(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 8 de Outubro
Faz-se uma pausa na continuação do artigo “o Valor certo da Guarda. (a Guarda em contra-sonho) I” para falarmos de um aspecto da vida que está constantemente em presença, mas que muitas vezes é causa de imprensença no mundo: as Relações. Estabelecemo-las desde os primórdios e até ao fim. Somos seres relacionantes, e pode dar-se o caso de preferirmos más relações a não ter nenhumas. Em relação transportamos algo de mim para o outro, e o outro transporta algo dele para mim, estabelecendo-se pontos sistémicos de contacto, de conexões, de vasos comunicantes que nos ajudam a ser eu-no-outro. Que nos ajudam a superar uma certa tristeza do pensamento com que somos assolados (tantas vezes atolados) e está cá dentro e que ecoa seminalmente no nosso inconsciente desde o início dos tempos. Uma tristeza que nos envolve, mas que nos devolve ao outro para em conjunto (portanto em relação) a podermos superar (ainda assim, sem certeza). Mas se o relacionar com, nos arquiteta enquanto pessoas e é fundamental, imprescindível para vivermos mais, ou menos em harmonia; muitas vezes as relações são ralações constantes; outras vezes entediantes; outras mais enervantes em processos de consumição pungentes.
E se transpusermos tal para um plano mais coletivo, vemos que as relações estabelecidas em diversas áreas da sociedade são fortemente contraproducentes. Por exemplo, as relações políticas (mediáticas e não mediáticas) são de uma complexidade inusitada, mas ao mesmo tempo de uma pobreza tremenda- aliás, a política serve de exemplo para tudo (e para nada!) Jogam-se (o verbo quer-se mesmo este) quase sempre no limiar do interesse próprio e/ou do grupo mais ou menos restrito. O Jogo é jogado na lógica do nós os bons, eles os maus; nós contra o resto do mundo (do mundo que se conhece, e que com ele tanto se padece); na lógica de poder e do poder- puro e duro; assimétrico mas mimético a vários níveis. Olhamos os agentes políticos (locais, nacionais, internacionais) e não discorrem de outra maneira (haverá muitas e boas excepções). O poder, a influência, a subserviência, a prepotência, a pretensão, a confusão, a inveja, a mesquinhez; sonhos de omnipotência, violência, mentira, parcialidade, maldade… elites que governam e agem desgovernadas, numa demanda pragmática e programática e utilitarista do outro; que é um-outro sem rosto, sem voz, sem pensamento; um número que pouco conta, ou não conta de todo. E falaríamos em linguagem empresarial e diríamos o mesmo; e no desporto (veja-se como no futebol, se promove a agressividade, o engano, até a violência); e no religioso… e acrescentaríamos tantos “es”. Estamos a criar um mundo (num mundo já criado) de relações tóxicas aprimoradas pelas redes sociais. Estamos a recriar o mundo: em que a desconfiança é a pedra de toque de qualquer relação e de qualquer elo de ligação; o outro é um ser distante (mesmo quando próximo) e potencialmente perigoso. A desconfiança-relacional que impede o crescimento-estabilização- emocional da humanidade (pós Segunda Guerra Mundial) e nos poderá levar a limiar da catástrofe global.
Camus, dizia que o Cristianismo (Catolicismo) tem fé na humanidade e não no homem, e que ele próprio tinha fé no homem mas não na humanidade. Não sabemos bem se tem razão: talvez sim, talvez não. O que poderá eventualmente ser certo é que ter fé no homem e na humanidade, ao mesmo tempo, é um ato de fé dentro da fé.
(E- as relações- na Guarda?)
(E-parece que- a Guarda pula; e avança (?!.) para capital portuguesa da cultura…)
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