sexta-feira, 21 de julho de 2017

Freguesia Vila Fernando em 1575- Graça Sousa

Graça Maria Garcia Soares Calçada Sousa nasceu na Guarda em 1963. As suas origens provêm de Vila Fernando, Quinta do Meio e Monte Carreto. Na infância, e sobretudo nas férias e fins de semana, Vila Fernando acolheu as suas brincadeiras (inesquecíveis) com primos e vizinhos. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade de Coimbra e é Mestre em Ciências da Educação pela Universidade Católica. É professora do 3º Ciclo e Secundário.
Recolheu as informações abaixo publicadas quando, há uns anos, decidiu investigar e construir a árvore genealógica da sua família, quer do lado paterno, quer do lado materno, recorrendo à consulta de livros, documentos e microfilmes no Registo Civil da Guarda e no Arquivo Distrital da Guarda.
Ficamos a aguardar outros contributos, outras curiosidades...

CuriosidadesVila Fernando no séc. XVI

Batismos
Em 1575, primeiro ano em que houve assentos paroquiais na freguesia de Vila Fernando, há notícia de terem sido batizadas 33 crianças – 19 rapazes e 14 raparigas.
Nasceram, sobretudo, em Albardo (7), no Adão (7) e em Vila Fernando (6). Os restantes dividiram-se por Vila Mendo, Quinta de Cima, Quinta de João Lopes, Quinta de João Dias, Pousafoles, Monte de S. Pedro e Monte Sardinha.
Nasceram, principalmente, nos meses de agosto (9), abril (7) e setembro (6).
Para os rapazes, os nomes mais usados foram Francisco (5) e Domingos (4) embora também houvesse quem escolhesse António, Jorge, João, Diogo, Lourenço e Gonçalo. Quanto às raparigas, os mais usados foram Maria (6) e Catarina (3), mas também apareceram Isabel, Beatriz e Domingas.
Foram todos batizados na pia batismal de Vila Fernando e quase todos pelo Pe. Manuel Tavares.
Um grande número de pais (10) tinha o apelido Gonçalves. Nos restantes, podemos encontrar Afonso (4), Pires (3), Martins, Fernandes, Lourenço, Antunes, Dias, João, Gomes, Francisco, Jorge e Anes. Quanto às mães, também predomina o apelido Gonçalves (15). Aparecem também Antunes, Anes, Fernandes, Pires, Martins, Afonso, Dias, Fonseca e Leal.

Casamentos
Em 1575, foi registado um único casamento: Diogo Lopes (Vila Mendo) casou com Isabel Gonçalves (Monte de S. Pedro), ambos da freguesia de Vila Fernando. Tudo se passou em 18 de setembro, na Igreja de Vila Fernando, perante Gaspar Jorge, Álvaro Pires, Diogo Gonçalves Preto, Diogo Gonçalves de Cima e “… outras mtas pessoas que na Igreja estavam…”. O casamento foi realizado pelo Pe Manuel Tavares.

Óbitos
Em 1575, existem assentos de óbito relativos apenas aos últimos quatro meses do ano. Nesse período de tempo, faleceram 22 pessoas (10 homens, 11 mulheres e uma pessoa de que não se percebe o nome): 4 em setembro, 13 em outubro, 3 em novembro e 2 em dezembro.
Essas mortes ocorreram, sobretudo, no Adão (15) mas também em Albardo, Pousafoles, Vila Mendo, Monte Carreto e Quinta das Lameiras.
Fernandes (4), Gonçalves (4), Pires (2), Gil, Esteves, Miguel, Jorge, Martins, Rodrigues, Álvares, Manso, Domingues e Afonso foram os apelidos registados.
Das 22 pessoas, 4 foram sepultadas dentro da Igreja e 15 no adro. Sobre as restantes, não há informação. Algumas (12) fizeram testamento ou “manda” ou “verbal manda”.
Foi o Pe Manuel Tavares que realizou todas as cerimónias.

Nota: Datando os primeiros assentos paroquiais da freguesia de Vila Fernando do ano de 1575, é possível que, por ainda não ser prática habitual, o pároco não tivesse registado todos os batismos, casamentos e óbitos ocorridos nesse ano e nos seguintes.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Gentes de Lá por Cá

           Armando, Tarciso, Mayra, Pereira, Joaquina, André

A Joaquina é familiar do Armando e do Pereira da parte da família originária de Cairrão. Foi para o Brasil ainda pequena. Casou com o Tarciso. A Mayra é a filha; o André o genro.
Estiveram em Vila Mendo no Encontro Motard. Aqui o registo da sua presença.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Momentos

Tó, Rodrigo, Manuel, Victor, Clara, Costa

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Entrevista a António Pereira Gomes

António Pereira Gomes, 59 anos, natural de Vila Mendo. Foi marinheiro, mas ingressou na Guarda Fiscal entretanto integrada na GNR. Foi Presidente da Junta de Vila Fernando de 2005 a 2009. Teve a honra e o privilégio de ser o primeiro Presidente da ACR Vila Mendo tendo um papel primordial nas dinâmicas que a nossa Associação criou e estabeleceu. Reformado. Agora que tinha tempo, decidiu viver em França, apesar de nos visitar regularmente ao longo do ano. Continuamos a ouvir os seus conselhos. Defini-lo-íamos como um amante e um acérrimo defensor de Vila Mendo e das suas gentes…

Como os franceses olham para Portugal e para os portugueses?
Os franceses, do pouco que conheço, olham para Portugal como um país pequenino, de boas praias, de boa gastronomia, um país seguro, pobre e pobre porque a emigração é de certo modo elevada, principalmente para França. Também vêem Portugal como um sítio onde devem investir, principalmente na compra de habitação, tanto para férias como para nele residirem a maior parte do tempo, ao longo do ano.
Quantos aos portugueses, continuam a vê-los de bons olhos, como gente trabalhadora principalmente na construção civil, serviço de limpezas, ou seja trabalhos para os quais eles não estão para aí virados, porque quando toca a trabalhos qualificados, aí já são os estrangeiros que lhe tiram os empregos!

Como vês a situação das polícias em Portugal?
É o sempre na mesma. Desde que a conheço as condições de trabalho e os meios para que possam desempenhar com eficiência o mesmo são escassos. Não se lhes dá o valor que merecem, estão sempre de serviço (feriados, férias etc), podem ser chamados a qualquer hora, não são devidamente remunerados para o serviço de alto risco que muitas vezes efectuam (trabalhar de noite ou de dia, em fins de semana ou em feriados, a remuneração é igual). 
Continua a faltar-lhe apoio jurídico em todas as situações quando algo lhes corre menos bem, isto em serviço, são os próprios a ter que pagar do seu bolso, muitas vezes têm necessidade de apoio psicológico e raramente lhes é facultado.

Que motivos te levaram a seguir a carreira militar?
Os motivos que me levaram a seguir a carreira militar, surgiu aquando e só no final do serviço militar obrigatório ( 25 meses na Marinha de Guerra Portuguesa). Adorei e tenho orgulho ainda hoje ter feito parte dessa grande instituição, aprendi lá muito o que me serviu e bem para a minha vida futura. Após esse tempo de serviço militar, tirei a especialidade que quis e que gostava: a de marinheiro L (escriturário), pois já tinha digamos que umas luzes sobre isso, como por exemplo escrever à máquina que aprendi na Escola Secundaria da Sé ( Curso Geral de Comércio). Os últimos 18 meses de marinha passei-os numa secretaria do Comando Naval do Continente (Alfeite- Lisboa). Convidado a continuar, recusei porque tinha de ficar sempre em Lisboa. Entretanto surgiu a oportunidade de concorrer à Guarda Fiscal e não hesitei porque aí já tinha a oportunidade de me aproximar das origens, o que veio a acontecer: depois de ter prestado serviço em Lisboa, Madeira (Serviço de passaportes no aeroporto) Aveiro, Vilar Formoso e finalmente Guarda ( na GNR! serviço sempre em secretaria) até à reforma.

Por certo terás algumas histórias interessantes do teu tempo de polícia. Queres partilhar alguma?
Histórias interessantes tenho muitas para contar, a maioria boas, outras nem tanto. Começo pelas menos boas:
Um certo dia ao sair de casa para ir para o serviço, comandava eu um posto fiscal na zona da raia, deparei- me com os 4 pneus do meu carro furados… dias antes tinha colaborado numa apreensão de tabaco de contrabando, só podia!..
Outra situação, esta já engraçada, aqui também na zona da raia, mas já prestava serviço em Vilar Formoso: fazíamos na altura muitos serviços à civil e foi num desses serviços que aconteceu estarmos numa estrada térrea ( às 3 horas da manhã) que ligava Espanha a Portugal (local não habilitado para a travessia de viatura) e ao apercebermo-nos de que uma viatura se aproximava de nós com os faróis desligados, rapidamente vestimos o chamado fato de macaco (aprovado na Guarda Fiscal) para podermos fazer sinal de paragem ao condutor da viatura ( não era permitido fazer sinal de paragem trajando à civil). Foi então que ao aproximar- me da viatura e sem que tivesse tempo para mais, o condutor foi o primeiro a dar as “buenas noches”, falando em espanhol e logo de seguida o mesmo diz," sou el alcaide de Almeida!” pensava ele que estava perante a Guarda Civil espanhola (porque os ditos fatos de macaco não eram de todo conhecidos, pois serviam apenas para essas situações de emergência) e o dito alcaide (presidente ) só teve que voltar atrás, e dirigir- se à fronteira para poder seguir ao seu destino!

Como membro fundador e impulsionador primeiro da ACR Vila Mendo, que te diz a Associação?
É óbvio que me diz muito, porque sendo eu natural de Vila Mendo sede da Associação, sinto orgulho enorme de ter sido um dos fundadores e ter contribuído com isso para que hoje a nossa terra e ao mesmo tempo a Associação, seja falada e vista como uma associação activa aos longos destes anos desde a sua existência, beneficiando assim a aldeia. Não fosse a Associação, Vila Mendo não era conhecida e o seu nome não era falado por ninguém ou quase ninguém, e hoje é. Por isso mais orgulhoso me sinto por ter feito parte da direcção como presidente e ter feito alguma coisa para que a população se unisse, colaborasse e participasse sempre em força na realização dos eventos efectuados pela Associação, o que contribuiu e muito para que Vila Mendo hoje seja uma aldeia apelidada de unida, acolhedora e que sabe receber bem quem a visita. Em Vila Mendo “tá-se bem”!!! 

Um projecto(s) que gostasses que a Associação implementasse?
Sei por experiência própria que não é fácil abraçar um projecto para o qual não há disponibilidade de meios, principalmente monetários, mas gostaria de ver a actual direcção empenhada num projecto que passaria pela construção de infra estruturas ( pavilhão) que pudesse fazer face às necessidades já há muito existentes, aquando da realização de certos eventos (alguns anuais) como o Encontro Motard, Matança do Porco, festa da aldeia (esta organizada por uma mordomia que também iriam beneficiar disso), e mais. Havendo essas condições estou certo que mais eventos haveria em Vila Mendo organizados pela Associação... (onde é que se abrigam as pessoas em dias de eventos na aldeia nos dias mau tempo?). Aqui fica o desafio à actual direcção! Comecem já hoje a trabalhar; sei que se o fizerem vão conseguir levar avante esse projecto. Conheço- vos a todos e sei bem do que sois capazes, e todos juntos vamos conseguir. Força, mãos à obra.

Como vês o futuro do Interior em geral e de Vila Mendo em particular?
O futuro do interior no meu ponto de vista esta condenado cada vez mais ao abandono. Não vejo ninguém, principalmente políticos, a fazerem alguma coisa para que isso não aconteça. Continuamos a ver as pessoas a sair para as grandes cidades e mais para o litoral. Não se criam empregos no interior e muito menos condições para que as pessoas se fixem cá. Temos um exemplo em Vila Mendo, no séc. XXI, ainda sem saneamento básico! Como é que as pessoas podem permanecer num sitio onde tudo falta, principalmente isso. Por isso é difícil haver alguém, mesmo que muito goste de viver no paraíso (sossego), que deixe as cidades, e aqui até podemos dar como exemplo, a Guarda: quem escolhe uma aldeia para viver, mesmo que a aquisição de casa própria nesses locais seja muito mais barata? Assim Vila Mendo está condenado (como tantas outras aldeias) a ser terra de ninguém. Gostaria de estar enganado, mas infelizmente o meu ponto de vista é este! Mas vamos tentar que Vila Mendo não morra assim, pelo menos enquanto nós andarmos por cá!!!

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Gentes de Cá

Mariana; Judite; Cristina; Graça; Lurdes

domingo, 9 de julho de 2017

Entrevista a António Alves Fernandes

António Alves Fernandes nasceu na Bismula (Sabugal) nos finais da 2ª Guerra Mundial (Novembro de 1945). Ainda criança, trabalhava já nos afazeres agrícolas e, não raras vezes, foi a Espanha procurar o contrabando da subsistência dele e de tantos como ele. Frequentou o Seminário missionário em Gouveia. Não se sentindo vocacionado para a vida sacerdotal optou por seguir um percurso de vida que passou por Setúbal, Lisboa e Castelo Branco. Depois do 25 de Abril, ingressou nos serviços prisionais (26 anos como director). Como tantos portugueses combateu na Guerra Colonial na Guiné. No presente, reside em Aldeia de Joanes. A título de curiosidade, é pai do Presidente da Câmara do Fundão. 
Actualmente escreve crónicas no blogue Capeia Arraiana e acaba de lançar o livro "O Nosso Homem": um livro de crónicas, um livro de memórias, passadas e presentes, um livro de gente concreta, como concretas as suas vivências e que será (apesar de já o ser) um documento (de descoberta) para o futuro...
De Vila Mendo pouco conhece. Faremos os possíveis para que a fique a conhecer até porque brevemente lhe lançaremos um pequeno desafio...

De que forma o seu trabalho nos Serviços Prisionais influenciou a sua vida e como avalia o quadro actual dos guardas prisionais?
Há mais de dezassete anos que estou aposentado dos Serviços Prisionais, onde trabalhei seis como Técnico de Educação e vinte e seis como Director do Estabelecimento Prisional de Castelo Branco, com apoio à Cadeia da Covilhã. 
A formação de oito anos na Escola Apostólica do Cristo Rei em Gouveia foi uma preciosa ajuda para desempenhar essa missão o melhor possível. O meu trabalho prisional passava muito pela compreensão das nossas fraquezas humanas. Na essência, nenhum de nós é santo, caminhamos diariamente, caímos aqui, levantamo-nos acolá, cometemos erros e continuamos. O trabalho com Homens e Mulheres iguais a nós, mas que por um motivo ou outro se viram em situações limite, foi decisivo na minha relação com o próximo. 
O Corpo da Guarda Prisional tem uma das mais difíceis tarefas da função pública. Há dias um Guarda Prisional disse-me com toda a sinceridade: “como motorista de carro celular já fiz dois milhões e quinhentos mil quilómetros, e mais umas centenas nos Serviços de Inspecção”.
Tem de lidar todos os dias, a todas as horas, com pessoas cujo comportamento nem sempre é o mais conveniente. No Infantário Prisional de Castelo Branco, onde estavam 25 crianças, filhos de reclusas, era distribuído à noite um suplemento alimentar, iogurte, bolachas… para os meninos e meninas. Por mais chocante que pareça, havia mães que comiam os iogurtes dos seus filhos, sujeitando-se às respectivas sanções disciplinares. Este é apenas um pequeno exemplo do comportamento da população prisional, existem casos muito mais graves.
Hoje temos um Corpo de Guardas Prisionais bem preparado, é de justiça salientar a atenção do Dr. António Costa, aquando Ministro da Justiça, e do actual Diretor Geral Dr. Celso Manata.
Temos na Guarda Prisional muitos elementos licenciados e com uma extraordinária formação nas áreas do Direito, das Relações Humanas e Sociais, da Gestão de Conflitos e tantas outras.
A caminhada de um Guarda Prisional também é longa e difícil, cansativa, longe da família, às vezes também cai e necessita de ajuda para se levantar. É uma classe profissional que tem a minha total solidariedade, pois vivi de perto as suas dificuldades e preocupações.

Como avalia os políticos no momento actual?
Há de tudo como em todas as actividades humanas. Há aqueles que trabalham e se esforçam por melhorar a vida das populações e há aqueles que quando chegam ao gabinete estão mais preocupados em saber se chegou um convite para o almoço ou para dar um passeio.
Conheço pessoalmente políticos que são uns autênticos heróis, direi mesmo “escravos” da causa pública, chegam a trabalhar 12 ou mais horas por dia, muitas vezes sem fins-de-semana, sem tempo para dedicar à família, com grande sacrifício da sua vida pessoal em prol do bem-estar dos outros. São genuinamente empenhados em lutar contra problemas graves, muitos deles que se arrastam há décadas. Vivem intensamente a missão de servir os outros. Sei que muitas vezes isso não é reconhecido, a ingratidão também faz parte da natureza humana, mas parece-me uma imensa injustiça meter tudo no mesmo saco. Quase toda a gente afirma que um político não faz nenhum. Às vezes gostaria de convidar uma dessas pessoas a passar apenas uma semana com a rotina atrás referida. Acho que mudariam logo de opinião, não há nada como a experiência… 

É natural da Bismula e vive em Aldeia de Joanes, duas comunidades rurais. Como vê o futuro do interior em geral e destas comunidades em particular?
Nasci numa terra arraiana, a Bismula, para muitos desconhecida. É uma pequena povoação, junto à fronteira Espanhola, que viveu muitos anos do contrabando. Aos sete anos já andava com os meus irmãos a tentar fintar a Guarda Civil e a Guarda Fiscal para ajudar a pôr algum pão na mesa. Era uma aldeia pobre, fria, isolada… Aí passei uma infância de sobrevivência com os meus pais e irmãos, o que me marcou para sempre. Quando emigrámos para Setúbal diziam que cheirávamos a pobreza e tivemos muitas dificuldades em nos adaptar. 
Hoje vivo em Aldeia e Joanes, que não tem comparação com a Bismula. Aldeia de Joanes está a dois passinhos da sede do concelho, o Fundão, e a minha Bismula a 25 km do Sabugal. Aldeia de Joanes, além de ser uma aldeia lindíssima, tem muitos pomares, uma agricultura produtiva, uma pequena indústria e rápido acesso aos cuidados médicos. Os bismulenses, pelo contrário, foram, durante décadas, banidos dos cuidados de saúde e morreu muita gente por falta de assistência médica. Tenho orgulho em afirmar que a minha Mãe, apesar da pobreza, ajudou a salvar muitas vidas na minha freguesia. 
Em termos de progresso económico e social, não há comparação possível entre Aldeia de Joanes e a Bismula. Podemos dizer que Aldeia de Joanes é hoje um bairro do Fundão e a Bismula é quase um deserto, apenas no mês de Agosto tem algum movimento com o regresso dos emigrantes, uma ou duas semanas porque a praia é mais apelativa.
Embora haja gente a batalhar pelo interior, vejo extremamente sombrio o seu futuro. Há freguesias onde os “habitantes” estão quase todos no cemitério… A floresta, fonte de sobrevivência dessas populações, sofre atentados e fogos todos os anos, as escolas fecham, os correios, as caixas de multibanco, os cuidados de saúde… Ficam os lares, casas de turismo rural para dois ou três dias e pouco mais… 

Como ex-seminarista, como vê a acção da Igreja nas comunidades?

Durante estes anos da minha vivência, sempre estive próximo da Igreja, de determinados valores aos quais podemos chamar de “humanismo cristão”. Tenho colaborado na Catequese, na Cáritas, na Irmandade, nas Festas Religiosas. Nem sempre fiz as coisas bem, tenho muitos defeitos como qualquer ser humano, mas sempre me esforcei para a Igreja não se desligar da sociedade em que vivemos. 
Hoje temos um Papa Francisco muito virado para a prática da caridade, da solidariedade, para aqueles que nada têm. Gosto desse Homem simples de origem popular, ao lado dos pobres e excluídos. É essa a prática da Igreja que também defendo. Ser cristão é uma aventura, muitas vezes interrogo-me sobre a doutrina da Fé e tenho as minhas dúvidas. 
Há tempos tive um grave problema de saúde, estive internado 19 dias, e posso afirmar que as visitas de um Assistente Religioso e de uma Freira me ajudaram muito no campo espiritual e humano. Essas duas figuras cristãs não vou esquecê-las tão depressa, transmitiram-me Fé, ânimo, coragem e fizeram-me olhar para as camas ao lado, onde também estavam outros doentes. Ao fim de pouco tempo, comecei a falar com eles e a registar num bloco as suas histórias. 
A Igreja sempre foi um importante elo e factor de união e identidade numa comunidade. Se a comunidade está em crise, acho que a Igreja também tem que assumir a sua responsabilidade. Outra situação é o mundo em que vivemos, cada vez mais egoísta, competitivo, cada um por si… Estamos a perder a dimensão espiritual e de proximidade uns com os outros a favor do lucro mais imediato e dos bens materiais. 
Na Igreja, como na Política, há gente a trabalhar arduamente em prol do bem comum, mas também há gente que se acomodou e parou no tempo. 

Como combatente na Guerra Colonial, o que mais o marcou?
Desde logo a violência na instrução militar, quase não nos deixavam respirar. Uma coisa é disciplina, outra é sufoco. 
Lembro-me que deixei de ter nome para passar a ter um número. O meu vocabulário também se alargou, pois vinha dos “Padres” e estava habituado a outro tipo de liturgia… 
Nunca mais esqueci o guindaste a carregar os caixões quando cheguei à Guiné.Impossível não lembrar o meu amigo e companheiro de carteira, o António Novo de Vila do Touro, que foi vítima de uma granada. Ainda hoje rezo e choro por ele, os bons tempos que passámos juntos… 
Marcou-me muito o terror, mas também a amizade, a solidariedade e a camaradagem, éramos uma grande família, a dor de um tocava em todos. 
Não esqueço as Festas do Natal e da Páscoa sem poder vir a Portugal. 
Acho que há muito a dizer sobre a Guerra Colonial, é ainda hoje um assunto tabu. Falta sobretudo ouvir a experiência pessoal de quem por lá passou. Muitas vezes só vejo sociólogos, antropólogos, psicólogos ou politólogos a falar de pé alto sobre uma realidade que não conhecem. Falta o Homem concreto contar a sua história concreta, e ser ouvido sem preconceitos. Para quem está no mato, sujeito a perder a vida a qualquer momento, é muito pouco relevante a situação política do país, os estudos sociológicos, etc.. É matar para não ser morto. 

Acaba de lançar um livro de crónicas – “O Nosso Homem”. O que o levou a decidir-se por tal? Como definiria o seu livro? 

Sempre gostei de escrever sobre matérias e pessoas que fui conhecendo. Só depois de me ver reformado, consegui fazê-lo com maior regularidade, com uma exigência quase diária a par da Agricultura. Umas vezes saía bem, outras assim-assim e por vezes mal, são ossos do ofício. O livro começa com a história verdadeira de um Homem que era odiado por todos, todos fugiam dele, parecia ter lepra. Era meu vizinho, nunca o desprezei, várias vezes falei com ele. Um dia desapareceu e todos me diziam que tinha ido para um Lar, só que ninguém sabia onde era esse Lar. Passaram-se meses e não havia notícias do Homem. Resolvi então entrar na casa do Homem e descobri que o Lar era um monte de ossos… Este acontecimento marcou-me terrivelmente e responsabilizou-me como pessoa. Como foi possível um acontecimento destes tão perto de mim? Depois comecei a pensar nas pessoas, no “Nosso Homem” que somos todos nós, e daí estas histórias de pessoas concretas com uma dimensão colectiva. O Nosso Homem pode ser alguém que caiu no esquecimento da sociedade, pode ser um carteiro, um contrabandista, um autarca, um militar, um barbeiro, etc.. Alguém que é nosso no sentido de responsabilidade colectiva para com o outro. Este livro faz-nos reflectir porque um Homem morre sozinho na noite de Natal. 
Não deixa também de ser um livro diversificado com muitas pessoas, terras, viagens, temas, memórias, etc.. Não tenho muito jeito para ficcionar, prefiro anotar os factos e sujeitá-los à leitura de cada um. 
Não era minha intenção publicar estes textos. Mas a família, amigos e muitos leitores insistiram tanto comigo que acabei por aceitar o repto. Em boa hora o fiz, vendo agora a procura, principalmente nas beiras e na Zona arraiana de onde sou natural. Soube há tempos que a Sra. Emília de Jesus, a quem dediquei um texto, se encontra num Lar e que pede à enfermeira para lhe ler o texto sobre ela, “A VIÚVA DE UM MINEIRO”. Esse é o maior prémio que alguém pode receber, sentir que foi importante para a Vida de outra Pessoa.

sábado, 8 de julho de 2017

Gentes de Cá

 Júlio, Victor, Rodrigo, Costa, Mariana, Graça

terça-feira, 4 de julho de 2017

Coisas simples

A singularidade das coisas simples (simples) revela-se na ingenuidade das brincadeiras das crianças que, em Vila Mendo, podem dar asas à imaginação... explorando, experimentando, inventando... sem as amarras que a cidade como tal propõe e, muitas vezes, impõe no decurso natural do seu desenvolvimento... que se quer global e profícuo...

domingo, 2 de julho de 2017

Gerações

        Sr. Ismael, Sra. Lurdes, Sara
Gerações descoincidentes, aspirações díspares, separadas pelo peso da idade que teima em avançar inexoravelmente. Gerações simbióticas, relações umbilicais, perspectivando um futuro que se quer maior...