quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A Freguesia de Vila Fernando no séc. XVI (1575-1600)

Graça Maria Garcia Soares Calçada Sousa nasceu na Guarda em 1963. As suas origens provêm de Vila Fernando, Quinta do Meio e Monte Carreto. Na infância, e sobretudo nas férias e fins de semana, Vila Fernando acolheu as suas brincadeiras (inesquecíveis) com primos e vizinhos. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade de Coimbra e é Mestre em Ciências da Educação pela Universidade Católica. É professora do 3º Ciclo e Secundário.
Recolheu as informações abaixo publicadas quando, há uns anos, decidiu investigar e construir a árvore genealógica da sua família, quer do lado paterno, quer do lado materno, recorrendo à consulta de livros, documentos e microfilmes no Registo Civil da Guarda e no Arquivo Distrital da Guarda. É o segundo contributo dela aqui. Ficamos, expectantes, a aguardar mais contributos, mais curiosidades...

A Freguesia de Vila Fernando no séc. XVI (1575 – 1600)

Os registos de batismos, casamentos e óbitos da freguesia de Vila Fernando começaram a ser escritos em 1575 e são fundamentais para conhecermos pormenores sobre a vida dos nossos antepassados.
Os primeiros assentos são difíceis de decifrar: folhas rasgadas, páginas manchadas, tinta esbranquiçada, frases aparentemente sem sentido, palavras ilegíveis, informações incompletas, desorganização cronológica e a certeza de que muito ficou por registar, impedindo-nos de “ver” melhor essas (nossas) gentes que habitaram a freguesia.
A igreja de Vila Fernando parecia ter sob a sua alçada um grande número de quintas e pequenos lugares: Adão, Albardo, Monte Carreto, Monte de S. Pedro, Monte Sardinha, Pombais, Pousafoles [ó / do] Roto, Quinta da Caravela, Quinta das Lameiras, Quinta de Afonso Fernandes, Quinta de Baixo, Quinta de Cima, Quinta de João Dias, Quinta de João Lopes, Quinta de Vale dos Carros, Quinta do Meio, Vila Fernando e Vila Mendo.
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®BATISMOS
- Ao longo dos últimos 25 anos do séc. XVI, na freguesia de Vila Fernando, foram registados 497 batismos, correspondendo a 263 rapazes, 224 raparigas e 10 casos sem informação.

- Desde 1575 até 1587, houve uma média de 30 batismos por ano mas, de 1589 a 1596, essa média baixou para 10, descendo até 0 em três anos consecutivos – 1597 a 1599. Em 1600, os valores voltaram a subir. Estas oscilações coincidiram com momentos em que os párocos se sucederam com alguma frequência.

- Os batismos ocorreram, com alguma regularidade, ao longo dos doze meses do ano, apresentando, no entanto, maior incidência nos meses de setembro (64), abril (50) e outubro (49). Junho foi o mês com menor número de registos (17). Como, naquela época, o intervalo entre os nascimentos e os baptismos era muito curto, estes valores devem praticamente coincidir.

 Os assentos dizem respeito, na sua maioria, aos lugares e quintas que parecem ter tido mais população – Adão (104), Albardo (88), Vila Fernando (82), Vila Mendo (44), Quinta de João Lopes (29), Pousafoles (27), Monte Carreto (21) –, sendo em número mais reduzido no resto da freguesia: Monte Sardinha (14), Quinta dos Pombais (13), Quinta de Cima (11), Quinta de Vale dos Carros (10), Monte de S. Pedro (7), Quinta de João Dias (3), Quinta da Caravela (3), Quinta de Afonso Fernandes (2), Quinta das Lameiras (1), Quinta do Meio (1). Relativamente a 37 dos 497 registos, não é possível perceber a que local se referem por insuficiência de informação.

- Quanto aos nomes, as famílias optaram por alguns que se foram repetindo e que continuam, na sua maioria, a ser usados atualmente: para os rapazes, António (51), Domingos (48), Francisco (43), João (26), Pedro (17) e Diogo (15); para as raparigas, Maria (65), Catarina (42), Isabel (39), Domingas (16), Beatriz (9) e Ana (9).
No caso dos rapazes, também apareceram Manuel, Gonçalo, André, Gaspar, Jorge, Miguel, Antão, Sebastião, Lourenço, Baltasar, Simão, Tomé, Bartolomeu, Matias, Jerónimo, Marcos, Mateus, Amador, Salvador, José, Aleixo, Estevão e Amaro. Para as raparigas, também foram escolhidos Clara, Antónia, Margarida, Bárbara, Guiomar, Joana, Eufémia, Leonor, Bernarda, Branca, Helena, Luzia, Marta, Inês, Águeda, Lourença e “Bartoleza”.

® CASAMENTOS
 Nesses últimos 25 anos do séc. XVI, e segundo os registos, houve um total de 104 casamentos. Os anos com maior número foram 1576 (14), 1580 (11), 1586 (10) e 1587 (10). Em contrapartida, em 1590, 1592, 1593 e 1597 não houve qualquer assento. (Não terão existido realmente casamentos nesses anos ou os párocos não teriam achado importante fazer o registo?)

  Esses casamentos dizem respeito, sobretudo, a Vila Fernando (31), Adão (17), Vila Mendo (14) e Albardo (13) e realizaram-se, principalmente, nos meses de fevereiro (13), maio (13), janeiro (12) e setembro (12). Março (1) e dezembro (2) foram os meses menos escolhidos.

  Dos 104 noivos (e retirando 9 casos cuja informação é inexistente ou ilegível), apenas 45 pertenciam à freguesia de Vila Fernando. Os restantes 50 tinham origens diversas: Cairrão, Carvalhal Meão, Arrifana, Pousade, Rabaça, Gata, Sete Carvalhos, Pêro do Moço, Penalobo, Rochoso, Panoias, Água de Figueira, Penedo da Sé, Monte Brás, Águas Belas, Pessolta, Marmeleiro, Gonçalo Bocas, Seixo do Coa, Benespera, Vila do Touro, Carapito, Perobolso… Quanto às 104 noivas, 94 eram da freguesia de Vila Fernando, 4 eram de fora e de 6 casos não há dados.

  Os apelidos que surgem com mais frequência, no caso dos noivos, são Fernandes (19), Gonçalves (18), Martins (9) e Pires (7); no caso das noivas, Gonçalves (26), Fernandes (20) e Dias (11).

  A igreja de Vila Fernando é designada por Igreja de Santa Maria de Vila Fernando nalguns assentos.

® ÓBITOS
  Entre 1575 e 1600, foram feitos 280 registos de óbito relativos à freguesia de Vila Fernando (correspondendo a 133 pessoas do sexo masculino, 139 do sexo feminino e 8 sem qualquer informação) cujos apelidos eram, maioritariamente, Gonçalves (61), Fernandes (21), Afonso (21), Dias (18), Pires (17). Foram sepultados dentro da igreja 115 dos defuntos.

  Tal como acontece nos assentos de batismo e de casamento, também o número de óbitos é maior no Adão (57), em Vila Fernando (47), em Vila Mendo (36), em Albardo (34) e na Quinta de João Lopes (18), tendo sido outubro (57) e setembro (41) os meses durante os quais mais gente morreu.

  Os valores totais oscilaram muito ao longo dos anos e, mais uma vez, ficamos sem saber se foram os párocos que se esqueceram de fazer os registos (ex: 1591 – 0; 1584 – 1; 1585 – 2) ou se, de facto, houve poucos óbitos. Seguindo a mesma linha de pensamento, ignoramos se houve razões graves para uma maior mortandade nalgumas épocas (1595 – 25; 1580 e 1600 – 24; 1575 – 22, em quatro meses).

  Antes de morrer, muitas pessoas (186) deixaram, oralmente ou por escrito, as suas últimas vontades. Isso podia ser feito sob a forma de “testamento”, “manda” ou “manda verbal”. Eis aqui um excerto de um desses textos em que foram registadas as últimas vontades de uma Catarina Dias, de Vila Mendo, falecida em 1600.
“… mandou seu corpo fosse enterrado dentro da Igja com sua missa de prezente, e q[ue] lhe gastassem per sua alma dous mil e quinhentos rs [= reis] em q[ue] emtrava oferta e o mais até onde chegar e as [= às] confrarias a cada hũa [=uma] seu testam (=tostão) .§. a [= à] do Santo Sacramto, nome de Jhs, e nossa Snar do rosairo…” 
No mesmo ano, um André Lourenço, de Albardo, “… mandou seu corpo fosse enterrado na Igja deste lugar [V. Fernando] fora junto amoreira, mandou conforme ao dito das tas [= testemunhas] se lhe gastasse per sua alma mil e quinhentos rs [= reis] em q[ue] emtrava tudo, e as [= às] confrarias se lhe dessem sinquo [= cinco] meios de pam [= pão] .§. a [= à] do espirito santo dalbardo hũ [=um] alqueire e has [= às] deste lugar [V. Fernando] a cada hũa seu mº q[ue] sam(?) tres (?)...”
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Outras informações:
  Ao longo dos registos, e para distinguir mais facilmente alguns intervenientes com nomes semelhantes, foram acrescentadas as alcunhas por que eram conhecidos (o velho, o moço, o branco, o preto, o manso, o moreno, o direito, o doce, o burel, carapuço, do cimo, da fonte, da quelha) ou, mais raramente, as profissões (ferreiro, pedreiro, moleiro, monteiro, cardador, sapateiro, mercador). Ainda relativamente a esses intervenientes, surgem-nos nomes invulgares ou com uma grafia curiosa: Bastião, Sistre, Teodósio, Mécia, Violante, Lucrécia, Ellena, Pellonia, Bartoleza.

  Entre 1575 e 1586, o Pe Manuel Tavares parece ter sido o pároco da freguesia. Foi ele que realizou a maioria das cerimónias, que redigiu os assentos e que deu autorização a outros padres para o substituírem nalgumas situações. Nos anos seguintes foram vários os padres que estiveram na freguesia de Vila Fernando e por curtos períodos de tempo – por exemplo, o Pe Jerónimo Rodrigues, o Pe Manuel Fernandes, o Pe António Maldonado, o Pe Jorge de Sá, o Pe António Fernandes Pereira e, no final do século, o Pe Cunha. O Pe Manuel Tavares e o Pe Cunha são identificados como “curas” da igreja de Vila Fernando. É também visível a presença pontual de alguns padres, vindos de outras freguesias expressamente para uma ou outra dessas cerimónias.

   Nalguns assentos (ex: batismos de 28-4-1575 e de 27-9-1575), as designações de “Quinta de Cima” e “Quinta de João Lopes” foram usadas como se se referissem ao mesmo local, o mesmo acontecendo em relação à “Quinta de João Dias” e à “Quinta de Baixo”.




5 comentários:

Anónimo disse...

parabéns à autora por esta excelente pesquisa e ao administrador do blogue por incentivar estes contributos.

Luís Filipe Gonçalves Soares disse...

Sem dúvida, parabéns à Graça Sousa por este trabalho de pesquisa. Agora, esperamos mais e mais...

Anónimo disse...

O Adão pertenceu à freguesia de Vila Fernando?!

Luís Filipe Gonçalves Soares disse...

O Adão, o Albardo... é pena que nas tentativas de reorganização de freguesias não se tenham em conta estes dados históricos. por exemplo: como é possível que o Albardo se tenha agregado com Pousade e não com Vila Fernando, como seria natural?..
(É por causa disso que vamos elevar Vila Mendo a Concelho!)

Anónimo disse...

Ainda bem que há pessoas que se interessam pela nossa história. Este tipo de pesquisas devia ser incentivado pelas instituições oficiais. A maioria das pessoas não sabe nada acerca das suas terras. Uma tristeza.