Ao te alcançar, o céu veste-se de cor. A cor da emoção... de te abeirarmos- Vila Mendo.
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quarta-feira, 22 de novembro de 2023
terça-feira, 14 de fevereiro de 2023
terça-feira, 7 de fevereiro de 2023
quarta-feira, 18 de janeiro de 2023
sexta-feira, 30 de dezembro de 2022
Maternidade: o Fim da Guarda; o Fim de Portugal
espécie de ensaio- no seguimento da reflexão: “Que eu-outro queremos, que Portugal-outro aspiramos?” publicada no dia 1 de Julho de 2022. No quase seguimento de: "Racionalidade: que mundo-outro queremos, que mundo-outro teremos?- a guerra na Ucrânia" publicada nos dias 9 de Maio e 1 de Abril de 2022; também no quase seguimento de: “Vida e(m) pandemia” publicada aqui nos dias 25 de Junho, 2 de Abril e 5 de Fevereiro de 2021. E na quase continuação do "Pessoas: Político(s) e política(s)- o fim dos partidos?”, publicado aqui no dia 30 de Dezembro de 2021.
Maternidade: o Fim da Guarda; o Fim de Portugal
O mundo está numa encruzilhada: tantos sãos os caminhos, desafios e desvarios; amplificados por uma comunicação social/redes sociais que sobrevalorizam uns acontecimentos e remetem ao esquecimento outros mais.
Portugal nunca saiu da encruzilhada. Estamos constantemente perdidos na exaltação do passado (idealizante) e no futuro glorioso (ilusório): no presente (real) depressivos, alienados. Queremos e não queremos; gostamos e não gostamos; falamos e não falamos; desejamos e não desejamos; sonhamos e não sonhamos; estamos e não estamos; fazemos e não fazemos… Esta psique profunda e profusamente contraditória embrenha todo o nosso pensamento (caótico, tantas vezes) inibindo a acção verdadeiramente transformativa e valorativa da sociedade como um todo, tornando a nossa existência colectiva um tanto ou quanto incompreensiva, ou pelo menos incompreendida; como se o surgimento traumático da nacionalidade (Eduardo Lourenço) ecoasse no inconsciente das diversas gerações, até hoje, impedindo a realização plena de Portugal como país, como destino e fim da nossa própria presença (enquanto povo) no mundo.
Ainda não descobrimos a nossa vocação (provavelmente, nem verdadeiramente a nossa identidade de fundo- que é real): surgidos do conflito e de impulsos, lutámos a sobrevivência como pudemos; cansados de nós mesmos e de existirmos por oposição a Castela, ousámos descobrir outros (na esperança, talvez, de nos descobrimos) e na ânsia de nos reinventar e espelhar num império eterno (como fim em si mesmo) acabámos a olhar um país efémero: em ideias e ideais futurantes, em pretensões e realizações estruturantes.
Resta pouco da nação que se fez (ou pelo menos tentou fazer) império. Resta pouco do império que criou (ou pelos menos contribuiu bastante) uma civilização global (transnacional). Resta pouco (se é que foram muitos) dos intrépidos que deram novos mundos ao mundo, que quiseram (será que quiseram?) um império de orientação civilizacional e não de dominação. Restamos nós- agora- sabendo que… não sabemos bem onde estamos ou, pelo menos, onde nos posicionar no mundo: se na europa (onde somos periféricos), se na Península Ibérica (onde somos pequenos), se no mar (donde desistimos ou forçados a desistir), se sozinhos (onde, tantas e tantas vezes, nos encontramos), numa solidão colectiva.
Os caminhos são vários, mas não nos decidimos: protelamos e, por tal, somos uma nação eternamente adiada à espera do milagre salvífico cujo fim ainda não descortinámos, cuja finalidade no mundo nos atormenta desde o primeiro momento de rebeldia que foi a independência… Se sabemos (ou julgamos saber) o porquê da nossa existência, há a pergunta que nos transcende: existimos para quê, com que finalidade?
Tal questão (a uma escala diferente) é válida para a nossa amada Guarda.
Se Portugal se “entrecruzilha”, a Guarda tanto ou mais. Temos perdido importância e liderança ao longo do tempo para as cidades vizinhas. Continuamente esvaída de gente (capaz), temos sobrevivido (também) à custa das aldeias, elas próprias a definhar. A capitalidade é pouco mais que simbólica, tanto mais que por este andar, não haverá região: as cidades serão vilas, as vilas aldeias e as aldeias… nada, ou pouco.
As comparações são sempre complexas de balizar, mas é comumente aceite que as cidades mais cercanas têm evoluído em alguma população e certa atractividade. Se importam as causas profundas, os interesses e desinteresses associados para tal, é sobretudo premente, agora, e tendo consciência plena donde estamos (ou donde não estamos) pensar, traçar e implementar um plano estratégico para a Guarda a longo prazo: como queremos estar daqui a 20/30 anos? Que áreas são estruturantes? Plano que saia da alçada partidária, mas que com ela comungue, numa lógica de que seja executado independentemente de quem comande os destinos e os desígnios governativos municipais. Chamem-se pessoas dos mais diversos quadrantes (competentes e pensantes), “suguem-lhes” as ideias, faça-se a síntese e implemente-se o Plano-de-acção, livre das palas e das amarras dos partidos políticos e desprovido de preconceitos ideológicos. As ideias, as boas ideias bastam por si próprias, se bem delineadas e melhor materializadas, na óptica do melhor para a urbe.
Se o sítio (situação) onde estamos, não foi o escolhido por nós, o sítio para onde queremos ir, pode ser… e depende em muito daqueles que foram escolhidos para estarem à frente dos nossos destinos enquanto comunidade. São eles que têm de pedir, desafiar, motivar, ouvir, decidir e concretizar (dentro do bom-senso e das circunstâncias dos momentos) o tal plano estratégico.
Não importa tanto assacar constantemente a culpa por estarmos onde estamos, mas sim imperioso perceber como estamos e definir para onde vamos. Para isso, aos políticos pede-se que sejam resolutos, mas ponderados; pragmáticos, mas reflexivos; confiantes, mas humildes para que na simplicidade (e tantas vezes, na adversidade) o bem-comum seja a causa primeira e a finalidade última de qualquer e toda acção na Pólis.
Contudo estes pressupostos esbarram (quase sempre) numa questão democrática: as eleições! Paradoxalmente, as eleições (livres) - esteio e pedra angular da democracia- podem ser (e são tantas vezes) obstáculo a que haja um planeamento de fundo, abrangente e durável. Seja local ou nacionalmente, na ânsia de se querer ser eleito ou reeleito (mandatos mais longos e únicos, poderiam ser a solução) pensa-se a imediatez na voracidade do(s) momento(s) para se ganhar a qualquer custo: o objectivo último deixa de ser planear o território e as comunidades para ser eleito pelo respectivo partido. Não espanta portanto que a acção governativa se paute pela visibilidade constante na comunicação e redes sociais, numa urgência de presente que de visão estratégica pensada, estruturada e fundamentada só (quase) a de propaganda. Nesta perspectiva, o múnus político deve ser actuante, mas desmediatizado; presente, mas discreto; conhecido, mas não imposto, sob pena de o excesso de presença gerar indiferença.
Sem grandes considerandos teleológicos e simplificando (muito), o Fim da Guarda (e de Portugal) não pode ser outro do que possibilitar às (suas) gentes um Espaço-tempo de dignidade, bem-estar, de enraizamento, de busca incessante pela felicidade (pessoal e colectiva)… numa continuidade ad aeternum…
Particularizando, na Guarda, este fim esbarra numa série de circunstâncias e condicionalismos que concorrem para o seu esvaziamento e que tornam Portugal cada vez mais descompensado territorialmente (unitariamente?). A denominada coesão territorial é cada vez mais uma expressão sem expressividade; isto tanto mais, quando se ouve falar de um estudo que propõe o encerramento da nossa maternidade! Tal estudo devia ser imediatamente público e não ter acontecido o que aconteceu, com informações avulsas e contraditórias. Revelando-se a sua existência, teria de ser escrutinado publicamente; não o fazer, demonstra falta de respeito pelas pessoas, pretensa superioridade intelectual, ou incompetência, ou tudo junto: a não ser que lançar esta notícia tenha tido o intuito de aferir acções, reacções e uma espécie de habituação à decisão e ao propósito político, para que quando for efectivamente anunciado a sua aplicabilidade, as gentes já estejam resignadas ao facto consumado. Proceder assim é algo de que tantos políticos enfermam: a esperteza saloia, o provincianismo último… é a nossa desgraça por sermos assim (des)governados.
Se tal decisão política ocorrer (o fecho da maternidade) que critérios e, desses, quais os que mais contaram? Mas nem devíamos discutir tal: a tão propalada coesão territorial pressupõe que muitos dos critérios (supõe-se) nem os devesse ter em conta. O fecho de serviços, em que área for, na nossa região faz com que haja mais e mais assimetrias nacionais com a consequente perda de condições e qualidade de vida (para todos).
O Interior precisa de um Trato-preferente: é discutível? É. Será ético? Será! Poder-se-ão esgrimir argumentos racionais e lógicos (que os há também), mas fechar a maternidade é, do ponto de vista simbólico (e como o ser humano o é), fechar a Guarda! Fechar a Guarda ao presente, fechar a Guarda ao futuro que se constrói… no presente. É fechar-nos ao nosso próprio passado e à Memória...
Se tal acontecer, podemos ir todos para Lisboa viver, ou emigrar, ou sermos anexados por Espanha, ou tornar-nos independentes!.. Exageros à parte, importa não cairmos numa certa domesticação, numa certa dominação de pensamento que nos possa habituar à ideia da inevitabilidade de tal medida, como ao longo do tempo tem e está a acontecer em várias áreas. É curioso que na dialéctica (cada vez mais sem sentido) Esquerda/Direita- e cada vez mais canibalizada pelas tribos partidárias (extremistas, mas não só) - seja a esquerda (de novo) a ruminar o fecho da maternidade!
Nascer (o local de nascimento) é a primeira marca identitária de cada indivíduo (muito mais como portugueses); donde nos enraizamos e brotamos numa universalidade (às vezes errante, às vezes errática) que nos confere uma Presença- na comunidade e no país, primeiro e depois no mundo- de que (não raramente) nem nos apercebemos, talvez porque não nos percebemos…
Não podemos permitir que nos roubem o nosso nascimento!
“Marchemos” todos sobre Lisboa, se necessário- e se até “o anjo é da Guarda”, que nos guarde desta ignomínia!
E ainda assim, umas espevitações:
Poderá a Guarda operar (a partir de si) um Portugal-outro?
Poderia a Guarda enunciar a centelha de uma Ibéria futura?
Poderia a Guarda originar um território-tempo, liberto, da presença-impresente de Lisboa?
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sexta-feira, 1 de julho de 2022
Que eu-outro queremos, que Portugal-outro aspiramos?
espécie de ensaio- no quase seguimento da reflexão: "Racionalidade: que mundo-outro queremos, que mundo-outro teremos?- a guerra na Ucrânia" publicada nos dias 9 de Maio e 1 de Abril de 2022; também no quase seguimento de outra reflexão “Vida e(m) pandemia” publicada aqui nos dias 25 de Junho, 2 de Abril e 5 de Fevereiro de 2021. E na quase continuação do "Pessoas: Político(s) e política(s)- o fim dos partidos?”, publicado aqui no dia 30 de dezembro de 2021.
A sociedade (principalmente a europeia/ocidental) é profundamente volátil. As diferentes comunidades são (talvez artificialmente) desejosas de “apressamento”, ancoradas numa vivência de consumo momentânea, tudo é (ou pode ser) dispensável: como as ideias, os valores, até as pessoas. Vive-se numa urgência-de-presente; empenhados em estar esquecemo-nos de ser. Este estar pressupõe aparecer, ser visto e falado como se não existíssemos para lá do mundo mediático e imediato, onde a comunicação social e redes sociais sacralizam o efémero sem o eternalizar (num eterno-efémero), como pretendem e querem tantos eus desejosos de um reconhecimento alargado e, de preferência, embevecido.
Esta urgência, esta emergência de presente imerge todos os sentidos, todos os pensamentos, todos os sentimentos embrenhando toda a vida numa constante presença, numa espécie de estridência-existencial que não quer, não pode aquietar-se: como se a discrição e a quietude impedissem o eu de ser. E por isso tanto é partilhado, tanto é dito, tanto é comentado, tanto é analisado… mas desse tanto, pouco é pensado e reflectido. Todos têm opinião sobre tudo e poucos se apercebem do quase nada que transmitem- a não ser um narcisismo ilimitado. Se não se aparece, não se é, e se não se é, não se existe; esta lógica (invertida) condiciona e aprisiona a concepção operativa da vida e de si próprios, como se fosse (só) o seu mundo, (só) a sua realidade (que também é).
Este afã incansável pelo presente reconhecido esquece ou idealiza o passado e fantasia o futuro; a realidade como tal vai-se esvaziando, desvanecendo na superficialidade dos inúmeros momentos (que não acontecimentos). Consequentemente, esta falta do real induz sonhos de uma grandiosidade como destino que não chega- nunca. De facto, o realismo tem pouca graça; as questões políticas, económicas, sociais… são aborrecidas.
As questões de fundo e profundas de governabilidade do país são rapidamente esquecidas pelos problemas concretos e constantes (muitos avivados com intencionalidades várias) que entram na agenda mediática e sistematicamente (quase que metodicamente) substituídos. Os poderes nacionais e locais governam na imediatez, nos chavões (como se fossem palavras mágicas causadoras de metaformoses instantâneas na realidade), nas percepções e sempre num intuito permanente das eleições, de perpetuar o poder. Não interessa muito o que corre(u) mal para se melhorar e reestruturar; não interessa muito planear (demora tempo e não é visível); interessa aparecer, estar em tudo e em todo o lado, criando-se as tais percepções de grandes realizações que, por serem isso mesmo (percepções), pouco têm de transformativo, a não ser uns quantos egos, cegos de presença, impresente pela permanente e paradoxal distância “intelectual” com as pessoas, o povo, a “arraia-miúda”!..
Fazem-se grandes comunicações com fortes frases vazias, anunciam-se umas comissões, uns estudos e… o assunto esmorece pelo surgimento de outro problema mais apetecível e depois outro e outro… e nenhum resolvido na sua essência e consequência. Navega-se à vista: sabe-se que os icebergues estão na rota, mas vamos quixotescamente contra eles até à enésima crise material e vivencial; porque está tudo bem, porque não há alternativa… (algo que as tribos partidárias, toldadas de ideologia e irracionalidade, fazem questão de lembrar continuamente no espaço mediático).
Não é de admirar que os portugueses oscilem entre o pessimismo inoperante e o optimismo ilusório. Chamados à realidade esmorecemos numa tristeza paralisante; convidados à euforia sonhamos uma glória inalcançável; nos entretantos sobrevivemos como podemos.
Estamos absortos num conformismo e indiferença sufocantes (não sei, não quero saber, não interessa, eles é que sabem…) camuflados na verbosidade activista das redes sociais que pouco acrescentam à mudança real, a não ser o ruído de percepções (contraditórias).
Deste modo, há renovações fundamentais que têm de ser feitas pela sociedade como um todo. Aqui, as elites precisam de ser esclarecidas e devotas ao bem-comum. Doutro modo este conformismo/indiferença dará origem a movimentos de revolta e ira extremista- por agora circunscritos aos meandros do futebol e ainda apaziguados por uma cultura de entretenimento distractiva nas televisões, redes sociais, festividades várias… que a par da pobreza geram atitudes passivas, de desânimo, seguidismo e receio de mudar.
Ainda assim, é decisivo, individualmente, compreendermo-nos no silêncio do nosso eu (um Eu-só) para de forma reconvertiva irmos à descoberta do outro (e tornarmo-nos num Eu-outro), mais capaz de ir ao encontro útil de uma sociedade necessitada de matrizes existenciais benéficas, geradoras de felicidade última, enquanto busca incessante...
Cumpriremos assim o sonho pátrio de Portugal como destino e fim!
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segunda-feira, 9 de maio de 2022
Racionalidade: que mundo-outro queremos, que mundo-outro teremos?- a guerra na Ucrânia
espécie de ensaio- 2º parte do publicado no dia 1 de Abril de 2022 (no seguimento de outra reflexão “Vida e(m) pandemia” publicada aqui nos dias 25 de Junho, 2 de Abril e 5 de Fevereiro de 2021). Faz-se também um parênteses à continuação do "Pessoas: Político(s) e política(s)- o fim dos partidos?” (publicado aqui no dia 30 de dezembro de 2021).
A racionalidade será um conjunto de ferramentas cognitivas que permite, através do pensamento analítico (crítico), verificar os factos e validá-los enquanto realidade(s) verdadeira(s) e objectiva(s), recorrendo à lógica, probabilidade, correlação, causalidade, argumentação… (entenda-se argumentação como um modo de pensar colectivamente, criticamente e construtivamente as ideias, as crenças… as pessoas e não numa forma de desacreditar, rebaixar e ridicularizar pretensos adversários).
A racionalidade enquanto capacidade (cognitiva) serve para entender e compreender o mundo nas suas múltiplas facetas e, de alguma forma, ajustá-lo às nossas necessidades enquanto espécie humana e daí retirar vantagem que nos permita (como tem permitido) existir. Isto (que é muito) é uma conquista de toda a humanidade; é um bem intrínseco a todos e por isso precisa de ser cultivado, cuidado para almejarmos o bem-comum.
De facto, a racionalidade não toma partido, não é interesseira; igual em todos e em todo o lado. Nesta perspectiva, ela pode ser (ou é tantas vezes) um incómodo que nos pode levar a conclusões e desfechos que não esperávamos ou não queríamos esperar (logo pensar), que nos podem levar a fins que não são do nosso interesse individual (ainda que possam ser benéficos para tantos outros).
A racionalidade ajuda-nos a decidir (bem ou pelo menos melhor) e a ajustar escolhas (arriscadas, por vezes), a questionar pontos de vista duvidosos (e certezas absolutas também), a percepcionar que a vida é feita de paradoxos (nós mesmos o somos) e a vislumbrar que o acaso e as vicissitudes do mundo… são do mundo!.. Enfim, ajuda-nos a ter um entendimento mais exacto e aproximado do Homem enquanto Homem.
Nestes tempos, assistimos a uma espécie de rolo compressor de histórias e estórias, notícias e acontecimentos inusitados que atravessam a comunicação social e nomeadamente as redes sociais. Assistimos e damo-nos conta de crenças em espíritos e fantasmas, magias e superstições que parecem estar a aumentar quando era expectável que as novas gerações (mais letradas) fossem menos crédulas (em tal). Muitos acreditam em tudo o que ouvem, vêem, lêem sem qualquer filtro crítico (as teorias da conspiração têm aqui terreno fértil); outros só ouvem, vêem, lêem o que vai de encontro às suas ideias, numa lógica de validar e dar razão à sua razão (a polarização política esquerda/direita tem aqui enorme espaço) e quase todos querem vencer discussões (por mais triviais que sejam), não reconhecendo os argumentos fracos que, tantas vezes, utilizam, mas reconhecendo-os imediatamente no outro (a hipocrisia ganha aqui asas).
Parece evidente que as pessoas, tantas e tantas vezes, raciocinam e tomam posições já com uma conclusão em mente, independente e estranhamente de que lhe isso traga alguma vantagem individual, desde que isso reforce os ideais do grupo a que pertence (formal ou informalmente), seja ele político, religioso, étnico, cultural… O caso político é revelador: uma proposta vinda da área teoricamente de direita é desaprovada pela esquerda e ao contrário o mesmo. Muito provavelmente, mesmo que sejam ideias inócuas ou ideias altamente benéficas ao bem-comum é possível que não passem no crivo mental (e prático) conforme os autores e proponentes sejam de direita ou de esquerda. Este modo de raciocínio, profundamente desfasado, faz com que perante os mesmos factos (imagens) nem todos percepcionem a mesma coisa (no futebol isto é sintomático, dependendo do clube de que se é adepto); no fundo: “o meu lado é melhor que o teu”. Esta identidade-perversa faz com que as pessoas se mantenham juntas, crentes numa superioridade e arrogância morais, desprezando “os outros” e o que deles vem.
A racionalidade, além de uma virtude cognitiva, é uma virtude moral (também porque é imparcial na dicotomia entre as nossas concepções, muitas vezes, duvidosas e a procura da realidade como tal); é por isso que (e particularizando) a guerra na Ucrânia é por demais repulsiva, porque parte do pressuposto de uma pretensa superioridade moral de um povo (raça) sobre outro. Achando que um território, uma cultura, uma língua (essência de uma nação?) se sobrepõem a outro território, a outra cultura, a outra língua… ancorando tal numa narrativa (“histórica”!) mitificada acerca da grandiosidade e excepcionalidade desse povo (no caso, a Rússia). Os seus líderes não estão muito interessados na história factual, do que realmente acontece(u); da realidade, portanto; forjando uma identidade-idealista construída e uma herança glorificada de que eles são fiéis depositários e guardiães. Aqui, o razoável das acções é balizado nestes e noutros motivos (erróneos) e subsequentemente limitados por pontos de vista do real inconsistentes, senão absurdos. Assim, alguma racionalidade que possa advir dos actos russos, está inquinada à partida numa construção intelectual errada e falseada que lhe confere uma lógica-ilógica gritante (mesmo sendo um regime autocrático e pouco democrático), até porque as consequências que eles próprios vão/estão a sofrer são tudo menos vantajosas, profícuas e valorativas.
A guerra é o expoente máximo da irracionalidade humana, cujos resultados são nada e a utilidade esperada menos que nada. Os países (governos) devem governar movidos pela lógica, pela evidência, pela ponderação entre custos/benefícios, causa e efeito, vantagem entre o bem-comum e individual… O que vemos no caso concreto? O contrário disto.
É interessante observar que a Democracia (com todos os seus coxeares) reduz as probabilidades de guerra (a par do comércio internacional); é assim necessário protegê-la, defendê-la e acarinhá-la. A “paz perpétua” da humanidade será difícil de alcançar (até porque continuamos a não atingir uma espécie de maturação-existencial que nos permita ser iguais entre iguais), mas importa, pelo menos, sonhá-la…
Deste modo (e generalizando), é imperioso perceber se as crenças, as teorias e concepções sobre tudo e sobre nada, as suspeitas, medos e considerandos sobre os outros, o mundo, a vida… são verdadeiros ou falsos, benéficos, prejudiciais ou inócuos…
O ser humano é mitológico, a sua mente é mitológica… pois provavelmente assim consegue uma explicação fácil (preguiçosa?!) do que não entende nem compreende (talvez seja demasiado simplista esta afirmação/conclusão…), achando que tudo tem uma finalidade óbvia: como os objectivos que se traçam ou os objectos que se criam para terem uma funcionalidade prática; que tudo o que acontece, acontece por um motivo! Mas será que assim é?!. Será que o acaso e o caos como tal não têm um papel de alguma importância (preponderância?) na nossa existência?!.
E isto remete-nos para uma questão intrincada, complexa e, por demais, delicada:
Qual o papel-futuro da religião, do Cristianismo, da Igreja? (razão ou/e fé?)
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sexta-feira, 1 de abril de 2022
Que mundo-outro queremos, que mundo-outro teremos?- a guerra na Ucrânia
espécie de ensaio- 1º parte- (no seguimento de outra reflexão “Vida e(m) pandemia” publicada aqui nos dias 25 de Junho, 2 de Abril e 5 de Fevereiro de 2021). Faz-se também um parênteses à continuação do "Pessoas: Político(s) e política(s)- o fim dos partidos?” (publicado aqui no dia 30 de dezembro de 2021), para uma abordagem à conflitualidade na Ucrânia que ameaça a paz mundial e por inerência e consequência a existência do ser humano.
Falar de ameaça à paz é já de si algo um tanto ou quanto inusitado, que não vai de acordo à realidade daquilo que se passa no planeta. De facto, o Homem nunca esteve em paz desde os primórdios. As diversas civilizações foram forjadas, alimentadas, violentadas e extintas a ferro e fogo- sempre (ou praticamente) no espectro da inumanidade.
A guerra sempre foi algo de presente, quase que imanente à condição humana; a sua história foi de conflitualidade latente e constante, pelo que não nos devemos admirar/surpreender que tal aconteça agora, amanhã, depois- num eterno regresso do mesmo… porventura, a nossa sociedade ocidental (europeia em particular) não concebia uma contenda às suas portas; talvez porque se achasse que se tinha alcançado um tal grau cultural: conhecimento, educação, economia, liberdade democrática… que se pensou ter chegado “ao fim da história”- não no sentido literal da expressão-conceito, mas numa perspectiva de que depois da liberdade democrática (da Democracia, portanto) nada viria de melhor, nem acrescentaria algo de substancial à existência humana- pelo que seria uma questão de tempo até que outros povos e civilizações aderissem aos nossos valores e modo de vida, num efeito de contágio-mimético imparável e compressor que garantissem paz e prosperidade ad aeternum.
Contudo e apesar da alta globalização, pessoas há que não conhecem o nosso viver em sociedade; outras há que as não deixam; algumas mais que lhes será indiferente e outras ainda que, pura e simplesmente, não querem o nosso modelo. Perante isto, e acreditando no valor intrínseco dos nossos valores e ideais, temos de convir que a humanidade em geral não está (se é que alguma vez vai estar) preparada, disposta, ansiosa por viver/existir no nosso modo de vida.
De forma acintosa e intrusiva, tentámos impor o nosso padrão de sociedade através do colonialismo e imperialismo- não resultou muito bem; tentámos e tentamos através de uma interdependência global e… não está a decorrer como suposto.
Temos então de, a todo o custo, proteger e defender tudo aquilo que nos norteia enquanto civilização ocidental, acolher bem quem a nós se quer juntar e sobreviver a tempos complexos, de forma decidida e não titubeante, aceitando e respeitando criticamente que nem toda a humanidade quer/pode partilhar connosco a nossa matriz existencial/vivencial.
O conflito na Ucrânia é, na sua génese, um conflito de duas formas de perscrutar a vida, o mundo e, sem qualquer laivo superior, a visão ocidental é mais consentânea com os valores humanistas (que enraízam e têm o seu sustento nos valores cristãos, é preciso dizê-lo) e portanto garante dos direitos (deveres), liberdades e garantias que nos tornam uma sociedade mais justa, mais inclusiva e repulsiva de quaisquer pretensões de asfixia individual e colectiva.
Não tenhamos dúvidas (ou pelo menos ilusões): o caminho na defesa destes princípios, far-se-á com diálogo, muito diálogo e compreensão, mas acompanhado (entre inúmeras outras questões) na diversificação da origem das fontes de energia, numa reindustrialização estruturada, planeada, futurante e numa aposta clara na defesa militar: o ser humano é conflituoso entre si e, talvez, ainda mais conflituoso em si (interiormente), pelo que alguns só entendem a lei da força e só páram (ou não avançam) se souberem que somos tão ou mais fortes que eles- o que nos leva a um paradoxo (estamos cheios deles): se queremos paz, temos de estar preparados para a guerra; conquistamos a paz, não a construímos (como seria desejável e como o fazemos individualmente no nosso dia-a-dia).
No decurso do tempo, as guerras foram inúmeras e constantes, mas o ser humano resistiu e evoluiu. Todavia, face ao avanço tecnológico, um confronto total pode ser o fim da humanidade e aqui sim será “o fim da história” literalmente.
Infelizmente será esse o destino e fim trágico do Homem: a sua própria extinção; daqui a uns anos, daqui a uns séculos, daqui a… a não ser que o nosso modelo civilizacional (nos entretantos da história) consiga, pelo exemplo e perseverança, seduzir (sem se sobrepor) as demais culturas. É caso para dizer: tenhamos fé e confiemos (ainda) na inteligência e racionalidade humana.
Mas de que racionalidade falamos?
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quinta-feira, 30 de dezembro de 2021
Pessoas: Políticos e política(s)- o fim dos partidos?
espécie de ensaio- 1º parte- (no seguimento de outra reflexão “Vida e(m) pandemia” publicada aqui nos dias 25 de Junho, 2 de Abril e 5 de Fevereiro de 2021)
Vivemos em democracia ainda nem há cinquenta anos, pelo que na psique profunda do povo português este viver em sociedade é algo talvez pouco maturado, não muito estruturado, provavelmente pouco pensado.
Como vemos a política? Como a experienciamos, agora? Como a projectamos, no futuro? Certamente que cada qual tem a sua opinião sobre ela: cada um tem a sua “política” em relação à política… mas enquanto nação-pátria é um amor recente, isto da política-democrática; como tal, precisa ser cuidado, sistematizado e orientado para o bem-comum. E aqui bem-comum é A palavra, pois a política como tal só adquire pleno sentido quando está e pugna pelo aconchego individual e colectivo das gentes. Mas o que é o bem-comum? Poderemos dizer, de forma simplista, que será tudo aquilo que promova o equilíbrio e o desenvolvimento harmonioso das sociedades e que vá de encontro às aspirações de todos ou da maior parte das pessoas que compõem as diferentes comunidades. Não raras vezes, o bem-comum colide com os interesses individuais de uns quantos e é aqui que a política-política tem de prevalecer e não transigir.
De facto, ela é feita por políticos; melhor, por pessoas, acima de tudo. Mas que pessoas temos na política e que política temos nas pessoas? Quem são aqueles que estão ao serviço da causa pública? Que percepções as gentes têm deles? Questões de não fácil resposta. Realmente, aquilo que vai transparecendo ao longo de séculos da nossa existência enquanto povo é a de que os políticos não são confiáveis; ora se a norma (ou pelo menos a sua percepção) é esta, que esperar das acções concretas deles? Pouco, provavelmente. E é aqui que reside, talvez, o facto de continuadamente, ao longo da história de Portugal, estarmos na cauda do progresso e desenvolvimento: se as pessoas não confiam em quem os lidera, dificilmente se deixam liderar bem; dificilmente fazem mais e melhor com consequências na produtividade, no empenho maior para um país superlativo… Mas isto quererá dizer que o problema sistemático de Portugal são as elites? Também, mas (se calhar) não só: as elites são, em última instância, produto/resultado daquilo que somos enquanto povo. Se elas não servem, serviremos nós enquanto sociedade? Serviremos, cada um de nós (enquanto indivíduos) para a(s) comunidade(s)?!.
É através das eleições e do voto que podemos colocar e retirar quem entendermos nos lugares de decisão. Porque não o fazemos, votando? Porque nos abstemos? Porque há um desinteresse (desencanto) generalizado na Coisa Pública? Certamente que o modo como os Partidos se posicionam e intervêm pode ser explicativo. De tão herméticos que são (naquilo que é o carreirismo, seguidismo, até obscurantismo) só perpassa para a opinião pública os dislates e os disparates de uns quantos que desanimam qualquer veleidade de muitos para serem inovadores e prossecutores de acções válidas, com reflexo profícuo na vida das pessoas-pessoa. Os partidos tornam-se num conjunto de uns quantos arregimentados (quais adeptos de clube de futebol) que nos meandros do poder nos vão (des)governando numa lógica de sobrevivência individual e partidária, tantas vezes contrária ao tal bem-comum- de que são expressão máxima a corrupção, as ilegalidades, abuso de poder, a falta gritante de ética e transparência…
É recorrente ouvir referir que se é verdade que se pode votar em a,b,c ou d, também é verdade que só votamos naqueles que previamente foram escolhidos e seleccionados mediante requisitos, processos, por vezes, dúbios e inusitados. Nesta medida, se está diagnosticada a enfermidade democrática nos partidos (e se é pouco crível que se regenerem, pelo menos a curto prazo), que fazer para que a democracia sobreviva aos solavancos do presente?
Não será, provavelmente, a solução, mas poderá ser uma das respostas: a emergência e a consolidação dos movimentos independentes (verdadeiramente) que nasçam, cresçam, cumpram o seu papel e tenham o seu fim; ou se renovem sistematicamente em pessoas e ideias, numa lógica transformativa deles próprios para operarem eficaz e fielmente na realidade. Esta renovação intrínseca e ulterior seria extremamente benéfica à causa pública, delimitando, por certo, compadrios e amiguismos instalados, promovendo a competência, o conhecimento e o serviço ao Outro numa lógica desinteressada mas interessada nas coisas da Pólis. Depois algumas medidas específicas: aumento dos mandatos para 6/7 anos e implementação do mandato único sem possibilidade de reeleição ou nomeação, promovendo assim uma constante alternância, impedindo o “assalto” a cargos de poder indefinida e abusivamente, possibilitando que gente competente, capaz e motivada pudesse exercer cargos que, agora, jamais alcançará. Este poderá ser o/um caminho. Doutro modo, antevê-se num futuro próximo grandes agitações de massas, descontentes com a situação económica e social que todos os dias as tolhe na sua liberdade e aspirações; e isto amplificado pelas redes sociais (comunicação social) que instigam a confusão e o atrito, por uma contrainformação galopante e desinformação paradoxal nesta época altamente globalizada e instantânea (sabemos de tudo em todo o lado e em todo o momento, mas, muitas vezes- porque impreparados e bombardeados- manipulados).
Os partidos políticos tiveram o seu tempo (se calhar, ainda têm o seu lugar), mas outros novos tempos surgem inexoravelmente e ou se adaptam ou definham… esperando nós que o país não definhe com eles.
É caso para perguntar: será o fim dos partidos? Se for, a que custo? Se o não for, o que advirá? No fundo, que Portugal-outro queremos?
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sexta-feira, 25 de junho de 2021
Vida e(m) pandemia
Vida e(m) pandemia
espécie de ensaio- 3ª parte dos textos publicados nos dias 5 de fevereiro e 2 de Abril
Esse salto de mentalidade (que denominei de modernidade-operante) pressupõe uma confiança no Eu, nas suas virtudes e potencialidades; uma confiança que nos permita arriscar para criar, sentir para agir derrotando o medo que paralisa a acção e inibe a transformação enquanto comunidade, enquanto sociedade.
Resquícios, provavelmente, do Estado Novo (e indo mais atrás, da Inquisição) parece haver um medo quase que inconsciente, mas latente, bem enraizado na mente e memória profunda dos portugueses que nos inibe de sonhar… grande, de desejar… muito, de nos tornarmos maiores (individual e colectivamente) como que não suportando o “pecado” de ousar mais. Habituámo-nos a um certo estilo de vida confortável (por comparação com o pré 25 de Abril) e daqui não queremos sair. E ao fardo que é pensar (pensar em sonhar), junta-se o fardo de não sonhar (mesmo). Uma dupla mágoa que nos aprisiona, esmaga e nos impede de arriscar, de ir mais além; almejamos pouco, desejamos pouco, fantasiamos pouco: contentamo-nos com pequenos prazeres, pequenas alegrias, pequenas coisas e tantas coisas que dá a ideia (aparente) de grandes acontecimentos realizados, de grandes façanhas concretizadas… A esta culpabilidade quase que “original” (como o pecado) não será completamente alheia a religião (Católica) que em muitas fases (que não esta, felizmente) nos inculcou o medo… de pensar, de questionar, de criar, de agir…
Enquanto povo, esta não-acção impede-nos de evoluir na modernidade (estamos e não estamos), permanentemente na cauda do progresso, com os mesmos problemas crónicos desde a revolução Liberal (que foi o cortar com o Antigo regime e o entrar na era moderna, se calhar sem entrarmos verdadeiramente…). Talvez por isto, olhamos para o que é nosso com desconfiança e adoramos tudo o que vem de fora. Elogiamos os outros (estrangeiros) e somos criticamente penalizadores com os nossos numa lógica de “bota abaixo” castrante e altamente penalizadora para a evolução do próprio país, numa perspectiva de subserviência que tolhe a tal ideia de modernidade-operante; queremos absorver tudo “dos de fora” e desprezamos os “de dentro”; o que nos leva a perceber que, além do queixume (de que falei na 2ªparte), a inveja é um problema que atravessa transversalmente toda a sociedade portuguesa e que mina por completo as tentativas de reformas progressistas e estruturantes que o país há tanto e desesperadamente precisa. E chega mesmo a destruir carreiras, projectos, pessoas: aquilo que o Outro faz nunca é suficientemente bom, porque isso também Eu fazia (mas não fiz) e melhor. O elogio é raro e quando acontece, por vezes, vem num tom que o desmascara… Incapazes de reconhecer o mérito no outro, tornamo-nos azedos, frustrados; não fazemos e inibimos (às vezes, num silêncio ensurdecedor) quem faz e cria de forma, tantas vezes, irreversível. Neste ciclo de inveja, mais observável ou mais sub-reptício, perdem-se oportunidades e caminhos de futuro.
Temos assim que o queixume e a inveja, a par de outros “atributos”, são o caldo de cultura da inoperância que perpassa em Portugal. E só com uma aposta forte, clara, objectiva, arrojada, pensada e estruturada na Educação, podemos começar a antever que estes dois constrangimentos (e outros) vão paulatinamente desaparecendo do Fazer dos Portugueses. Dar às crianças e jovens ferramentas e oportunidades para pensar, questionar, criticar (construtivamente), arriscar-criar, agir, valorizar-se a si e aos outros será uma das formas e meios para sermos um país de e com Futuro que nos permita não só viver, mas Existir com tal…
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terça-feira, 22 de junho de 2021
Terra das 7 Vozes
“No âmbito da residência artística do músico Ricardo Coelho (e da sua equipa) em Vila Fernando, foi apresentado no final da tarde da passada sexta-feira (18 de junho), no grande Auditório do Teatro Municipal da Guarda, o espetáculo “Terra das 7 vozes”. Trata-se de uma iniciativa no âmbito do programa Incentivarte, do Município da Guarda, que apoia novos projetos artísticos com criadores e coletivos artísticos locais.” (Município- TMG)
O Clube dos Amigos da Freguesia de Vila Fernando, através do seu Grupo de Cantares 7Vozes e no âmbito acima mencionado, apresentou o projecto “Terra das 7 Vozes” numa alusão às 7 aldeias que constituem a freguesia (Vila Mendo, Vila Fernando, Quinta de Cima, Quinta de Baixo, Quinta de Meio, Monte Carreto e Aldeia de Santa Madalena). Ainda que pudesse fazer uma análise crítica pura e dura (construtiva) ao dito espectáculo (bastante bem conseguido, adianto já), nomeadamente à linha condutora, coerência estética, elementos cénicos ou até mesmo à selecção de algumas músicas do cancioneiro, entre outros pormenores que, na minha óptica e vale o que vale, deveriam ser aprimorados; não é isso que importa tanto: importa todo o processo, não tanto o resultado final. E se os processos não tivessem sido excelentes, não teríamos um bom espectáculo. De facto, questões cénicas, musicais, até dramatúrgicas à parte, aquilo que me impressionou mais foi (e face à pouca experiência de palco das pessoas) a alegria, a vivacidade, o prazer e a simplicidade com que nos brindaram. Sentia-se que estavam a desfrutar e isso passou claramente para o público e não há maior elogio a um artista do que quando consegue passar esse sentir aos espectadores: e as 7Vozes (grupo bastante heterogéneo) foram uns verdadeiros Artistas. Mérito, muito mérito também ao Grupo da residência artística que em menos de 3 semanas ouviu, viu, sentiu, adaptou, criou, e operacionalizou o “Terra das 7 Vozes”.
Atrevo-me a afirmar que o conjunto desta iniciativa selou um destino promissor e duradouro ao grupo de cantares e à própria associação que a suporta. Porquê? Porque este projecto artístico teve algo… (daquilo que tenho escrito aqui na espécie de ensaio: Vida e(m) pandemia…) algo de transformativo; algo que não se esgota na acção, no acontecimento em si; algo que terá um efeito gerador multiplicativo de vontades, de energias e sinergias… com reflexos profundos e profícuos na individualidade de cada qual e na própria comunidade.
Numa entrevista ao jornal a Guarda há ano e meio sensivelmente, afirmava que a Guarda Capital Europeia da Cultura só tinha a ganhar com o envolvimento efectivo das colectividades concelhias de modo a valorizar aquilo que de melhor temos: a ruralidade enquanto marca identitária- com memória, com verdade e projectada no amanhã. Cada vez mais, acho que é este o caminho para que, pelo menos, entre na “shortlist” que decidirá a cidade vencedora. Com este exemplo, verificou-se que a Guarda e as suas Associações têm tanto potencial… têm o saber, o saber-fazer e o saber-ser… é só acarinhá-las e dar-lhes meios…
Uma nota; para algumas pessoas da freguesia com algum tipo de responsabilidade em vários domínios: deveriam ter estado presentes… este espectáculo e respectivos frutos (deduzo eu) também foram e serão para vós…
Da ACR Vila Mendo espera-se que esteja disponível para cooperar com o Cube dos Amigos da Freguesia de Vila Fernando, sempre que possível.
Bem-hajam.
sexta-feira, 2 de abril de 2021
Vida e(m) pandemia
Vida e(m) pandemia
espécie de ensaio- 2ª parte do texto publicado no pretérito dia 5 de Fevereiro
espécie de ensaio- 2ª parte do texto publicado no pretérito dia 5 de Fevereiro
“Como começar a alterar isso: valorizando, reconhecendo e assumindo o ontem; pensando e fazendo o hoje; antecipando o amanhã…”
Obviamente que este processo não é algo repentino que mude por artes mágicas. Contudo este é o caminho, difícil por certo. É um processo individual, antes de mais, que começa nos pequenos “quês” do dia-a-dia, mas que ancora em elites formadas e informadas que sejam farol e guia nestes tempos conturbados.
Se analisarmos bem (numa escala macro), e não querendo ser injusto perante diversos actores ao longo da história de Portugal, quem é que valorizou, reconheceu e assumiu o ontem, pensou e fez o hoje e antecipou o amanhã? Parece claro! D. João I, Infante D. Henrique e companhia como o início dos Descobrimentos (ainda se pode chamar tal?!.). De resto, e sem querer ser simplista, parece que foi, e passe a expressão, “pontapé na bola, xuto para a frente e fé na providência.”
E estamos onde sempre estivemos, dependentes de um qualquer milagre: o comércio das Índias, o ouro do Brasil, as colónias africanas, os fundos europeus… sobrevivemos sempre à espera que algo aconteça: não porque se tenha capacidade de prever e planear em conveniência, mas numa lógica de desenrascanço (onde somos realmente bons, diga-se) que chega para sobreviver mas não (talvez) para Viver.
Como País, existiremos por muitos mais séculos, sem dúvida- que o milagre do nosso surgimento já será eterno- de desenrascanço em desenrascanço iremos perdurar; importa saber a que custo e com que dificuldades e sofrimentos nos iremos deparar “para que fosses nosso oh mar”…
De qualquer modo, as elites que nos governam e governaram emanam aquilo que somos enquanto povo, mas primeiramente enquanto indivíduos e ao responsabilizá-los- por si só- estaremos a fazer aquilo que é uma das características (quase que inatas) dos portugueses: os “queixumes” combinados com uma pitada de intriga e mesclados com uma boa dose de inveja. De facto, esta “nobre” arte de nos queixarmos (por tudo e por nada) poderia ser (e é também muitas vezes) uma forma de crescimento enquanto nação, na perspectiva de conhecermos e lutarmos pelos direitos que nos assistem, na perspectiva de podermos alterar para melhor a comunidade, a sociedade, o mundo em que vivemos.
Todavia, este lado profícuo dá lugar a um queixume maldizente em que se diz mal de tudo e todos numa lógica de oposição- Eu contra o Outro- Eu que sei e tenho solução para tudo, contra o Outro que nada sabe e tudo faz mal; são as conversas de café, de rua, de tantos e tantos momentos, contínuas e corriqueiras e, não raras vezes, mal intencionadas. Paradoxalmente, estas queixinhas são alimento de coesão entre pessoas, entre grupos, entre comunidades, entre o próprio país e a sua identidade: aquilo que poderia ser visto como negativo e nefasto (que é), torna-se um elo, uma afinidade entre indivíduos. Convertemo-nos em arautos da desgraça e nessa desgraça mantemo-nos unidos numa identidade- a de Portugal. Naturalmente que uma identidade forjada em tais princípios (outros há, por demais superlativos) não pode trazer grandes benefícios (a não ser a existência dela mesmo) porque essas queixas, esse desfilar e destilar de problemas (culpa dos outros, claro) não pressupõem nenhuma acção transformativa para se corrigirem e alterarem: diz-se por dizer, não para fazer, porque quem tem de fazer e mudar é o Outro. E quando misturamos as queixas e o maldizer a um certo poder de decisão obtemos aquilo a que vulgarmente se chama de burocracia: tudo é bloqueado nuns quaisquer níveis de definição, provocando a exasperação daqueles que querem resolver situações da sua vida. Assim, é recorrente a inacção dos serviços (públicos) que numa aparência de grande azáfama e volume de trabalho acabam por suspender decisões de forma rápida e útil por pequenas questiúnculas que só servem para atestar o ego (narcisista e invejoso, por vezes) da suposta importância de quem decide; os pequenos poderes instalados na hierarquia da administração (pública, maioritariamente) são profundamente paralisantes e castradores de uma verdadeira simplificação de procedimentos e consequente transformação de mentalidades que permitam um salto daquilo a que denominaria de modernidade-operante que nos permita (enquanto povo) Viver e não sobreviver nos solavancos da história…
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021
Vida e(m) pandemia
Vida e(m) pandemia
espécie de Ensaio- 1ªparte
Estamos a viver um tempo histórico. Um tempo que vai (deve) ficar inscrito (espera-se). Um tempo em tudo semelhante ao de outras pandemias e catástrofes na história da humanidade, com uma diferença: somos nós (Eu, enquanto indivíduo) que o estamos a viver. Ora isto, por si só, redimensiona o problema para uma escala de importância (interpretativa) sem igual: é presente! Não é algo que se lê ou se aborda, superficialmente, no percurso académico. Mas por ser presente, paradoxalmente, quase que parece passado; a quantidade de informação difusa, profusa e confusa a todo o momento e no momento redirecciona o nosso pensamento para um caminho de esquecimento, alienação, desvalorização: tudo acontece agora, tão rápido e tão perto que já é distante- é e não é! Esta dualidade (dubiedade) de pensamento, de percepção (individual) faz com que as pessoas (colectivamente) adoptem, por vezes, comportamentos desajustados e irreflectidos que (previsivelmente) não favorecem à eliminação do problema. O medo (puro e duro) por onde as sociedades das outras vagas pandémicas se governavam e deixavam governar deixou de existir (ainda bem), sem que tal fosse substituído por algo diferenciador e profícuo- há a ideia em cada indivíduo de uma pretensa imortalidade (“a mim nada me acontece”) a que chamaria de imortalidade-frugal por não assentar numa materialização concreta de transformação efectiva, duradoura e inscrita da Vida como tal- temos a vantagem, é certo, de uma ciência avançada, embora lenta para aquilo que esperaríamos e precisaríamos no imediato. Se antes havia pouca ciência, sobrava o medo para controlar as situações, agora com mais ciência (que não basta) falta o medo; não o medo asfixiante, paralisante e opressivo, mas o medo que definiria como prudência-reflexiva-operante que nos permitiria pensar e encarar a realidade com cautela ( sem nos aprisionar numa vivência terrorífica) e capaz de planear e operar o futuro… no presente!
Nesta(s) altura(s) seriam necessárias elites políticas (económicas e culturais) que nos ajudassem, que planeassem e que executassem medidas pensadas, estruturadas e enquadradas numa perspectiva de presente-futuro ancoradas no passado; medidas transformativas, medidas que apontassem um rumo, alicerçadas nas liberdades individuais e colectivas. De facto, temos assistido a políticas erráticas e a políticos errantes (quase que uma sina desde os tempos primeiros da existência de Portugal como país) que não sabem muito bem o que fazer, dizer, logo pensar-antever. Veja-se, como exemplo, a confusão com as máscaras, vacinas, educação, justiça… diz-se uma coisa, depois diz-se que não se disse ou que se disse mas não era aquilo que se queria dizer porque o que se tinha dito já não interessa face às circunstâncias mutantes… o que conduz a outro problema que não é (só) de comunicação; é mais profundo: o valor da palavra dita- escrita e falada; se o que se diz hoje não tem valor amanhã (porque desacreditada pelos intervenientes) então não há um salto de modernidade nas mentalidades, com consequências inegáveis, imprudentes e imprevisíveis no bem-estar material, social e até identitário de um país; tudo é simplificado, desvalorizado, esquecido; e sem memória do atrás é difícil haver mudança no à frente. E Portugal está aqui: individualmente inconsciente, politicamente inconsequente. Como começar a alterar isso: valorizando, reconhecendo e assumindo o ontem; pensando e fazendo o hoje; antecipando o amanhã…
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
Ano Fraterno
Fim de ano; princípio de outro!
Que caminhos se seguirão? Que caminhos seguiremos? Que tribulações surgirão? Que novas irão assomar? Que contentos?.. Dubiedades que bastem para nos desassossegar, ou não...
O caminho faz-se caminhando, no convencimento de que as escolhas que consumarmos, individualmente, nos vão nortear a um desenlace mais (ou menos) jucundo. Não poderemos metamorfosear todos os caminhos, mas podemos transfigurar (para melhor) o nosso; esteando os que connosco privam na jornada da Vida.
Vamos fazer Caminho.
Ano fraterno!
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sábado, 25 de abril de 2020
25 de Abril e a Guerra Colonial
A Companhia de Caçadores 129, em 1961, a caminho de Quizalala- Angola; uma das primeiras a ir para a Guerra de África. Ismael Soares (em pé, 5° a contar da esquerda) fez parte desta companhia.
Em baixo, um encontro entre este e Alípio Tomé Pinto (e a esposa Maria Lucília)- um dos heróis da guerra, 56 anos depois.
A primeira fotografia foi retirada do livro biográfico: "Ten. General Alípio Tomé Pinto- O Capitão do Quadrado", da autoria do próprio e de Sarah Adamapoulos com a edição da "Ler Devagar". Livro de que se recomenda vivamente a leitura.
Nestes tempos conturbados e inusitados, vale a pena recordar aqueles que anónima ou publicamente lutaram por todo um povo à custa, não raras vezes, de sacrifícios hercúleos que as gerações mais imberbes, não imaginam nem (infelizmente) pensam.
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sábado, 11 de abril de 2020
Páscoa feliz
A todos os Vilamendenses, amigos e aos que nos lêem uma Feliz Páscoa, apesar dos tempos, inusitados e conturbados, em que vivemos.
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quarta-feira, 8 de abril de 2020
Retrospectivas
O tempo passa,
as lembranças permanecem
esbroadas no frenesim do presente.
Olhamos e, atónitos, reconhecemos
o eu, o outro, as circunstâncias…
Agora, mais entendidos nas coisas da Vida,
matutamos o ontem e, assoberbados pelo existente, presumimos o amanhã, desassossegados…
O tempo, esse… pula e avança.
as lembranças permanecem
esbroadas no frenesim do presente.
Olhamos e, atónitos, reconhecemos
o eu, o outro, as circunstâncias…
Agora, mais entendidos nas coisas da Vida,
matutamos o ontem e, assoberbados pelo existente, presumimos o amanhã, desassossegados…
O tempo, esse… pula e avança.
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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
sexta-feira, 27 de dezembro de 2019
Terra Prometida
A neblina tarda em desvanecer-se. Os olhos esmiúçam o horizonte à cata da Terra Prometida que, acobertada, nos deixa acabrunhados e cismáticos. Desapareceria ela por entre as brumas da memória? Não! Em momento algum te vamos deslembrar... afiançamos... amada... Vila Mendo.
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sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
Dezembro
por Berta Carreira
Que dezembro seja bondade, dádiva, generosidade, gratidão, simplicidade, sorrisos, ternura e união, mas que a um de janeiro não apaguemos as luzinhas; que a dois de fevereiro não nos esqueçamos da família e dos amigos; que a três de março saibamos enfrentar, com paciência, resiliência e fé, algum obstáculo que possa surgir, como os pais do Menino Jesus; que a quatro de abril sintamos o coração repleto de amor como na noite de consoada; que a cinco de maio saibamos criar e reutilizar, à semelhança do que fazemos com a decoração para a quadra natalícia; que a seis de junho façamos um balanço positivo de nós, tendo a humildade para agradecer aos Outros, como os Reis Magos; que a sete de julho saibamos estar sozinhos (e aconchegados) como numa noite de inverno; que a oito de agosto não nos falte a convivência, a alegria do final de ano, e o descansar inerente ao dia de ano novo; que a nove de setembro não pensemos apenas em dezembro; que a dez de outubro não estejamos aborrecidos pelo frio; que a onze de novembro partilhemos a capa como São Martinho; que a doze, a treze, a catorze, a quinze, a dezasseis, a dezassete, a dezoito, a dezanove, a vinte a vinte e um, a vinte e dois, a vinte e três, a vinte e quatro, a vinte e cinco, a vinte e seis, a vinte e sete, a vinte e oito, a vinte e nove, a trinta e a trinta e um não nos esqueçamos de dizer "Bom dia, Dia", melodiosamente. E que nos meses de menos dias não deixemos o essencial por fazer e por dizer. E que as horas dos mais longos não nos saturem, culminando em desperdícios de tempo.
Sejamos natal em cada nascer do sol. Sejamos luz em cada anoitecer. Iluminados, pelo sol ou pela lua, hora a hora, dia a dia, mês a mês, cumprimos os valores de dezembro. Cada segundo determina o pulsar da existência. Não aos dias contra relógio. Sim aos momentos que nos preenchem independentemente do tempo e da hora e da companhia e do local.
Parece-me que poderíamos viver sem o dia de Natal, mas seriamos uns meros sobreviventes sem os valores tão evocados nesta época. Esperar pelo último mês do ano para a renovação é uma expetativa falaciosa. Afinal não é dezembro que muda o humano - é o humano que tem vindo a mudar o dezembro num louco frenesim que está a contagiar o ano inteiro.
Lautos os que fazem do quotidiano natal. Dezembro é, tão somente, uma oportunidade de renascer entre infinitas que se têm durante o ano.
O agora é luz, do amanhã nada se sabe.
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