terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Memórias de Vila Mendo- Victor Brito Moura

Victor Brito Moura- Natural de Loriga- Seia. Residente em Seia. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra. Foi criança feliz, adolescente assim assim, funcionário público e não público, militar pouco aguerrido. Advogado, Vereador na Câmara Municipal de Seia, Deputado na Assembleia da República. Atualmente, é Presidente do CA da ProSena, S.A.- Escola Profissional da Serra da Estrela.
A sua ligação a Vila Mendo advém do casamento com Maria Alcina da Corte Pissarra. Nas redes sociais só frequenta, por enquanto, o facebook...

A inauguração da luz elétrica em Vila Mendo foi, também a inauguração do meu relacionamento com esta tão peculiar povoação. Do grupo, que de Coimbra se deslocou para este evento, só eu era o estreante. Em compensação fui, desse grupo, excluindo obviamente a anfitriã que nos convidou, o que mais vezes repetiria esse contacto. 
A minha estreia começou, aliás, pelas sensações novas; nunca tinha vivido sem energia elétrica e por isso foi bom ter apreciado a alegria que se espelhava nas pessoas com a chegada deste tão essencial melhoramento. Pena foi que dela estivessem privadas tantos e tantos anos. Só quem experimenta essa carência lhe sente a falta. Daí se entender que a virtude maior do poder local, que Abril instituiu, tenha sido a realização de obras para dotar as povoações de infra-estruturas básicas. Era um mundo novo, com outra luz, esse de poder transformar, com um simples clique, a noite em dia. Era um sonho acalentado que estava à beira da sua concretização. 
O dia da inauguração foi de festa. E as festas portuguesas celebram-se à mesa…desse dia recordo a cerimónia, junto do poste onde estava (e ainda está, creio eu) o transformador e que foi onde o Abílio Curto, Presidente da Câmara da Guarda, moveu o manípulo mágico que fez luz. Nessa cerimónia usou ele da palavra e também, em representação de Vila Mendo, mas sem mandato expresso… a nossa anfitriã. Foi a primeira vez que tive contacto com Abílio Curto, muito justamente cognominado o “Presidente das Aldeias”, pelas obras de infra-estruturas que executou nestes aglomerados do concelho da Guarda. Recordo também a presença do Gandarez em serviço da Rádio Altitude. Depois, cada um dos presentes recolheu às suas casas, levando os convidados para, à volta da mesa, fazerem verdadeiramente a festa! 
Foram tempos deliciosos os que passei em Vila Mendo. Recordo com muita saudade as idas até ao Lanceiro, Chão do Enchido, Eira, Lameira de Touco, atravessar um riacho no trator que o meu sogro conduzia temerariamente, mas com grande perícia. Também foi uma aprendizagem. Nunca tinha andado de trator, nunca tinha presenciado tão de perto as atividades agrícolas, desde a ceifa do centeio, ao armazenamento da palha nas altas “medas” ou em palheiros, da sementeira e apanha da batata… onde tinha enorme prazer de dar uma mais que ineficaz ajuda, que depois se ressentia nas dores de cintura que sentia, na 2ª feira, e que no princípio atribui a uma qualquer crise de rins, que de verdade, nunca tive. Só com o passar do tempo e a experiência adquirida, concluí que era a falta de hábito … é sobretudo desses trabalhos que guardo recordações muito gratas. Porque irrepetíveis. 
O saber-fazer do senhor António Pissarra, meu sogro, permitiam-lhe… nunca estar inativo. Na atividade agrícola estava permanentemente sincronizado e, conhecendo como conhecia os seus segredos, não se permitia desperdício de tempo. Chegado ao local da ação, de imediato tudo mexia…Fosse na sementeira, na rega ou na colheita…ou qualquer outro trabalho de manutenção ou reparação. Mas se fosse de carpintaria de mecânica ou na forja, não era diferente. Não havia pausas, dúvidas ou hesitações: tudo sincronizado e em sequência perfeita. 
Ouvir o rebanho, o cantar dos galos e dos pássaros, as vacas a circularem livremente, sabendo onde se dirigir sem necessidade de guarda/guia, permanecem na minha memória sensorial.
Comprometi-me há muito (mais de 1 ano, seguramente), a escrever algo sobre esta minha memória de Vila Mendo. Hoje, depois de muitas promessas que não cumpri, envio este alinhavado que não é, nem o que tinha idealizado, nem o que, seguramente, de mim esperava quem me fez a solicitação. Os afazeres e responsabilidades assumidas noutros âmbitos não me permitiram outro contributo. Quero no entanto reiterar que este poderá ser um início de colaboração. Não quero deixar de sublinhar que é ditosa a terra que tem um conjunto de jovens que se lhe dedica de alma e coração e, com grande dinâmica, desenvolve atividades que mantêm Vila Mendo no mapa. Ora, a par da proximidade com a Guarda e com a sede da freguesia, traduzida numa razoável ligação rodoviária, que permite contactos rápidos e torna apetecível, por exemplo, viver em Vila Mendo e trabalhar na Guarda. A meu ver, o problema do interior reside, sobretudo, na ausência de gente, de pessoas. Vila Mendo tem todas as condições para fixar pessoas que trabalhem na cidade. Se o fizer, os filhos e outros familiares dessas pessoas podem residir aqui todo o dia de todos os dias. As receitas, as soluções para o interior não são unívocas nem iguais. Nasci numa terra bem maior, com indústria que dava trabalho a muitas centenas de pessoas, que sustentavam 8 salas de aula da instrução primária, com ensino pré-primário… hoje está reduzida a 1 sala e a indústria desapareceu, estando reduzida a 1 fábrica de malhas. Assim as perspetivas, a médio prazo, são bem piores do que as de Vila Mendo, dadas as distâncias a centros populacionais maiores (dista, por ex, 20 kms da sede do concelho com uma estrada de montanha). Os hábitos de vida, ligados à indústria, dificilmente voltarão, sendo a desmotivação muito maior do que em Vila Mendo. E, sobretudo, não tem um núcleo de jovens com a dedicação e a capacidade destes de Vila Mendo.





1 comentário:

Anónimo disse...

Sem empregos as pessoas vão embora. enquanto os serviços estiverem todos em lisboa e no litoral não há interior que resista