sexta-feira, 22 de maio de 2026

da Ignorância. do Conhecimento. da Felicidade- V

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 14 de Maio)

(continuação)
À pergunta: ”E qual é essa visão e quem a viveu?” a propósito de possibilidades de mudança frutuosas na jornada da vida; a resposta (esta) é decididamente mais simples, ainda que não fechada. De facto, se São Paulo parece, nalgumas das suas enunciações, dar respaldo ao esvaziamento, à fuga do eu para me tornar outro- o tal Homem novo livre do passado, desobrigado do presente, amarrado ao futuro- também no Cristianismo, Santo Agostinho introduz e induz uma nova visão (que será a dominante!) para um melhor conhecimento de nós mesmos, para a tão almejada felicidade (possível). Propõe uma confrontação do eu, que se sujeita ao próprio escrutínio de si. Não acena nem encena o surgimento de alguém completamente transformado e renovado (o que não quer dizer que não aconteça de alguma forma; talvez não de forma radical). Diz que essa confrontação é dolorosa no seu começar, no seu desenrolar e no seu terminar (porque nunca termina); que é absorvente e esgotante, por vezes, mas possivelmente será a forma mais capaz, mais duradoura de fazermos caminho de felicidade: porque não nos escondemos de nós próprios, não nos escondemos dos outros, não nos escondemos do mundo (que sou eu também). Nessa confrontação do eu, nessa auto-confrontação, Deus teve (tem) um papel: simplesmente (?!) revela a Santo Agostinho o lado (o estranho em mim) que ele não consegue ver, que está nele e lhe causa o sofrimento que o atira para uma espiral de comportamentos e pensamentos erráticos e vazios. Não consegue descortinar esse seu lado de miséria e é por Deus, pelo cristianismo, que lhe é dado a conhecer e a reconhecer tal através dos seus, agora, olhos conscientes; e passa a ver esse seu lado escuro, obscuro que vai posteriormente aceitar e integrar e melhorar: Conhece-te a ti mesmo. Uma espécie de epifania-humana. Só isso. Tudo isso. Não há raios luminosos, quedas de cavalo, visões do que há-de vir. Não há Homem novo de um momento para o outro (como em São Paulo). Uma visão diferente; mais custosa; mas potencialmente mais producente a longo prazo.
Depois de 5 artigos sobre o conhecimento e o não conhecimento no alcançar da felicidade como tal, aquilo que podemos dar como certo é o de que na caminhada da vida ela- a felicidade- não será um fim; antes um processo longo. Duro. Para que esse processo tenha laivos constitutivos de alegria substanciais e substantivas, talvez só com um autoconhecimento superior de nós próprios: e sabendo que esse autoconhecimento é ele mesmo também e muito um processo… infindo. Se a ignorância é de matizes várias, a ignorância-do-eu é marcadamente a maior de todas.
Quem não se quer Conhecer a si mesmo para Conhecer o mundo e assim Conhecer vislumbres de felicidade? Quase toda a gente. Quem o faz de facto, de maneira constante, sem desistências várias e variadas? Muito poucos, talvez!.. Se podemos ser felizes? Sim, às vezes!..

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