quinta-feira, 19 de abril de 2012

Vozes da Terra- Júlio Pissarra

No dia 11 de Outubro de 1969, pelas 16:58 horas, no Hospital Sousa Martins da Guarda, nasceu um bebé, a quem os seus pais, José Marques Pissarra e Maria do Céu Pires Antunes Pissarra decidiram chamar Júlio Manuel Antunes Pissarra. Depois de o meu primeiro ano de vida ter decorrido em Vila Mendo, passei a habitar o Bairro do Bonfim-Guarda. Entre jogos de futebol, “escondidas” e corridas com carrinhos miniatura e de rolamentos, decorreu a minha infância e parte da adolescência. Em virtude de eu acompanhar uma tia professora do ensino básico, a minha escola primária esteve repartida pelas Vendas da Vela, João Antão, Marmeleiro e Adão. Com o ensino secundário frequentado e finalizado na Escola Preparatória de Santa Clara-Guarda e no Liceu Afonso de Albuquerque-Guarda, transitei para a Universidade Fernando Pessoa-Porto, onde conclui uma Licenciatura em Gestão. Mais recentemente realizei, na Covilhã, uma Pós-Graduação em Higiene, Saúde e Segurança no Trabalho. Neste momento estou Divorciado e tenho uma filha que se chama Joana. Profissionalmente reparto a minha actividade entre a Consultoria Imobiliária e a Docência na Escola Profissional Serra da Estrela-Seia. Ao longo destes anos, os tempos de ócio foram repartidos, principalmente, pela ligação ao futebol e ao associativismo (sou Sócio fundador da A.C.R. de Vila Mendo), não esquecendo o convívio com os amigos.
Uma Memória- Destacar uma Memória de tantos e tão bons anos passados em Vila Mendo é tarefa praticamente improvável! No entanto vou referir as Férias de Verão, que ainda hoje recordo com enorme Saudade. Enquanto decorreu a minha adolescência e juventude, o mês de Agosto foi sinónimo de Férias na nossa Terra. Por essa altura, Vila Mendo, enchia-se de gente muito por culpa dos emigrantes que nessa altura regressavam para matar saudades das suas origens. Recordo, com nostalgia, alguns rituais diários: tomar banho na Ribeira ou nos tanques da quinta do Dr. Crespo; o “ir com as vacas” para os lameiros; o assistir a toda a azáfama das Malhas do Centeio, efectuadas pela saudosa “São Mamede” do Sr. Ismael; o convívio entre a Malta jovem que, à noite, se reunia no Largo da Amoreira; alguns serões passados, com o amigo Vitinho, a ouvir música na carrinha do Sr. Dionaldo; o fumar, às escondidas, os proibidos cigarros; o surgir dos primeiros namoricos! Chegado o fim-de-semana, eu, o Quim Soares, o Paulo, o Quim “do Sr. Virgílio” e o Gilberto, lá íamos nós, a pé, para os bailes das Festas da Freguesia, de onde só regressávamos praticamente ao romper da manhã. Grandes Festas! Principalmente a da Sardinha Assada que, ano após ano, reunia milhares de pessoas para petiscarem uma sardinha, dançar ao som de bons Grupos Musicais e assistir a Memoráveis Concertos como o dos UHF é disso exemplo. Com o passar dos anos o meu principal companheiro de férias passou a ser o meu amigo Paulo. Onde houvesse uma festa, baile ou convívio, nós dizíamos Presente! Referência obrigatória desses tempos era a Discoteca “Night & Day” localizada no Alto de Pêga. Depois de um árduo dia e semana de trabalho toda a Malta se preparava para momentos de relaxamento no referido espaço de diversão. Antes de possuir a Carta de Condução, regra geral, o meu primo Zé Gonçalves fazia o favor de me dar boleia. Da Guarda, Covilhã, aldeias nossas vizinhas e toda a zona da Raia, nas noites da semana e Matinés de Domingo, todos os caminhos confluíam em fantásticas sessões ao som dos Modern Talking, Wham!, Bruce Springsteen, Madonna, Bryan Adams, Toto, etc., etc., etc.. Quem quisesse ver e ser visto tinha por obrigação de frequentar a Discoteca de Pêga! A “febre” era tanta que determinada segunda-feira à noite, depois do primo Zé, por razões que não interessa agora analisar, se ter recusado a cumprir a “peregrinação” previamente acordada, eu e o meu amigo Victor Soares realizamos a viagem, para a discoteca, numa desgastada, velha, mas honrada mota V5. Para não perdermos tempo nem os capacetes procurámos! Depois de muito convívio, belas Festas e animados Bailes, no dia 26 ou 27, as Férias de Verão terminavam. E, invariavelmente, concluíam com uma cena bonita e ternurenta. Enquanto, eu, descia as escadas a fim de me deslocar para o carro e iniciar a viagem de regresso à Guarda, os meus avós e a minha Madrinha Marques, todos com a lágrima ao canto do olho, acenavam como forma de despedida e pediam para que os voltasse a visitar o mais rapidamente possível.
Um Momento- Vários, muitos, diversos! Mas selecciono o Natal como sendo “o” Momento. Comemorar, na aldeia, esta grandiosa data era um dos pontos altos do ano. Aí, o Natal tinha outro esplendor e autenticidade! Tudo, no dia de Consoada, começava em casa dos meus pais com o preparar da Mala e de algumas iguarias que eram fundamentais para essa importante efeméride. Chegado a Vila Mendo deliciava-me com um belo e simples pequeno-almoço, constituído por Café Preto e uma Torrada de Pão Centeio feita “ao lume”. As restantes horas da manhã eram preenchidas, na companhia do meu pai, do meu avô Pissarra, do meu tio Victor e do “Ti” Zé Pôpo, com visitas aos animais bovinos e caprinos. Sem nos apercebermos a hora de almoçar chegava. Esta refeição, geralmente de carne guisada, era saboreada na companhia do meu referido avô, da minha avó Purificação, dos meus pais, da minha tia Alcina, do meu tio Victor, da Madrinha Maria Marques e do “Ti” Zé Pôpo. A tarde era repartida pelo convívio com os amigos e a “ida à Lenha” para a Fogueira, que, normalmente, apenas acontecia com o cair da noite. Com tractores, força de braços e com todos “à voz de um” (normalmente a do Vitinho), lá conseguíamos reunir madeira para acender a maior, melhor e mais imponente Fogueira de Natal da região. Com o soar das vinte badaladas, o momento solene chegava! Era, então, hora de Consoar. Sentados à mesa e ao calor de uma bela Fogueira ceávamos o bacalhau, as couves e as batatas cozidas como sempre, mas, que, nesse dia, sabiam como nunca! Seguia-se uma visita à casa dos avós maternos, onde também estavam presentes tios e os primos, que sempre me acompanhavam à Fogueira. O que restava da noite era consumido em tertúlia e no degustar de algum petisco que acabava sempre por aparecer. Certa noite, a malta que rodeava o Madeiro, decidiu “comer alguma coisa”. O enchido, o pão e o vinho rapidamente apareceram, mas para complemento do repasto o meu primo Zé decidiu que deveríamos assar um coelho bravo!!! Com o Victor Soares ao volante de um tractor, o Zé com a Caçadeira em punho e eu como servente, lá fomos à caça! Depois de 7 ou 8 tiros falhados e de alguns trilhos e vales palmilhados, regressámos, cabisbaixos, sem a ansiada peça de caça. Quando chegámos à Fogueira já o resto do petisco estava consumido. Tivemos que nos contentar com algumas sobras que os nossos amigos, “generosamente”, reservaram…! As primeiras horas do dia 25 eram preenchidas com a Missa de Natal e um fabuloso almoço confeccionado, principalmente, pela minha avó Purificação, por minha mãe e pela tia Alcina. Como não poderia deixar de ser, a tarde era ocupada por uma Matiné na Discoteca de Pêga. Comido o lanche e feitas as despedidas, o fim do dia chegava e isso significava o início da contagem decrescente para o próximo Natal!
Um Lugar- “Jú, nunca deixes ao abandono esta casa!” Esta frase foi proferida pelo meu avô Pissarra na última vez que ele esteve no seu Lar de Vila Mendo. A Casa dos meus avós sempre foi o lugar, a referência, o ponto de partida para as minhas estâncias em Vila Mendo. Era a partir desse local que tudo tinha o seu início. Sempre me serviu como porto de abrigo, aí passei belas férias e inesquecíveis noites de Natal e degustei simples mas saborosas refeições servidas numa mesa, estrategicamente, colocada na varanda virada para a Eira. Desde que os meus avós faleceram tenho sido eu a assumir a utilização e manutenção dessa habitação. Nela, tenho tido o prazer de saborear aquele que eu considero o Fim-de-Semana perfeito. Depois de uma retemperadora noite de sono parte da manhã, de Sábado, é passada no leito a sentir o forte vento e o relaxante som que a chuva provoca ao chocar com a vidraça da janela. Mas, como a uma pessoa que se ama, também a este lugar é necessário dar mimos e carinhos. É então o momento de limpar o pó, varrer o chão e perfumar loiças, azulejos e mosaicos. Acto seguinte, a Merenda, habitualmente consumida ao calor de uma bela fogueira e com uma lentidão de alguém que se regala! Pão centeio, deliciosos enchidos, humildes bifanas e bom queijo, com o complemento de um bom líquido de Baco, constituem um verdadeiro e autêntico manjar que, em Vila Mendo, nestas circunstâncias sabe a dobrar! Com o estômago reconfortado, ninguém me faz arredar pé! Refastelado, na poltrona, lendo o jornal do dia e a revista da semana, com os pés virados para o lume e os olhos a pedirem descanso, inicia-se, a tarde, com uma Sesta sem igual. Consolada a alma e descansado o corpo é altura de visitar os amigos. Com certeza a sede da nossa associação está repleta pela nossa malta e por amigos da Terra que gostam de nos presentear com a sua visita. Com uma “suecada”, um lanche confeccionado nas brasas e o espreitar de algum jogo de futebol assim se passa o serão. Findo este, nada melhor do que regressar ao amado lar, que me espera para mais uma noite de revigorante sono. Com o arrumar da “trouxa” e o trancar de portas e janelas assim conclui o agradável e bucólico fim-de-semana passado no lugar que, desde a minha infância, considero o mais completo desta maravilhosa aldeia chamada Vila Mendo.
Uma Pessoa- Sem dúvida o meu avô António Pissarra. Falar do meu avô é falar pouco mas com conteúdo. Defeitos, alguns. Principalmente alguma teimosia e intransigência em determinadas situações. Mas acima de tudo era um homem de poucas mas acertadas palavras e de muitas e correctas atitudes. Por contingências da vida os pais dos meus pais não tinham relacionamento pessoal, no entanto, certo dia deflagrou um incêndio em casa dos meus avós maternos e sabem quem foi a primeira pessoa a subir para o telhado a descarregar baldes de água? O meu avô António Pissarra. Este episódio é revelador de um carácter sério, honesto, generoso e corajoso. Hoje, encho-me de orgulho quando pessoas de Vila Mendo e não só se referem ao meu avô como tendo sido das pessoas mais completas que a nossa aldeia conheceu. Dos trabalhos em madeira, à mecânica, da agricultura ao negócio de gado, da construção civil à criação de brinquedos para eu me divertir, de tudo um pouco ele realizava com engenho, sabedoria e arte. Com ele passei grandes e agradáveis momentos e a seu lado estive quando a doença o começou a consumir. Os dias da sua Morte e Funeral são por mim, até hoje, guardados como os mais tristes da minha vida. Mas no dia seguinte já com as emoções estabilizadas e o espírito mais aberto para aceitar e enfrentar a realidade cheguei à conclusão de que não deveria estar triste por ele ter partido, mas sim feliz por com ele, tantos e tão bons anos, ter convivido! Avô, onde quer que estejas, envio um Grande Abraço e um Maior Beijo!
Um Projecto- Quando se pensa as nossas aldeias, que como a nossa se localiza no interior profundo do nosso país, é fundamental potenciar os recursos naturais, culturais e humanos essenciais para evitar a crescente desertificação que se tem vindo a acentuar de há uma década para cá. Foi baseado nesses vectores que, enquanto membro do antigo executivo da Junta de Freguesia de Vila Fernando, iniciei um projecto para o desenvolvimento da nossa freguesia. Mas, democraticamente, os eleitores decidiram eleger uma outra equipa para o executivo local, o que impediu o seu desenvolvimento. Esse projecto passava pela divulgação e promoção do património humano, natural e edificado. Mas agora o que nos preocupa é a nossa amada Vila Mendo. Desde a fundação da A.C.R. de Vila Mendo que, eu via esta instituição como um motor para o desenvolvimento da nossa aldeia. Depois de convenientemente alicerçada a vertente recreativa e desportiva com o regular funcionamento do Bar da Sede, o enraizamento do Encontro Motard e a consolidação do Torneio de Futebol de 7, na minha opinião, a Associação deve dar um passo em frente no sentido de diversificar o seu contributo para a valorização da localidade onde está sedeada. A criação de uma Agenda Cultural para a promoção e divulgação da nossa Terra é essencial para que Vila Mendo não caia no esquecimento. Exposições, espectáculos musicais e teatrais e a divulgação das nossas tradições e património, são exemplos de produtos fundamentais para a dinamização da nossa aldeia.



















4 comentários:

Anónimo disse...

Muito bem sr. Julio!
Sera que a ti deixaram-te escrever na balsa ou em que folhas! A mim so em duas A4!
Mas ta bem!!!
Hoje vi que ha mais um pessoa (no Brasil) atenta ao que se passa em Vila Mendo, gostei!
Sobre este ultimo trabalho da associaçao e para a mesma, e como sei que nem todas as pessoas teem acesso a internet, porque nao imprimir os trabalhos e afixa-los na sala 2, da associaçao para que essas pessoas possam ficar informadas e talvez a partier dai, possam dar opinioes e sugestoes que é sempre bom, nao sera presidente!
Um abraço a todos.
"Pereira"

Júlio Antunes Pissarra disse...

Ben-haja, Sr. Presidente. Essa ideia de publicar os depoimentos na nossa Sede é ótima, aliás eu já tinha comentado isso com o Filipe. Logo que os trabalhos sejam publicados no Blogue deveriam ser passados para Papel e expostos.

Luís Filipe Gonçalves Soares disse...

Tudo a seu tempo... A edição impressa será uma realidade, mas bem pensada e balizada.

Daniel Lucas disse...

Belas memórias!