O pensamento da humanidade (pelo menos o ocidental) está profundamente ancorado à morte de Cristo (e de Sócrates). No nosso inconsciente colectivo ecoa seminalmente esse momento, esses momentos de sofrimento do Criador- também ele criado- às mãos da criatura: o Homem. Considerando metaforicamente a jornada da humanidade balizada entre a Sexta-feira (da Paixão), o Sábado e o Domingo (da ressurreição), encontramo-nos na longa caminhada do dia de Sábado; aprisionados entre a dor, as desgraças, as ignomínias que ocorrem a todo o tempo e em todo o tempo- que é Sexta-feira- e a Utopia (?) do Domingo em que todas as nossas aspirações e preocupações, efabulações e manifestações de toda a índole já não terão lógica ou necessidade pela realização plena com Ele.
Esta tal longa caminhada de Sábado em que nos encontramos, é caracterizada por um longo esperar. Uma espera nesse Domingo que há-de vir (e com ele o sonho da libertação, do renascer, dum tempo de felicidade total), mas que nunca chega; e nos desespera e nos angustia e nos revolta. Um estado contínuo de desilusão com que somos assolados por não chegarmos… E uma paciência aflora, ou tem de aflorar para que o imenso Sábado se não eternize e se veja o vislumbre do Domingo. Todas as nossas apreensões, figurações, representações… no puzzle da imaginação (?) metafísica ganham (algum) sentido com essa paciência que emerge, talvez, a partir da arte e das artes como tal, que nos permite suportar o sofrimento, a solidão, a perda inexplicável ao longo de todos os tempos, como seres simplesmente humanos. E não mais; Mas, não menos do que isso…
E esta espera exige. Exige silêncio e atenção. Exige uma constante e dura luta mental: onde os pequenos pensares supérfluos e inúteis (?) dominam amiúde o pensamento e, não raras vezes, a acção. Talvez, tenhamos de esperar pela Palavra, por outra (?) Palavra (de Deus) que ainda não foi dita; ou se dita, ainda não escutada- muito menos compreendida: se calhar, porque a linguagem humana ainda a não consegue proferir… e esperá-la no silêncio do mundo, surgido a partir do silêncio de nós. Trabalho árduo e desgastante, portanto.
Num tempo de apressamento voraz que não se satisfaz, se impacienta e não se silencia com nada nem com tudo; teremos de querer compreender o todo (como se tal fosse possível!) para que o Sábado seja uma simples (complexa) passagem- que é (?). Teremos de voltar a colocar a espera no nosso querer. Teremos de esperar o Esperar: para que a Sexta-feira seja pretérito mais-que-perfeito; o Sábado pretérito; e o Domingo, presente eterno…
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