(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 30 de Abril )
(continuação)
À pergunta: e quais as soluções-imposições que amiúde procuramos? A resposta (esta) é, de certo modo, objectivamente mais evidente. As soluções (que são sempre imposições que colocamos a nós mesmos antes de as colocarmos aos outros para nos solucionarem as angústias e os tormentos que nos acompanham a cada passo) procuradas (e que às vezes nos procuram!) tendem a ser de cariz e de matriz do instantâneo, do milagroso, do mágico; que resolvam. E não importa se deslindam, ou sequer se me aproximam (ainda que longinquamente) das origens da dor: das condições e das contradições insanáveis (?) que a alimentam.
As igrejas evangélicas, movimentos pentecostais, seitas mais, outras organizações que tais, superstições várias e de variada natureza; terapias diversas, coaching, mindfulness, etc. (a ordem é aleatória e pode ser injusto, até incorrecto, fazer referência a estas últimas neste contexto…) prometem, da noite para o dia, um novo Eu; um novo mundo interior; sem se importarem com o conhecer dos muitos eus a que nos sujeitamos e que espreitam a todo o tempo (tantas vezes a destempo): uma espécie de fast-food-feliz de conhecimento (diferente Do conhecimento), uma espécie de versão light-luminosa da conversão Cristã. Onde a nível psicológico se faz tábua rasa do passado, do que aconteceu, do que foi; onde se coloca no armário, bem no fundo do armário tudo aquilo que fizemos e que fomos para começar tudo de novo; para ser outro, para ser outra pessoa-nova. É nesta ilusão de soluções mágicas que tantas e tantas pessoas se embrenham até à desilusão (ou não!) de verificarem mais tarde da fantasia de que escondermo-nos de nós próprios não será o mais producente: é que acabamos sempre por nos encontrar a nós mesmos… naquilo que somos com o que fomos; naquilo que fazemos com o que fizemos. Fugir psicologicamente pode resultar e beneficiar por algum tempo. A longo prazo a história (de mim mesmo) será outra: a minha! Sempre a minha!..
Mas no atrás referido (e uma vez que falamos também de algum tipo de religião) São Paulo não terá, digamos que… alguma responsabilidade (!)? Não foi ele que disse, e cita-se “Por isso, se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que tudo se faz de novo.”? Ora numa análise ainda que pouco fina (e se quisermos um tanto ou quanto descontextualizada), esta frase dá aso a uma justificativa para uma fuga do eu: há uma conversão, esquece-se o passado, e há todo um mundo, todo um futuro promissor sem as amarras e as agruras do acontecido- um Homem novo, portanto. O próprio Cristianismo- catolicismo- (de quem São Paulo foi preponderante para a sua implementação e aceitação) preconiza e adopta outra visão como forma de viver e estar e ser Vida em contínuo crescimento pessoal e social; que nos indica um caminho diferente para uma mudança sustentada, maturada de vida: não-fácil, mas possível. De facto, na história da humanidade são poucos aqueles mudaram radicalmente (verdadeiramente) a sua existência através de circunstâncias epifânicas. E qual é essa visão e quem a viveu?
(continua)
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