(Continuação)
À pergunta: Qual a diferença entre o modo como eu e a sociedade achamos que nos devemos sentir e o modo como nos sentimos de facto? A resposta não é evidente; mas é estridente e objetivamente (?) pungente. Tantas vezes essa diferença é avassaladora, no limiar da refundação das marcas constitutivas que caracterizam o nosso ser: aquilo que os outros e eu mesmo esperamos de mim próprio pode ser diametralmente oposto àquilo que fazemos; e ainda que façamos o que se espera, demasiadas vezes o sentimento perante tal é profusamente desconforme. Deveria sentir-me de uma forma e não sinto isso. E sentimos outra coisa, outras coisas que são… coisas indefinidas, indefiníveis, vagas, distintas, contraditórias; mas próximas, mas presentes, mas concretas… na dor, no sofrimento que causam, na confusão que aportam e está ali; e está aqui; dentro; e quase a entrar em erupção e acção: num irrompimento de um eu, de um outro eu, de outros eus! Demasiados eus com que o eu tem de lidar e harmonizar, portanto.
Desejávamos sentir-nos assim e não nos sentimos desse modo: porquê? Não sei. Mas o problema residirá com mais impactância quando ao porquê respondemos: não quero saber! Ou melhor (que é pior) sei (ou acho que sei!) mas não quero, recuso terminantemente pensar sobre isso! Deste modo (e por esse modo), deixamos de ser uma simples (que é complexa) interrogação para mim próprio para me tornar um estranho perante mim mesmo. De facto, amiúde temos pensamentos, sentimentos, ações e omissões discordantes com aquilo que seria suposto e até imposto. E isso assoberba-nos pela sua quantidade, volatilidade e complexidade. E resistimos-lhe. E resistimos a que eles aflorem à análise crítica e reflexiva que se propunha e impunha. E escondemo-los de nós próprios. Mas tudo isso está lá. está cá. dentro. bem dentro. prestes a surgir e a ressurgir uma e outra vez com dor. Com a dor que nos leva ao auto-engano e que nos leva a fugir não de, mas para uma prisão. A prisão interior: onde se acumulam e carregam todos aqueles pensamentos inusitados e perniciosos e tristes que causam enorme pressão interna, que provocam pressão externa que, por sua vez, causam mais pressão interna num ciclo contínuo… de desapropriação, de sofrimento e padecimento. E como sair desta prisão interna criada, estruturada e construída meticulosamente( ainda que inconscientemente, muitas vezes) ao longo da existência?
(Continua)
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