Clara Corte
Este blogue pretende ser um espaço onde, os naturais, descendentes, admiradores ou outros, possam noticiar, opinar, reflectir, pensar… Amar… Vila Mendo. Será um espaço de encontros, de memórias: passadas, presentes, futuras; um espaço de profunda comunhão naquilo que é a marca identitária que caracteriza cada um daqueles que pensa, ama, sente, incondicionalmente, Vila Mendo.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Entrevista- Padre Ângelo
Uma pessoa de 31 anos que se colocou e, todos os
dias, coloca ao dispor de Deus para servir aqueles e aquelas que estão ao seu
redor. Uma pessoa que tem como ideal deixar-se seduzir todos os dias pela
Palavra de Deus e vive-la todos de coração e braços abertos. Uma pessoa que
acredita que a vida sem palavras sentidas e pensadas não é vida verdadeira. Uma
pessoa que acredita que as obras valem mais muito e que o amor vence tudo. Uma
pessoa que, apesar de por vezes abrandar no sorriso, quer aprender todos os
dias a sorrir e a ser e dar esperança aos que precisam e a procuram. Uma pessoa
que tem como Mestre o Senhor Jesus.
Como foi o despertar da tua
vocação?
Não foi um “clik”. Foi um conjunto de circunstâncias
que fez descobrir e aumentar a fé, solidificar as decisões e continuar a
descobrir os caminhos. A família teve e continua a ter um papel fundamental,
mas também todos os que são desafiadores da vocação como tsunamis devastadores
e como águas tranquilas.
Sendo
um Padre novo, de que maneira pensas que as pessoas te olham? O que achas que
elas esperam de ti?
Respondo de coração aberto. Houve tempos em que
tinha uma preocupação extrema com o que os outros pensariam de mim, mas neste
momento não tenho esse pensamento e muito menos essa preocupação. Sei que se
espera muito do padre. Que o padre seja isto ou aquilo e que seja desta maneira
ou daquela. Que seja à imagem e semelhança de cada um. E esta é a maneira que
eu não me quero tornar: a imagem e semelhança de cada um e da vontade de cada
um. Por opção eu quero ser a imagem e semelhança de Deus e seguir a Sua
vontade. E é isto que todos devem esperar de mim. Que eu siga a vontade de
Deus. Se alguma vez eu não o esteja a conseguir fazer quero que, no espírito da
correção fraterna dos cristãos, alguém tenha a humildade de se aproximar de mim
e dizer-me.
O que é ser padre hoje, tendo em
conta que a sociedade apresenta sinais evidentes de uma laicização galopante a
todos os níveis? Aliás, faz sentido ser padre hoje? Faz sentido “carregar essa
cruz” que é levar a Boa Nova, a mensagem de Jesus a um mundo que às vezes,
parece, não estar receptivo, pelo contrário?
Ser padre faz sentido sempre. Ser padre é estar
disponível para servir e para amar a todos.
Um amor que se faz doação e que se faz orientação na vida. “Dar-se por
amor” compreende-se. Aceitar orientação segundo o amor de Deus, já não se
aceita tanto. Talvez, digo eu, esteja aqui uma das causas da laicização: não
aceitar o amor de Deus. Fruto provável de uma ignorância religiosa a que as
comunidades foram votadas durante décadas. Sabe bem iniciar caminhos novos de
anúncio, em que se redescobre a essência do ser cristão e de Deus que se revela
em Jesus e se torna presente no Espírito Santo. Esta é a cruz que vale a pena
“carregar”, mas que ainda poucos cristãos não estão entusiasmados a pegar e
levantar bem alto.
Qual
a tua perspectiva em relação a alguns temas polémicos como o celibato dos
padres, a ordenação de mulheres ou o uso do preservativo?
Porque são polémicos deixo-os para serem
tratados noutros ambientes e para que as minhas palavras escritas não sejam mal
interpretadas. Digo simplesmente: são orientações e todos somos livres de as
aceitar ou não. No assunto que me diz respeito eu aceitei-o e tenho-o aceitado.
Foi a minha opção.
Quais
as tuas expectativas em relação ao Papa
Francisco?
Um homem que usa palavras simples e
diretas para que todos compreendam a essência da beleza de Deus e do que é a
religião. Não tem medo de tratar as coisas pelo nome. Pelo que parece, é de uma
“frescura” e “acutilância” de palavras que agrada muitos e não agrada alguns.
Neste ainda curto espaço de tempo do pontificado os seus gestos têm mostrado
que a aproximação e a simplicidade são os melhores meios de comunicar o amor de
Deus e não há que ter medo disso.
Muitos
pensarão que o papel do padre é “dizer missa” e pouco mais. Achas que isso não
resultará (à parte da falta de vocações) de uma falta de estratégia diocesana
no que concerne à pastoral como tal, e isto não será consequência da não
realização de um sínodo diocesano, há tanto desejado, que pense, oriente,
balize e concretize toda a acção pastoral e não só?
Uma questão muito pertinente, tendo em
conta o serviço que ocupo na diocese enquanto coordenador pastoral da zona
centro. Muitos e muitas reduzem a atividade do padre a celebrar a missa e senão
há missa é sinal que “o padre não faz nada” ou então “já não temos na terra”.
Isto é fruto de uma falta de abertura dos padres a fazerem outras atividades e
falta de coragem (ou vontade) de consciencializar as comunidades para uma
Igreja que se reúne para a Eucaristia, mas também para muitas outras coisas:
catequese, caridade, convívio, e mais recentemente para os grupos bíblicos.
Desde 2007 que foi lançado o desafio que
cada Arciprestado tivesse um Conselho Pastoral Arciprestal. Este Conselho é
constituído por um representante leigo de cada paróquia que, em diálogo com os
representantes das outras paróquias e os padres do arciprestado, programam e
orientam a pastoral do Arciprestado. O primeiro CPA criado foi o do nosso
Arciprestado do Rochoso cuja representante da nossa paróquia é a D. Maria da
Graça Amarelo. Já se reuniu por 9 vezes. Neste momento a Diocese já tem mais
alguns criados e o programa pastoral a ser debatido brevemente para os próximo
anos pastorais de 2013 a 2017 vai contemplar esta estrutura, bem como o
Conselho Pastoral Diocesano (no qual o nosso Arciprestado tem um representante
eleito de entre os representantes de todas as paróquias). No ano de 2017 vai
haver Assembleia de representantes onde serão refletidos e apresentadas
orientações pastorais concretas para a Diocese. Estas Assembleias de
representantes terão a preparação anterior de 3 etapas concretas em que todos
os intervenientes vão revisitar documentos do Concílio Vaticano II. Não para
lembrar, mas para insuflar o espírito do Concílio nos tempos de hoje.
Se me perguntam se esta estratégia
chega? Não sei. Mas já é alguma coisa
para que se tomem algumas decisões pastorais que comprometam a Igreja enquanto
Igreja Diocesana.
Focalizando
a tua acção e o exercício do teu ministério na Paróquia de Vila Fernando, o que
aspiras, com o teu apostolado, conseguir com estas nossas gentes?
Na nossa paróquia,… nas nossas gentes,…
a minha única aspiração é conseguir mostrar quem é Deus e o que faz o amor de
Deus no coração da humanidade. Penso que na vida de alguns e algumas isso tem
sido conseguido. Mas não há fórmulas mágicas. Se todos nos deixarmos mais
inebriar pela Palavra, depois conseguiremos conviver melhor uns com os outros.
Este é o caminho!
Como
vês a Paróquia de Vila Fernando, logo a freguesia em termos políticos,
económicos, culturais, sociais e associativos? Qual o teu relacionamento com a
sociedade civil da freguesia?
Nunca entrei por caminhos políticos nem
vou entrar agora. Mas a nossa freguesia padece de ter muitos lugares (anexas) o
que faz com que haja uma desfragmentação e uma certa “desunião”. Não em tom de
crítica destrutiva, mas construtiva, seria melhor haver um espírito de unidade
entre alguns e entre todos. Vivemos na mesma terra e só na unidade é que
crescemos em sabedoria, cultura e sociedade.
Que
projectos seriam, na tua óptica, importantes para o desenvolvimento da
freguesia? De que maneira a Igreja, que tu representas, pode ajudar?
Vila Fernando está a três passos da cidade.
Isso há uns tempos atrás significava mais do que agora, mas ainda significa
alguma coisa hoje. Diria duas coisas que poderiam ser pensadas a curto prazo e
que acho já estarem a ser dialogadas: habitação e qualidade de vida.
A comunidade cristã está de portas
abertas, como sempre esteve, para acolher, dialogar e viver em prol da
dignidade da vida humana.
Que
te diz Vila Mendo?
Uma das localidades da freguesia que
demonstra ter uma grande vitalidade através de um conjunto de pessoas que
mantém a sua ligação afetiva à terra que os viu nascer e crescer. Vila Mendo é
sinónimo de movimentação, paixão pela terra e de tantas outras coisas que andam
sobre “rodas”… Mas também é sinónimo de fé. Não posso esquecer que um dos
testemunhos de fé mais impressionantes que já conheci até hoje, foi em Vila
Mendo.
Como
te imaginas daqui a 30 anos?
Não imagino
Queres
deixar uma mensagem aos teus paroquianos?
Nunca percam a esperança. Deus sorri sempre para
vós. Quando as forças estão em alta é Ele que voz mantém em cima, quando as
forças estão em baixo é Ele que vos tenta levantar do fundo do poço.
Confiem n’Ele. Sejam verdadeiros uns com
os outros. Em tudo e sempre coloquem o vosso coração e a felicidade brotará
espontaneamente.
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Paróquia Vila Fernando
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Filhos da Terra- Acácio Pereira
Hoje, o Acácio dá uma entrevista ao Jornal i. Pode ser lida Aqui. Não perca. Na edição em papel, o Acácio não esquece as suas origens e na pequena "biografia" com que é apresentado lá vem : "natural de Vila Mendo, aldeia do concelho da Guarda". Muito, muito bem.
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Pessoas
sexta-feira, 12 de abril de 2013
estórias da Terra- Júlio Antunes Pissarra
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As Calças.
Era um, quente, final de tarde de Agosto dos
saudosos anos 80. Terminado mais um árduo dia de trabalho a “malta” de Vila
Mendo juntou-se aos “tanques” para uma alegre cavaqueira, saciar a sede e
aliviar o calor, com a refrescante água do nosso Chafariz. Nesses tempos quer
fosse fim-de-semana ou meio da semana, praticamente todas as noites concluíam
na Discoteca da moda [“Night and Day”- Alto de Pêga].
Quem vai, quem não
vai…! Eu, o meu Amigo e Primo Zé Gonçalves e o meu Amigo (agora também Primo) Víctor
Soares decidimos ir! Depois de jantar, e chegada “a” hora, aí vamos nós para a “noite”!
A viagem realizou-se numa carrinha de transporte de gado que pertencia ao meu
Tio José Marques (pai do Zé). Chegados à Porta, da Discoteca, deparámo-nos com
um problema:
-
Zé, o teu primo vem de Calções, não pode entrar! – disse
o Porteiro.
-
Então porquê? – questionou o Zé.
-
São regras da Casa! - respondeu o funcionário.
-
Mas já vi aí dentro várias Mulheres de Calções! – disse
eu.
-
Mas com as mulheres é diferente!!! – exclamou o Porteiro.
-
Esta é boa! Vimos de Vila Mendo, chegamos aqui, e não entramos?! – respondeu
o Víctor.
Depois de duras
negociações nem com a grande influencia que o Zé detinha, nesta Discoteca,
conseguimos entrar. Então para não prejudicar os meus amigos sentenciei:
-
Entrai vós, eu vou para a Carrinha dormir!
Aí o Zé foi perentório:
-
Não, ou entramos todos ou nenhum!
-
Vamos embora! Não estamos aqui a fazer nada! – disse
o Víctor.
Aquilo que se ia tornar
numa alegre noite estava-se a transformar num pesadelo. Na curta viagem para a
Carrinha os três amigos mostravam a sua indignação e surpresa pelo sucedido.
Mas será que tudo estava perdido…?
Quando entrávamos para
o nosso meio de transporte, o Víctor disse:
-
Zé, por vezes os teus irmãos trazem umas Calças, suplentes, para carregar e
descarregar o gado. Vê lá se há por aí algumas!
Depois de breve busca,
o Zé, carregado de felicidade, exclamou:
-
Olha aqui uma Calças!!! Há! Há!
…e bonitas que elas
eram!!! Cor bege, feitas de Fazenda
da primeira qualidade, vincadas e com umas elegantes pregas! Mas o desejado
objeto de roupa não tinha, nesse dia, as condições mínimas para entrar no
referido espaço noturno. Estava completamente amarrotado, cheio de grandes
nódoas e abarrotava de sujidade seca (vulgo *M…) inerente ao trabalho que
ajudava a desenvolver. Mas era o que havia…!
-
Experimenta lá as Calças! – disse o Zé.
Quando as experimentei
reparámos que me ficavam demasiado curtas, mas rapidamente solucionámos o
problema. Fiz uma espécie de dobra, que dava o efeito de bainha, e assunto
resolvido.
-
Assim não me deixam entrar! – exclamei.
O Zé respondeu:
-
Então não queriam umas Calças? Já as tens vestidas! Vamos embora!
Depois de muitas
gargalhadas tocámos à campainha da Discoteca. A porta abre-se e o Zé dirige-se,
apontando para mim, ao Porteiro e diz:
-
Agora já pode entrar?!
O Porteiro, com um
sorriso de espanto perante o cenário que tinha à sua frente, não sobe o que
responder. Então o Víctor sentenciou:
-
Não querias que o rapaz vestisse umas calças?! Aí as tens!!!
Resignado e espantado,
o porteiro, não teve outra alternativa.
–
Sim… agora pode entrar… mas…, senta-se lá a um canto. Pode parecer mal!
-
Para me sentar a um canto prefiro não entrar! – respondi.
Entrado na Discoteca
assumi a postura normal que sempre tinha quando frequentava esse espaço. O Zé
logo fez questão de publicitar a situação e, com o seu sorriso matreiro,
dirigiu-se às minhas primas Guida e Paula que, também, diariamente frequentavam
esta Discoteca:
-
Já vistes o vosso primo? – Não – responderam. – Mas porquê?!
-
Ide procurá-lo e depois dizei alguma coisa!
As minhas primas quando
me encontraram ficaram estupefactas.
-
Hhááá!!! – disse a Guida. – A minha alma está parva!!! – exclamou a Paula.
Explicada a situação
terminámos todos em enormes gargalhadas. Ao mesmo tempo questionávamos o porquê
de não poder aceder, à Discoteca, com uns adequados calções e poder faze-lo com
aquelas originais Calças!
Com muita dança e
saudável convívio assim decorreu uma das noites mais divertidas da minha
juventude! Importa realçar que nunca mais, até hoje, me senti tão observado
como nessas “porreiras” horas!
Júlio
Manuel Antunes Pissarra
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Estórias de Vila Mendo
segunda-feira, 8 de abril de 2013
sexta-feira, 29 de março de 2013
Figuras da Terra- T`Zé Pôpo
Apesar
de não ser natural de Vila Mendo (o T´Zé Pôpo era natural da aldeia de Santo
Amaro - freguesia da Cerdeira-do-Côa), este senhor, com o passar dos anos,
sempre foi visto pelas pessoas da nossa Terra como mais um dos nossos.
De
nome próprio José Alves, este senhor, nasceu no dia 27 de Março do Ano da Graça
de 1924. As suas quatro primeiras décadas de vida passaram-se a trabalhar na
agricultura, a ganhar “o dia” e a
servir como Pastor. Muitas vezes vagueava pelos Mercados da zona onde procurava
trabalho. A esta sua busca Vila Fernando também não era alheia, já que
regularmente frequentava a Tasca da Mariazinha. Certo dia, meu Pai, estava no
referido local e por la apareceu o T´Zé Pôpo. Depois de alguns “copos” bebidos meu pai perguntou-lhe se
queria ir para Vila Mendo trabalhar como Pastor. Logo aceitou. Chegados a Vila
Mendo, meu Pai explicou a meu Avô [António Pissarra] o sucedido. Desde esse dia
o T´Zé passou a ser mais um funcionário da casa. Mas foi sol de pouca dura
visto que passados alguns dias, sem nada dizer, desapareceu. O tempo passou e
volvido, sensivelmente, um mês meu Pai reencontrou-o numa Taberna do Adão. Já
com o vinho a produzir efeito, quando viu meu Pai, começou a chorar e a
suplicar-lhe que lhe desculpasse e o deixa-se regressar a Vila Mendo, pois “nunca tinha sido tão bem tratado”. Mas
meu Pai disse-lhe que não podia prometer nada devido à forma como tinha ido
embora. No entanto lá foram para a nossa Aldeia. Mas meu Avô já não o queria
para Pastor devido à maneira como se tinha comportado. Apesar de tudo, com os
pedidos de meu Pai, meu Avô lá acedeu, mas logo o avisou que não tinha outra
oportunidade. Desde esse mês de Setembro de 1969 até à sua morte em 1994 esse
Senhor foi, em casa do meu Avô, tratado como mais um da família.
Sempre
foi uma pessoa simples, humilde, respeitadora, educado e, acima de tudo, muito
divertida. Estava sempre disposto para a chalaça, brincadeira ou uma, muito característica,
“mugafa” (carantonha). A minha Avó São e minha Madrinha
Marques eram, quase diariamente, alvo das suas brincadeiras. As duas irmãs,
regularmente, diziam: “”Rela-nos” a cabeça!”
Sempre
gostei muito dele e sei que também era meu amigo. Aliás ele dizia que as
pessoas de que mais gostava eram meu Avô, meu Pai e eu. Sempre o recordarei com
amizade e carinho, até porque, de entre outras estórias com ele, quando lhe
perguntavam há quantos anos estava em Vila Mendo, ele respondia: “São os mesmos que o Jú tem de vida. Vim
para cá um mês antes de ele nascer!”.
No
Rebanho que ele pastoreava existiam algumas ovelhas que lhe pertenciam. Então
no dia em que, pela primeira vez, fui nomeado Mordomo da Festa de Vila Mendo
ele disse: “Para o ano vamos matar, no
dia da Festa, o melhor Borrego que eu lá tiver!”. E assim foi!
Mas
o dia de que, ele, mais gostava era o de Consoada! Logo que eu, pela manhã,
chegava a Vila Mendo, a “piscar” o
olho, perguntava: “À noite vamos lá?”.
Depois de Consoarmos começava, tentando disfarçar, a dizer: “”Tou”
com uma soneira. Já vou para a
cama!”. Eu, então, fazia-lhe sinal e, ele, lá dizia “boa-noite” e descia as escadas. Depois de me esperar, lá iamos os
dois para a Fogueira de Natal, mas antes disso entregava-me, sempre, dinheiro
para “pagar a minha parte e a sua” - dizia. Por ser simpático e divertido toda
a gente gostava da sua presença, por isso essa noite terminava sempre com a
tentativa de lhe comprarem um Borrego e uma grande… borracheira! Várias vezes,
com a ajuda de alguns amigos, tive de o levar em ombros para a cama!
Uma
característica sua era gostar bastante de fumar e comer/beber coisas doces. Diariamente
fumava “Kentucky”, no entanto meu Tio
Victor Moura e meu Pai (mais regularmente) sempre que iam a Vila Mendo
ofereciam-lhe “SG Gigante”, então
cheio de felicidade fazia uma “mugafa”
das suas e exclamava: “Gosto! Gosto!
Gosto! Quando Gosto, Gosto!”. Mas os Doces eram a sua grande perdição!
Desde o café, ao refresco de café preto com água, das sobremesas, às Sopas de “Cavalo Cansado” tudo tinha que estar
carregado de açúcar. Muitas vezes, principalmente no Verão, quando carregávamos feno ou palha ele dizia: “Se cá
apanhasse um litro de água, um de vinho e um quilo de açúcar…! Ia tudo de uma
vez!!!”.
Mas
com o passar dos anos aliou todo este espírito divertido a uma preocupação: o
T´Zé Pôpo tinha medo que meu avô falece-se primeiro do que ele (o que não se
verificou). E só perdeu, em parte, essa preocupação quando meu Pai lhe prometeu
que se isso acontecesse ele iria trabalhar e viver para “a nossa Quinta de Vale de Estrela”.
Com
o aparecimento de problemas de saúde, que foram fulminantes, foi internado no
Hospital Distrital da Guarda. O Médico que o acompanhava logo informou de que
era situação irreversível e que o tempo de vida seria curto. Então minha Mãe
questionou o Médico sobre a possibilidade de lhe dar, diariamente, algo que o
satisfizesse e lhe aliviasse o sofrimento. O Médico concordou. Desde então,
diariamente, minha Mãe alimentava-o com um dos seus manjares prediletos: “Café Preto” bem doce! Para ele era reconfortante
e uma enorme felicidade!
Certo
dia enquanto eu e minha Mãe faziamos a visita, o T´Zé, com as lágrimas a correrem
pela cara, afirmou: “ Jú, obrigado por
me vir ver. Já nunca mais volto a Vila Mendo!”. Passados poucos dias,
faleceu…
Júlio Antunes Pissarra
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Figuras de Vila Mendo
quarta-feira, 27 de março de 2013
A mesa
Mesa de Ping Pong. Tem sido um sucesso.
Fábio e Telmo Nascimento numa animada partida.
(Cedida pelo Telmo Conde)
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Actividades
terça-feira, 26 de março de 2013
segunda-feira, 25 de março de 2013
Visita da Federação Distrital das Associações Juvenis
Nestes tempos conturbados, urge encontrar sinergias e estratégias comuns que possam contribuir melhor para a afirmação das associações e, consequentemente, das populações em que se inserem.
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Actividades
sexta-feira, 22 de março de 2013
estórias da Terra- Júlio Antunes Pissarra
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As Malaguetas
Entre,
sensivelmente, meados das décadas de 50 e 60 o meu avô António Pissarra e minha
avó Purificação detinham, em Vila Mendo, um pequeno estabelecimento comercial
que se repartia por Mercearia e Taberna. A diversidade de produtos não era
muita mas, sempre se encontravam Massa, Açúcar, Arroz, Conservas, Farinhas,
Azeite, Pão, entre outras Miudezas. Na Taberna algumas Laranjadas e o Vinho
eram reis.
O
“gestor” deste espaço era o meu pai (José Pissarra) que repartia a sua
atividade profissional entre o referido espaço e a colaboração, com meu avô,
nas tarefas agrícolas e do negócio de gado.
O
dia de maior clientela era o Domingo. Mas esse facto colidia com a vontade de
meu pai acompanhar os seus amigos para um passeio dominical, que regularmente
concluía com a visita a algum baile da região, e com a presença do fornecedor
de pão. Este Senhor, que semanalmente se deslocava, de Burro, da Malhada Sorda
até à nossa Terra, depois de descarregar os alforges fazia questão de beber
vários “meios quartilhos” de vinho e antes do anoitecer não iniciava a viagem
de regresso para a sua aldeia. Com o sucessivo repetir desta situação, meu pai
e alguns amigos (Sr. José Vinhas, Sr. Clementino e Sr. António Vinhas) tiveram
que encontrar uma forma deste honesto Moleiro deixar de perturbar as tardes de
Domingo.
Depois
de muita reflexão a solução foi encontrada!
O
Domingo chegou e com ele regressou o Moleiro vindo da Malhada. Desta vez nem
foi necessário, o senhor, pedir bebida já que o grupo de amigos fez questão de
o obsequiar com uns “copos”. Com o líquido a subir à cabeça o Moleiro começou a
dormitar, então meu pai e o Sr. José Vinhas iniciaram a “Operação Malaguetas”!
Enquanto,
o Sr. José Vinhas, levantava a cauda do jumento, meu pai utilizando um pau,
introduzia-lhe, no ânus, algumas malaguetas!!!
Com
certeza a temperatura corporal do animal iniciou uma vertiginosa subida…!
Subida essa que provocou uma tremenda reação que se manifestou no pular, urrar,
dar coices ou rebolar pelo chão. Com este “chim-frim”,
o seu proprietário, acordou. Desesperado com o comportamento do seu companheiro
de tantas viagens, o Moleiro, tentava, em vão, consolar o animal. A chorar,
“falava” com o animal e pedia-lhe para se acalmar, rezava a todos os Santos
existentes e fazia promessas, a Deus, para que o animal não morresse! Volvida
hora /hora e meia o sofrimento começou a decrescer e foi então que, já pela
caída da noite, os dois companheiros seguiram viagem com destino à Malhada
Sorda.
O
Moleiro continuou a fornecer de pão, a Taberna, mas depois de contas feitas e
de dois ou três “copos” bebidos lá regressava ao seu destino e desde então
nunca mais o referido grupo de amigos viu prejudicadas as suas tardes e noites
de Domingo.
P.S.
Esta Estória foi-me relatada por meu pai
(José Marques Pissarra).
Júlio
Manuel Antunes Pissarra
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Estórias de Vila Mendo
quinta-feira, 21 de março de 2013
Almoço
Sábado, dia 23, vamos realizar mais um almoço. O motivo? Quem disse que é preciso motivo?!. Mas vem na decorrência da Matança do porco. Será feijoada, elaborada pelos cozinheiros oficiais (Luís Costa, Júlio Pissarra e Mário Maria). Esperemos que se esmerem pois vão ser objecto de avaliação; e os critérios são altos... é que para se ser cozinheiro de e em Vila Mendo torna-se necessário atingir níveis de excelência! Aconselho os cozinheiros a entrarem em período de estágio para elevarem os níveis de concentração, de modo a corresponder às expectativas criadas e que não queremos goradas. Os avaliadores andarão por lá!..
Além do aspecto da confraternização per si, tão essencial na vida de cada cada um e na vida de uma associação, este tempo serve também para ajudar a definir melhor estratégias de acção por parte da nossa colectividade.
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quarta-feira, 20 de março de 2013
domingo, 17 de março de 2013
Feiras em Vila Mendo? Eis, ainda, a questão!..
Sendo estritamente pragmáticos, não podemos afirmar taxativamente a inexistência das feiras mas… não podemos afirmar, taxativamente, que as houve. Resumindo: a dúvida permanecerá; haverá os que continuarão a dizer que sim e haverá os que dirão que a hipótese será um tanto remota, e encontrar-se-ão argumentos para cada uma dessas visões, sendo até que a “fé” desempenha aqui um papel, muitas vezes, importante: o querer acreditar a todo o custo inviabiliza, não raras vezes, uma análise despretensiosa e descomprometida.
Posto isto, uma pequena nota: estar mais de acordo com uma visão do que com outra, não significa gostar mais ou menos da nossa terra, aliás, será até um pretensiosismo pois “essa coisa de gostar” não será propriamente mensurável e comparável, julgo. Tentar esclarecer uma questão, na busca da verdade, parece-me um acto de coragem e honestidade intelectual que deve ser fomentado e apoiado em todas as situações e circunstâncias da nossa vida pública e privada. Até porque no caso concreto da existência ou não das feiras, esta procura da verdade não traz qualquer prejuízo pois… nunca houve qualquer benefício por se falar, e falar, e tornar a falar delas em Vila Mendo, nem isso diminui as suas gentes, pelo contrário: o querer saber a verdade só enobrece a nossa aldeia enquanto comunidade de pessoas sérias, honestas e verdadeiras, penso.
Agora que balizei, perceptivelmente espero, os pressupostos da minha análise e da análise que deve ser feita por todos aqueles que querem debater, de forma séria e desapaixonada, este tema, vou, sucintamente, ajudar a pensar alguns dos argumentos a favor e contra da realização das feiras em Vila Mendo.
Na minha, modesta, opinião o argumento mais forte a favor é, paradoxalmente, o único que não pode ser verificável: a tradição oral. De facto, os mais velhos referem que “já os antigos falavam dela” e lembro O Sr. Zé “Casona” que faleceu há dois/três anos e que teria hoje 100 anos, o qual referia isso mesmo. E aqui podemos perguntar: Se não houve feira porque é que esse registo oral chegou como chegou até aos nossos dias? De qualquer modo, a ter havido feira esta não chegou ao séc. XX, nem ao XIX, nem à segunda metade do séc. XVIII, pois nos inquéritos mandados fazer pelo Marquês de Pombal a todas as paróquias do país a seguir ao terramoto de 1755, e mais precisamente em 1758 a 22 de Maio, o padre de Vila Fernando, Policarpo da Cruz em relação a Vila Mendo só menciona o número de fogos (casas) e a existência de “uma capela do Apóstolo de Santo André aonde se diz missa para administração de sacramentos”. Ora se por essa altura houvesse algum tipo de feira na nossa aldeia, por certo isso seria mencionado dada a importância de tal.
Quanto ao facto de a feira aparecer em vários livros de história, isso, penso, deve-se ao facto de os diversos autores terem por base a mesma fonte: Alexandre Herculano que se enganou ( e aqui não há dúvidas) no foral de Castelo Mendo ao dizer que era de Vila Mendo; foral esse onde vinha a autorização da criação das feiras realizadas três vezes por ano e com os benefícios e privilégios conhecidos.
Quanto aos vestígios, considero que para haver aquele tipo de feiras tinha de haver necessariamente infraestruturas permanentes e duradouras, que não chegaram até nós ou... não existiram. Quanto a isto cito outra vez o Sr. Zé “Casona” que afirmava que os antigos diziam que na construção da Sé tinham vindo buscar muita pedra a Vila Mendo.. Seria, não seria?.. Não temos como verificar objectivamente. Ainda relativamente aos vestígios, penso ter lido uma teoria no jornal A Guarda, há uns anos, de um colaborador do referido jornal que escrevia sobre assuntos históricos, em que afirmava que Vila Mendo teria sido destruída nas invasões francesas, daí a não existências de vestígios. Seria, não seria?.. Contudo esta teoria será, porventura, mais fácil de investigar.
Quanto à confluência de caminhos, à existência dos baldios, ou a existência de uma tradição de negociantes/comerciantes, são argumentos válidos, com certeza, mas que podem ser transferidos e aplicados a centenas de outras povoações onde, por certo, se conjugam estes requisitos e não há registo de qualquer feira…
Termino como comecei: não podemos afirmar taxativamente a inexistência das feiras mas… também não podemos afirmar, taxativamente, que as houve! E perante isto, o que se pretende é que, vendo os indícios, cada qual retire as suas próprias conclusões, sem qualquer tipo de dramatismo ou paternalismo exacerbado em relação à nossa Vila Mendo que é de todos os seus filhos.
Espero ter contribuído para ajudar a pensar melhor esta questão, pese embora não dar uma resposta cabal e objectiva a esta problemática. No campo dos desejos tenho uma certeza: TODOS gostaríamos que a resposta fosse: SIM, mas…
Feiras em Vila Mendo? Eis, ainda, a questão!..
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sexta-feira, 15 de março de 2013
Filhos da Terra- Acácio Pereira
Podem ler Aqui mais um artigo de opinião do Acácio Pereira, presidente do sindicato do SEF, no Diário de Notícias intitulado "Mais um modelo policial". Não perca.
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sexta-feira, 8 de março de 2013
Vozes da Terra- Júlio Pissarra
Feiras/Mercados Medievais em Vila Mendo.
(Clicar nos mapas para melhor visualização)
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Quando se pretende analisar um facto histórico é perfeitamente natural que surjam opiniões antagónicas, principalmente com a não existência de verdades absolutas, se é que as há em relação a muitos momentos da História de Portugal e Universal. Todos nós conhecemos situações da História onde o consenso não existe!
No que respeita ao Artigo do Zé Domingos, relacionado com a existência ou não de Feiras Medievais em Vila Mendo, as opiniões também divergem.
Antes de apresentar os meus argumentos que defendem o “Sim” à existência de Feiras Medievais na nossa Terra, vou realizar uma breve reflexão sobre o texto apresentado pelo nosso, atrás referido, amigo de Vila Mendo.
Respeitando a sua opinião penso que, apenas, está sustentada em suposições:
1ª – Quem somos nós para supor que o grande Alexandre Herculano confundiu Vila Mendo com outra localidade?
2ª – “…a sua [Alexandre Herculano] afirmação baseia-se em leitura de Documentos Manuscritos”, afirma o Zé Domingos. Tudo certo, mas então, esses documentos não têm valor? Ou será que se, baseado nos referidos, Alexandre Herculano referisse que provavam existência de confusão, aí já deveríamos acreditar na sua veracidade e autenticidade?
3ª – Referir que não existiram Feiras Medievais porque as casas, agora existentes, têm menos de 120 anos, parece-me, além de uma suposição, algo contraditório, porque de seguida é afirmado que Vila Mendo, antiga Vila Romana, tem cerca de 1800 anos.
4ª – Afirmar que a ausência de vestígios arqueológicos é uma prova também não me parece correto. Todos nós sabemos que, quase diariamente, são descobertas, por esse mundo fora, novas provas arqueológicas. Será que se fosse realizada, em Vila Mendo, uma investigação desse género não seriam encontrados sinais e evidências, dos nossos antepassados, que nos deixariam orgulhosos?
Relacionada com esta temática a minha argumentação, a favor da existência das Feiras, lança também, algumas suposições, mas acrescenta dados documentais que podem ser importantes para a resolução deste enigma.
Alguns indícios que sustentam a minha Tese:
1º - Francisco Falcon, um dos grandes historiadores brasileiros, diz que Alexandre Herculano era um historiador criterioso, com método científico, que apenas se apoiava em documentação rigorosa e não se deixava influenciar por Lendas ou Mitos. Então pergunto: será que tão ilustre escritor e historiador terá cometido um erro tão crasso ao ponto de confundir as Feiras realizadas na nossa Aldeia?
2º - Na Primeira Imagem vemos a capa do meu Livro de História do 10º ano onde as nossas Feiras são referidas.
3º - Na Segunda Imagem, pertencente à referida Coletânea, podemos ler referências às Feiras de Vila Mendo e observar um Mapa, que cita um prestigiado historiador português, onde, facilmente, se pode identificar a localização exata de Vila Mendo e Castelo Mendo. Se houvesse engano, e agora sou eu a especular, então quase de certeza que Vila Mendo apenas seria citada no mapa ou somente no texto, ou em nenhum deles!
4º - Na Terceira Imagem, parte integrante de um estudo realizado pela historiadora Virgínia Rau e onde é analisada a questão das Feiras Medievais, podemos igualmente, identificar a localização de Vila Mendo e Castelo Mendo.
(“A Evolução Económica de Portugal nos Séculos XII a XIV”. Volume 10º - pág. 123) – Fonte: Castro, Armando – História Económica de Portugal – II Volume, Lisboa, Editorial Caminho.)
5º – Nas duas imagens seguintes vemos outro exemplo de um Compêndio (pág. 508, 509 e 510) da História de Portugal que faz referência às Feiras Medievais em Portugal. Entre outras são citadas as Feiras de Marialva, Trancoso, Castelo Mendo, Sabugal e também as de Vila Mendo!
6º – Para concluir a apresentação de exemplares que falam nas Feiras Medievais de Vila Mendo, vou apresentar a capa e um excerto de mapa, dessa obra (pág. 794), onde a nossa Aldeia volta a estar referenciada.
Importa referir que a esta “História de Portugal” foi-lhe atribuída, em 2009, por unanimidade do respetivo Júri, o Prémio Literário D. Dinis instituído pela prestigiada Fundação Casa de Mateus
7º - Além das Obras Literárias, que foram produzidas por diversos historiadores de referência, existem outros aspetos, aliás também referidos e bem pelo Zé Domingos, que me levam a acreditar na existência dessas Feiras. De todos eles dou especial ênfase à Tradição Oral.
Os documentos escritos podem desaparecer ou estarem perdidos em algum arquivo, por isso uma das melhores formas de adquirir conhecimento é através do saber que é passado de pais para filhos, de geração em geração. Esse não se evapora.
Desde tenra idade que ouço meu Tio António Vicente, natural da Miuzela-do-Côa, senhor com perto de 80 anos, referir-se, baseado em Livros de História dos seus tempos de estudante no Liceu, às Feiras Medievais de Vila Mendo.
Devo, aqui também, recordar o testemunho dos meus quatro avós pois todos eles afirmavam que já os seus antepassados se referiam à Feira que, antigamente, se terá realizado em Vila Mendo.
8º - Para concluir deixo aqui um reparo que pode merecer reflexão. Porque será que Vila Mendo desde sempre foi referenciada, e os mais velhos assim o podem confirmar, como uma aldeia de muitos negociantes/comerciantes de gado? Será que esse não foi o grande legado que essas, Feiras da Idade Média, nos deixaram?
Quando tiveram o seu início? Durante quanto tempo duraram? Quando terminaram? Não é fácil responder, mas baseado em alguns sinais e fortes indícios, estou convicto de que a minha amada Vila Mendo teve a sua Feira Medieval.
Abraço a todos especialmente ao Zé Domingos que, através do seu Artigo, proporcionou a existência deste dinâmico, acalorado e, acima de tudo, enriquecedor debate.
Júlio Manuel Antunes Pissarra
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História Vila Mendo
sexta-feira, 1 de março de 2013
estórias da Terra- Manuel da Silva Gonçalves
Depois da intervenção dos militares na casa da escola, ou casa da professora, após o 25 de Abril de 1974, criámos o Clube da Juventude nesse espaço. Esta experiência foi mal sucedida porque nessa época não se conseguiu reunir as condições e apoios para que o projeto tivesse pernas para andar.
No entanto, passaram-se ali alguns serões agradáveis e recordo, particularmente, mais dois episódios:
A galinha decepada que caminhava
Recordo-me de uma noite em que, depois de um jogo de “lerpa”, o Adérito para pagar as dívidas foi buscar uma galinha à capoeira dos pais para fazermos uma patuscada. Eu e o Jorge Pereira ficámos com a tarefa de matar a pobre da galinha. Saímos do salão e fomos matá-la num dos terrenos que ladeiam o largo. Segurei-a com as duas mãos, enquanto o Jorge lhe agarrou na cabeça e cortou o pescoço. Para não me sujar com o sangue larguei-a e, para espanto nosso, o animal começou a andar… parecia fugir ao destino. Claro que nós fugimos para o lado contrário e fomos para o salão relatar o insólito acontecimento.
Só a fomos buscar depois de uma grande galhofa e a pobre da galinha acabou por ser cozinhada mas de tão rija, estava verdadeiramente intragável. Devia ser a mais desdentada da capoeira!
Patifaria
Noutra noite, depois do fecho, decidimos colocar todos os carros de bois e carroças que estivessem na via pública virados de lado, isto é com uma das rodas no ar. Para disfarçarmos a autoria da brincadeira nem os dos nossos familiares escaparam.
Na manhã seguinte a pacata aldeia acordou em verdadeiro alvoroço. Só podia ser coisa de gente estranha à aldeia diziam.
A sra. Maria afirmava “os nossos não foram pois até nos colocaram o arado de madeira em cima do portão”; a minha mãe retorquia “ai os meus também não porque os nossos carros também estão virados”.
A estratégia resultou!
Devo acrescentar que fomos cuidadosos e, para além do incómodo, não causámos prejuízo a ninguém.
Manuel da Silva Gonçalves
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Estórias de Vila Mendo
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Neve na Guarda
Nevou com alguma intensidade, pela manhã, na Guarda e logo vários serviços encerraram, nomeadamente as escolas. Fim da manhã e circula-se normalmente. Continuo sem perceber esta peculiariedade da nossa cidade que quase pára quando neva, mesmo que pouco... Que seria das cidades e dos países nórdicos...
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Guarda
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Vozes da Terra- Zé Domingos
Feiras em Vila Mendo...
Este dilema surge quando se analisa o facto do grande Alexandre Herculano (que se saiba não se deslocou a Vila Mendo e a sua afirmação baseia-se em leitura de documentos manuscritos) mencionar a nossa terra como um importante entreposto comercial nos primórdios da nacionalidade portuguesa, e se analisa os espaços físico-geográfico de Vila Mendo.
Tendo em conta o empirismo, a geografia e algumas leituras de opiniões de recentes historiadores, leva-me a opinar que o Herculano terá confundido o nosso Vila Mendo com a vila de Castelo Mendo.
Depois de visitar, mais de uma vez, a antiga vila de Castelo Mendo, vi (para mágoa de um vilamendense) não só nas suas condições físico-geológicas, como também o casario da povoação testemunha a sua antiga grandeza, demonstrando que ali estão reunidas as condições logísticas tão necessárias à organização e à segurança das ditas feiras francas.
A “nossa” feira foi criada por Carta de Foral (doada à vila de Castelo Mendo), passada pelo rei Sancho II quando estava em Vila do Touro, a 15 de Março de 1229, com indicação de que será realizada por oito dias, três vezes por ano: na Páscoa, no São João e no São Miguel. Privilegiava todos os que a ela concorressem, tanto nacionais como estrangeiros, teriam segurança contra qualquer responsabilidade civil ou criminal que pesasse sobre eles.
Hoje para os estudiosos, não restam dúvidas de que o Grande Herculano terá confundido a pequena e pobre aldeia camponesa de Vila Mendo do concelho da Guarda, com a vila enobrecida de Castelo Mendo, do concelho de Almeida.
A minha discordância com o dito historiador é baseada nos seguintes aspetos:
A favor da realização das feiras francas em Vila Mendo:
a) O enorme baldio de que hoje resta a “Balça”. É um vale pouco acentuado que começa no Espinhal e termina no rio Noéme que se foi emparcelando. As duas últimas parcelas do seu desmembramento foram, na década de cinquenta, vendidas para angariar dinheiro para a construção da nossa escola.
b) As muitas nascentes que se podem encontrar no vale permitiriam matar a sede aos animais e aos feirantes. Os principais negócios das feiras, na altura, não passavam de trocas de produtos agrícolas e de animais (sobretudo ovinos e caprinos) e de algum artesanato.
c) A localização geoestratégica de Vila Mendo, ponto de encontro de muitos caminhos que seguem de sul e de sudoeste para a cidade de Guarda e de oeste para o Jarmelo, Trancoso (praças muito importantes de antanho. A via que vem de sul e que segue o serpenteado da margem direita do rio Noéme. O caminho que vem do Sabugal- Marmeleiro- Monte Carreto. O caminho vem do Adão e que segue em direção a Jarmelo,Trancoso...
d) A tradição oral que nos foi chegando. Neste aspeto, que me recorde, só após um trabalho de investigação realizado em 1978 pelo meu tio padre António, aquando da sua licenciatura em História, se começou, em Vila Mendo, a dar voz ao assunto.
Aspetos que põem em causa ser Vila Mendo um entreposto comercial.
a) A planta da própria povoação (desculpem-me pelos nomes topológicos que vou utilizar… mas não sei as novas denominações dadas às nossas ruas). Se tivermos em conta que:
. As casas da rua da Capela, a seguir à rua do Zé Velho, não terão mais de 120 anos. As casas dos “cristinas” e dos “cortes” são bem recentes. A casa da senhora Augusta ainda é mais recente. Penso que a nossa capela, durante muito tempo, esteve isolada do casario.
. Na rua de Baixo, a casa dos “marques”, abaixo da casa do Sr. Joaquim Pereira, terá a mesma idade.
. O mesmo acontece para a rua do “Pessigo”, a última casa era, até há bem pouco tempo, a do Sr. Armindo, antiga casa dos “dias”.
. Já me lembro de ver construir a casa que agora é do Sr. José Bragança (antiga casa do Sr. Acácio).
Pelo que, para a antiga povoação e tendo por centro a Moreira, o perímetro exterior do casario passaria num raio aproximado de 50 metros pelo Beco do Forno, “Pessigo”, Beco da casa do António Bragança, rua do Zé Velho, estendendo-se pela rua de Baixo até à casa do Sr. Manuel André, passando depois pela casa do meu pai (Joaquim Domingos), pela casa dos meus tios que estão no Alentejo e fechando-se o círculo do casario na casa da “ti Ana Corte” onde se une ao Beco do Forno. Este seria o perímetro no início do século XX.
(Se pensarmos que a nossa terra terá sido uma pequena quinta, “vila”, romana, pelo que terá pelo menos uns 1800 anos) logo, o espaço urbano pouco se desenvolveu. Penso mesmo que a primitiva aldeia foi constituída por pequenos aglomerados de casas que aos pouco se foram ligando. Esta hipótese parece-me razoável, uma vez que, ainda hoje, podemos, empiricamente, constituir alguns conjuntos de casas, tendo por base as portadas, no alçado frontal existem e estão viradas para o interior do casario, no alçado posterior, (parte de trás das casas), janelas inexistentes ou pequenas frestas. Uma forma de evitar assaltos pela retaguarda.
Não vislumbro, na nossa terra, estruturas para colmatar as necessidades logísticas de eventos que duravam mais de 24 dias por feira. Saliento, entre outras necessidades, espaços cobertos/fortificados para guarida dos organizadores/responsáveis pela feira, fiscais/cobradores de impostos, lugar para aprisionar os criminosos da feira (pelourinho)… e porque não, locais para as práticas religiosas “obrigatórias” nessa altura. A nossa capela, mesmo com o aumento da década de setenta, não daria resposta às necessidades de tantos feirantes.
Podemos alvitrar que se armavam tendas como nos acampamentos militares, mas se nos lembrarmos que eram três feiras por ano, bem calendarizadas no tempo e que se mantiveram por mais de cinquenta anos… a solução das tendas fica desmontada.
b) Não há qualquer vestígio de pedra artisticamente trabalhada nem de casas senhoriais. Se percorrermos as nossas velhas ruas não vemos vestígios de pedra embelezada que a identifiquem como pertencente a construções senhoriais. As portadas da casa da família do Sr. Manuel Domingos, situada no cruzamento das ruas do Zé Velho com a Rua da Capela, não passam de uma habilidade de um pedreiro e nada mais.
A hipótese das casas solarengas terem sido desmanchadas para, com as suas pedras, se construírem, na cidade da Guarda, novas habitações, não é descabida. Este tipo de pedra artisticamente trabalhada também não se encontra nas aldeias mais próximas, situadas a sul da cidade da Guarda. No entanto, encontram-se facilmente pedras trabalhadas nas aldeias localizadas a norte e a leste da cidade.
Será matéria para se pensar…
A primitiva casa vilamendense era térrea, muito baixa, com minúscula ou mesmo inexistente chaminé, casa com pouca luz natural (porta da rua, janelas inexistente ou uma/duas no alçado frontal). No seu interior, uma sala (recebia a luz natural da porta da rua), com ligação para a cozinha com uma pequena fresta (quando havia) e para dois ou três cubículos escuros para as enxergas cheios de palha de centeio. Tinha um pequeno curral, um cabanal, um pátio para o porco e uma corte para os animais. Ainda se encontram exemplares no Beco do António Bragança, a antiga casa do Sr. Zé Monteiro e Zé Pereira, no Beco do Forno.
c) Não há vestígios de fontenários nem de nascentes, dentro do perímetro da aldeia, capazes de garantirem água para matar a sede às centenas de visitantes. O chafariz e a fonte ao fundo da aldeia, não seriam suficientes, nem teriam depósito para garantir o abastecimento contínuo de água. Se me recordo, o chafariz é recente, pois ouvi o Sr. José Bragança, “velho”, falar da sua construção e da canalização das águas em tubagem cerâmica. Pelo que, no interior da planta do antigo casario, não há vestígios de nascentes e nem haveria lugar para as represas. E, sendo assim, só teremos a fonte, junto à casa de meus pais, para abastecer toda a aldeia. Possivelmente, haveria algumas picotas em volta das casas, como o testemunham os poços nos quintais dos “cortes” “gregórios” “tia augusta”, no “chão da fonte”...
d) O próprio local para a feira não apresenta condições físico-naturais ideais para estadas tão prolongadas. É um espaço aberto. Não há abrigos naturais capazes de defenderem os feirantes e os animais das intempéries e muito menos de assaltantes (apesar de estarem protegidos pela Lei real). Lembro que as feiras se realizavam na Páscoa, (no frio de março/abril), S. João (fins de junho) e pelo S. Miguel (29 de setembro).
A povoação de Vila Mendo não passaria, pois, de uma pequena e pobre aldeia que abrigava pobres camponeses e pastores com habitações a condizer.
Isto não significa que não tenhamos orgulho nos nossos antepassados. Nós somos filhos/herdeiros de homens que resistiram, pela sua capacidade de labuta, às intempéries, às fomes, às pestes e às guerras. Que foram capaz de rasgar a terra com a sua força bruta, para tirar o alimento. Plantaram árvores, de que os centenários castanheiros são ainda testemunhos vivos. Construíram paredes, rebentaram barrocos usando apenas simples picos e pequenos ferros. À força do braço, arroteando terrenos incultos, tornando-os em campos férteis. Não há conhecimento de crimes violentos, antes pelo contrário, os exemplos que chegaram aos nossos dias mostraram-nos que cultivaram a comunhão de esforços, a cooperação e a interajuda.
Não será, pois, o engano do grande historiador que nos irá tirar o prestígio angariado ao longo dos 2000 anos de existência. A força e o dinamismo da associação são prova disso mesmo. Mas... como pessoas de bem, devemos dar o seu ao seu dono...
Zé Domingos
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História Vila Mendo
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Exposição fotográfica
Está a decorrer no café "Oh da Guarda" (em frente aos correios) uma exposição de fotografia, sobre a Guarda, da autoria de Júlio Pissarra. Visite-a.
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Fotografia
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
estórias da Terra- Manuel da Silva Gonçalves
"O diabo que tocava o sino"
Era tradição no sábado de aleluia tocar-se o sino depois da meia-noite, mais propriamente no domingo de páscoa, até de madrugada ou até que os moradores mais próximos da capela esgotassem a paciência e nos solicitassem para pararmos pois precisavam de descansar. Esta é uma manifestação de regozijo para os crentes na ressurreição de Jesus Cristo e é tradição em toda a região beirã.
Numa dessas noites, depois de termos jogado uma partida de futebol no largo da escola ao luar, pois energia elétrica ainda não havia, resolvemos ir tocar o sino ao Monte Carreto.
Claro que esta ousadia não passava de uma provocaçãozita para com os habitantes daquela aldeia vizinha!
Mas a coisa tinha de ser bem engendrada…
Devíamos ser para uns quinze malandros. Alguém arranjou uns metros de cordel de atar os fardos do feno e pelas duas ou três da manhã aí vamos nós a pé pelos trilhos e caminhos rurais. Quando nos aproximámos da capela da aldeia vizinha, vimos que havia meia dúzia de jovens locais à volta de uma pequena fogueira. Sem que nos tenham visto, escondemo-nos num terreno próximo e, pacientemente, esperámos que o grupo dispersasse e recolhesse às suas residências. Assim aconteceu. Quando se afastaram o suficiente para não darem pela nossa presença, passámos à ação. Acompanhado por dois ou três companheiros subimos a escadaria exterior que nos levava até ao sino e atámos o cordel ao badalo. Depois foi só desenrolar o cordel até passar o muro do quintal mais próximo onde tinha ficado o resto da equipa escondida no meio do centeio. Antes de regressarmos ao grupo, um de nós deu uma valente “carreirinha” do género “tocar a rebate” e depois, de forma mais espaçada e com adequada cadência, o sino tilintava o dlim-dlão cada vez que o cordel era puxado.
Aconteceu aquilo que prevíramos…
Os jovens residentes que momentos antes tinham estado à volta da fogueira começaram a regressar à capela, assim como outros residentes, para tentar perceber o que se estava a passar.
Dizia uma das raparigas: “ Isto é o diabo! Então o sino toca sozinho, é o diabo!”
Imaginam o gozo que esta cena nos deu.
Quando os pasmados moradores se aproximaram o suficiente, nós, os diabretes, largámos o cordel e fugimos para não sermos reconhecidos.
Manuel da Silva Gonçalves
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Estórias de Vila Mendo
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
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