de derrotar foi a Quinta de Cima… tinha um campo bastante inclinado e… as balizas muito altas!
 Em 1973, na “Laijinha”, aproveitou-se a movimentação de terras para o traçado da estrada para Vila Fernando e construiu-se, com a ajuda das máquinas da quinta do Crespo, num terreno da família dos Marques/Pissarra, um campo de futebol. Ali se fizeram vários jogos, destaco, e com bastante assistência, os embates, com a Santa Ana, Vila Garcia, Vila Fernanda, isto no verão. Outros jogos houve, durante o ano letivo, mas, por estar no seminário, nada sei. O milagre dos maços de tabaco americano em Vale Carros, em 1975, para além ser a origem do vício da nicotina levou também, como represália, à morte, pela lavra, deste campo de futebol. Na rádio Altitude, passou o primeiro comunicado da juventude de Vila Mendo que, numa linguagem politicamente correta para a época “atacou” quem estragou o nosso local de divertimento. Foi-se o campo… ficou o jeito demonstrado pela nossa juventude… e Vila Fernando aproveitou. Ainda recordo termos sido nós os primeiros a derrotar o Albardo no seu próprio recinto (4 a 1). A tática desse jogo… Zé Albino na “ponta parada”… e por aí marquei eu três golitos. Recordo também os torneios no Rochoso… sempre na final e sempre roubados… perdemos! A nossa maior goleada foi ao Marmeleiro (9 a 0), no Rochoso, num desses torneios. Vila Garcia e Barracão eram equipas a abater. Foram raras as equipas que nesse período nos “levaram à parede”. Depois passámos a jogar por Vila Fernando, nos campeonatos do INATEL que se seguiram até 1979, éramos 5 ou 6 jogadores titulares. Ficaram na memória os jogos na Mêda, em Escalhão e com a Estação da Guarda, que num domingo de muita chuva, jogando apenas com nove jogadores (cinco de Vila Mendo) lhes ganhámos. Nessa altura, ninguém da nossa terra se federou… não havia transporte. No entanto, nos domingo em que Vila Fernando não jogasse, havia sempre um carro que passava pela nossa terra para levar alguns “internacionais”…e,  por vezes, para homem do apito. O auge da fama de bons jogadores aconteceu em 1977, quando constituímos a equipa dos "Invictos", para o 1.º torneio de futebol 5 organizado na cidade da Guarda (foi o início do célebre torneio da Primavera). Participaram 64 equipas… nós ficámos em 2.º lugar e ganhámos a taça do “fair play”… as Lameirinhas venceram. No ano letivo seguinte, choveram convites para jogarmos em  equipas federadas.
Após a final dito torneio, fui convidado a ir mostrar a habilidade à Associação Desportiva da Guarda e, enquanto esperava pelo início do treino, brincava com outros atletas quando treinador grita comigo questionando-me sobre a minha presença… deixo logo a bola e… vai daí começou a época do atletismo. De 77 até 79, o Carlos, eu, o Pereira, o Manuel Silva e o meu primo António Terras, muitos quilómetros corremos. As festas de verão das aldeias passaram a incluir provas de atletismo com distâncias de 7 a 10 km. Só me lembro de não ter ido para Vila Mendo um primeiro lugar (nesse dia, quis estrear umas sapatas e o resultado… as unhas grandes dos pés para o lixo). Recordo a primeira prova de Vila Mendo, a corrida da casa do povo de Vila Fernando, a prova da festa de S. Francisco, a prova organizada pelo Inatel em Vila Garcia (ganhámos em três escalões), mas foram as três provas no Rochoso aquelas que me deram mais prazer de vencer. Ao nível da cidade da Guarda, os resultados não foram tão famosos… mas sempre nos dez primeiros.
Também em 1977, os Terras (o Tó, o Manel, o Zé e o Ismael) conquistaram o primeiro campeonato de xadrez por equipas da cidade da Guarda… fomos autodidatas nesta modalidade.  Representámos a Guarda nas 1.ª Beiríadas, em Coimbra, jogando xadrez. O Tó Terras continuou…venceu pelo menos um torneio em Pousade (na final venceu a futura campeã nacional Aida Ferreira), enquanto eu ganhava o torneio de ténis de mesa. O “pingpong” que apresentávamos era de grande nível, sobretudo o serviço que, apesar de cumprir as normas, era mortífero… a mesa da casa do povo de Vila Fernando era como se fosse “nossa” (minha e do Manuel Silva)!
Relativamente aos jogos tradicionais, ombreávamos com Vila Fernando (Sr. Carlos alfaiate e o Sr. Joaquim da gata eram os melhores na malha), pelo que representámos a freguesia em vários torneios, nomeadamente em Escalhão. A sueca, a exemplo de hoje, também era jogada… e como sempre “o bié-las ganhava ao sabias” (do Sr. Zé Bragança).
Claro que haveria muito mais para recordar… nomes para citar… episódios pitorescos passados no antes, durante e nos finais dos jogos, mas não quero melindrar ninguém…pelo esquecimento.
Uma coisa é certa, a rivalidade entre Vila Mendo e as outras aldeias não desapareceu, mas o desporto socializou-a e as pedradas deixaram de ser a forma “revolucionária” de correr com o adversário.


                                                                                         Zé Domingos

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Vozes da Terra- Manuel Corte

Vendedores Ambulantes e outros Viandantes (anos sessenta)
Com os produtos transportados à cabeça, em mulas, carros de mão, burros e outros, vinham até nós a peixeira do Adão que vendia à dúzia ou ao quarteirão (25 unidades) as deliciosas sardinhas e três chicharros, com 25 a 30 centímetros de comprimento, pelo preço de 2H50 (dois escudos e cinquenta centavos), valor equivalente, hoje, a um cêntimo e vinte e cinco!
O azeiteiro que vinha do Mondego (Lageosa, Faia ou Aldeia Viçosa) fazia-se transportar na sua mula e oferecia-nos o delicioso produto (azeite) que comportava em “odres” (pele de animal, devidamente limpa e com a parte inferior da mesma volta para dentro fazendo lembrar sacos do tipo alforges que caiam cada uma para seu lado da mula).
Surgiu também o "petroleiro" (ou azeiteiro) com a sua carroça puxada por mulas vendendo entre outros bens : açúcar, massas, bacalhau, arroz e muitos outros congéneres, dando o seu sinal de chegada com a corneta de latão.
Dos lados do Sabugal, mais propriamente da Nave, vinha o Sr. Manuel Portas e do Toito vinha o seu irmão, o Sr. Zé Portas que capavam (castravam) os suínos (gorrilhos), porcos de raça preta oriundos do Alentejo. O seu anúncio era feito por uma gaita-de-beiços.
Não queria descurar o tão conhecido Carlitos das Facas e Foices que coxeava perante a presença de alguém e corria como desalmado quando se apercebia que não estava a ser visto!
O Sr. Chico das Bananas, nome por que era vulgarmente conhecido, irmão da Senhora Zulmira de Vila Fernando, vinha da Covilhã com cestos de Verga e trazia-nos as laranjas, as bananas, os figos, os pêssegos e outros frutos que trocava por batatas, ovos, ou galinhas.
Também semanalmente, ao Domingo pela manhã, vinham, o Sr. Manuel Barbeiro e o seu filho Sr. José Barbeiro, cortar o cabelo e barba aos seus clientes num espaço anexo à casa do S. Elísio da Fonte, no lugar da Amoreira, onde se juntavam vários homens, para gracejar e falar da vida rural. O Barbeiro era, na falta do médico, o curandeiro/enfermeiro que administrava injecções. Como o dinheiro era escasso, cobrava o seu trabalho em géneros: centeio, milho, feijão, batatas… e este contributo era feito anualmente.
A “Ti” Leopoldina do Monte Carreto, e avó da Cristina do Zé Albino, ia com frequência à Espanha(Fuentes de Oñoro) trazendo consigo entre outras coisas: trigo espanhol, óleo de fígado de bacalhau, alpergatas e o doce “Ceregumil” que a minha saudosa mãe nos dava para abrir o apetite. Esta pequena actividade era denominada por contrabando, pois tudo o que se levasse para além fronteira ou se trouxesse estava sujeito a coima ou a ficar sem o produto.
Radicado no Adão, mas descendente do Dominguiso, Covilhã, vinha o Luís Moco acompanhado do filho oferecendo vários tecidos, entre eles o conhecido “Serrubeco”, tecido quente que também era usado na confeção de calças e usado na feitura do capote tradicionalmente engalanado com a gola de raposa.
O “Ti” Domingos de Argomil também era visita obrigatória todos os meses: pedia esmola para sua subsistência e pernoitava com frequência em casa da Senhora Professora, Dona Noémia (Antónia) de Vila Garcia.
Os Latoeiros ou caldeireiros também eram presenças habituais na nossa aldeia. Consertavam pequenos orifícios em tachos, panelas de ferro, caldeiros, baldes de extrair água dos poços ( “ógar” os poços), entre outros trabalhos. Faziam, a pedido do cliente, caldeiros de zinco, copos de nora, assadores de castanhas, etc… Um destes “funileiros” fazendo-se acompanhar por uma das suas filhas, que aleijada de uma das mãos pelo próprio pai, batia com o martelo duas vezes no objecto e uma na mão da pequena cantando ao mesmo tempo a seguinte quadra:

O pintor pintou Santa Ana
Também pintou Santa Leonor
Pintou a Senhora de Fátima
Com tinta da mesma cor

Como recordar é viver, voltarei a este espaço de memórias com mais relatos e factos das minhas vivências de meninice.
                                               Manuel Corte


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Vozes da Terra- Padre Carlos Fonte

Sou um cidadão de Vila Mendo. Nasci 5 de setembro de 1959, filho de Joaquim Gonçalves da Fonte e de Prazeres da Silva Terras. Tenho dois irmãos: o José Domingos e o António Terras e duas irmãs: Maria dos Anjos e Joaquina Clara.
Os meus pais sempre nos educaram no respeito, na delicadeza para com os outros e a saber conviver condignamente com as crianças da nossa idade. Quem levou a nossa educação mais a sério foi a minha mãe, já que o meu pai foi para a França quando eu tinha dois anos, de onde regressou quando tinha 11. Depois fui para o seminário de Vila Viçosa e mais tarde para Évora. Ordenei-me sacerdote a 14 de dezembro de 1985.
Da minha infância recordo-me de uma Sra. Augusta. Um dia ao pôr-do-sol eu e outras crianças andávamos a brincar, nisto sentimos um carro a passar, coisa muito rara nesse tempo. Fomos todos a ver quem era. Era o Sr. Doutor, o médico de Vila Fernando, que vinha consultar a Dª Augusta. Eu, como lareto que era, metia a cabeça e os olhos em tudo para ver. Passados uns momentos vejo duas mulheres, (não digo o nome com respeito às pessoas) com um candeeiro a petróleo a irem à sala de estar. Abriram uma gaveta onde vi tanto dinheiro, coisa que nunca tinha visto até aqui. Eram vários molhos de notas. Pegaram numas notas e pagaram ao médico. Com esta admiração, falei disto à minha mãe.
A Sª Augusta morreu e dizia-se por todo o lado que o sobrinho Valdemar tinha roubado a tia, pois não havia dinheiro nos bancos nem em casa. Eu penso que a minha mãe teria contado a alguém o que se tinha passado comigo. Certo dia, vinha com as vacas uma dessas mulheres, que tomavam conta da D. Augusta, esperavam-me a mim mais a minha mãe. Ela perguntou-me se era verdade ter visto tanto dinheiro na casa da Sª Augusta. Eu respondi que sim, que era verdade. Parti rapidamente para o largo da escola já que os meus colegas andavam a jogar a bola.
À noite veio a outra mulher à nossa casa, enquanto a minha mãe fazia a ceia, a fazer a mesma pergunta à qual respondi que sim. Essa pessoa disse à minha mãe que eu estava a mentir com quantos dentes tinha na boca e pediu-lhe para me bater, ao que minha mãe disse não, se dizia a verdade, porque havia de bater no filho.
Passados uns longos anos zangaram-se entre elas, e veio-se a saber que era verdade. Pois uma ao chegar a casa disse para o marido: "J” trago aqui 20 mil escudos da tia Augusta". Ora, isto multiplicado por quatro, era uma grande soma naquele tempo.
Isto só serve para dizer e acentuar a forma como a nossa mãe nos educava e como era e é importante  a Verdade.
Recordo o jogo do "Fito". Duas pedras na mesma direção, e outras duas no lado oposto. Jogava-se com duas equipas dois de cada lado, quem derrubasse primeiro tinha o prémio de ser levado às cavalitas para o outro lado oposto e continuava assim o jogo.
Recordo o jogo "aí vai alho", eram 4 ou 5 de cada equipa, um encostava-se a uma parede e os 4 “amochavam”, enquanto os outros pulavam para cima até se contar uma certa quantia de números, senão se conseguia começava-se tudo de novo, se aguentavam trocavam-se as posições.
Aos domingos depois da missa ou jogávamos à bola com outra terra vizinha ou entre nós. Também íamos para a ribeira aos peixes ou simplesmente nadar, na ribeira ou nos tanques do Dr. Crespo.
Vila Mendo deve orgulhar-se de si mesma: é muito solidária, a entreajuda era constante entre todos principalmente na tira das batatas, nas malhas do centeio ou no recolher do feno. É uma terra pequena do concelho da Guarda mas onde existem pessoas formadas em vários serviços: só falta haver um Primeiro-Ministro e um Presidente da República!
Tenho muito orgulho de pertencer a esta terra.
Agradeço a todos pelo que têm feito por ela. A todos o meu muito obrigado.

                                                                P. Carlos Fonte

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Vozes da Terra- Manuel da Silva Gonçalves

Vila Mendo nos anos sessenta
Preâmbulo
Ao aceitar o desafio de escrever um artigo sobre Vila Mendo surgiram vários temas passíveis de abordar mas, atendendo à carreira profissional que abracei um deles, naturalmente, impôs-se a todos os outros - A Escola.
Evidentemente, que nesta abordagem sobre a importância da escola primária numa pequena aldeia do interior do país na segunda metade do séc. XX, não deixarei de referir alguns aspetos sociológicos que, do meu ponto de vista, ajudam a contextualizar e a melhor compreender o dia a dia desta comunidade.
Num artigo desta natureza onde o narrador não tem distanciamento temporal e afetivo pode inevitavelmente incorrer em alguns detalhes de análise que importa nesta nota prévia ter em consideração:
- A interpretação das vivências que perduram no baú das minhas memórias poderá surpreender alguns dos leitores e, por razões óbvias, omitirei nomes quando a descrição de alguns factos for, de algum modo, incómoda para os próprios personagens ou familiares;
- O facto de residir longe da aldeia natal não me permitiu fazer a recolha rigorosa de informação como seria desejável, até para confirmar alguns dos relatos orais que suportaram alguns factos especialmente relacionados com a construção da escola.
A Escola
A construção da escola na aldeia tornou-se uma necessidade nos finais da década de quarenta porque a escola da sede de freguesia estava sobrelotada e, naturalmente, Vila Mendo como a anexa mais populosa e, portanto, com maior número de crianças e jovens em idade escolar, associada ainda ao facto de ser, depois da Aldeia de Stª Madalena, a mais distante da freguesia, teve prioridade perante as outras anexas.
Para o aumento da população terão contribuído, supostamente, alguma prosperidade local com a exploração do minério durante a segunda guerra mundial e com o comércio de ovinos e porcinos, feito pelas famílias mais abastadas. Às famílias numerosas dos naturais com destaque para os apelidos cortes, cristinas, bernardos, marques, gregórios, capelos, domingos, andrés, inácios, braganças, soares, ritas, maximinos, abreus,…juntaram-se novas famílias que vieram trabalhar de caseiros como os pereiras, os casonas, os patrícios, os espinhas, etc. De referir ainda que na época os agregados familiares tinham em média seis a sete filhos.
O analfabetismo era generalizado, poucos eram os residentes que tinham a 4ª classe, pois os três quilómetros que pela estrada antiga ligavam a aldeia à sede de freguesia onde se situava a escola, sem transportes privados ou públicos, levavam a que muitos desistissem da escolaridade. Ainda assim, predominavam no sexo masculino aqueles que tinham a terceira e a quarta classes porque o sentimento relativamente ao sexo feminino era discriminatório e comumente afirmava-se que as mulheres não precisavam de saber ler. As exceções, relativamente às mulheres que sabiam ler, pertenciam a famílias que tinham parentes em localidades com escola e temporariamente saíram da aldeia para adquirir instrução básica ou então outras que se fixaram aqui através do casamento.
O padre Júlio tomou a iniciativa de reunir a população, provavelmente após alguma missa por alma de algum defunto recente e sensibilizou os principais representantes da comunidade para que o projeto da construção da escola avançasse.
Pela informação que consegui recolher não houve quaisquer ajudas estatais, da câmara municipal, da junta de freguesia ou até da própria paróquia para a construção do edifício escola. Portanto, a comunidade teve de suportar os custos deste edifício e contribuiu essencialmente com o trabalho: transporte em carros de bois da pedra que foi cortada nos terrenos da moita longa e na quinta de vale de carros.
Para pagar outros materiais e a mão de obra especializada - os pedreiros e carpinteiros – venderam-se duas parcelas do baldio, mais de 50% da área, aos senhores Manuel Domingos e Manuel Gregório. Os pedreiros pertenciam à família Marta de Vila Fernando, enquanto que os carpinteiros vieram das Pousadinhas e Monte Carreto.
A família corte cedeu os terrenos não só da implantação do edifício mas, também, o próprio recreio ou largo da escola e ainda uma pequena área que ficava nas traseiras da escola e que de forma abusiva, mais tarde, veio a ser vendida pela junta de freguesia.
O edifício não respeita a tipologia utilizada então, o designado “Plano dos Centenários” que foram edificados por todo o país depois de 1935, esta é uma arquitetura simples, de linhas direitas com duas águas, orientado poente/nascente, só de rés do chão, com 17m de comprimento por 8m de largura, aproximadamente; no alçado principal duas portas altas e 5 janelas rasgam os blocos de granito da fachada principal; no alçado tardoz, 3 janelas grandes e uma pequena que dá para os arrumos que ficavam a seguir ao hall de entrada. O espaço interior dividia-se, essencialmente, em dois espaços – a sala de aulas e a casa da professora.
O acesso à sala de aulas fazia-se pela porta poente que dava para um hall onde havia uma zona com bengaleiros e ao fundo uma pequena divisão para arrumos onde mais tarde fizeram uma casa de banho. Sim, porque no projeto inicial não havia casa de banho a exemplo de todas as restantes casas da aldeia. Evidentemente que não havendo saneamento básico nem eletricidade como poderia ser feita a limpeza diária dos sanitários? Por outro lado esta necessidade certamente não foi considerada uma prioridade para os mentores do projeto. Saberiam eles o que era uma casa de banho? Havia uma bacia numa estrutura metálica que servia de lavatório no hall que dava para a sala de aula. Relatarei mais adiante como foi encontrada a solução para este problema no tempo em que frequentei a escola.
A sala de aulas de forma retangular com 7m x 7,40 m, o que perfaz 51,8m2, com soalho e teto em madeira, com 3 janelas para o pátio e duas para as traseiras. Nas paredes um quadro de ardósia ao fundo, um crucifixo na parede e os quadros dos governantes Salazar e Tomás. Três filas com 4/5 carteiras com dois lugares cada, uma secretária com a respetiva cadeira, uma salamandra ao fundo à esquerda amenizava o ambiente nos dias frios de outono e inverno, equipavam o espaço.
O material didático resumia-se ao Mapa de Portugal e das Regiões Ultramarinas, um globo e uma caixa métrica.
A casa da professora, hoje o bar da Associação, tinha divisões em madeira e, se a memória não me trai porque com o 25 de abril este espaço foi modificado, tinha à entrada um espaço tipo sala de estar, com uma janela e uma porta que permitia o acesso interior à sala de aula, à direita a cozinha com lareira e uma janela para o pátio, ao fundo à direita uma sala contígua à cozinha com uma janela para as traseiras e do lado oposto um quarto sem luz exterior.
Foi neste espaço escolar, numa aldeia beirã, com menos de duzentos residentes, que ao longo de mais de meio século as crianças tiveram oportunidade de fazer os primeiros anos de escolaridade, de abrir horizontes que só o conhecimento permite .
Por aqui passaram professoras regentes e professoras diplomadas como se dizia na época. Vieram de localidades próximas e poucas ficaram a residir na casa da escola. Os apelidos da maior parte das docentes não consegui apurar, por isso indico a localidade a que pertenciam: Capitolina - de Pousade, Clara - da Gata, Aida Maria e Irene - de Albardo, Alcina – de Monte Carreto, Aida – de Malcata, Ana Calçada – do Penedo da Sé, Olinda e Arlete Pissarra – de Vila Garcia. A última professora a lecionar na aldeia foi a Arlete Pissarra no ano lectivo 2004/05 ou 2005/06.
Este rebuscar de memórias ficaria incompleto se não expressasse o que foram os meus primeiros quatro anos de escola primária, alguns episódios marcantes e reveladores da ausência de qualidade pedagógica, da impreparação para ensinar, da selvajaria praticada pela I. sobre alguns dos meus condiscípulos. Falo concretamente de factos ocorridos nos anos letivos entre 1964 e 1968. Devo acrescentar que o estilo de ensino que se denuncia não foi infelizmente um caso isolado mas fazia parte do sistema vigente, num tempo em que educar se confundia com maltratar. Não podemos esquecer que para o ditador Salazar qualquer “pastor”, sem desprimor para esta profissão, poderia ensinar a ler e a escrever. A autoridade do professor não se questionava como nos tempos que correm...
Quanto à “pedagogia” aplicada pela referida senhora vou deixar-vos alguns exemplos: agarrar os cabelos da H. P. e bater com a cabeça da aluna no quadro; colocar o aluno de joelhos virado para a parede; x reguadas por erro ou por problema mal resolvido, etc. Mas de todos os castigos aquele cuja imagem eu retenho e que não mais esquecerei, foi aplicado algumas vezes a duas alunas que tinham dificuldades de aprendizagem mais acentuadas que os restantes, refiro-me à H.M. e à P.P. – a professora entalava a cabeça destas alunas entre as suas pernas, levantava-lhes as saias e malhava naqueles rabos virados para a turma, com a régua que o carpinteiro senhor José André lhe havia feito (uma tira de madeira polida com mais ou menos 55cm x 8cm x 2cm), até se cansar. Era uma desumanidade! A pobre da H. tinha a particularidade de não soltar um gemido ou uma lágrima perante estes maus tratos e isso mais contribuía para que a docente se enfurecesse e a pancadaria continuasse.
Lembro-me que na sequência de um destes ”tratamentos” à P.P., a mãe da aluna foi pedir explicações à professora e durante a discussão a encarregada de educação, a senhora M.P. incentivou-nos a cantar o hino nacional e a turma não se fez rogada e desfiou por completo A Portuguesa, perante o ar incrédulo da regente. Solidarizámo-nos desta forma com os protestos.
Alguns anos mais tarde, compreendi que certamente fui poupado a alguns castigos físicos porque o meu avô que era da mesma terra da professora I., lhe havia feito uma espera e a avisou que tivesse cuidado com a forma como tratava os netos dele. Certamente que percebeu a dica!
Durante os anos que frequentei esta escola a solução encontrada para a inexistência das casas de banho foi utilizar os caminhos e terrenos adjacentes à escola para urinar e defecar. No entanto, isto fazia-se com separação de sexos, às meninas estavam reservadas a área das traseiras da escola e o acesso à tapada velha, aos rapazes estava destinado o caminho da barroca que dá acesso ao Monte Carreto.
Recordo que cada um de nós tinha o seu próprio urinol. Não era mais do que uma poça feita na terra junto à parede. Caprichávamos no arranjo da mesma e do seu escoamento, sempre com respeito pelas dos colegas, faziam-se alguns concursos sobre quem conseguia que o líquido percorresse maior distância.
Ainda hoje me interrogo, como resolveria a professora as suas necessidades fisiológicas?
Material Escolar
Os materiais escolares não tinham a diversidade que existe hoje: livro único, ardósia com ponteiro, sebenta para os deveres, caderno de duas linhas, lápis de cor, lápis de carvão, caneta de aparo e mata-borrão, sacola de tecido feita pela mãe, com uma alça comprida que permitia a colocação a tiracolo.
A caneta de aparo era formada por uma pega de madeira em forma cónica e na extremidade mais grossa tinha um aparo metálico rasgado no sentido longitudinal, do tipo das canetas de tinta permanente. Esta caneta era o verdadeiro terror dos alunos porque tínhamos de fazer as cópias e as provas com este utensílio.
As carteiras tinham um tinteiro ao meio onde nós molhávamos cuidadosamente o aparo e fazíamos então a cópia. Esta tarefa era muito delicada, exigia uma motricidade fina bem adquirida por parte do executante e era fundamental que a quantidade de tinta fosse bem calculada, pois à mínima distração caía um pingo na página e dava-se mais um pretexto para a régua aquecer as mãos. O mata-borrão minimizava os estragos porque servia para embeber a tinta.
A ardósia era o nosso quadro em ponto pequeno, era o nosso magalhães/tablet sem software.
De formato retangular um pedaço de xisto polido com, aproximadamente, 25cmx18cm, com caixilho de madeira de pinho. Um ponteiro igualmente de ardósia com o qual riscávamos a pedra, completava o conjunto.
Aqui podíamos corrigir aquilo que não estava em conformidade, uma pequena esponja ou um pedaço de tecido molhado, qual tecla DEL, apagava tudo.
Um verdadeiro quadro mágico!
Ai que saudades ai, ai!
O Recreio
As nossas brincadeiras limitavam-se a jogos de pequena organização e com recurso a materiais que nós próprios produzíamos ou recolhíamos da natureza: a apanhada (agarrar como dizíamos), o jogo do bugalho, o saltivão da corrida (parecido com o salto ao eixo), o jogo do fito (tipo jogo da malha mas jogado com pedras), o jogo do lenço, o jogo do anel, o jogo do prego ou do espeta, a chona, etc.
O futebol não se jogava, simplesmente, porque não havia bola.
A Comunidade
A década de sessenta representou para a aldeia, do meu ponto de vista, um marco de viragem no modus vivendi da comunidade.
A população vivia essencialmente da agricultura de subsistência e da pastorícia. Para além destas ocupações havia, em part-time, um ferreiro, um carpinteiro, um alfaiate, um barbeiro e um aprendiz de sapateiro remendão, duas famílias de negociantes de gado e uma pequena taberna pertencente aos pissarras onde se faziam pequenos aviamentos.
Predominavam os rebanhos de ovelhas e cabras, a força do gado bovino, as vacas amarelas, era utilizada para amanhar as terras e fazer o transporte das culturas. As pequenas cargas eram feitas às costas ou à cabeça. As tarefas que exigiam muita mão de obra (as ceifas, a debulha do centeio, as matanças, as sementeiras, a tira das batatas, os fenos, …) eram feitas com verdadeiro espírito comunitário, com muita entreajuda.
A generalidade das pessoas vivia com dificuldades. A alimentação baseava-se nos produtos cultivados e na criação de animais onde se inclui as aves de capoeira. O forno comunitário não tinha tempo para arrefecer, juntavam-se duas ou três famílias e cozia-se o pão que dava para duas semanas. Não se pode afirmar que havia ricos ou pobres no limiar da miséria, no entanto duas famílias distribuídas por vários agregados familiares destacavam-se pelo extenso património e rivalizavam entre si no domínio da aldeia – os cortes e os cristinas. Esta rivalidade terá raízes que desconheço e a sua importância sob o ponto de vista das relações na comunidade merecia uma análise mais detalhada que não é, de todo, objeto deste artigo. Talvez o facto de ambas as famílias se dedicarem ao negócio de gado tenha contribuído para essa rivalidade.
Lembro-me de um dia no regresso a casa vindo da escola, com sete ou oito anos, ainda presenciei perto da casa onde vivia as marcas de sangue daquele que terá sido o maior barulho de que há memória na aldeia e que envolveu os adultos das ditas famílias. Aquilo meteu sacholada, “estadulhada” e pedrada, entre pais e filhos das duas famílias rivais, tendo alguns deles ido para o hospital da Guarda receber tratamento. Valeu a intervenção de terceiros para parar a zaragata, nomeadamente a minha mãe e o senhor Manuel Gregório, pois se isso não tivesse acontecido alguns dos intervenientes teriam perecido e outros enfrentariam as consequências com alguns anos de prisão.
Dizia eu que a década de sessenta representa para a aldeia o epílogo de um medievalismo que perdurava devido ao isolamento da localidade. As trocas comerciais geralmente faziam-se com trabalho ou com a entrega de produtos agrícolas nos momentos das colheitas. Alguns exemplos:
• a possibilidade de cortar lenha que ajudava a limpar os terrenos ou um empréstimo de dinheiro ― dias de trabalho (nas sementeiras e na tira das batatas, nas recolhas dos fenos ou na debulha do centeio);
• corte de cabelo ao longo do ano ― um alqueire de centeio;
• côngrua ao pároco ― era em função do poder económico do agregado familiar (os meus pais pagavam 10 litros nos primeiros anos de casados) mas poderia ir até à ½ fanega;
• ao dono do boi de cobrição e ao barbeiro clínico pagava-se igualmente em alqueires de centeio ou em sacos de batatas.
A industrialização tinha dado os primeiros passos há duzentos anos em Inglaterra!!!
Os transportes praticamente não existiam, no início desta década havia duas ou três bicicletas pasteleiras, as pessoas deslocavam-se a pé ou a cavalo; na segunda metade da década chegavam entretanto os primeiros motores de rega, um ou dois tratores e três ou quatro motorizadas.
Mas a aldeia tinha vida, por todo o lado ouvia-se assobiar e cantar, as carroças chiavam pela calçada, os rebanhos desfilavam em procissão, nos campos as noras e as picotas davam vida ao renovo, do lanceiro chegava a espaços o pouca-terra-muita-terra do trama e o apito de aproximação à estação ou ao apeadeiro. Nos lavadouros públicos, as mulheres lavavam as roupas e gastavam a língua. Nas tardes soalheiras de inverno as matriarcas cosiam as meias nos alpendres ou nos recantos mais abrigados, desembrulhavam as cabeleiras e catavam os filhos.
Nesta década a emigração para a França dá os primeiros passos, antes já alguns agregados familiares tinham saído para o Brasil, depois muitos se juntaram aos pioneiros. Famílias inteiras abandonaram a aldeia na busca de melhores condições de vida, o estrangeiro ou as cidades do litoral foram os destinos de mais de 70% da população.
A canção Ei-los Que Partem, de Manuel Freire, ilustra o sentir de todos os que partiram, a chamada diáspora portuguesa.
A emigração e a mecanização da agricultura constituem os principais fatores de mudança que enunciava neste capítulo. Consequências: mais terrenos disponíveis para os que ficaram e a inevitável reconversão da agricultura tradicional com a substituição dos meios de produção pelas máquinas agrícolas; aumento das produções agrícolas que juntamente com a chegada das vacas leiteiras aumentou o rendimento para a generalidade das famílias.
A aldeia começou a sair do isolamento, enquanto o regime político no país caminhava para o colapso, a prosperidade e a qualidade de vida tornaram-se uma realidade para todos. A massificação do ensino dava os primeiros passos.
Estes sinais são, efectivamente, percursores de mudança, direi mesmo que a década de sessenta representa para a povoação um virar de página.
Hoje, a Escola deu o lugar à sede da coletividade, ponto de encontro dos que teimosamente resistiram à desertificação e daqueles que temporariamente matam saudades da terra natal.
Atualmente, vivem na aldeia cerca de cinquenta moradores e a esmagadora maioria tem mais de cinquenta anos. Nos últimos vinte anos nasceram na aldeia menos crianças do que nasceram em 1958, ano em que eu nasci.
Estaremos perante um fim anunciado?

Nota:
Não posso terminar este artigo sem expressar os sinceros agradecimentos a todos os que colaboraram nesta pesquisa, particularmente aos meus pais e tios que, apesar da provecta idade, me transmitiram informações preciosas relativamente à edificação da escola.

2012/12
Manuel da Silva Gonçalves