Mostrar mensagens com a etiqueta Memórias de Vila Mendo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Memórias de Vila Mendo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Vozes da Terra- Manuel Corte

"Desenlaces do centeio"- (anos sessenta)
O centeio em grão, após a sua debulha, era armazenado em casa de cada um, em arcas de madeira que, por sua vez e nalguns casos, era dividida em dois ou três compartimentos a fim de também comportar em simultâneo o milho e algumas leguminosas, tais como o feijão, grão de bico (gravanços) e feijão frade ( Chícharo).
A farinha utilizada na confecção do pão era moída por mós de pedra, movimentada pela força motriz da água nos moinhos do Sr. Domingos Espinha, na Quinta do Moinho em Vila Garcia e do Sr. João Moleiro no sítio das Levadas ao pé do mercado de Vila Fernando. Apraz-me registar que este último moinho é pertença do Isidro silva e se prevê a sua recuperação.
Eram os moleiros atrás descritos que passavam na casa dos fregueses, com carroças de rodas altas puxadas por uma mula, a oferecer os seus préstimos. Levavam o centeio em grão em sacas de sarapilheira e, ao mesmo tempo, eram fornecidos pelos clientes os sacos brancos de linho denominados de “talegos” que devolviam com a farinha após cobrarem a “maquia” (valor equivalente à percentagem acordada). Neste período nenhum destes produtos era pesado. As medidas convencionais eram a “quarta” e o “alqueire”.
Na confecção do tão saboroso pão seguiam-se os seguintes passos: A farinha era peneirada por forma a extrair-lhe algum farelo, seguia-se a amassadura em maceiras de madeira conjuntamente com água, sal e levedura de fermento. Ficava a fermentar durante algumas horas coberto com um lençol de linho e um cobertor, em dias mais frios.
A tarefa de aquecer o forno cabia aos homens que, quando se tratava de o “desamuar”, levava um carro de bois de lenha. Este procedimento era rotativo porque logo que se iniciasse a cozedura do pão, de bolas de azeite e de bolas de carne toda a comunidade o fazia em dias seguidos, evitando assim mais lenha no seu aquecimento.
O forno estava quente e as mulheres dividiam a amassadura por porções a dar lugar a uma bola que punham no tabuleiro para ser transportado às costas para o referido local. Usavam o “varredouro” de trapos molhados para varrer e arrefecer o “lar” e, de seguida, mergulhavam-no na pia ali existente para que não ardesse.
Seguia-se o meter do pão no forno. Este levava na sua crosta sinais que indicavam o pão de cada um. Uma hora e meia a duas horas depois a sua cozedura estava pronta e o pão era para durar cerca de quinze dias. Enquanto alguém ficava por ali a tomar conta das operações, havia, por vezes, quem levasse batatas miúdas, as lavasse somente e, com a casca, as colocasse nas brasas sobrantes à entrada no forno, comendo-as logo que assadas “chamando-lhe um figo”!..
Voltarei a este espaço de memórias!..
                                                                                                      Manuel Corte

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Vozes da Terra- Manuel Corte

O que a seguir descrevo reporta-se à minha memória e tempos vividos na nossa aldeia Vila Mendo.
Na generalidade todos os residentes viviam daquilo que a terra dava, com pequenas excepções; algumas famílias dedicavam-se ao comércio bovino, ovino, caprino e suíno. Todos os terrenos eram cultivados, quer para plantações (batata, feijão, hortaliças…) quer para o cultivo de cereais (milho grosso, milho miúdo e centeio). O dia era inteiramente passado no campo e os meninos de tenra idade também acompanhavam os seus pais. A vida era alegre e feliz, mesmo para aqueles que pouco ou nada tinham.
Ao romper da aurora e ao cantar do galo todos despertavam para a jornada. Cada casa albergava em comum galinhas, coelhos, vacas, porco, burro, cães, gatos… Quem não conhece o ditado “se o mal não dobra galinha não prova”. Como falei de galinhas o seu papel era pôr ovos porque só era abatida em dias de festa ou quando o seu dono estava para partir. O porco era o bem fundamental na alimentação de cada lar; para além do presunto e dos enchidos sobejamente conhecidos por todos, havia alguma carne que se guardava na salgadeira, coberta por sal e que perpassava de ano para ano.
Analisemos o que a vida mudou!..
A água dos poços era tirada a balde pelos “picanços”, que mais tarde deram origem às tão cobiçadas “noras” e só nos anos 60 se implementaram os motores de rega que deram aso às moto-bombas actuais. Curioso e digno de registo: havia quem comprasse um ou mais burros para pôr à nora na Feira de S. João da Guarda (24de junho) e que vendia após as colheitas na Feira de S. Francisco (4 de Outubro); fica outra nota: havia quem pusesse dois “cambões” na engrenagem da nora a fim de engatar dois burros, o que fazia com que se algum quisesse parar o outro obrigava-o a andar!..
Havia tarefas no campo bastante árduas e que só podiam ser feitas pelo calor ardente do verão. As ceifas dos cereais eram feitas de forma geral por ranchos (4/5 homens e 15 ou mais mulheres e raparigas) e ainda as “camaratas” de homens (12/15) em especial do Azevo-Pinhel que tinham a particularidade de cortar o centeio com foice-gadanha. A acompanhar todo este pessoal andava o proprietário que abastecia de bebida o grupo e, ao mesmo tempo, ia pondo os molhos em “rolheiros”. De seguida era feita a “carranja”, o transporte em carros de bois que iria dar lugar à meda. Ainda registo a debulha do centeio ao “mangual”, mas em pequenas quantidades. Mais tarde surgiu a debulhadora (malhadeira), máquina de extrair o grão que, à época, era uma opção maravilhosa. Antes desta, de que temos um exemplar na aldeia, surgiram com rodas de ferro e motores a diesel “Lister” para se fazerem movimentar. A palha que saía dava lugar ao palheiro (amontoado em forma de cone que persistia ao temporal, em geral por vários anos).
Na “Eira” ou “Laja” eram necessários doze a quinze pessoas que se ajudavam mutuamente, cada qual com tarefas distribuídas, sendo de salientar os “vergueiros”, quatro a cinco homens que transportavam às costas as “faixas” de palha que davam origem à formação do palheiro.
Passemos à tarefa dos fenos: os lameiros eram cortados normalmente à gadanha marca “Sol” por grupos de três ou quatro homens que levavam cada um o seu carreiro ou "eito", seguindo uns atrás dos outros. Havia sempre alguém que dava o seu jeito especial no picar da gadanha, realizado com dois instrumentos de que a maioria se recorda: safra e martelo. O efeito do corte do feno dava de seguida lugar ao “espalhar, virar, emborregar e atar”. Faziam-se molhos de três faixas para dar lugar ao carregamento, transporte e armazenagem. O carro do feno, transportado por animais, equivalia a sessenta faixas. A denominada faixa era atada com nagalhos de palha devidamente humedecida, normalmente pela manhã, a fim de se tornarem mais macios e resistentes. A “emborregar” o feno, com o chamado ancinho, eram três a quatro pessoas para um a atar.
Se hoje achamos difícil o trabalho do campo, com todo o equipamento de que se dispõe, que seria se nos reportássemos a esses tempos… e não são tão longínquos, porque aqui me reporto aos anos 60/70. Voltarei a este espaço de memórias!
                                                          Manuel Corte

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Vozes da Terra- Mariana Gonçalves Costa

Mariana da Conceição Corte Gonçalves Costa, nascida no dia 31 de dezembro de 1966, em Vila Mendo.
Oriunda de uma família numerosa (de sete irmãos), cresci nesta pequena aldeia, onde frequentei a escola primária. Nos dois anos seguintes frequentei a Telescola, em Vila Fernando, tendo transitado posteriormente para a Escola Secundária Afonso de Albuquerque, onde permaneci até ao 12º ano. Mais tarde tirei a Licenciatura em Ensino Básico, variante Português/Francês, no Instituto Politécnico da Guarda.
Casada com o Luís, mãe do Rodrigo e da Inês, resido na Guarda, tendo recusado sempre afastar-me muito da aldeia que me viu nascer.
Uma memória: Todos os anos, após mais um ano letivo, as férias eram passadas em Vila Mendo.
Havia sempre tarefas a cumprir, trabalhos que nos eram destinados, tais como a limpeza da casa, a lavagem da roupa no tanque da aldeia, a guarda das vacas…
Nessa altura, com o regresso dos estudantes, e também dos emigrantes, a aldeia ficava repleta de gente, de vida. Era Vila Mendo no seu melhor, a contrastar com os invernos rigorosos, em que as pessoas estavam recolhidas nos seus lares, aquecidos pelo calor reconfortante das lareiras.
Um momento: Recordo como foi fantástico, quase mágico, o dia em que Vila Mendo inaugurou a sua iluminação. Finalmente, Vila Mendo tinha luz elétrica.
Os primeiros dez anos da minha vida foram passados sem este privilégio, que hoje em dia é tido como garantido, anos esses que, apesar de tudo, não foram menos felizes do que os seguintes.
As ruas deixaram de ser sombrias, os candeeiros lá de casa… era só ligar o interruptor e havia luz, muita luz!
A televisão, o frigorífico, que já tinham sido comprados havia muito tempo, finalmente funcionavam. “Uma Casa na Pradaria”, “O Astro”, “Heidi”(…) foram séries e novelas que me marcaram por serem dos primeiros programas a que assisti.
Depois de tanto tempo às escuras, nas noites longas e frias de inverno, a luz veio trazer mais comodidade às gentes de Vila Mendo.
Um lugar: A nossa casa. O nosso berço, a nossa referência, a nossa identidade…
Era aí que brincava com a minha irmã Graça, depois de termos terminado todas as tarefas que nos estavam destinadas. Calçávamos os sapatos da nossa mãe, com um bocadinho de salto, carteira ao ombro, e “visitávamo-nos” como se cada quarto correspondesse à sua própria casa.
Foi ali que cresci, que vivi até aos 24 anos, que me tornei na pessoa que sou, com os meus princípios, ideias, forma de estar na vida.
O adulto, é quase sempre o resultado daquilo que se foi, se viveu enquanto criança.
Uma pessoa: Falar de uma pessoa é, para mim, uma tarefa impossível, pois não sou capaz de evidenciar nenhum deles.
Assim, falo dos meus queridos pais, que sempre juntos, unidos, formando um só, partilhando as alegrias e as tristezas, fazendo sempre, em uníssono, o melhor por todos nós, educando-nos segundo os seus princípios e dando-nos o melhor que nos puderam dar.
Pessoas sempre prontas a ajudar os que deles precisavam, íntegras, respeitadoras, amigas…
Quantas vezes o meu pai transportou pessoas para o hospital, em momentos de aflição…
E a minha mãe, quantas injeções deu a quem delas precisava, quantas pessoas ajudou, apoiou em momentos de dor…
Muito mais haveria a dizer, mas palavras para quê? Quase todos se lembram do José e da Lídia, sabem das suas qualidades.
Um projeto: Gostaria de ver Vila Mendo reabilitado, com as casas recuperadas, com muitas pessoas a dar-lhe vida, como eu me recordo em tempos idos.
Para além disso, gostaria que o saneamento básico e a água canalizada fossem uma realidade, não uma miragem.
Eu já contribuí, de alguma forma, tendo recuperado a “nossa casa”, para ali podermos passar uma parte das nossas vidas, que espero sejam com qualidade.
Ali podemos celebrar, juntar a família, ser felizes!
Os meus filhos e sobrinhos, são alguns dos jovens que, mesmo não vivendo ali, amam Vila Mendo e é neles, no futuro, que devemos depositar a esperança de que um dia este projeto se concretize.



sábado, 8 de setembro de 2012

Vozes da Terra- Acácio Pereira

Texto segundo o acordo ortográfico de Vila Mendo
Falar de Vila Mendo, e sobretudo de memórias, das nossas memórias, é falar de um tempo e de uma organização social que já não existe, ou melhor quase não existe, porque o espirito desta gente e desta terra perdura e perdurará certamente; em Vila Mendo a afinidade não é só familiar porque cada habitante faz parte da nossa família, em sentido restrito ou num conceito mais alargado, e a alma desta gente é maior do qualquer outra, Vila Mendo marca é seguramente uma marca de referência.
Nasci em Vila Mendo em 1966, ano de boa produção e boa colheita, e passei aí a quase totalidade da minha infância até à juventude, e mesmo quando por motivos escolares ou profissionais estive longe, apenas o estive em distância quilométrica, porque sempre estive perto, mesmo muito perto, estive lá em pensar; ainda hoje, em qualquer parte de Portugal ou do mundo, quando me perguntam ou digo de onde sou, eu digo orgulhosamente, sou de uma aldeia próxima da Guarda, Vila Mendo.
A vida entretanto encarregou-se de me fazer partir para outras paragens, voltando à origem sempre que me é possível.
Memórias e momentos
As memórias são muitas, e são um misto complexo, de saudade, de nostalgia, de ternura e de reviver um tempo que já não volta.
Lembro-me perfeitamente do corrupio de gente que se encontrava na rua ou nos terrenos de cultivo e das luzes ténues das candeias a petróleo, acesas em todas as janelas, de uma ponta à outra da aldeia, porque a eletricidade ainda não tinha chegado e as ruas e casas não tinham iluminação elétrica.
Os miúdos eram mais que muitos, para jogar à espada lua, ao fito e à bola, quando havia bola para jogar.
O sistema de entreajuda e a vivência comunitária era uma realidade, as malhas do centeio eram o expoente exemplificativo, ninguém trabalhava por dinheiro, mas por troca ou mera ajuda, quando alguém adoecia, era sentido como se fosse um dos nossos e lá vinham as receitas da avó ou da vizinha; desembaçar para as distensões musculares, cortar as bichas em vez da desparasitação, escalda-pés para a constipação, e carneira de porco para a papeira ou trasorelho ou tesorelho, como ali se dizia.
Noutros tempos em que o mundo era maior, o nosso mundo era Vila Mendo e pouco mais, mas nem por isso para nós era menor, pelo menos tinha o tamanho da nossa imaginação; os engarrafamentos eram de vacas em direção ao chafariz, para beberem água, à saída ou à vinda da pastagem, o tempo tinha os segundos mais longos, havia tempo para tudo, e desse maldito stress, garanto-vos que ninguém nesta aldeia tinha ouvido ou sabia o que era, e a maior parte de nós não distinguia um elétrico de um quiosque, e sabem porquê? Resposta simples, nunca tinha visto nenhum.
No inverno uma mistura de lama, água e bosta de vaca, cobria todas as ruas, era preciso ver bem onde se punha os pés. Esta mistura era petisco para as galinhas que na rua se alimentavam à socapa dos guardas do Marmeleiro, que quando vinham, multavam os seus donos; digo-vos, não sei como se conseguia identificar o dono destes animais, mas bastava perguntar de quem eram, e as pessoas diziam e assumiam, gesto de seriedade misturado de ingenuidade e medo.
Dos sabores, a merenda, posso hoje comer a melhor lampreia, mas não me sabe como sabia a dita, comida a meio da tarde, à hora da merenda como se dizia, está na hora de merendar, sentado no chão, com as vespas ou abelhas amarelas a aparecerem de rompante atraídas pelo cheiro presunto.
Lembro o primeiro dia de escola, os sinos a rebate e muitas coisas mais.
Lugares
De muitos lugares me recordo, mas seguramente o largo da moreira, cujo nome lhe advém do tempo que naquele largo, naquela praça, existia uma amoreira, não sei se de amoras brancas ou vermelhas; também largo do chafariz, é aquele lugar que mais marca, porque era ali que pulsava o coração da aldeia, servia para lugar de tertúlia, como ponto de encontro, ponto de encruzilhada e quase passagem obrigatória, já para não falar da água que em mais lado nenhum me sacia a sede como aquela,
Uma Pessoa
O meu pai, Armindo Pereira, se por outro motivo não fosse, porque me deixou cedo demais, porque não nos despedimos e porque não acabámos de conversar; mas, variadas referências, me levam a falar dele e olhá-lo como exemplo, homem simples, reto e íntegro prezava a palavra, para comunicar e gracejar, honrava a palavra. Via nele uma grandeza de alma. Com ele aprendi o valor das coisas e da vida, entendi o que é ser generoso, reto e sincero e depois da sua partida aprendi a dar outro valor à vida.
Passado, presente e futuro
Para falar de futuro é preciso falar do passado, penso que não será nenhuma blasfémia se eu disser que Vila Mendo e toda a freguesia de Vila Fernando, sempre pensou pequeno, faltou sempre ambição coletiva e nunca soube aproveitar o facto de estar próximo da Guarda, está à distância tempo de 12 minutos, eu lembro para quem conhece, que 12 minutos é o tempo que vai do estádio da luz ao estádio de alvalade em hora de trafego médio, ou seja em termos práticos Vila Mendo é periferia da Guarda.
Perdoem-me a ousadia, por mais que custe ler e ouvir, à nossa terra faltaram políticos locais à altura dos pergaminhos do lugar. Já fez mais pela localidade a iniciativa associativa de cariz local, de que é exemplo a Associação Cultural e Recreativa de Vila Mendo do que qualquer politico, que seja da minha lembrança.
Em pleno século XXI haver uma aldeia, e repito, às portas da Guarda, sem saneamento básico, água e esgotos é uma vergonha, em termos um bocado caricatos é o mesmo que dizer, posso efetuar pagamentos eletrónicos na sala, mas se não tiver fossa sética, tenho de ir baixar as calças, defecar, atrás de uma giesta, que vergonha! Qual é a empresa ou empresário que com condições destas se quer ali instalar!
Desde sempre esta terra assentou a sua economia na pecuária, agricultura e no seu comércio, e eu estou convicto, que esse terá de ser o seu futuro. Urge repensar novas formas de agricultura e novas formas de divisão da propriedade agrícola, poderá demorar décadas mas o tempo encarregar-se-á de me dar razão, só um projeto âncora com este cariz pode dinamizar Vila Mendo.
A importância de um lugar mede-se pelo seu capital humano, e quanto a isso tenho a certeza que Vila Mendo vai continuar a ser grande.

Vila Mendo, 7 de Agosto de 2012

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Vozes da Terra- Mário Maria- Quinta de Baixo

Memórias...
Com uma imagem de apresentação fora do que normalmente me é conhecida, embora recente, sou muitas vezes reconhecido na freguesia de Vila Fernando por “Marito”. Tambem pelas gentes de Vila Mendo, a quem me dirijo, assim é.
Nascido na Quinta de Baixo, aquando do inicio do Verão de 1956 (21 de Junho), não posso dizer que na minha juventude tenha tido muitos contactos com as gentes de Vila Mendo. Estes raros contactos eram aos Domingos de nanhã, em Vila Fernando, para assistir à missa celebrada pelo “Dr. Padre Júlio”, de quem diminuem a olhos vistos os que ainda se lembram.
Nesses “tempos” a freguesia tinha várias escolas primárias (do primeiro ciclo, como posteriormente foram chamadas), sendo que uma delas era a de Vila Mendo, composta por duas salas, que os alunos de Vila Mendo frequentavam. Os jovens da Quinta de Baixo frequentavam a escola de Vila Fernando, tendo também frequentado a escola da Quinta do Meio, durante um curto período de tempo. 
Assim, tenho obrigatoriamente de me referir a “histórias” mais recentes. Na verdade quem tem tempo e disponibilidade para ler estas coisas (entre outros) são as pessoas que vão fazendo de Vila Mendo uma povoação com carisma. Com a força, trabalho e disponibilidade de cada um. Foi das poucas povoações, na nossa região, a conseguir congregar em torno da sua  “Associação Cultural e Recreativa” a união de todos os habitantes da povoação.
Tendo de alguma maneira modestamente contribuido (por fazer parte da Junta de Freguesia de Vila Fernando) para o início da utlização do edifício da Escola Primária como sede da Associação, com a dotação de água corrente através de captação em furo que ainda hoje existe, foi-me atribuido o número de sócio 62.
Posteriormente, em face do dinamismo das pessoas de Vila Mendo, consubstanciado na Associação, a Junta de Freguesia, com o António Pereira, eu próprio e o Paulo Fernandes, sendo o Pereira também  ao tempo presidente da Associação, contribuiu para as obras de requalificação da outra sala da Escola (o edificio é propriedade da Câmara, tendo sido por esta cedido) para as actividades que a Associação actualmente desenvolve ao longo dos tempos.
Por razões óbvias não vou aqui enumerar as actividades da Associação, nem sequer a mim me compete ter opinião pública sobre o assunto, mas não posso deixar de evidenciar aquelas que têm já uma grande relevância para a dinamização das gentes associadas e outras residentes em Vila Mendo, como sendo o “Encontro Motard” e a “Matança do Porco”.
Cada nova concentração traz novos ideais e perspectivas de continuidade de uma forte união da povoação em torno da sua Associação.
 Assim, aqui presto singela homenagem aos actuais dirigentes para que partilhem o famoso “um por todos e todos por um”, honrando o saber receber, levando cada vez mais além, o bom nome de  Vila Mendo.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Vozes da Terra- Maria Alice Nina- Brasil

Meu nome é Maria Alice Nina, nascida em Portugal na aldeia de Vila Mendo, sou casada com José Manuel Nina que é de Vale de Espinho, tenho 3 filhos: Vera, Márcia e Marcelo e duas netas: Priscila e Laís. Na foto ao lado sou eu e o meu filho Marcelo.
Uma memória: As minhas lembranças não são muitas, pois eu vim para o Brasil muito nova, com treze anos. Mas o que nunca se apagou da minha memória era quando chegava à primavera e o arbustos chamados giestas ficavam todas enfeitadas de amarelo e se chamavam maias (porque era no mês de maio). Também me lembro muito que nessa época as pessoas iam para os campos arrumando a terra para fazerem as plantações. Outra coisa que me lembra muito era quando chegava o mês de junho ou julho, não tenho mais certeza, mas eu acho que eram nesses meses que vinham os ranchos para a ceifa do centeio, era tudo muito alegre e muito divertido, principalmente para mim que era criança. Tem outro lugar que me lembra muito, é um local chamado Lajinha. Eu adorava esse lugar porque de lá eu podia avistar a cidade da Guarda que me parecia tão longe e, no entanto, é bem perto. Outra coisa que me lembra muito era a matança do porco porque era uma farra para nós pequenos.
Um momento: Um momento alegre e também muito triste foi o dia que eu parti daí para o Brasil, pois deixei pessoas muito queridas: tios, primos e primas. Embora depois de algum tempo muitos vieram para o Brasil. Já visitei várias vezes a nossa terra e praticamente todo o Portugal.
Um lugar: Um lugar que não é propriamente de Vila Mendo, mas sim de Vila Fernando. Todas as vezes que voltei a Portugal nunca pude entrar na escola que eu comecei os meus estudos, pois sempre era época de férias escolares. Porém, em maio de 2011, pude realizar o sonho que era de rever por dentro a escola, e fiquei muito emocionada depois de tantos anos, e ao mesmo tempo muito triste de saber que foi o último ano de atividades escolares, pois a escola fechou devido à falta de crianças para serem alfabetizadas. São essas lembranças mais fortes que eu tenho, depois de quase 60 anos no Brasil.
Uma pessoa: Lembro-me de algumas pessoas, mas principalmente da minha avó Maria Rita. Embora eu sendo muito pequena, lembro-me do dia em que ela faleceu e que na época eu tinha de seis para sete anos, e até hoje não me saiu aquela imagem da minha memória. E agora desde a primeira vez que eu voltei a Portugal, que foi em 1973, eu pude novamente ver algumas pessoas que, conversando com elas, eu me lembrei de quem eram essas pessoas. Agora a Rosária é outra pessoa que nunca me esqueci, por que éramos mais ou menos da mesma idade e todas as vezes que eu fui a Portugal eu a encontrei.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Vozes da Terra- Júlio Pissarra

No dia 11 de Outubro de 1969, pelas 16:58 horas, no Hospital Sousa Martins da Guarda, nasceu um bebé, a quem os seus pais, José Marques Pissarra e Maria do Céu Pires Antunes Pissarra decidiram chamar Júlio Manuel Antunes Pissarra. Depois de o meu primeiro ano de vida ter decorrido em Vila Mendo, passei a habitar o Bairro do Bonfim-Guarda. Entre jogos de futebol, “escondidas” e corridas com carrinhos miniatura e de rolamentos, decorreu a minha infância e parte da adolescência. Em virtude de eu acompanhar uma tia professora do ensino básico, a minha escola primária esteve repartida pelas Vendas da Vela, João Antão, Marmeleiro e Adão. Com o ensino secundário frequentado e finalizado na Escola Preparatória de Santa Clara-Guarda e no Liceu Afonso de Albuquerque-Guarda, transitei para a Universidade Fernando Pessoa-Porto, onde conclui uma Licenciatura em Gestão. Mais recentemente realizei, na Covilhã, uma Pós-Graduação em Higiene, Saúde e Segurança no Trabalho. Neste momento estou Divorciado e tenho uma filha que se chama Joana. Profissionalmente reparto a minha actividade entre a Consultoria Imobiliária e a Docência na Escola Profissional Serra da Estrela-Seia. Ao longo destes anos, os tempos de ócio foram repartidos, principalmente, pela ligação ao futebol e ao associativismo (sou Sócio fundador da A.C.R. de Vila Mendo), não esquecendo o convívio com os amigos.
Uma Memória- Destacar uma Memória de tantos e tão bons anos passados em Vila Mendo é tarefa praticamente improvável! No entanto vou referir as Férias de Verão, que ainda hoje recordo com enorme Saudade. Enquanto decorreu a minha adolescência e juventude, o mês de Agosto foi sinónimo de Férias na nossa Terra. Por essa altura, Vila Mendo, enchia-se de gente muito por culpa dos emigrantes que nessa altura regressavam para matar saudades das suas origens. Recordo, com nostalgia, alguns rituais diários: tomar banho na Ribeira ou nos tanques da quinta do Dr. Crespo; o “ir com as vacas” para os lameiros; o assistir a toda a azáfama das Malhas do Centeio, efectuadas pela saudosa “São Mamede” do Sr. Ismael; o convívio entre a Malta jovem que, à noite, se reunia no Largo da Amoreira; alguns serões passados, com o amigo Vitinho, a ouvir música na carrinha do Sr. Dionaldo; o fumar, às escondidas, os proibidos cigarros; o surgir dos primeiros namoricos! Chegado o fim-de-semana, eu, o Quim Soares, o Paulo, o Quim “do Sr. Virgílio” e o Gilberto, lá íamos nós, a pé, para os bailes das Festas da Freguesia, de onde só regressávamos praticamente ao romper da manhã. Grandes Festas! Principalmente a da Sardinha Assada que, ano após ano, reunia milhares de pessoas para petiscarem uma sardinha, dançar ao som de bons Grupos Musicais e assistir a Memoráveis Concertos como o dos UHF é disso exemplo. Com o passar dos anos o meu principal companheiro de férias passou a ser o meu amigo Paulo. Onde houvesse uma festa, baile ou convívio, nós dizíamos Presente! Referência obrigatória desses tempos era a Discoteca “Night & Day” localizada no Alto de Pêga. Depois de um árduo dia e semana de trabalho toda a Malta se preparava para momentos de relaxamento no referido espaço de diversão. Antes de possuir a Carta de Condução, regra geral, o meu primo Zé Gonçalves fazia o favor de me dar boleia. Da Guarda, Covilhã, aldeias nossas vizinhas e toda a zona da Raia, nas noites da semana e Matinés de Domingo, todos os caminhos confluíam em fantásticas sessões ao som dos Modern Talking, Wham!, Bruce Springsteen, Madonna, Bryan Adams, Toto, etc., etc., etc.. Quem quisesse ver e ser visto tinha por obrigação de frequentar a Discoteca de Pêga! A “febre” era tanta que determinada segunda-feira à noite, depois do primo Zé, por razões que não interessa agora analisar, se ter recusado a cumprir a “peregrinação” previamente acordada, eu e o meu amigo Victor Soares realizamos a viagem, para a discoteca, numa desgastada, velha, mas honrada mota V5. Para não perdermos tempo nem os capacetes procurámos! Depois de muito convívio, belas Festas e animados Bailes, no dia 26 ou 27, as Férias de Verão terminavam. E, invariavelmente, concluíam com uma cena bonita e ternurenta. Enquanto, eu, descia as escadas a fim de me deslocar para o carro e iniciar a viagem de regresso à Guarda, os meus avós e a minha Madrinha Marques, todos com a lágrima ao canto do olho, acenavam como forma de despedida e pediam para que os voltasse a visitar o mais rapidamente possível.
Um Momento- Vários, muitos, diversos! Mas selecciono o Natal como sendo “o” Momento. Comemorar, na aldeia, esta grandiosa data era um dos pontos altos do ano. Aí, o Natal tinha outro esplendor e autenticidade! Tudo, no dia de Consoada, começava em casa dos meus pais com o preparar da Mala e de algumas iguarias que eram fundamentais para essa importante efeméride. Chegado a Vila Mendo deliciava-me com um belo e simples pequeno-almoço, constituído por Café Preto e uma Torrada de Pão Centeio feita “ao lume”. As restantes horas da manhã eram preenchidas, na companhia do meu pai, do meu avô Pissarra, do meu tio Victor e do “Ti” Zé Pôpo, com visitas aos animais bovinos e caprinos. Sem nos apercebermos a hora de almoçar chegava. Esta refeição, geralmente de carne guisada, era saboreada na companhia do meu referido avô, da minha avó Purificação, dos meus pais, da minha tia Alcina, do meu tio Victor, da Madrinha Maria Marques e do “Ti” Zé Pôpo. A tarde era repartida pelo convívio com os amigos e a “ida à Lenha” para a Fogueira, que, normalmente, apenas acontecia com o cair da noite. Com tractores, força de braços e com todos “à voz de um” (normalmente a do Vitinho), lá conseguíamos reunir madeira para acender a maior, melhor e mais imponente Fogueira de Natal da região. Com o soar das vinte badaladas, o momento solene chegava! Era, então, hora de Consoar. Sentados à mesa e ao calor de uma bela Fogueira ceávamos o bacalhau, as couves e as batatas cozidas como sempre, mas, que, nesse dia, sabiam como nunca! Seguia-se uma visita à casa dos avós maternos, onde também estavam presentes tios e os primos, que sempre me acompanhavam à Fogueira. O que restava da noite era consumido em tertúlia e no degustar de algum petisco que acabava sempre por aparecer. Certa noite, a malta que rodeava o Madeiro, decidiu “comer alguma coisa”. O enchido, o pão e o vinho rapidamente apareceram, mas para complemento do repasto o meu primo Zé decidiu que deveríamos assar um coelho bravo!!! Com o Victor Soares ao volante de um tractor, o Zé com a Caçadeira em punho e eu como servente, lá fomos à caça! Depois de 7 ou 8 tiros falhados e de alguns trilhos e vales palmilhados, regressámos, cabisbaixos, sem a ansiada peça de caça. Quando chegámos à Fogueira já o resto do petisco estava consumido. Tivemos que nos contentar com algumas sobras que os nossos amigos, “generosamente”, reservaram…! As primeiras horas do dia 25 eram preenchidas com a Missa de Natal e um fabuloso almoço confeccionado, principalmente, pela minha avó Purificação, por minha mãe e pela tia Alcina. Como não poderia deixar de ser, a tarde era ocupada por uma Matiné na Discoteca de Pêga. Comido o lanche e feitas as despedidas, o fim do dia chegava e isso significava o início da contagem decrescente para o próximo Natal!
Um Lugar- “Jú, nunca deixes ao abandono esta casa!” Esta frase foi proferida pelo meu avô Pissarra na última vez que ele esteve no seu Lar de Vila Mendo. A Casa dos meus avós sempre foi o lugar, a referência, o ponto de partida para as minhas estâncias em Vila Mendo. Era a partir desse local que tudo tinha o seu início. Sempre me serviu como porto de abrigo, aí passei belas férias e inesquecíveis noites de Natal e degustei simples mas saborosas refeições servidas numa mesa, estrategicamente, colocada na varanda virada para a Eira. Desde que os meus avós faleceram tenho sido eu a assumir a utilização e manutenção dessa habitação. Nela, tenho tido o prazer de saborear aquele que eu considero o Fim-de-Semana perfeito. Depois de uma retemperadora noite de sono parte da manhã, de Sábado, é passada no leito a sentir o forte vento e o relaxante som que a chuva provoca ao chocar com a vidraça da janela. Mas, como a uma pessoa que se ama, também a este lugar é necessário dar mimos e carinhos. É então o momento de limpar o pó, varrer o chão e perfumar loiças, azulejos e mosaicos. Acto seguinte, a Merenda, habitualmente consumida ao calor de uma bela fogueira e com uma lentidão de alguém que se regala! Pão centeio, deliciosos enchidos, humildes bifanas e bom queijo, com o complemento de um bom líquido de Baco, constituem um verdadeiro e autêntico manjar que, em Vila Mendo, nestas circunstâncias sabe a dobrar! Com o estômago reconfortado, ninguém me faz arredar pé! Refastelado, na poltrona, lendo o jornal do dia e a revista da semana, com os pés virados para o lume e os olhos a pedirem descanso, inicia-se, a tarde, com uma Sesta sem igual. Consolada a alma e descansado o corpo é altura de visitar os amigos. Com certeza a sede da nossa associação está repleta pela nossa malta e por amigos da Terra que gostam de nos presentear com a sua visita. Com uma “suecada”, um lanche confeccionado nas brasas e o espreitar de algum jogo de futebol assim se passa o serão. Findo este, nada melhor do que regressar ao amado lar, que me espera para mais uma noite de revigorante sono. Com o arrumar da “trouxa” e o trancar de portas e janelas assim conclui o agradável e bucólico fim-de-semana passado no lugar que, desde a minha infância, considero o mais completo desta maravilhosa aldeia chamada Vila Mendo.
Uma Pessoa- Sem dúvida o meu avô António Pissarra. Falar do meu avô é falar pouco mas com conteúdo. Defeitos, alguns. Principalmente alguma teimosia e intransigência em determinadas situações. Mas acima de tudo era um homem de poucas mas acertadas palavras e de muitas e correctas atitudes. Por contingências da vida os pais dos meus pais não tinham relacionamento pessoal, no entanto, certo dia deflagrou um incêndio em casa dos meus avós maternos e sabem quem foi a primeira pessoa a subir para o telhado a descarregar baldes de água? O meu avô António Pissarra. Este episódio é revelador de um carácter sério, honesto, generoso e corajoso. Hoje, encho-me de orgulho quando pessoas de Vila Mendo e não só se referem ao meu avô como tendo sido das pessoas mais completas que a nossa aldeia conheceu. Dos trabalhos em madeira, à mecânica, da agricultura ao negócio de gado, da construção civil à criação de brinquedos para eu me divertir, de tudo um pouco ele realizava com engenho, sabedoria e arte. Com ele passei grandes e agradáveis momentos e a seu lado estive quando a doença o começou a consumir. Os dias da sua Morte e Funeral são por mim, até hoje, guardados como os mais tristes da minha vida. Mas no dia seguinte já com as emoções estabilizadas e o espírito mais aberto para aceitar e enfrentar a realidade cheguei à conclusão de que não deveria estar triste por ele ter partido, mas sim feliz por com ele, tantos e tão bons anos, ter convivido! Avô, onde quer que estejas, envio um Grande Abraço e um Maior Beijo!
Um Projecto- Quando se pensa as nossas aldeias, que como a nossa se localiza no interior profundo do nosso país, é fundamental potenciar os recursos naturais, culturais e humanos essenciais para evitar a crescente desertificação que se tem vindo a acentuar de há uma década para cá. Foi baseado nesses vectores que, enquanto membro do antigo executivo da Junta de Freguesia de Vila Fernando, iniciei um projecto para o desenvolvimento da nossa freguesia. Mas, democraticamente, os eleitores decidiram eleger uma outra equipa para o executivo local, o que impediu o seu desenvolvimento. Esse projecto passava pela divulgação e promoção do património humano, natural e edificado. Mas agora o que nos preocupa é a nossa amada Vila Mendo. Desde a fundação da A.C.R. de Vila Mendo que, eu via esta instituição como um motor para o desenvolvimento da nossa aldeia. Depois de convenientemente alicerçada a vertente recreativa e desportiva com o regular funcionamento do Bar da Sede, o enraizamento do Encontro Motard e a consolidação do Torneio de Futebol de 7, na minha opinião, a Associação deve dar um passo em frente no sentido de diversificar o seu contributo para a valorização da localidade onde está sedeada. A criação de uma Agenda Cultural para a promoção e divulgação da nossa Terra é essencial para que Vila Mendo não caia no esquecimento. Exposições, espectáculos musicais e teatrais e a divulgação das nossas tradições e património, são exemplos de produtos fundamentais para a dinamização da nossa aldeia.



















segunda-feira, 2 de abril de 2012

Vozes da Terra- Pereira

Nasci na melhor aldeia de Portugal, Vila Mendo, em 01 de Julho de 1958. Frequentei lá a escola primária, para de seguida e, durante dois anos, caminhar diariamente para Vila Fernando frequentar a Telescola nos 1° e 2° anos (hoje 5° e 6°).  Depois foi a cidade da Guarda que me acolheu, para frequentar o curso Geral de Administração e Comércio na actual Escola Secundaria da Sé. Seguiu-se o serviço militar em Lisboa (Marinha). Dois anos inesquecíveis. Logo de seguida, o ingresso na Guarda Fiscal, tendo, como era normal, andado com a mala às costas ( inclusive, trabalhei um ano no aeroporto da Madeira no serviço de passaportes e foi aí que joguei futebol federado pelo Caniçal). Em Vilar Formoso  terminei o serviço na Guarda Fiscal por esta ter sido extinta em 1993, tendo então ingressado na GNR passando a prestar serviço na cidade da Guarda, ate à passagem de situação de reforma. Fiz parte (foi um privilégio) da Direcção da Associação Cultural e Recreativa de Vila Mendo, como Presidente desde a fundação até 2008, tendo sido também um dos fundadores. Em 2005 fui eleito Presidente da Junta, sendo que em 2008, por motivos pessoais, tive de interromper o mandato.
Uma Memória: Uma só! Havia uma cesta cheia para contar, mas aproveito para falar na época (anos 70) de glória da equipa de futebol de Vila Mendo (só com jogadores da terra) com as vitórias no Barracão, na Santa Ana da Azinha, Vila Garcia, Vila do Touro, Marmeleiro, Rochoso, Albardo e… em Vila Fernando, (em Vila Fernando o único golo do jogo foi apontado por mim!.. É obra, eu que poucos golos fazia !!) por onde passávamos arrasávamos !!! Para quem não sabe, já nessa altura tinhamos campo de futebol, feito por todos os jogadores; situava-se junto à quinta de St° André.
Um Momento: Tantos houve... como por exemplo o Encontro de Associacões em 2007, em Vila Mendo (em que participaram também jovens espanhóis), Torneios de sueca... mas tenho que destacar aqui um momento ainda bem presente na memória de muita gente e que foi o I Encontro Motard de Vila Mendo. Pelo convívio, pela amizade, pelo envolvimento e colaboração de todas as pessoas da aldeia; e então aquele espectáculo às 3 da manhã (tenda cheia) mais de 500 pessoas em Vila Mendo áquela hora e até ao cantar do galo !!!
Um Lugar: Sem sombra de dúvida, escolho o « Largo da Amoreira ». Era ali que as pessoas se juntavam, era ali que se brincava, se jogava à bola, ali se faziam bailes... e que bailes, como por exemplo com os ranchos (sabem a que ranchos me refiro?!.)... Depois de um dia de muito trabalho ainda tinham força e vontade de dar um pé de dança! Era lá que se erguia todos os anos um enorme (o maior que se encontrava) pinheiro revestido de rosmaninho; esse lugar serviu muitas vezes de hotel (dormia-se e comia-se ali) nas memoráveis noites de Natal junto à fogueira. Mesmo a chover ou a nevar nessas noites ninguém (os mais jovens) arredava pé, enquanto não chegasse a luz do dia. Ai que saudades... dessas noites, desses convivios !!!!
Uma Pessoa: Uma pessoa! E porquê só uma?!. (espero noutra oportunidade poder falar de outras pessoas da terra, mas hoje e tendo esta oportunidade, tenho de falar da senhora Maria, que infelizmente ja não está entre nós. Era uma mulher generosa, bondosa, amiga de toda a gente, trabalhadora. Não houve em Vila Mendo igual, e de nove soube cuidar. Gostava de ajudar quem quer que fosse, especialmente os pobres(pedintes); não houve pobre algum que saísse de sua casa, sem que levasse alguma coisa. Dizia ela: "nem que seja pouco, mas dá-se sempre alguma coisa"; e há uma frase que me ficou na memória: um belo dia alguém lhe dizia: "tambem dá esmola aos ciganos?! Resposta da senhora Maria: "os ciganos também são pessoas!" Nos anos setenta, mais concretamente em 1976, aquando da presença dos militares em Vila Mendo (mais de um mês), a casa da senhora Maria, mais que parecia um quartel, com os militares a entrar e sair. Assim que precisavam de alguma coisa, iam bater-lhe à porta. Sei também que houve militares que lhe pediram para que lhes vendesse leite diariamente para o pequeno almoço e assim combinaram. No dia da partida lá foram os tais militares a fazer contas com a senhora Maria! Aqui a resposta dela foi: "Deus me livre eu levar-lhes dinheiro, os militares não o ganham!" Bem, não foi só por este gesto, mas por tantos outros que os militares na hora da despedida, alguns mais emocionados e a chorar, disseram um muito obrigado e adeus à senhora Maria. Dizia a senhora Maria (ouvi eu) "gosto mais de Vila Mendo do que da minha terra." Tal mãe, tal filho! A senhora Maria, era a senhora Maria do sr. Manuel João, a senhora Maria de Cairrão, Maria Castanheira e simplesmente MARIA PEREIRA de seu nome, por isso deixou em Vila Mendo o « Pereira » que se orgulha muito de ser seu filho. Obrigado senhora Maria, obrigado!
Um Projecto: Dar continuidade aos eventos que anualmente a Associação realiza, já é um grande projecto que gostaria que não terminasse. Depois penso também que o recinto do complexo desportivo devia ser mais aproveitado e utilizado, se estivesse dotado de uns balneários (ainda que pequenos), pois outras modalidades desportivas se podiam ali realizar. Outro projecto, era criar no recinto (largo da escola), as condições mínimas para a realização de alguns eventos que ali se realizam, nomeadamente as festas de verão e o Encontro Motard, pois um espaço coberto é de extrema importância e cada vez mais necessário (poderia até ser uma estrutura desmontável), sendo que aqui, como o espaço é público, a Junta de Freguesia deve ser ela a criar as condições necessárias para que isso seja possível.
Quanto a projectos para Vila Fernando, não me cabe a mim, neste momento opinar (ainda que reconheça que alguns são tão necessários como urgentes), contudo estou, como sempre estive, disponível para colaborar em tudo o que contribua para o melhoramento da minha Freguesia.
Podem continuar a contar sempre comigo!
Antonio Pereira Gomes