Podemos ser felizes na ignorância? Podemos. E não podemos. Duas respostas. Contrárias; mas não antagónicas. Talvez até complementares (?)! Às vezes sim. A maior parte das vezes não. Como que um jogo de ping-pong assim somos nós com a mente, com o nosso pensamento a ir e a vir, a vaguear de um lado para o outro, para a frente e para trás; a querer conhecer e a querer não conhecer, a aspirar a verdade e a recusar a verdade… em intrincados movimentos titubeantes e não menos errantes; por vezes paralisantes que ensinam e recordam da nossa humanidade-humilde como tal.
Conhecer, saber implica entrar em problemas-outros (e dos outros), implica trazê-los para dentro de nós e juntá-los à catadupa dos que já existem no eu. Não admira portanto que muitas vezes não queiramos saber… para não sofrer; ou pelo menos para não termos o trabalho de aportar soluções e tempo que resultam em chatices várias e variadas que nos consomem sobremaneira e de toda a maneira… Não saber de, poupa-nos certamente a algumas dores de cabeça. Contudo o problema (que será um grande problema) reside quando continuadamente nos recusamos (consciente ou inconscientemente, ou ambas) a querer conhecer, a querer saber, a pretender a verdade; aquilo que será primeiramente um mecanismo de defesa saudável para a nossa mente e necessário pontualmente, passar a ser prática sistemática e sistémica.
Essa recusa torna-se então como que marca constitutiva, característica marcada e marcante do eu, que ao não querer conhecer muito do mundo exterior, conhece pouco do mundo interior. Ora se o mundo exterior é complexo, até caótico; o nosso interior, decerto, o não é menos. Assim, entramos num ciclo (que às vezes parece um circo) vicioso e viciante e asfixiante: recusando muito do conhecimento exterior, fechamos portas ao conhecimento do “cá dentro”, que por sua vez inibe a vontade de um melhor conhecimento “do lá fora”. Acrescendo a tudo isto, quanto menos nos conhecemos interiormente mais sofremos, e quanto mais sofremos menos queremos conhecer-nos internamente. Um problema; muitas questões, portanto.
Aceder primeiro, aceitar depois o conhecimento não dúbio das nossas profundas e profusas limitações e contradições, dos nossos desejos e devaneios é difícil, confuso. E, também com isso, sofremos. muito. Bem sabemos que o sofrimento faz parte da condição humana, mas a forma como o encaramos é que nos tolda, nos molda e tolhe, ou nem tanto…. podendo até definir-nos e à nossa existência. E não é só a forma como encaramos o sofrer, que por si só deveria ser uma ação segunda; antes teríamos de decifrar de onde (?) provém o sofrimento. E demasiadas vezes ele não advém de um qualquer estado externo das coisas (do mundo), mas antes de um estado interno, de desapropriamento em que falha claramente a harmonia connosco mesmos nos pensamentos e acções (e omissões!). E aqui atingimos um patamar crucial no conhecimento sobre nós próprios: qual a diferença entre o modo como eu e a sociedade achamos que nos devemos sentir e o modo como nos sentimos de facto?
(Continua)

















































