sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Vila Mendo... simplesmente.

 Vila Mendo, ao longe, coberta pela neblina, pronta a despontar... mais bela... mais venusta... mais... nossa...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Momentos (eleitorais)

 Mais dois anos de empenho e dedicação desta equipa em prol de Vila Mendo

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Curiosidades

Pêssegos em Dezembro?!. Sim... em Vila Mendo

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

pequenas notas... soltas

Memórias
Memórias! Quem as não tem...
Experiências (muitas), vivências (enriquecedoras, ou não), recordações (tantas), interrogações (várias), dúvidas/incertezas (tantas), desentendimentos (inevitáveis, mas desejavelmente ultrapassáveis), desânimos (por vezes), euforias (fantásticas)... De tudo isto se compõem e são consubstanciadas as memórias de todos nós... memórias essas condicionadas, sempre, pelas nossas convicções, percepções e subjectividade própria e intrínseca do ser humano.
Falar de memórias (ou de algumas memórias) não é de todo fácil. É preciso revisitar os baús das lembranças, por vezes esquecidas; é preciso trazermos à tona emoções e sentimentos recalcados pela acção lenta, mas eficaz do tempo que, indelevelmente, não pára; é preciso tanta coisa que, de tanto, pouco realmente importa...
Contudo, as memórias são o alicerce da nossa personalidade, o garante da nossa identidade. Sem elas não nos definíamos enquanto pessoas, únicas, irrepetíveis; não nos definíamos enquanto seres pensantes e actuantes no nosso próprio destino.
As memórias imprimem uma marca primordial no nosso ser que condicionam, não raras vezes, a nossa postura e a nossa acção em sociedade.
As memórias são o elo entre o passado e o futuro: a forma como lidamos com elas, no presente, determina, muitas vezes, as relações; connosco próprios, com os outros... com a Vida... nessa busca incessante, e talvez nunca plenamente alcançável, que é a felicidade.
As memórias têm o cheiro, têm o sabor, têm a cor, têm o o som, o toque de momentos... de pequenos momentos... singulares... irreproduzíveis.
É por isso que não as podemos negar, não as podemos recalcar completamente. Elas surgirão inexoravelmente num olhar vago, num aroma suave, numa conversa supérflua, num ruído insistente, num pensamento delirante, num sentimento profundo...
É caso para afirmar sem mais: nós somos as nossas Memórias.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

As universidades e o despovoamento do interior- Por Acácio Pereira

O início do novo ano letivo ficou marcado pelo anúncio até a exaustão do “Programa + Superior”, o qual atribui bolsas de estudo a alunos que venham estudar para o interior. Dito assim parece uma medida de vulto, no entanto, não passa de uma falácia – e de uma medíocre solução – para o objetivo a que se propõe.
Senão vejamos: a medida abrangerá um máximo de 1.000 alunos e, de acordo com os valores anunciados, cifrar-se-á num somatório total máximo de 1,5 milhões de euros. Para se ter uma ideia comparativa, este valor é menos do que o valor gasto na aquisição da vacina contra o papiloma humano e o mesmo valor que foi gasto na vacina para a gripe sazonal (vide: http://www.base.gov.pt).
A medida assenta numa lógica evidentemente errada, dando a ideia de ser uma benesse, um favor governativo para o interior através dos alunos. Como se as políticas de coesão se comprassem com uns trocos...
O problema é, realmente, outro: o esvaziamento populacional sucessivo de parte do território resulta, em primeiro lugar, de gerações de governantes que têm optado por sucessivas políticas de atração para as grandes cidades. É esse efeito bola de neve, em que mais gente atrai cada vez mais gente, que tem criado uma atração imparável para as duas áreas metropolitanas portuguesas, Lisboa e Porto.
Como num sistema de vasos comunicantes desnivelados, o efeito atração de uns cria o efeito de esvaziamento de outros. O problema, sendo sobretudo do interior, não é só do interior: a acumulação de estudantes em dois grandes polos é má para Portugal no seu conjunto, uma vez que obriga a investir desmesuradamente em infraestruturas ao redor do Porto e de Lisboa, com custos altíssimos, e condena a um baixo uso as infraestruturas que se fizeram no interior, o que também é caríssimo.
Atente-se o quadro anexo, no qual se toma por base a evolução da densidade populacional nos últimos 50 anos, analisada em três grandes grupos: o todo nacional; grandes áreas metropolitanas; e as regiões pobres onde as instituições irão dar as tais bolsas de estudo. O quadro dispensa explicação pois é bem explícito.
Particularizando o caso do ensino, à medida que o número de habitantes aumenta vão aumentando as instituições de ensino superior e, consequentemente, o número de vagas disponíveis. E, numa dança inversa, à medida que as cidades mais pequenas vão perdendo população as vagas e os cursos vão ficando cada vez menos preenchidos e as instituições de ensino mais fracas. Isto gera tudo menos coesão territorial, gera rotura da coesão existente.
Se D. Sancho I, de seu cognome povoador, utilizou estratégias adequadas ao seu tempo para povoar o território, de igual modo o seu método deveria ser hoje aplicado à educação. Se o “Programa + Superior” fosse sério, assentaria numa premissa única: diminuição das vagas nos grandes centros! Aí, a saída de alguns milhares de alunos pouco impacto teria, enquanto abrir essas vagas em cidades de regiões menos povoadas faria toda a diferença.
É claro que esta medida obrigaria a muitas outras coisas. A aplicação do princípio da dotação global de vagas por curso, desde logo, acabando com a concorrência desleal entre estabelecimentos na fixação das mesmas. Ou transferência de certos cursos com mais prestígio para as universidades do interior.
Já que D. Sancho I veio à colação, lembremos as isenções das feiras francas. Dado que a situação do interior é de emergência, porque não isentar de propinas os que lá estudam? Haveria logo dois ganhos: uns que quereriam para cá vir; e outros que não quereriam de cá sair.


       Acácio Pereira- Artigo publicado no jornal O Interior

terça-feira, 11 de novembro de 2014

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Hora de Inverno, Hora de verão- por Tiago Gonçalves

Chegámos à altura do ano em que todos alteramos os ponteiros do relógio provocando uma mudança brusca na nossa rotina diária. Dias ainda relativamente longos transformam-se rapidamente em sombrias tardes que nos toldam o espírito e nos adensam a depressão rumo ao Inverno.
A hora muda duas vezes ao ano por causa de uma alegada poupança energética embora cada vez menos sustentada em factos. Foi de Benjamin Franklin, um dos maiores sábios do seu tempo, a ideia de que se poderiam poupar velas com a mudança da hora colocando pela primeira vez em alerta os fabricantes dos antigos e respeitados relógios de sol. Mais tarde ela veio a ser aplicada por todo o mundo, em nome dessa poupança, durante a Primeira Guerra Mundial quando o carvão escasseava. Pode ter, em tempo, justificado essa poupança energética mas será que isso ainda acontece?
Compreendo facilmente os argumentos de que muitos trabalhos que se realizam mais cedo estariam confinados à noite e que é mais fácil mudar a hora que os hábitos de uma infinidade de pessoas mas estará tão evidenciado o reflexo positivo desta mudança de hora?
Será fácil, se se quiser, analisar hoje de forma rigorosa a poupança energética conseguida com a mudança da hora. Basta analisar os dados de um ano e no ano seguinte fazer de forma diferente não mudando a hora. Mas, se por um lado há poupança energética pergunto se por outro não haverá uma quebra de produtividade associada a esta mudança de hora. Quantos trabalhadores ao verem chegar a noite não começam de imediato a olhar para o vagar com que os ponteiros do relógio atingem a hora da almejada saída do emprego?
 Pela minha parte sinto que uma grande maioria abomina esta mudança de hora. Em muitos países esta situação é cada vez mais discutida medindo-se vantagens e desvantagens da mudança da hora. Num país com tão forte vocação turística como o nosso deixar que o dia útil perca horas de sol parece-me, em tese, uma ideia errada. Repito, todavia: estude-se, compare-se e esclareça-se de modo a que a decisão seja tomada com base numa lógica racional.
Já agora, e a título de curiosidade, fiquem a saber que as mudanças de hora no nosso país são coordenadas pela Comissão Permanente da Hora que funciona sob a alçada do Observatório Astronómico de Lisboa sobre a qual podem obter mais informação em http://oal.ul.pt/hora-legal/comissao-permanente-da-hora/. Esta tem como função fixar o regime da hora legal no país, a coordenação dos processos de difusão da hora na comunicação social, a fiscalização de relógios públicos, etc. Não, isto não tinha por detrás uma intenção de chamar a vossa atenção para os cortes que são necessários na despesa pública mas já agora que falámos no assunto pensem lá nesta como noutras comissões da mesma natureza se não dá para se cortar qualquer coisinha!
                       Tiago Gonçalves- Crónica publicada no jornal Terras da Beira

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Figuras da Terra- por António Pereira

Maria da Paixão
Maria da Paixão, uma mulher de Vila Mendo pois foi ali nascida e criada e ali viveu até à morte. Era filha de mãe solteira, morava na rua da Rua do Cantinho, numa humilde casa (se é que assim se podia chamar). Era uma casinha com apenas uma divisão e que fazia de quarto, cozinha e não só! Junto a esta, tinha uma outra ainda mais pequena que servia para guardar as cabrinhas, que normalmente eram 3. Dizia ela que não tinha mais porque mais já não cabiam nessa dita casa.
Era uma mulher só (eu conheci-a sempre a viver sozinha), era e foi sempre solteira. Houve uma certa altura que chegou a gostar de alguém (dizia ela), e esse alguém era o Manuel Damião de alcunha pavão (criado do Sr. Manuel Domingos). E digo que chegou a gostar de alguém por culpa daqueles que lhe queriam arranjar casamento e que lhe diziam que o pavão era uma bom partido para ela!!! Havia porém momentos que se lhe ouvia que gostava dele, só que bastava haver um malandreco ou malandreca dizer-lhe que o tal Pavão a tinha chamado rasteira (alcunha porque era conhecida talvez por ser pequena!), para ela se exaltar logo, ao ponto de correr em direção a nós com intuito de nos bater… a nossa alternativa era fugir!!!
Como mencionei atrás, ela tinha sempre 3 cabrinhas as quais tratava com muito carinho e até as chamava pelos nomes. Partilhava com elas alguns dos seus alimentos, como por exemplo pão, que a maior parte das vezes lhe era dado pelas pessoas da aldeia. Ao sair com as cabrinhas para o campo levava sempre consigo, nos enormes bolsos do avental, um pedaço de pão e claro está que as cabrinhas estavam tão habituadas a esses mimos que, pela rua fora, iam sempre junto dela e de vez em quando lá lhe iam aos bolsos!!! Por vezes as pessoas diziam-lhe : - Oh Sra. Maria, então dão-lhe pão para dar às cabrinhas ?!! -ao que ela respondia : - Elas não se calam! - e era realmente verdade… enquanto lhe não desse um pouco de pão as cabrinhas não paravam de berrar!
Eram cabrinhas muito medrosas, dizia ela, ao ponto de em dias de mau tempo, como em dia de trovoadas, as levar para dentro da sua casinha onde ela morava… Mais uma vez as pessoas a questionavam : - Porque mete as cabrinhas em casa ? - ao que ela respondia : - Coitadinhas, estavam cheias de medo, não se calavam!!! Nessas noites a pobre mulher nem dormia porque, dizia ela, que as cabrinhas lhe subiam para a cama, tal era o medo que tinham das trovoadas.
Coabitavam também na sua casinha, dois ou três gatinhos, quando não eram mais, e, como não podia deixar de ser, tratava-os com muito carinho. Sempre que algum dia não visse um deles a pobre mulher lá vinha para a rua a chorar e a dizer : - Não sei da minha gatinha. - e era pior, referia ela, quando andavam aos gatos: - Ontem andava lá um gato grande atrás dela e de certeza que deu cabo dela!- ao que nós (malandrecos) aproveitávamos para lhe dizer que sim, que poderia ter sido, ao que ela ainda mais chorava!
Um dia desapareceu-lhe uma gatinha, a mais bonita dizia ela, deu voltas e voltas por todo o lado no sentido de a encontar, e só parou de a procurar quando finalmente a encontrou, passados 2 dias! -Onde estava a gatinha? - Perguntámos-lhe. - Estava na arca! ( uma pequena arca de madeira, talvez uma arca onde guardava a roupa). A arca tinha-se fechado, não se sabe como, e a gatinha esteve lá 2 dias fechada. O pior é que quando a encontrou e ao abrir a dita arca, a gatinha, assustada , agarrou-se-lhe à mão e à cara tendo-a deixado em miserável estado! Mas nem por isso ela deixou de gostar da gatinha… dizia que lhe perdoava, que lhe tinha feito aquilo porque estava assustada!
Mas voltando a falar no amor dela com o Manuel Pavão, com o qual nunca chegou a casar pois entre eles havia sempre uma guerra quando se encontravam, devido ao facto de alguns dos tais malandrecos dizerem à Paixão que o Pavão a tinha chamado rasteira, e ao Manuel Damião lhe dizerem que ela o havia chamado pavão!.. aí começava a guerra entre eles (guerra de palavras, claro), e talvez por isto, ou talvez não, nunca conseguimos juntar, muito menos casar, o PAVÃO com a PAIXÃO ! Para muitos foi uma grande desilusão, ou talvez não!!!
                                                                       António Pereira Gomes

domingo, 26 de outubro de 2014

Ida à lenha

 Uma equipa de respeito! Faltam os cozinheiros...


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Figuras da Terra- por Manuel Silva

O admirável contador de estórias- parte III
Nas noites de verão, as varandas e os quinze degraus de acesso das duas casas transformavam-se num improvisado anfiteatro invertido, pejado de crianças e adultos. O nosso contador de estórias, de pé, com os antebraços apoiados na resguarda que separa as duas varandas, divisória constituída por um monobloco granítico, dominava as atenções e quando expressamente solicitado ou por sua iniciativa dizia, qual pancada de Molière - “É cmó oto”1. A expressão mágica tinha um efeito arrasador, todos nós nos transformávamos em espetadores atentos e silenciosos para ouvir a estória que, inevitavelmente, se seguia.
No final de cada estória comentava-se a mesma e salientavam-se as lições de moral. Tratava-se, portanto, de um verdadeiro “momento do conto” onde o narrador assumia convicta e pedagogicamente a arte da comunicação.
Eis algumas das estórias que o compadre contava mais frequentemente, sem a reprodução fiel da forma como eram narradas mas, depois das expressões acima referidas, o leitor pode imaginar quão maravilhoso e interessante era ouvi-lo.

1.     A mentira grande como o Credo
Uma viúva vivia numa quinta de renda com os seus três filhos: um padre, um doutor e um pastor.
Um dia foi falar com o senhorio e disse-lhe que não tinha dinheiro para pagar a renda.
O senhorio fez-lhe a seguinte proposta:
- Se um dos teus filhos me trouxer uma mentira tão grande como o Credo, eu perdoo-te a renda.
A pobre viúva chegou a casa e relatou aos filhos a proposta que o proprietário da quinta lhe fez. Quer o padre, quer o doutor, não mostraram ser capazes de engendrar tão grande mentira mas o filho pastor aceitou o desafio.
- Fica descansada, mãe, que eu vou falar como senhorio!
No dia seguinte o filho pastor dirigiu-se à casa do senhorio que também era seu padrinho. Ao chegar junto do senhorio disse-lhe:
- Toquei o sino com um badalo de lã e ouvia-se por 10Km de terra chã. Depois fui ao rio colhi agrões (agriões?), vendi agrões e até ao padrinho lhe vendi um cabaz.
Mas isso é uma grande mentira – respondeu o senhorio.
- Então, meu padrinho, minha mentira aprovada, renda da quinta perdoada.

2.      O pintassilgo e o cuco
No tempo em que os animais falavam, um pintassilgo estava a cantar às portas do céu e Nossa Senhora gostou tanto do seu canto que deu instruções ao S. Pedro para que lhe desse tudo de bom para o passarinho comer.
O pintassilgo saiu do céu, todo contente, a cantar e encontrou um cuco.
O cuco perguntou-lhe o porquê daquela alegria toda e o pintassilgo relatou-lhe então a forma com foi tratado no céu.
O cuco foi, também, pôr-se a cantar às portas do céu …
Quando regressou, vinha a chorar e encontrou-se com o pintassilgo, este perguntou-lhe o que tinha acontecido.
O pobre do cuco respondeu-lhe que tinha levado com uma moca e que não lhe tinham dado comida.
Então o pintassilgo perguntou-lhe como tinha cantado.
- Eu cantei cu-cu - respondeu o cuco.
- Ai cantaste com o cu, então cantasses com o bico – disse-lhe o pintassilgo.

3.      O Zé Miséria (ou “De galhoto em galhoto”, como nós pedíamos)
O Zé Miséria foi para o Brasil e deixou cá os pais, um irmão e uma irmã.
No Brasil não lhe correu a vida bem e regressou. Quando chegou a casa dos pais encontrou o irmão a cozer feijões e a comê-los.
- Que estás fazendo, pá?
- Comendo os de cima e esperando os debaixo.
- Então e a nossa irmã?
- Está chorando o riso do ano passado.
- Então e os nossos pais?
- O pai viu um mealheiro no cimo de um castanheiro, subiu lá e caiu de galhoto em galhoto, chegou ao chão e espatifou-se.
- E a nossa mãe?
- A nossa mãe com tudo isto foi-se… Fizemos-lhe um funeral tão lindo que a saia tinha trinta cores.
- Ui! Isso foi uma riqueza!

Compreensão da estória:
O irmão estava a comer os feijões crus à espera que viessem os do fundo já cozidos.
Quanto à irmã, ela namorava um rapaz e ele arranjou-lhe um filho e agora passa miséria porque tem que trabalhar para se governar a ela e ao filho.
O pai com a queda que deu do castanheiro morreu.
Relativamente ao funeral da mãe, a saia tinha trinta cores que correspondiam aos trinta remendos.

O diálogo entre os irmãos continuava:
- Ah, mas ainda existe o mealheiro. Tinha muito dinheiro – perguntava o brasileiro.
- Olha, eram dois ouriços com castanhas podres.
Concluiu o brasileiro, o Zé Miséria:
- Puta que pariu Portugal, se no Brasil há miséria…aqui há muita mais.

N.B.
1. Ao terminar este “folhetim” sobre uma das figuras vilamendenses que recordo com mais saudade e que tentei reportar o mais fidedigna possível a forma singular como o contador de estórias transmitia o seu enorme manancial de saberes.
Quis, também, homenagear e deixar publicamente o meu apreço por este homem que, apesar das dificuldades em se expressar, era capaz de maravilhar crianças, jovens e adultos com as suas estórias.
Um verdadeiro autodidata, este admirável contador de estórias. 
Obrigado, “compadre” José Bragança!
2. Agradeço a todos aqueles que contribuíram para o meu avivar de memória, particularmente à minha mãe.

                                                    Manuel da Silva Gonçalves
41- É como o outro

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Ida à lenha/almoço/reunião

Domingo, pelas 9h30, iremos à lenha. Quem quiser ajudar... Faremos também um almoço decorrente da Festa do Chichorro/Matança do Porco. Durante a tarde, uma reunião dos órgãos directivos. Um Domingo dedicado à Associação e a Vila Mendo como tal.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

domingo, 19 de outubro de 2014

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Figuras da Terra- por Manuel Silva

 Zé Bragança- O admirável contador de estórias- parte II
O “meu” compadre tinha um problema de dicção e quando falava trocava o r intervocálico ou mesmo sendo dobrado pelo d, e quando o r é precedido ou seguido de uma consoante pura e simplesmente era omitido; com o s/ç a pronúncia assemelhava-se ao anglo-saxão th. Esta particularidade aliada a uma capacidade de descrição e de interação das diferentes personagens da mesma estória ou até de estórias diferentes davam-lhe uma graciosidade nas suas narrativas que, reconhecidamente, faziam dele um admirável contador de estórias.
Para mais fácil compreensão de algumas palavras e expressões que utilizava, aconselha-se a leitura da legenda em rodapé.
Alguns exemplos mais conhecidos:
Ex.1 - “O cavalho1 da badoca2 deita quato3 futos4 pude5 ano: bugalha(th)s6, bugalhinho(th)s7, bolota(th)s8 e maç(th)ã(th)s9 cuca(th)s10.
 Ex.2  Numa situação em que a burra teimava em não sair da loja, gritava ele:
- Buda1112 foda! 13 Buda pá foda!
 Ex.3 Noutra ocasião a pobre da burra caiu numa vala num terreno designado de barroca e então ele solicitava à esposa que gritasse por socorro:
- Guita14, Istminda15, guita! A budanca16 caiu na dibanceida17 da badoca18!
A esposa não o compreendeu e perguntou-lhe se era a tamanca. Ele retorquiu já irritado:
- Não cadalho19, foi a budanca que caiu na dibanceida da badoca! Guita! Guita!
 Ex.4 Num jantar de casamento em que os comensais não ficaram saciados alguém, ironicamente, fez uma rima (rima que se generalizou para todas as situações em que a refeição fosse demasiado frugal). Eis o diálogo entre dois convivas:
- Estou que nem poss(th)o20 - afirmava um. E o outro retorquia:
- Dêmo(th)s21 gaças22 e louvode(th)s23
As no(th)as24 badigas25 e(th)stão26 que nem un(th)s27 tambode(th)s.28
Se  mai(th)s29 não comemo(th)s30
Foi poque31 mai(th)s não no(th)s32 dedam33 noss(th)os34 amo(th)s35
O(th)xalá36 um dia ele(th)s37 fiquem como nó(th)s38 agoda 39 es(th)tamo(th)s 40
 Os pátios da casa dos “compadres” e da casa dos meus avós confundiam-se porque não havia nenhum muro a separá-los e, coisa rara na aldeia, no que concerne à habitação dos meus familiares não havia qualquer muro a separá-lo da rua principal que atravessa a povoação. Esta circunstância retirava a privacidade aos proprietários e, naturalmente, convidava o acesso direto a todos aqueles que quisessem juntar-se numa agradável cavaqueira, especialmente nas noites estivais.
                   
                     Manuel Silva Gonçalves                     Continua...
      
1-carvalho;  2-barroca; 3-quatro; 4-frutos; 5- por; 6-bugalhas; 7-bugalhinhos; 8-bolotas; 9-maçãs; 10-cucas; 11-burra; 12-para; 13-fora; 14-grita; 15-Estamarinda; 16- burranca; 17-ribanceira; 18-barroca; 19-caralho; 20-posso; 21-dêmos; 22- graças; 23-louvores; 24-nossas; 25-barrigas; 26-estão; 27-uns; 28-tambores; 29-mais; 30-comemos; 31-porque; 32-nos; 33-deram; 34-nossos; 35-amos; 36-oxalá; 37-eles ; 38-nós; 39-agora; 40-estamos

                                                                                                          

sábado, 11 de outubro de 2014

Coisas da Vida- Zé Valentim

Faleceu mais uma pessoa de Vila Mendo: o Sr. José Soares Ferreira, mais conhecido por Zé Valentim. Contava com 80 anos e nos últimos meses a sua saúde degradou-se bastante. Dono de uma energia inesgotável, superava muitos jovens em capacidade de trabalho e muitos mais (ou todos) em espírito de sacrifício. Amigo da juventude, tinha um gosto especial pela Associação, que frequentava assiduamente e ajudava com especial alegria e carinho: " nunca deixeis acabar a Associação" dizia ele repetidas vezes. No próximo fim-de-semana iremos à lenha e também aí sentiremos a sua falta: todos os anos era dos primeiros a chegar e era vê-lo trabalhar como poucos... com um sorriso grande e... maior "genica"! Mais uma grande perda para a nossa aldeia... enfim... paulatinamente as nossas comunidades vão, inexoravelmente, ficando mais pobres e, com elas, cada um de nós perde um pouco de si mesmo...
À família (na qual também me incluo por ser meu tio) os nosso sinceros pêsames. O funeral é amanhã, Domingo, às 11h. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Momentos- Vila Mendo On Tour

 Prova de Vinhos- Colinas de São Lourenço- Anadia

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Vila Mendo On Tour

 A partida
 Prova de vinhos-Colinas de São Lourenço- Anadia
Serra do Bussaco
 Coimbra
 Castelo da Lousã e Ermida de Nossa Senhora da Piedade
 Cooperativa de mel- Lousamel
Aldeia do Xisto- Candal

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Figuras da Terra- por Manuel Silva

Zé Bragança- O admirável contador de estórias-  Parte I 
O pai prolongou o serviço militar durante nove anos, devido aos sucessivos castigos a que foi sujeito. Foi enviado para a India e de lá regressou sem fortuna, com uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, com a saúde debilitada e aos trinta e poucos anos faleceu deixando o humilde agregado familiar composto pela viúva, duas filhas e um menino que face à situação de pobreza da família, cedo se tornou homem. Como diria Soeiro Pereira Gomes, o nosso personagem trata-se, pois, de um “Homem que nunca foi Menino”.
Gastou a vida a trabalhar para outrem, para sustentar a família. Aos doze anos carregava às costas sacas de batatas de cinco e seis arrobas dos armazéns do “ Chico” Lucas para a gare da estação de Vila Fernando. A enxada foi a ferramenta inseparável do nascer ao pôr do sol, no cultivo das vinhas e hortas das famílias abastadas de Vila Fernando e também nos terrenos que possuía nas regadinhas, na horta da peça, na balsa,... Mais tarde, tornou-se num dos principais obreiros da construção dos muros que suportam os socalcos dessa obra ”faraónica”, a quinta do dr. Crespo. 
Os cinco filhos rumaram para França, onde mais tarde se radicaram com as respetivas famílias, com a exceção do Horácio que por lá faleceu, prematuramente, num acidente de trabalho. A velhice passou-a com a sua inseparável companheira, a sua Istminda. Ambos eram analfabetos e quando recebiam correspondência a comadre aparecia na casa dos meus pais, de lágrima nos olhos, para saber as notícias dos ”nossos”, vocábulo que utilizava em relação aos filhos.
Tive o privilégio de com ele conviver quando as marcas da árdua e longa vida já se faziam notar porque vivia paredes meias com a casa dos meus avós. As matanças eram partilhadas, assim como os longos serões de inverno passados muitas vezes a jogar o jogo da sueca de que ele tanto gostava. E quando a coisa não corria a contento lá saía a expressão “O vi-delas ganhou ao (th)sabias.”
Os meus pais apadrinharam o casamento do filho mais novo, o José, e, por isso, tratavam-se por compadres; eu e os meus irmãos adotámos, carinhosamente, esse mesmo tratamento “compadres”. 
O compadre era homem de baixa estatura como a maioria dos seus contemporâneos e, por força do trabalho braçal, tinha os membros superiores bem desenvolvidos parecendo dar razão à teoria da evolução das espécies de Charles Darwin. A este propósito vem-me à memória a expressão do ti António Dias: – Que mãos tão grandes para um corpo tão pequeno! Os membros inferiores, já trôpego, arrastavam-se dentro das botas invariavelmente desapertadas. Dizem que, quando novo, era extremamente veloz e ganhava uma corrida a qualquer um, mesmo com uma saca às costas e os tamancos desapertados.

                          Manuel Silva Gonçalves                                     Continua...

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Filhos da Terra- Acácio Pereira

Mais um artigo de opinião, no jornal O Interior, do Acácio sobre o despovoamento do interior. Pode ser lido AQUI

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

estórias da Terra- Júlio Pissarra

As Calças
Era um, quente, final de tarde de Agosto dos saudosos anos 80. Terminado mais um árduo dia de trabalho a “malta” de Vila Mendo juntou-se aos tanques para uma alegre cavaqueira, saciar a sede e aliviar o calor, com a refrescante água do nosso chafariz. Nesses tempos quer fosse fim-de-semana ou meio da semana, praticamente todas as noites concluíam na discoteca da moda (“Night and Day”- Alto de Pêga).
Quem vai, quem não vai…! Eu, o meu amigo e primo Zé Gonçalves e o meu amigo (agora também Primo) Víctor Soares decidimos ir! Depois de jantar, e chegada a hora, aí vamos nós para a “noite”! A viagem realizou-se numa carrinha de transporte de gado que pertencia ao meu tio José Marques (pai
do Zé). Chegados à porta, da discoteca, deparámo-nos com um problema:
- Zé, o teu primo vem de calções, não pode entrar! – disse o Porteiro.
- Então porquê? – questionou o Zé.
- São regras da Casa! - respondeu o funcionário.
- Mas já vi aí dentro várias mulheres de calções! –disse eu.
- Mas com as mulheres é diferente!!! – exclamou o Porteiro.
- Esta é boa! Vimos de Vila Mendo, chegamos aqui, e não entramos?! – respondeu o Víctor.
Depois de duras negociações, nem com a grande influência que o Zé detinha, nesta discoteca, conseguimos entrar. Então para não prejudicar os meus amigos sentenciei:
- Entrai vós, eu vou para a carrinha dormir!
Aí o Zé foi perentório:
- Não, ou entramos todos ou nenhum!
- Vamos embora! Não estamos aqui a fazer nada! – disse o Víctor.
Aquilo que se ia tornar numa alegre noite estava-se a transformar num pesadelo. Na curta viagem para a carrinha os três amigos mostravam a sua indignação e surpresa pelo sucedido. Mas será que tudo estava perdido…?
Quando entrávamos para o nosso meio de transporte, o Víctor disse:
- Zé, por vezes os teus irmãos trazem umas Calças, suplentes, para carregar e descarregar o gado. Vê lá se há por aí algumas!
Depois de breve busca, o Zé, carregado de felicidade, exclamou:
- Olha aqui uma Calças!!! Há! Há!…e bonitas que elas eram!!! Cor bege, feitas de fazenda da primeira qualidade, vincadas e com umas elegantes pregas! Mas o desejado objeto de roupa não tinha, nesse dia, as condições mínimas para entrar no referido espaço noturno. Estava completamente amarrotado, cheio de grandes nódoas e abarrotava de sujidade seca (vulgo *M…) inerente ao trabalho que ajudava a desenvolver. Mas era o que havia…!
- Experimenta lá as Calças! – disse o Zé.
Quando as experimentei reparámos que me ficavam demasiado curtas, mas rapidamente solucionámos o problema. Fiz uma espécie de dobra, que dava o efeito de bainha, e assunto resolvido.
- Assim não me deixam entrar! – exclamei.
O Zé respondeu:
- Então não queriam umas Calças? Já as tens vestidas! Vamos embora!
Depois de muitas gargalhadas tocámos à campainha da discoteca. A porta abre-se e o Zé dirige-se, apontando para mim, ao porteiro e diz:
- Agora já pode entrar?!
O porteiro, com um sorriso de espanto perante o cenário que tinha à sua frente, não soube o que responder. Então o Víctor sentenciou:
- Não querias que o rapaz vestisse umas calças?! Aí as tens!!!
Resignado e espantado, o porteiro, não teve outra alternativa.
– Sim… agora pode entrar… mas…, senta-se lá a um canto. Pode parecer mal!
- Para me sentar a um canto prefiro não entrar! – respondi.
Entrado na discoteca assumi a postura normal que sempre tinha quando frequentava esse espaço. O Zé logo fez questão de publicitar a situação e, com o seu sorriso matreiro, dirigiu-se às minhas primas Guida e Paula que, também, diariamente frequentavam esta discoteca:
- Já vistes o vosso primo? – Não – responderam. – Mas porquê?!
- Ide procurá-lo e depois dizei alguma coisa!
As minhas primas quando me encontraram ficaram estupefactas.
- Hhááá!!! – disse a Guida. – A minha alma está parva!!! – exclamou a Paula.
Explicada a situação terminámos todos em enormes gargalhadas. Ao mesmo tempo, questionávamos o porquê de não poder aceder à discoteca com uns adequados calções e poder fazê-lo com aquelas originais Calças!
Com muita dança e saudável convívio assim decorreu uma das noites mais divertidas da minha juventude! Importa realçar que nunca mais, até hoje, me senti tão observado como nessas “porreiras” horas!
Júlio Antunes Pissarra

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

estórias da Terra- Manuel Silva Gonçalves

O diabo que tocava o sino
Era tradição no sábado de aleluia tocar-se o sino depois da meia-noite, mais propriamente no domingo de páscoa, até de madrugada ou até que os moradores mais próximos da capela esgotassem a paciência e nos solicitassem para pararmos pois precisavam de descansar. Esta é uma manifestação de regozijo para os crentes na ressurreição de Jesus Cristo e é tradição em toda a região beirã.
Numa dessas noites, depois de termos jogado uma partida de futebol no largo da escola ao luar, pois energia elétrica ainda não havia, resolvemos ir tocar o sino ao Monte Carreto.
Claro que esta ousadia não passava de uma provocaçãozita para com os habitantes daquela aldeia vizinha!
Mas a coisa tinha de ser bem engendrada…
Devíamos ser para uns quinze malandros. Alguém arranjou uns metros de cordel de atar os fardos do feno e pelas duas ou três da manhã aí vamos nós a pé pelos trilhos e caminhos rurais. Quando nos aproximámos da capela da aldeia vizinha, vimos que havia meia dúzia de jovens locais à volta de uma pequena fogueira. Sem que nos tenham visto, escondemo-nos num terreno próximo e, pacientemente, esperámos que o grupo dispersasse e recolhesse às suas residências. Assim aconteceu. Quando se afastaram o suficiente para não darem pela nossa presença, passámos à ação. Acompanhado por dois ou três companheiros subimos a escadaria exterior que nos levava até ao sino e atámos o cordel ao badalo. Depois foi só desenrolar o cordel até passar o muro do quintal mais próximo onde tinha ficado o resto da equipa escondida no meio do centeio. Antes de regressarmos ao grupo, um de nós deu uma valente “carreirinha” do género “tocar a rebate” e depois, de forma mais espaçada e com adequada cadência, o sino tilintava o dlim-dlão cada vez que o cordel era puxado.
Aconteceu aquilo que prevíramos…
Os jovens residentes que momentos antes tinham estado à volta da fogueira começaram a regressar à capela, assim como outros residentes, para tentar perceber o que se estava a passar.
Dizia uma das raparigas: “ Isto é o diabo! Então o sino toca sozinho, é o diabo!”
Imaginam o gozo que esta cena nos deu.
Quando os pasmados moradores se aproximaram o suficiente, nós, os diabretes, largámos o cordel e fugimos para não sermos reconhecidos.           
 Manuel Silva Gonçalves

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Gentes de Cá

Sr. Luís; Sr. Manuel André; Rui Silva; Adriano

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Vila Mendo nos anos 60/70- Manuel Corte

A Vida no Campo
O que a seguir descrevo reporta-se à minha memória e tempos vividos na nossa aldeia Vila Mendo.
Na generalidade todos os residentes viviam daquilo que a terra dava, com pequenas excepções; algumas famílias dedicavam-se ao comércio bovino, ovino, caprino e suíno. Todos os terrenos eram cultivados, quer para plantações (batata, feijão, hortaliças…) quer para o cultivo de cereais (milho grosso, milho miúdo e centeio). O dia era inteiramente passado no campo e os meninos de tenra idade também acompanhavam os seus pais. A vida era alegre e feliz, mesmo para aqueles que pouco ou nada tinham.
Ao romper da aurora e ao cantar do galo todos despertavam para a jornada. Cada casa albergava em comum galinhas, coelhos, vacas, porco, burro, cães, gatos… Quem não conhece o ditado “se o mal não dobra galinha não prova”. Como falei de galinhas o seu papel era pôr ovos porque só era abatida em dias de festa ou quando o seu dono estava para partir. O porco era o bem fundamental na alimentação de cada lar; para além do presunto e dos enchidos sobejamente conhecidos por todos, havia alguma carne que se guardava na salgadeira, coberta por sal e que perpassava de ano para ano.
Analisemos o que a vida mudou!..
A água dos poços era tirada a balde pelos “picanços”, que mais tarde deram origem às tão cobiçadas “noras” e só nos anos 60 se implementaram os motores de rega que deram aso às moto-bombas actuais. Curioso e digno de registo: havia quem comprasse um ou mais burros para pôr à nora na Feira de S. João da Guarda (24de junho) e que vendia após as colheitas na Feira de S. Francisco (4 de Outubro); fica outra nota: havia quem pusesse dois “cambões” na engrenagem da nora a fim de engatar dois burros, o que fazia com que se algum quisesse parar o outro obrigava-o a andar!..
Havia tarefas no campo bastante árduas e que só podiam ser feitas pelo calor ardente do verão. As ceifas dos cereais eram feitas de forma geral por ranchos (4/5 homens e 15 ou mais mulheres e raparigas) e ainda as “camaratas” de homens (12/15) em especial do Azevo-Pinhel que tinham a particularidade de cortar o centeio com foice-gadanha. A acompanhar todo este pessoal andava o proprietário que abastecia de bebida o grupo e, ao mesmo tempo, ia pondo os molhos em “rolheiros”. De seguida era feita a “carranja”, o transporte em carros de bois que iria dar lugar à meda. Ainda registo a debulha do centeio ao “mangual”, mas em pequenas quantidades. Mais tarde surgiu a debulhadora (malhadeira), máquina de extrair o grão que, à época, era uma opção maravilhosa. Antes desta, de que temos um exemplar na aldeia, surgiram com rodas de ferro e motores a diesel “Lister” para se fazerem movimentar. A palha que saía dava lugar ao palheiro (amontoado em forma de cone que persistia ao temporal, em geral por vários anos).
Na “Eira” ou “Laja” eram necessários doze a quinze pessoas que se ajudavam mutuamente, cada qual com tarefas distribuídas, sendo de salientar os “vergueiros”, quatro a cinco homens que transportavam às costas as “faixas” de palha que davam origem à formação do palheiro.
Passemos à tarefa dos fenos: os lameiros eram cortados normalmente à gadanha marca “Sol” por grupos de três ou quatro homens que levavam cada um o seu carreiro ou "eito", seguindo uns atrás dos outros. Havia sempre alguém que dava o seu jeito especial no picar da gadanha, realizado com dois instrumentos de que a maioria se recorda: safra e martelo. O efeito do corte do feno dava de seguida lugar ao “espalhar, virar, emborregar e atar”. Faziam-se molhos de três faixas para dar lugar ao carregamento, transporte e armazenagem. O carro do feno, transportado por animais, equivalia a sessenta faixas. A denominada faixa era atada com nagalhos de palha devidamente humedecida, normalmente pela manhã, a fim de se tornarem mais macios e resistentes. A “emborregar” o feno, com o chamado ancinho, eram três a quatro pessoas para um a atar.
Se hoje achamos difícil o trabalho do campo, com todo o equipamento de que se dispõe, que seria se nos reportássemos a esses tempos… e não são tão longínquos, porque aqui me reporto aos anos 60/70.
Manuel Corte

quinta-feira, 11 de setembro de 2014