(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 19 de Fevereiro)
A natureza é como a nossa própria natureza: imprevisível, por vezes irrascível, quase sempre incognoscível. Diz-nos da nossa tremenda pequenez e ainda mais da nossa vasta idiotez de nos considerarmos (os humanos) os donos do mundo. De facto, o Homem comporta-se como Criador; como se ele próprio não fosse criatura criada- o que o atormentará e lhe dará o ímpeto para através da vontade pura (e não menos dura) se permitir pôr e dispor de tudo e todos à sua volta; de todo o meio ambiente portanto. Um domínio avassalador, transformador (no sentido nullus do termo), aplanador físico das paisagens e recursos; planador das (suas) ideias e devaneios utópicos. Sabota a biodiversidade não se apercebendo que se sabota a si mesmo enquanto ser vivo deste mundo natural e plural- nunca singular. Um ímpeto criador, como se fosse regenerador (que não é), que postula uma supremacia sobre todos os outros seres aos seus desígnios. Que pensa (ou não pensa!) a vida global como conjectural para seu benefício. Até quando? Até um dia. Em que a natureza nos dirá da sua força imensurável e implacável.
As tempestades que assolaram o nosso país fazem-nos constatar a incapacidade (que é também e muito uma descapacidade) de lidarmos com a natureza e seus impactos. Paradoxalmente, ou não, com a inovação tecnológica como que nos forçámos a desistir de nos… diluir no meio ambiente, e com isso desistimos de uma certa… desaparição- que seria uma certa harmonia com a vida global como tal. A nossa (pretensa) superioridade terá um fim. Como será? Não sabemos. Podemos intuir. Querermos cegamente ser maiores do que nós próprios é meio caminho andado para sermos menores que todos os outros.
Particularizando; o tempo que assolou Portugal lembra-nos que o tempo não tem o tempo que o Homem quer. Acontece no tempo próprio da natureza. A forma como reagimos num primeiro momento a estas intempéries mostra aquilo que parece ser uma constante-inconstância ao longo da história do país: desorganização prévia e inicial. Num segundo momento ficamos aturdidos e abalados e lamentados. Depois a desorganização organiza-se; muito à custa do desenrascanço tão típico; e as competências, a ajuda, a solidariedade assomam fazendo com que as coisas (e as soluções) comecem a acontecer mais ou menos bem, mais ou menos rápido…
Parece ser sina; um sinal; uma marca da identidade portuguesa: a improvisação persistente. E não é só a improvisação: é o improviso do improviso! Portugal, forjado a partir de um impulso (ou de impulsos) alicerçou-se- a partir da dúvida e do medo permanentes pelo conseguimento efectivo da independência- na improvisação sistemática, característica essa que se foi mimetizando na história e que ecoa seminalmente no inconsciente colectivo dos portugueses até hoje (até sempre?).
Criticar negativa e destrutivamente a actuação das organizações e organismos responsáveis pelas respostas (ou falta delas) é sempre fácil, e é o mais fácil (não se sabe se o mais producente). Se fôssemos cada um de nós a decidir, a coordenar, a fazer… faríamos diferente? É possível. Faríamos melhor? É possível, mas questionável. A nível de coordenação, simplificação, clareza, interajuda das diversas organizações criadas para tais efeitos, os defeitos podem ser corrigidos? Claramente.
Prevejamos. Planeemos. Executemos. Bem. De maneira funcional e em cooperação (e sonhemos e esperancemos). As tempestades… hão-de ser muitas; as bonanças dependem, também e muito ou alguma coisa… de nós.

















































