(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 28 de Maio)
A entrada da Casa grande é imponente. Continua imponente. Passado todo este tempo e à cadência de uma vez por ano (mais para uns, menos para outros) a Casa agiganta-se assim que o portão é transposto: fica maior, maior; como as memórias que acorrem em torrente ao pensamento, e paramos. E não param as lembranças, ainda que às vezes pouco claras: como quando, por exemplo, os espaços são entremeados com os da outra… da outra Casa. da Guarda. A quietude, que aquela porta aporta, importa. muito. É o silêncio que aprendemos; Aqui. Não o silêncio imposto como ausência de ruído, mas o silêncio interior, o silêncio-estrutura producente e conducente à reflexão, capaz de ser transformativo e que estruturará a vida, a nossa vida como tal: como vida viva (em alegrias e não alegrias)!.. Entramos e esperamos… o cheiro! Queríamos aquele cheiro tão característico dos corredores infindos que nunca acabam, porque sempre ligados, religados por uma e outra gente que ali descobriu mundo; o mundo; e o mundo de si próprio. O cheiro, o cheiro já não está; já não é! Mas está. cá dentro. E sentimo-lo agora! Como se fosse ontem!.. E o som… o som é o mesmo. Esse sim ouvimo-lo. do silêncio. Ouvimo-lo na natureza à volta, nas laranjeiras do claustro (de tantas brincadeiras), no ranger da madeira que range igual, nas grades do chão das portas laterais que dão para a rua e que à passagem (agora mais encorpada) produzem aquela sonoridade de então. As mesmas grades que suportaram todos aqueles, todos estes pés que hoje são diferentes, mas iguais a mim mesmo, porventura. E o som… já não é o mesmo. Faltam todos aqueles rapazes, todos estes rapazes (que ainda o são e nunca deixarão de o ser). Falto eu, faltam tantos eus que ao longo de décadas e décadas se fizeram ali ouvir. Falta essa sonoridade de gente presente. Resta só (que é muito) a voz de todos nós que, espalhados por tantos lugares, a damos a ouvir: essa, esta voz Seminário!.. E tocamos em tudo, como que esperando que o tocado nos devolva o toque e me reconheça como ser único (no todo) e me diga a mim (Luís, João, Manel, Zé…): lembro-me de Ti. Daqui. Lembro-me do teu toque, das tuas correrias e alegrias e sobrancerias; dos amuos, das tristezas, das incertezas; das tuas sabedorias e algumas pequenas aleivosias próprias da idade, dos teus dons vários. Conheço-te. Já não somos nós que falamos com a Casa, é ela que fala connosco e nos conhece melhor do que nós próprios. Ali. Sempre ali. Reencontro-me comigo próprio e escuto: és tu agora, porque foste Aqui, ontem. O amanhã? Há-de vir. Como sempre vem!.. E paramos de novo, e vemos e ouvimos e cheiramos e tocamos tudo; e tudo com o pensamento que não se aquieta, numa espécie de inquietude boa. E sentimos… um sentimento que é mais do que isso (porque os sentimentos esfumam-se tantas vezes, demasiadas vezes, se calhar). Não é um bem um sentimento… é um acrescento ao sentimento, é… uma sensibilidade. É isso, uma sensibilidade-serena, e terrena; não mais não menos do que isso (se divina, seríamos santos!). A Casa grande (para tantos) grande Casa ofereceu-nos essa sensibilidade: se a aceitámos, se a quisemos aceitar, se a soubemos aceitar, se a recusámos aceitar é toda uma outra e intrincada questão. Eventualmente, talvez possamos ainda agora resgatá-la, voltando à Casa e experienciando todas estas sensações, que são emoções, e são realidade: e são realidades dentro da realidade de mim. E esse voltar, esse regresso não é um recesso, muito menos um retrocesso; pelo contrário, é um progresso no conhecimento de nós mesmos, no conhecimento dos muitos eus que me povoam (do estranho em mim) e me fazem a cada passo entrar em contradição comigo e com o mundo. Uma contradição insanável que caracteriza todo o ser humano e que não pode ser reparada, quiçá, mas que pode ser melhorada. Conhece-te a ti mesmo. Tremendamente complexo. Trabalho de uma vida.
No pretérito dia 23 de Maio realizou-se o já habitual encontro dos antigos alunos dos seminários do Fundão e da Guarda e pudemos regressar a um tempo de nós mesmos: só nosso e só… de todos. Agradecer às contínuas direcções e demais órgãos da Associação dos Antigos Alunos na pessoa do Presidente actual (Jorge Simão), por manterem a chama viva e vivida, e consecutivamente organizarem este momento marcante e actuante de partilha fraterna. Este ano, um grupo de gerações mais recentes estiveram presentes. Espera-se que no próximo mais se juntem. O Seminário está. cá. dentro. sempre. Sejamos-lhe sensíveis. Porque dessa sensibilidade seremos pessoas melhores.
Nota: Ainda que um pouco a despropósito (ou não), dar conta que o nosso Bispo não esteve presente, nem no ano passado! Um aparte, que faz parte. Tão só.