Mostrar mensagens com a etiqueta jornal A Guarda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta jornal A Guarda. Mostrar todas as mensagens

domingo, 8 de fevereiro de 2026

o Mundo. tribulado: e Portugal e a Guarda e Nós

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 29 de Janeiro)

Estamos num tempo atribulado. Não que as tribulações sejam mais do que antes (certamente não serão menos) talvez, e quando muito, um tanto ou quanto diferentes na aparência, já que quanto à sua natureza derivam da condição humana: agora e sempre (por todo o sempre?). O mundo gira e com ele giramos nós- indivíduos e humanidade na sua tremenda fragilidade. Uma fragilidade que nos humaniza por um lado- com os nossos defeitos e virtudes constitutivos- e nos desumaniza uma e outra vez com as atrocidades e maldades de todos os tempos e a todo o tempo. Queremos, achamos ser melhores que os outros; as comunidades, as sociedades, as nações, culturas e civilizações, todas, à sua maneira e sobremaneira, se acham superiores às outras numa lógica de competição-conflito permanente e pungente.
Se atentarmos na actual situação geopolítica mundial, verificamos essa tendência para a hegemonia de um ou mais blocos à boa maneira dos séculos XIX e XX. Uma corrida imperial-colonial pela supremacia económica, militar, social, cultural… total sobre os outros blocos e países, na tal lógica atrás. Sabemos o que aconteceu nesses tempos. Podemos presumir o que advirá (se bem que, em muitas partes do mundo, já adveio): conflitos contínuos, brutalidades várias. O mal como acção e substância.
Particularizando ainda mais, também em Portugal esse clima de conflitualidade está sempre latente e bem patente. Veja-se umas simples (complexas) eleições presidenciais em que o caldo de cultura ficou apurado na primeira volta; e agora teremos de o degustar na segunda. O confronto ardiloso sempre actuante na ânsia do poder dilacerante. Na arena-política (?) parece que tem de sobressair o “político animal”!
Na Guarda o mesmo (ou semelhante); os políticos, os pretensos políticos, os apolíticos e até os impolíticos (e os comentadores?!.) entram todos (ou quase) um pouco na lógica (pré)estabelecida… O que vale (vale?) é que bastantes guardenses passam ao lado disso (e de muitos “issos”!..).
Individualmente, passamos o tempo em tribulações. Muitas vezes com o mundo; tantas vezes com os próximos; sempre connosco próprios. E às vezes nem nos damos conta dessa conflitualidade intrínseca e imanente com que nos apresentamos a nós mesmos à humanidade. Talvez porque não nos reflictamos com a profundidade necessária; que nos permita ver, quiçá, as profusas contradições e imperfeições (nem sempre as contradições são imperfeições, mas as imperfeições são sempre contradições) que nos caracterizam (e incaracterizam) a cada passo, e que nos exasperam e desesperam, e nunca esperam o outro… porque não queremos, ou não sabemos esperar(-nos): o que nos permitiria perscrutar no Outro um Eu; e no Eu um Outro… aliviando assim (nunca cessando) os conflitos interiores; aliviando (nunca cessando, porventura) os conflitos exteriores… Se calhar, por tudo isso (ou por nada disso!) amiúde, parecemos escombros andantes do nosso interior.
Somos assim, e não sabemos se poderíamos ser de outra maneira; mas certamente (ou eventualmente) desta maneira, podemos. ser. melhores. um pouco.
Entretanto, o Mundo. tribulado pula e avança… para a FESTA do CHICHORRO em VILA MENDO.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Sugestão de leitura(s)

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 8 de Janeiro) AQUI

Começa um novo ano. Que de novidade (suposta) só as costumeiras desgraças do mundo; os infortúnios de um Portugal que se nos apresenta- desde quase sempre- embrenhado em crises de crises… E as constantes adversidades de uma Guarda cada vez mais interior, a necessitar e a (des)esperar do (seu) Interior!.. Nada melhor então do que nos darmos ao prazer da leitura e por essa via entregar-nos, não ao esquecimento, mas ao entendimento (se tal for possível!).
Ler é um acto profundamente nosso, profundamente solitário mas, e ao mesmo tempo, profundamente relacional e empático. Ler, leva-nos para dentro de nós e (paradoxalmente, ou não) orienta-nos para fora, para o mundo, para fora do mundo. Faz-nos imaginar. mais. Faz-nos pensar. melhor. Faz-nos imaginar o pensamento. Faz-nos pensar a imaginação. Ler, dá-nos Vida e dá-nos a vida que sonhamos (ainda que por instantes). Empodera-nos e torna-nos mais Eu… no Outro; com o Outro.
Os livros sugeridos não são os preferidos, ou os mais preferidos. São aqueles que têm mais sentido, hoje. Nem sequer ficam divididos por qualquer categoria. Apresentam-se na ordem que advêm ao pensamento, no agora; poderiam ser infinitamente outros. A excepção, o primeiro aqui apresentado, porque o primeiro lido (pelo menos na memória, de um livro lido na totalidade) em Vila Mendo, na escola primária:
Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro- para miúdos e graúdos: um Aquilino que escreve e nos reescreve com a sua dureza e crueza e pureza (pungente), como em Aldeia- Terra, Gente e Bichos. Tolentino Mendonça com, por exemplo, A Leitura Infinita, para nos compreendermos e a o mundo; a bíblia é aquele horizonte onde histórica e culturalmente nos inscrevemos. A História do Silêncio de Alain Corbain, o Silêncio, mais do que mera ausência de ruído... visto como valor filosófico e visto na sua dimensão educativa. Thomas Mann com José e os Seus Irmãos, algumas figuras bíblicas revisitadas e humanizadas; as virtudes e as fraquezas da condição humana neles presentes para poder dar resposta(s) à crueldade humana. James, a partir do clássico de Marck Twain As aventuras de Huckleberry Finn, o autor Percival Everett reinventa essa(s) história(s) e coloca o foco da acção num outro ponto de vista; e da perspectiva do escravo Jim. Luís de Sttau Monteiro e as Redacções da Guidinha, uma leitura humorística pelo olhar ingénuo, mas tremendamente perspicaz, de uma adolescente que nos delicia com um conjunto de crónicas de costumes fazendo-nos pensar das profundas e profusas contradições sociais e da condição humana. Fausto de J.W. Goethe, o pensamento da humanidade (ou pelo menos da civilização europeia e ocidental) é profundamente marcado pelas narrativas (alegorias) da queda (pecado) do Homem causadas pelo conhecimento: a Árvore do Jardim do Éden, a Tragédia Prometaica e o Pacto Fáustico: em Goethe este mito adquire novas possibilidades, novas potencialidades significativas. Moby Dick, um clássico adaptado para banda desenhada; o preto e branco muito bem dominado... fiel à história; a linha ténue entre a tenacidade e a loucura, ou a raiva ou ambas, aqui bem expressa. Trilogia- de Jon Fosse, leitura não-fácil mas depois de alguma estranheza, entranha-se. Paul Celan em Os Poemas, poesia de uma expressividade, de um minimalismo radical; profundamente hermética, quase (ou mesmo, por vezes) que imperscrutável e talvez, e por isso mesmo, de uma beleza... crua, pura e dura; um poeta marcado intimamente pelo holocausto: até ao fim; são poemas... do silêncio... do tempo; do silêncio das palavras; do silêncio entre as palavras. Qualquer livro de George Steiner, crítico literário, pensador de excelência, por exemplo As Artes do Sentido.
E agora mais apressadamente, mas não menos recomendáveis: Obra Completa de Arthur Rimbaud, poesia/prosa. De António Vieira O tempo e o sagrado- Deuses do deserto e deuses da floresta; e O perceber do Mundo- O Ser e o Saber. Nós, filhos de Eichmann de Gunther Anders. Tomás de Kempis com a Imitação de Cristo. Eduardo antes de ser Lourenço- textos de juventude. As sete últimas palavras de Timotthy Radcliffe OP. De Martim Puchner Cultura- uma nova história do mundo. Nuno Montemor com Rapazes e Moças da Estrela, Maria Mim, ou A Maior Glória. O Espaço Interior de José Gil. A Biografia de Hannah Arendt, por Thomas Meyer. Na Banda Desenhada, Paco Roca com O Farol, O Jogo Lúgrube ou Trilhos do Acaso. E os Astérix, nomeadamente o último, na Lusitânia… Os autores recentes da nossa cidade, ficarão (mais uma vez!) para outra momento quando forem lidos os seus últimos trabalhos.
Os jornais, todos (embora uns mais que outros…). Os da Guarda: Jornal A Guarda e O Interior, está claro. O Público com o seu suplemento Ípsilon, o Jornal de Letras, a revista Ler, a revista Electra são boas opções; e A Bola ou o Record também se podem assomar de quando em vez.
Enfim, um conjunto de sugestões que poderão interessar. Ou não. Leamos.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

o(s) Presente(s)

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 25 de Dezembro)

O pensamento do Homem (porventura, excessivamente funcionalizado) pensa, ou melhor, percepciona o tempo ou os tempos- passado, presente, futuro- como compartimentos estanques e bem delimitados e bem delineados. Mas o tempo define-se, caracteriza-se por tal? Segmentado nesses três momentos diferentes e que se consideram diferenciados e mais ou menos distantes? Porventura, tal não sucede. Quiçá, não haja divisão entre passado, presente e futuro: pois entrelaçam-se, mesclam-se, confundem-se e confundem-nos em percepções de percepções, tantas vezes erradas e erróneas. Talvez, o passado seja presente que já foi; o presente seja passado que já é; e o futuro… o futuro, talvez não seja, porque nunca foi! O futuro é (?) um presente-outro, são presentes outros.
E talvez seja aqui que nos devemos ou podemos situar como humanidade: no presente- sempre eterno. Passível de ser moldado, melhorado e explorado de maneira superlativa pelo ser humano: com uma vontade que nos interpela a agir no agora para que possamos ter outros agora- producentes, idealmente- mas diferentes da Vontade pura, chamemos-lhe assim, postulada nalgum pensamento filosófico que pressupõe que o mundo é no princípio e no fim somente vontade, traduzida no voluntarismo, no domínio avassalador e “vassalador” sobre o mundo; no fundo, no triunfo da vontade total como tal, cujos resultados últimos (senão primeiros) são as guerras, os confrontos e os conflitos permanentes, sempre latentes e sempre pungentes.
Muitas vezes, vivemos afincadamente numa espécie de passado, assoberbados com uma espécie de futuro, e o presente, esse, deixamo-lo ir… sem rumo ou destino que nos ampare e nos prepare para os tantos “quês”, nos inúmeros porquês, e sem vislumbre dos “para quês”. Vivemos como que numa realidade-ilusória do antes, que se projecta uma e outra vez para o depois em saltos “quânticos”, que nunca está no agora, no hoje; no que importa; se é que importa!.. E passamos o tempo importando formas e fórmulas que nos preparem para o que há-de ser (martirizados pelo que foi); e deixamos de ser; porque nos esquecemos de ser-agora…
Neste tempo de renascimento, de (re)união, de (re)esperança que é o Natal, talvez devamos tentar o Aqui. Deixar o ontem (sem o esquecer) e o amanhã (sem o perder!) e: parar. e esperar. e valorizar. o outro. que sou eu. também…
E no presente, o melhor presente é estarmos presentes na Vida; e na vida de todos aqueles que nos consideram. É estarmos presentes nas relações (e nas ralações) de todos os que gostamos. E de quem não gostamos tanto! Mas isso… é somente isso. Que é tudo, ou quase!..
Boas Festividades.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

esperar o Esperar

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 4 de Dezembro)

O pensamento da humanidade (pelo menos o ocidental) está profundamente ancorado à morte de Cristo (e de Sócrates). No nosso inconsciente colectivo ecoa seminalmente esse momento, esses momentos de sofrimento do Criador- também ele criado- às mãos da criatura: o Homem. Considerando metaforicamente a jornada da humanidade balizada entre a Sexta-feira (da Paixão), o Sábado e o Domingo (da ressurreição), encontramo-nos na longa caminhada do dia de Sábado; aprisionados entre a dor, as desgraças, as ignomínias que ocorrem a todo o tempo e em todo o tempo- que é Sexta-feira- e a Utopia (?) do Domingo em que todas as nossas aspirações e preocupações, efabulações e manifestações de toda a índole já não terão lógica ou necessidade pela realização plena com Ele.
Esta tal longa caminhada de Sábado em que nos encontramos, é caracterizada por um longo esperar. Uma espera nesse Domingo que há-de vir (e com ele o sonho da libertação, do renascer, dum tempo de felicidade total), mas que nunca chega; e nos desespera e nos angustia e nos revolta. Um estado contínuo de desilusão com que somos assolados por não chegarmos… E uma paciência aflora, ou tem de aflorar para que o imenso Sábado se não eternize e se veja o vislumbre do Domingo. Todas as nossas apreensões, figurações, representações… no puzzle da imaginação (?) metafísica ganham (algum) sentido com essa paciência que emerge, talvez, a partir da arte e das artes como tal, que nos permite suportar o sofrimento, a solidão, a perda inexplicável ao longo de todos os tempos, como seres simplesmente humanos. E não mais; Mas, não menos do que isso…
E esta espera exige. Exige silêncio e atenção. Exige uma constante e dura luta mental: onde os pequenos pensares supérfluos e inúteis (?) dominam amiúde o pensamento e, não raras vezes, a acção. Talvez, tenhamos de esperar pela Palavra, por outra (?) Palavra (de Deus) que ainda não foi dita; ou se dita, ainda não escutada- muito menos compreendida: se calhar, porque a linguagem humana ainda a não consegue proferir… e esperá-la no silêncio do mundo, surgido a partir do silêncio de nós. Trabalho árduo e desgastante, portanto.
Num tempo de apressamento voraz que não se satisfaz, se impacienta e não se silencia com nada nem com tudo; teremos de querer compreender o todo (como se tal fosse possível!) para que o Sábado seja uma simples (complexa) passagem- que é (?). Teremos de voltar a colocar a espera no nosso querer. Teremos de esperar o Esperar: para que a Sexta-feira seja pretérito mais-que-perfeito; o Sábado pretérito; e o Domingo, presente eterno…

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

o Homem criador (e o Criador)

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 20 de Novembro)

Talvez o Homem seja profundamente complexado; que advém (?) de impulsos, ou de um impulso (inconsciente) de provar e de se provar como ser arquitector, construtor, fazedor face à sua condição de criatura, portanto criada e feita. E, por tal, busca e deseja ardentemente por todos os meios ser fazedor; criador, porque não se criou, não se originou a ele próprio. Será essa a causa da instabilidade urgente e sempre presente e sempre pungente do mundo? No fundo, uma desenraização com que somos assolados e atolados e dela nãos nos podemos livrar como humanidade; ou podemos? Uma instabilidade (já enraizada) que culmina, uma e outra vez, nas maiores desgraças, nas maiores monstruosidades ao longo da história.
Nesta “complexação-instável” (que será também uma vergonha-enredada) a técnica- a tecnologia agora- assume, ou poderia ou quereria assumir, porventura, um papel de estabilização no pensamento-acção do Homem. E consegue-o?
Talvez na tentativa de compensar e ultrapassar esse complexo, a humanidade tem utilizado a técnica e a tecnologia a uma escala que, hoje, está num patamar tão incrível que no amanhã será imensurável. A quantidade de dispositivos e produtos tecnológicos associados que nos auxiliam, quiçá sejam uma forma de o Homem se compensar a ele próprio pela sua não participação no surgimento primeiro; por não se ter planeado a ele mesmo e à sua natureza, a partir da razão… E se muitas vezes a tecnologia nos ajuda e nos permite a tal estabilidade, globalmente e numa análise mais fina, mais funda, ela é (também) responsável pela desestabilização do mundo (que já esteve mais longe de ser absoluta). Nessa perspectiva, como que nos diluímos nos artefactos criados. E deixamos de ser nós sem nunca sermos os artefactos. Ficamos como que numa terra de ninguém, num limbo sem referências ou inferências que nos respaldem como seres simplesmente (!) humanos.
Se atentarmos, por exemplo, na inteligência artificial tão premente e tão preocupante pelas possibilidades que (já) se vêem e pelas imensidades que se antevêem, há como que um paradoxo-primeiro: a inteligência artificial- a coisa criada, chamemos-lhe assim- torna-se criadora. Ora, se ecoa seminalmente no inconsciente da humanidade uma vergonha, pela nossa natureza não fabricada pela razão; e se sempre quisemos ultrapassar (até mesmo “matar”) Deus- o Criador- agora, criamos uma coisa que nos vai recriar. Nunca conseguimos fugir da sombra do Criador e na ânsia de lhe escaparmos originamos algo que vai suplantar quem lhe deu origem (o Homem): a criatura supera o próprio criador, algo que o Humano nunca conseguiu com o seu Autor… Será que à conta de tal, iremos assistir num amanhã a que a Criação origine uma reCriação que se tornará descriação- total, fatal?
Não sabemos bem o que nos espera, mas já sabemos o que nos desespera: o pensar na possibilidade do ser humano na Criação (portanto no mundo de todos os seres vivos) ser um seu excesso! E como tal, os excessos tendem a ser eliminados. E o que nos angustia ademais, é prever/saber que será o excesso a eliminar-se a si mesmo, em movimentos-evoluções autofágicos… Tormento rumoroso no silêncio de nós.
Pessimismo azucrinante? Eventualmente. Mas ainda e sempre com uma esperança ardente de que o Criador (se for o caso) “compareça” e se compadeça…

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

o Homem e a(s) Ausência(s)- Pe. Zé- Pe. Quim Tó- Tiago

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 23 de Outubro)

A vida é princípio do fim. Fim que é princípio para aqueles que acreditam na eternidade da existência.
A vida é viagem. É destino. Mas importa a viagem se não há (ou não se vislumbra) destino? Importa o destino se a viagem é incerta, dura, trágica… tantas vezes?
A vida é presença. É ausência. De facto, a humanidade anseia por presença (física- agora também virtual). Num tempo em que há um afã assoberbado e acrítico pela novidade (suposta), o homem quer estar em todo o lado a todo o momento com todos, e quer que todos a todo o momento estejam em todo o lado com ele; num excesso de presença que se impacienta, que não se reserva nem se silencia: uma presença de sucessivos presentes… eternos.
A cultura moderna quer sondar, desvelar e revelar intimamente todos os mistérios e submetê-los; agrilhoá-los por meio do conhecimento… total, por meio de uma racionalidade… total- optimista. Uma cultura de Presença, do revelado por oposição à Ausência e ao velado. Como o modelo de racionalidade absoluta não conseguiu (consegue) resolver os principais problemas da humanidade, nem muitos dos seus mistérios, estaremos agora numa cultura de pós-modernidade- pessimista. Sem saber onde se deve ou pode respaldar. E esta mesma cultura que celebra a presença e aquilo que é manifesto coloca de novo a hipótese do invisível, do mistério, do intocável, do insondável, do não revelado … mas não necessariamente Deus nem a cosmovisão que Ele propõe (e a religião impõe); antes microvisões, pequenas narrativas locais, fortemente identitárias, incoerentes e inconsequentes, não raras vezes. Por tal vivemos debaixo destas duas realidades concomitantes: a Presença e a Ausência (complementares e antagónicas ao mesmo tempo).
A própria religião (cristianismo) está fortemente ancorada na Presença- divina (são disso exemplos os sacramentos) e tem dificuldade em falar da ausência e do seu sentido; até porque Deus é, ou pelo menos também é, Ausência. Num tempo em que há uma ausência de sentido e nada faz sentido (o que ajuda e justifica- racionalmente- ao cometimento das maiores atrocidades e desumanidades) era importante que a religião (pese embora tenha sido e seja uma, ou mesmo a maior fonte de sentido existencial nas sociedades) propusesse um sentido para a Ausência. Um sentido para o silêncio… da Ausência! Um sentido para a presença da palavra silenciosa… de Deus (?).
A ausência, e particularizando nas nossas experiências vivenciais e entendida aqui e agora como a falta de; desaparição de; separação de… revela-se algo custoso, sofrido… sem sentido! Somos seres profundamente relacionais. O desaparecimento de alguém importante, que connosco comungou de tantos momentos e de todos os momentos (bons e nem tanto), congrega em si mesmo um acto de profunda reflexão, de uma funda inquietação que nos leva a uma terrível, quase que terrorífica pergunta: Porquê? De resposta nenhuma. E fazemos outra: Para quê? De vislumbre nenhum. E acabam as perguntas… sem acabarem, nunca.
Também aqui precisamos do sentido para a ausência. O que nos leva a mais perguntas: Onde? Quem? Como?.. De resposta sumida. E acabam as perguntas… sem acabarem, nunca.
Foram três os amigos que, mais ou menos recentemente, nos deixaram: o Tiago Gonçalves de Vila Mendo, amigo de sempre, em 2020 aos 36 anos; o Quim Tó, amigo de há tanto, em 2023 pelos 50 anos; e o Zé Dionísio aos 58 no mês passado. Com a morte do Pe. Zé revivemos na tristeza profunda (mas paradoxalmente também na alegria das memórias que permanecem vivas e vividas) os outros dois irmãos: um exemplo de pessoa e de padre, sempre solícito e importado com os demais. Conheci-o em pequeno no seminário do Fundão e até ao pretérito e fatídico dia 13 de Setembro fez o favor de me (nos) distinguir com a sua amizade sincera e presente e contagiante e… Aquilo que dizia nos seus últimos dias de padecimento é revelador e avassalador: “Não tenho medo de morrer, sei que vou ressuscitar”. Exemplo de fé e de dádiva. Entre muitas e variadas actividades, em que deu corpo e alma, salientam-se os Encontros de Liturgia em muitas comunidades da Diocese; e a Escola de Música Sacra no Seminário da Guarda: dois exemplos de evangelização de proximidade- feita com método, propósito e substância- frutuosa (que pude testemunhar por dentro). Uma perda irreparável. Três perdas insupríveis. Três homens bons.
A eles, à minha querida mãe e às contínuas gerações de Vilamendenses que fizeram Vila Mendo e me, e nos fazem (ainda agora)- Nós…
A todos os que se amargam e se consomem com a(s) ausência(s)…
Ausência: presença-sofrida-silenciosa!


sexta-feira, 10 de outubro de 2025

a Guarda e as candidaturas autárquicas

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 25 de Setembro)

Tentar analisar as candidaturas autárquicas à Câmara da Guarda com traços de não parcialidade afigura-se complexo e com poucos, ou nenhuns, laivos de completude. Aspirar à imparcialidade absoluta é, no mínimo, inglório (no máximo despropositado). As convicções e as percepções; as suposições e as motivações; as ambições emanadas das nossas imperfeições; o conhecimento e as afinidades mais ou menos próximas- independentemente de intencionalidades- conduzem-nos (até inconscientemente e quase que imperceptivelmente) ao deixar entrar nas nossas boas graças Este ou Aquele; Isto ou Aquilo (e o seu contrário, também)
Portanto esta tentativa de análise-equidistante enferma duplamente: primeiro, da sua quase impossibilidade que advém da sua natureza própria; depois, pela consciência dessa mesma impossibilidade… Ainda assim, arrisca-se um pequeníssimo exercício de uma análise muito geral com alguma profundidade (!) em contraponto a uma análise muito específica que seria, por certo, superficial… outros o farão, decerto, melhor. E é um exercício de mais perguntas do que respostas em que talvez, no máximo e por essa - e só por essa- via, se tentam dar à compreensão (ou pelo menos à reflexão) algumas incompreensões.
Quando se olha para as diversas candidaturas e ao sem fim de candidatos a qualquer coisa, aquilo que nos sobrevém ao pensamento é: porquê estas pessoas? Porquê estas e não aquelas? Que critérios, que nuances determinaram a sua escolha, e que critérios foram determinantes para a escolha de quem escolhe? No fundo, quem escolhe os escolhidos e quem escolhe o que escolhe (na suposição que que é o cabeça de lista que opta pelos demais)? Foram decisões pensadas e previstas e planeadas de acordo com uma visão estratégica e estruturante para a Guarda?
De facto, e tirando o actual Presidente da Câmara Sérgio Costa de quem já se sabia da sua intenção de se reapresentar a eleições, as candidaturas, presume-se, desenhavam-se muito diferentes há tão somente três meses atrás. E há seis meses as conjecturas ainda seriam outras, e antes o mesmo. Parece que- de forma transversal- foram feitas e preparadas sem o tempo que este tempo (da cidade) exigiria. Talvez tenham sido estes os designados, face às circunstâncias e às urgências… Fica a sensação de que numa fase anterior (ou até posterior!) muitos dos candidatos seriam outros: calharam a ser estes!
É este calhar (de que não nos podemos livrar sempre, é certo!) que neblina a nossa Guarda e a sua afirmação e o seu despontar como comunidade verdadeiramente comum… uma comunidade que caminha a passos largos para algum tipo de polarização que não augura futuros fáceis pelos presentes já extremados no nós os bons e sabedores, vós os maus e insipientes; de que as redes sociais se alimentam vorazmente, deixando-nos um pecúlio de intolerância patente e maldade latente.
Os políticos que são agora indicados para tentarem ser eleitos nas eleições, deixaram e deixar-se-ão ser escolhidos, portanto resta-lhes só (que é muito) trabalhar para o bem-comum: simples. complexo. doído. desafiador. recompensador. Os outros políticos não são inimigos; são apenas adversários (e basta). Trabalhem- e trabalhemos todos- em genuína cultura democrática e não maldizente nem fortemente adjectivadora… Esperança utópica? Quiçá! Mas é a esperança que confirma a nossa presença no mundo. A vida, sem esperança, é? E que elites esperamos- para tal? As elites na Guarda são? Operam? Na sombra? E outras indagações afloram ao pensamento sem que as respostas se deixem entrever…
Nota: o Acácio Pereira de Vila Mendo, portanto um Vilamendense e amigo de sempre, é candidato a presidente à Junta de Freguesia da Guarda. Uma palavra de reconhecimento, independentemente dos resultados próximos. Que seja exemplo do atrás aludido.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

o Tédio (e a Política e a Guarda)

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 11 de Setembro)

Nestes tempos altamente imediatistas em que se quer fazer mais e tudo, em que se quer produzir mais e tudo, não há tempo para a paragem. A voragem dos dias pressiona-nos a entrar numa espécie de espiral de excesso de informação, de estímulos, de impulsos de que o excesso de positividade é anunciador. A percepção, a realidade e a percepção da realidade tornam-se marcadamente fragmentárias, amplamente dispersas e dispersantes. A gestão do tempo torna-se quase como que um imperativo moral (sem moral, tantas vezes). Saltitamos de tarefa em tarefa para convencer os outros e a nós mesmos que fazemos muito, variado e bem (e fazemos também); para demonstrarmos ao mundo a nossa excelsidade…
Mas essa gestão tem implicações várias na atenção. Não na atenção digamos que superficial, embora ampla com que conseguimos executar e funcionalizar actividades múltiplas e com resultados meramente produtivos; mas com nulos ou poucos resultados criativos: estes só ao alcance da atenção profunda; que permite a reflexão, através do pensamento, por via do silêncio… que pode derivar do Tédio!
Um Tédio que não é aborrecimento paralisante, antes pensamento-referente-em-acção. Um tédio que inaugura um tempo novo da atenção profunda de que germinará todo o processo criativo tão necessário à cultura, às artes, ao avanço técnico e civilizacional como tal. A pressa, a imediatez, o frenesim (por si sós) não gerarão nada de novo; limitando-se a apressar o já existente.
O Tédio que permite a atenção profunda que possibilita o escutar, que propicia o espanto, que se faz criação... Esse escutar tão arredado que está do nosso modo de vida tão ávido do Eu hiperactivo que não dá ao espaço ao Outro (esse Outro que também sou Eu). De facto, a capacidade de escuta é o primeiro e primordial passo para nos colocarmos no lugar dos outros, e com isso e com a serenidade subsequente evitarmos as maiores violências e barbáries com que somos assolados desde o início dos tempos.
Poderíamos então, quiçá, cultivar o tédio. Essa arte de nada fazer (e termos essa consciência, plena) para se fazer tudo (ou alguma coisa significante e transformante) depois.
Em jeito de nota sem o ser (sendo), também na política este tédio poderia ser cultivado. Em primeiro lugar na Guarda (não se nomeia aqui Vila Mendo!..). Que políticos somos- cada um de nós? Como nos posicionamos e como contribuímos, dentro das nossas possibilidades e impossibilidades e capacidades para o desenvolvimento da Pólis? Que políticos temos, desejaríamos ter, ou era melhor ter? Agora que chegam as eleições autárquicas e o frenesim que lhe subjaz, era tempo dos candidatos se imbuírem deste tédio, que lhe seria útil para aprimorarem a atenção profunda; no silêncio; escutando e reflectindo verdadeiramente; o que certamente lhes possibilitaria actuar na realidade (e até nas suas percepções) de maneira valorativa e transformativa- na comunidade que nos suporta e nos importa: a nossa Guarda. Aguardando isso, talvez não se deva aguardar por tal: é que até a esperança (utópica) tem os seus limites!..
E agora como nota mesmo: talvez se faça aqui uma análise geral às candidaturas à câmara da Guarda… se o tédio (não este de que se fala aqui, mas do outro useiro e costumeiro) não se apoderar do pensamento e dos pensamentos…
O Tédio… e o tédio…

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

o gostar de não gostar (de odiar?)

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 31 de Julho)

A condição humana remete o Homem (recorrentemente) para o conflito… com os outros; com ele mesmo. E uma tristeza advém ao pensamento e apodera-se dele, e por ele se cometem as maiores atrocidades (as maiores virtudes, também). Esse pensamento que fica preso e represo em ruminações, remoendo a realidade; tantas vezes a irrealidade.
Um dispêndio de energia que nos esgota e não dá resposta às nossas conjecturas de conjecturas mais. Mas ainda assim, fatigados com esses pequenos e inúteis pensamentos, gostamos de não gostar de alguém. E se frequentemente esse não gostar se queda por meros pensares, outras vezes fazemos questão de o demonstrar através de palavras e acções e omissões.
O que é facto (senão porque seria?) obtemos um certo prazer de pensar, dizer ou fazer mal a alguém. Algo que está cá dentro, e como que um tormento não o conseguimos debelar completamente (conseguimos?), esse pulsar- latente- de ódio, até. No fundo, gostamos de fazer o mal, ou pelo menos um certo mal (seja lá o que isso for); censuramos o próximo, ciosos de o vigiar e inquisitorialmente questionamos os motivos dele e de todos os próximos (raramente os nossos).
Talvez busquemos motivos (fúteis e inúteis), razões de queixa e queixumes, todas as fontes de insatisfação, até sobre os amigos: para nos afastarmos deles, para nos justificarmos a nós próprios que (já) não os apreciamos e pouco queremos a sua companhia. Exemplos mais seriam incontáveis.
A repetição, o enfado, a rejeição tomam conta de nós a cada passo, e cercam-nos e cerceiam- nos ficando como que aprisionados nos pensamentos-acções que destilam indiferença (que se faz presença, notada) do outro.
Comunitariamente, o ódio lança sociedades contra sociedades, países contra países numa deriva autodestrutiva cujo fim se depreende e cuja finalidade se não entende. De facto, desfiando, e por tal deslindando, a teia da vida humana nas suas múltiplas e infindáveis meadas (entremeadas), damo-nos conta que- delas- fazem parte várias nuances de maldade: falta de empatia, falta de sentimento, compreensão, desprezo dos outros e ignorância de nós mesmos… em que os hábitos costumeiros se sobrepõem à excelência, e esta reiteradamente dá lugar à infâmia.
Entrincheirados numa espécie de frenesim-maldizente- de que as redes (in)sociais são eco último- passamos o tempo a congeminar, a vociferar contra o outro de forma destrutiva; nesse tempo que se torna destempo… Assim, fazemos o bem, mal; e fazemos o mal, bem! Exasperante contradição que nos arquitecta e imprime a marca indelével da condição humana.
Poderíamos mudar e transformar um pouco essa condição? Talvez! Mas talvez isso seja difícil, custoso e exija uma permanente e profunda reflexão individual que se torna quase insuportável: por estarmos, sem filtros, connosco próprios e darmos conta das nossas imensas e antagónicas fragilidades- defeitos constitutivos, portanto. Não muito diferentes dos outros. Preferindo a ilusão do faz-de-conta da nossa superioridade total, ao constatar real da nossa imperfeição substancial…
Gostamos de não gostar, e isso irrita-nos. E define-nos.
Nota: Nos próximos tempos de campanha autárquica na Guarda é provável que o seu objecto primeiro (e último?) seja a crítica maldizente. Infelizmente. Somos assim, e não sabemos se poderíamos ser de outra maneira!..

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

pequenas Notas soltas e avulsas e desconexas

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 03 de Julho)

1- As eleições autárquicas aproximam-se e será interessante analisar os programas. Serão- como de costume- retalhos descompassados de propostas e promessas de promessas? E isso constitui um, ou o descrédito da política (e da democracia)?
2- Para o ano, as eleições presidenciais são o corolário de um período de intenso bombardeio mediático (sempre imediato) desse sem fim de promessas; de análises de análises; de conjecturas conjecturadas mais. Teremos a paciência para tal?
3- Aguardamos para verificar (e saudar) se na Guarda os candidatos nos surpreendem com uma atitude de elevação em que o foco seja o bem-comum das nossas gentes (?!.). Muita esperança, ou mesmo fé?
4- E Vila Mendo, sempre aqui e sempre além; e sempre aquém do que lhe desejaríamos- a nós?
5- O calor está por aí, e antes mesmo da inclemência dos incêndios ser realidade as televisões já nos “massacram” com as suas possibilidades… e ficamos quase que incendiados.
6- As guerras seguem o seu curso inexorável desde o princípio da humanidade até hoje (provavelmente até ao futuro). Vários pensadores viram-lhes virtudes, ou pelo menos justificativas na perspectiva de fazer com que a letargia a que muitos (individual e colectivamente) estavam votados se transformasse em realidades risonhas, na perspectiva de exportar para outros povos as virtualidades próprias do seu, ou dos que consideravam… Já nós queríamos que acabassem, ontem. De qualquer modo, como país convém estarmos preparados para tudo.
7- Uma pausa no desporto, que é como quem diz no futebol, é sempre bom para reorganizar forças para as euforias e desilusões, para as alegrias e tristezas, os festejos e desmandos que nos esperam na próxima época… Uma boa alternativa, a Volta à França em bicicleta com o inefável Tadej Pogacar.
8- Pausas. Tão necessárias para nos pensarmos e pensarmos os outros. Para nos pensarmos com os outros.
9- Estas notas são dignas de pouca nota, mas estamos quase a chegar às férias e o português (como o Guardense) entra em modo relaxado e expectante; depois cansa-se durante o recesso, porque o idealizado raramente é concretizado; recupera no retomar do trabalho; remói a má sorte dos seus afazeres monótonos, mal pagos e da sua vida complexa e complicada; exaspera-se por tudo e pelo seu nada, e pela longura do próximo descanso; e… depois a mesmice… Somos assim e não sabemos se poderíamos ser de outra maneira.
10- Não há. Mas podia haver. E muitas.
Pequenas notas soltas, avulsas, desconexas; ou não.


quinta-feira, 3 de julho de 2025

o Homem e o Competir

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 19 de Junho)

Desde sempre (e talvez para sempre) o Homem está em permanente competição. Com o outro. Consigo mesmo. Uma força interior (inata?) que o empurra a querer ser melhor que os outros. Melhor do que ele mesmo. Nem sempre conseguido, isso. Esse isso que é aquilo que muitos aqueles (que somos todos, ou quase) teimam em demonstrar ao mundo: a sua excelsidade; a sua superioridade, a sua singularidade (real) face ao próximo e a todos os próximos.
De facto, queremos pensar melhor; dizer melhor; fazer melhor; sonhar melhor: do que toda a gente. E às vezes conseguimos; muitas vezes pensamos que conseguimos; outras tantas nem por sombras. E às vezes até achamos que o mundo gira à nossa volta e somos a sua força vital… E até no erro queremos ser diferenciados, porque únicos (que também somos). Queremos tudo e o seu contrário, ou o contrário e o seu tudo. Queremos ganhar, sempre. Queremos perder, nunca. Queremos, ou pelo menos somos fortemente compelidos a triunfar do fracasso do outro. Todas as dinâmicas sociais estão visceralmente ancoradas numa lógica marcadamente competitiva: todos querem ter mais do que os outros, ser (?) muito mais do que os outros. Desempenhos, façanhas superlativas deixam de o ser (no campo das percepções) se alguém alcançar um pouco mais: um estudante que tire dezoito, pode ficar decepcionado se um outro tirar um dezanove; um clube de futebol que no campeonato inteiro perca um único jogo, considera um fracasso a época se um outro os ganhar todos e ficar em primeiro; os países querem ter o PIB maior, crescimento económico maior, ser mais poderosos e desenvolvidos e fortes que os vizinhos. As guerras surgem sempre num afã de competitividade extrema. E os exemplos infindáveis e em todas as áreas (mais pessoais, ou mais colectivas).
Se parece ser verdade que o ser humano, desde os primórdios, avançou e evoluiu à custa da competição entre humanos, com a natureza, contra si próprio e os deuses… não será menos verdade que isso trouxe e traz desgraças recorrentes (literária e mitologicamente, o relato bíblico de Abel e Caim torna-se o primeiro acto de competição da humanidade, por ele o desfecho é trágico e impele o Homem ao constante e inconstante competir com, ao permanente desafio e atrofio da existência como tal… As criaturas multiplicam a palavra- ou a palavra multiplica as criaturas?- e competem entre si, e são destinadas, condenadas à presença das outras, à relação frequentemente desafiadora com as outras. O ser humano, no mundo, é a criatura que universaliza o conflito: na Criação, será o Homem um seu excesso?).
Se calhar- no estado civilizacional, e portanto cultural, em que nos encontramos (ou onde nos deveríamos encontrar)- o competir poderia ser olhado numa perspectiva de… coincidir: de fazer acontecer com o outro; não à custa do outro. De ultrapassar obstáculos sem deixar ninguém para trás. De ver e olhar, ouvir e escutar, entender e compreender que o outro posso ser eu, que eu posso ser outro. Será que algum dia iremos competir para coincidir? Esperança real, ou ingénua? Talvez. Mas o que importa (se é que importa) é fazermos caminho. Todos.

Nota: Aproveitemos o sossego de ainda não se saber (à data, dia 13) dos candidatos às autárquicas: que depois o frenesim competitivo será interessante e pouco dignificante (provavelmente). E como se preparam umas eleições destas características (com um sem fim de freguesias) em três meses?!.


domingo, 22 de junho de 2025

o pensamento do Pensamento IV- o Silêncio

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 29 de Maio)

(continuação)
Mas… e de que silêncio falamos? Falamos do silêncio interior. Do silêncio estrutural- pedra basilar, eixo central do Ser- no mundo, com o mundo. Um silêncio que não é um simples adorno, que não é superficial, muito menos supérfluo. Que contrapõe ao silêncio exterior, e ainda que possam correlacionar-se são completamente distintos, uma vez que o exterior é aleatório e, não raras vezes pouco acrescenta, já o silêncio interior é bem intencional abre toda uma perspectiva de uma realidade nova para a própria realidade de nós próprios e da nossa existência. Este silêncio que não é fim em si mesmo; que é elevação, mas que também é acção e, por essa via, mudança podendo operar actos verdadeiramente transformativos na sociedade; que não é mudo, não é cego, não fica enclausurado dentro de si próprio nem nos limites de um qualquer espaço físico; que não é só mera ausência de ruído, prudente, ou só circunstancial (que também é).
Esse silêncio interior, profundamente reflexivo e, se calhar, radicalmente reflexivo, que, de alguma maneira, podemos aprender, ou pelo menos aprimorar e desenvolver para nos escutarmos a nós mesmos e assim olhar o Outro com a paciência, a atenção, a humildade, a misericórdia, o perdão, a disciplina… enfim, com uma esperança na humanidade. O silêncio que é feito de paragem: para perceber e assimilar o mundo que nos rodeia; de escuta: para entender os anseios e às vezes os devaneios do próximo; que é feito de olhar: para ver verdadeiramente e ir ao encontro das necessidades do outro (e de nós mesmos). O silêncio que precisamos trabalhar, apurar e depurar, certamente predispõe-nos a ouvir todo o tipo de silêncios que irão ajudar também e assim a escutar melhor o nosso próprio silêncio interior, e reorientá-lo para a vida prática; e a ligar-nos à essência do Ser e a religar-nos à Vida e ao Mundo como tal. Portanto, o silêncio a cultivar é um silêncio actuante, pleno de presença de sentido, de uma presença humana de sentido, que nos pode conferir um humanismo integral.
Esse silêncio que, por certo, causa receio por estarmos sem filtros connosco próprios; talvez mesmo um medo que sopra e insufla angústias e interrogações e dúvidas sobre o Ser, o Mundo, o futuro e o Destino nosso e dos nossos. Mas que temos de persistir- interpelando, perguntando, ultrapassando desafios e colocando novos desafios: solucionando-os e confiando… nos outros; obviamente em nós próprios; quiçá na transcendência… Um silêncio que é pensar reflexivo que dá as ferramentas necessárias ao pensamento crítico e estruturado, capaz de fazer pontes neste tempo polarizado no Nós e Eles, nos bons e maus. Que nos permita encontrar o destino, ou pelo menos o caminho. Mesmo no diálogo, que se estabelece nas mais diversas situações, formais ou informais, só ganha em profundidade quando pontuado pelo silêncio - enquanto ausência de ruído e depois, claro está, pelo silêncio que é escuta, que é respeito, que é confiança, sinceridade e empatia; e não silenciamento, refira-se e sublinhe-se.
Podemos até afirmar que o silêncio como que delineia a acção, e esta por conseguinte delineia o silêncio numa interacção profundamente dinâmica, simbiótica, visceral, inseparável, contínua; numa interacção plena de possibilidades, e por essa via de impossibilidades que podemos voltar a transmudar em possibilidades e em oportunidades pela insistência e persistência em teimar; em teimar encontrar soluções, ou pelo menos caminhos… de mudança… E precisamos também ensinar às novas gerações o valor e o valor do sentido- do silêncio interior- porque é dele que germina, que deriva a Palavra que será ouvida, problematizada, seguida, concretizada e dará frutos.
O silêncio que nos permite a prudência pensada, reflectida, planeada, agida e fecunda.
O silêncio pode ser pensamento; o pensamento é silêncio.


sexta-feira, 30 de maio de 2025

o pensamento do Pensamento- III

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 15 de Maio)
(continuação)

Às perguntas: será que todo o ser humano é um “verdadeiro” pensador? Com capacidade para pensar pensamentos que valham a pena ser pensados? As respostas podem ser, de alguma forma, simples. De facto todo o ser humano é pensador: do menos inteligente ao génio; do que tem défice cognitivo até ao comum das pessoas; do mais maldoso ao bondoso… todos somos pensadores. Provavelmente, toda a gente sem excepção pode vir a ter (ou já teve) pensamentos primordiais, criativos, potencialmente originais. E provavelmente, foram perdidos, porque não lhes foram dados a atenção, nem a forma, e muito menos a expressão necessárias. Perdem-se no emaranhado dos constantes e inconstantes pensares improdutivos, que se perdem a eles próprios. Desperdício? Talvez uma forma de o cérebro se não sobrecarregar com inutilidades costumeiras.
Mas se todos podemos ter capacidade embrionária, potencial para pensar pensamentos profundos (que valham a pena ser pensados), são pouquíssimos aqueles que os têm de facto- na perspectiva de chegarem à consciência; e de serem expressos e preservados. Pouquíssimos são aqueles que conseguem uma finalidade orientada, exigente para produzir pensamentos transformativos e originais: impactantes nas comunidades e humanidade. E aqui há- com bastante probabilidade- uma componente inata, genética de relevância ímpar. Ainda que através de exercícios e treino mental ou meditação ou oração se possam atingir níveis de abstracção formidáveis, o pensar inovador e transformador, a própria criatividade, a originalidade e as configurações de sentido escapam muito a esta lógica. A verdade é que não conhecemos todos os mecanismos do pensamento; que se esquivam claramente à nossa compreensão; e vontade, até…
Dando um salto na análise, o pensamento da humanidade está muito condicionado, ou pelo menos fortemente sujeito às indagações de três preocupações primordiais: o ser (portanto a existência como tal); a morte (os limites e o fim); Deus (o divino). Três preocupações embrenhadas, inseparáveis, visceralmente unas, claramente unívocas, por demais completas e complexas, que o pensamento atinge nelas e por elas os seus limites, e impasses que esses limites lhe impõem a ele mesmo: e que lhe são necessários para a continuação do infindável questionar; porque infindáveis as insuficientes ou inexistentes respostas…
Voltaremos a essas preocupações, até porque elas só podem ser reflectidas no silêncio. No silêncio do pensamento (diametralmente diferente do pensamento silencioso). Nesse silêncio que expressa o que se é, e retira o Homem da superficialidade de si mesmo. Diferenciado da estridência do acto que demonstra o que se quer parecer. E nem sempre coincidentes. Uma luta titânica de autenticidade, de coerência interna com que todos (?) somos assolados.
Mas… e de que silêncio falamos?

(continua)

Notas: Aproximam-se as eleições legislativas. E emerge um cansaço da política. Um desencanto com as políticas. Um desacreditar dos políticos. Espera-se que não da Democracia. E depois ainda temos o martírio das autárquicas. Antes das presidenciais. Num ano. É obra.
A eleição do papa Leão XIV (não ligando ao nome numa vertente futebolística, até porque equipa de vermelho!) faz-nos pensar da importância de ele ser um referente ético e moral, e um sinal e uma voz- actuante- de esperança (real) para humanidade; demasiadas vezes inumana. Precisamos disso. Precisamos dele. Crentes. Não crentes.

sábado, 10 de maio de 2025

o pensamento do Pensamento- II

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 17 de Abril)

(continuação)

Numa outra (!) perspectiva, o pensamento do outro é sempre indesvendável; uma cortina impenetrável, intransponível separa cada ser humano a este nível. Nunca conseguimos, de forma objectivamente verificável, perceber que pensamentos dominam (ou predominam) o seu ser. Às vezes, quase que sim; maioritariamente não. Nenhuma técnica psicológica, psicanalítica; nenhuma proximidade com o outro, ou mesmo nenhuma tortura pode “arrancar-lhe” os seus pensamentos de forma objectivamente demonstrável: se aquele ou aqueles pensares são de facto- esses- que outrem pensou mesmo. Os juramentos mais sentidos, as proclamações mais entusiásticas nunca nos dão a absolutidade de uma certeza quanto à sinceridade delas: poderão ser sinceras. Ou não.
Os constantes e variadíssimos “afirmares de”, podem ser actos completamente falsos e perfeitamente conscientes; podem ser autoenganos; ou uma mistura de ambos (e, às vezes, também verdadeiros): a mentira tem infinitas matizes que se tornam difíceis, ou mesmo impossíveis, de distinguir claramente, de ter a certeza absoluta que o que é dito corresponde ao que é pensado (ao que é consciência). À pergunta feita incontáveis vezes por todos nós: “Em que estás a pensar?”, a resposta vem envolta em tantas camadas, passando por diversas filtragens (imperceptíveis), que a veracidade fica tantas e tantas vezes comprometida.
De facto, passamos o tempo em permanentes actos de tradução, por assim dizer. Estamos constantemente e efectivamente a traduzir-nos uns aos outros (e uns para os outros), em todas as áreas e momentos da vida. Querendo e ansiando descortinar e alcançar o que está antes do que é dito (do não dito), antes do escrito, do feito. Às vezes acertamos, ou quase; outras falhamos estrondosamente.
Mesmo no amor, mesmo com as pessoas que são mais próximas e queridas e honestas, o outro- esse outro- é, de algum modo, estranho. O amor, a paixão é também representação. Até no êxtase, os apaixonados conseguem tocar-se, sentir-se; conseguem abraçar-se, mas não conseguem abraçar (ainda que parcialmente) os pensamentos do outro… Talvez no sentimento oposto a este: o ódio (e o medo), os pensamentos sejam mais facilmente genuínos, sem as tais camadas que enevoam a sua decifração. Talvez no riso espontâneo (de uma qualquer situação ou piada), portanto não preparado e diametralmente díspar do sorriso costumeiro (mais elaborado), se encontrem também os pensamentos mais autênticos na sua revelação, que é, ou que tem muito de involuntária.
Na caverna da interioridade (das “identerioridades”) do outro, nunca descobrimos (pelo menos totalmente, ou substancialmente) a luz-final-reveladora do seu ser. Talvez…
E talvez por tudo isso (mas não só por isso) aqui resida a falta de confiança que, individualmente e colectivamente, sentimos uns pelos outros, pela sociedade, pelo mundo (por nós mesmos). Por, enquanto humanidade, cometermos as maiores atrocidades, relegando o outro, o diferente a uns seres desconsideráveis e inumanos. Será?
E será que todo o ser humano é um “verdadeiro” pensador? Com capacidade para pensar pensamentos que valham a pena ser pensados?

(Continua)

 


sábado, 26 de abril de 2025

o pensamento do Pensamento- I

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 03 de Abril)

No inconsciente da humanidade ecoa como que uma tristeza (primordial) do pensamento que advém (?) do início dos inícios fundacionais do universo: daquele instante- ruidoso- que originou (?) tudo. Aquele ruído de fundo, antes do ruído de fundo da Queda do Homem do Jardim do Éden, que se incrustou no mais íntimo do ser. E que está sempre lá. E sempre connosco. Esse ruído que empresta uma tristeza ao nosso pensar e dela não nos podemos livrar; ainda que o quiséssemos. Uma tristeza inescapável.
Uma tristeza que, apesar de tudo e quase que paradoxalmente, pode ser geradora dos melhores pensares, criativos, profundamente transformativos. E uma tristeza que pode ser geradora dos piores olhares, descriativos, profundamente destrutivos.
A maior parte das vezes, o pensamento é povoado, atolado, bombardeado por uma miríade de pequenos pensamentos que afloram ininterruptamente à consciência. Uma torrente constante, mas inconstante que só cessa no fim da vida.
Espontânea e aleatoriamente (supõe-se), somos aturdidos pelos mais diversos pensares de toda a tipologia que surgem tal e qual como vão. A quase totalidade perde-se nas teias do esquecimento. Discipliná-los é tarefa árdua e poucas vezes conseguida. A concentração focada e absoluta ou o alcance do vazio, do nada (que já é algo!) está ao alcance de uns muito poucos (e por pouco tempo). É desgastante, enormemente e (se calhar) irreversivelmente esgotante. Talvez os pequenos e estranhos e inúteis pensamentos com que convivemos sistematicamente, a todo o momento e em todos os momentos sejam preponderantes para não entrarmos em fadiga e colapso mental (logo físico). Se estivéssemos permanentemente focados e alheados de todos esses pequenos pensares, essa concentração total seria exaustão fatal.
Respirar e pensar, dois processos que o ser humano não pode fazer parar. Quando acontece, é a morte (única certeza?). Ainda assim, podemos suster a respiração. Não é certo que consigamos fazer parar o pensar. E nesta perspectiva tornamo-nos como que escravos dele: uma relação déspota. Carregamos o seu peso, o peso do pensamento, até ao fim.
De facto, o existir no mundo, o habitar do mundo é feito pela via do pensar, que possibilita a acção: embora não seja de todo verificável haver um continuum entre pensamento e acto; muito menos entre o que se pensa, projecta e idealiza e o que na prática se consubstancia; e ainda muito menos haver uma tradução dos sentimentos, das intuições, das sensações, de qualquer ideia intelectual e psicológica superior pela linguagem em vista a uma expressão completa e total- o tal “não consigo dizer, colocar em palavras…”.
As nossas expectativas, as consequências das nossas expectativas saem recorrentemente frustradas pelo não conseguido. O antecipar de, o esperar de, o fantasiar de, o imaginar de, tantas vezes não corresponde em nada (ou em pouco) à realização efectiva. Raras vezes a experiência suplanta a expectativa. Demasiadas vezes, não existe relação, ou pelo menos correlação, entre pensamento e concretização. Talvez por isso, demasiadas vezes, a realização (o pós-realização) das nossas aspirações, dos nossos quereres enviam-nos para um vazio de tristeza (é aqui que tem de entrar a esperança que nos permita voltar a desejar e a querer…).
Por outro lado, o recepcionar, o perceber do mundo não é nu. Há sempre conceitos, pré-conceitos, preconceitos derivados de interferências de vária natureza: culturais, dogmáticas, religiosas, psicológicas… Portanto, não há recepção inocente, pura (por muito espontânea que pareça) do mundo, do “lá fora”, pela consciência (ou haverá?): as teorias do conhecimento bem tentam encontrar esse ponto “zero” livre das tais pressuposições e predisposições, sem ingerência alguma (Husserl, kant, Descartes e outros), mas… A experiência fica como que comprometida (sempre) no filtro do pensamento. A Queda do Homem é a queda do pensamento?
(continua)

sábado, 29 de março de 2025

esperar a Esperança

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 13 de Março)

Vivemos tempos conturbados (como o tempo anterior e o tempo por vir, provavelmente). Ansiamos por um mundo novo, amplamente idealizado (não raras vezes ideologizado). Queremos o (nosso) mundo, almejamos o Todo, mas esquecemo-nos do tudo, dos pequenos tudos que o constituem. E desanimamos, porque (quase) nunca logramos.
Profunda e profusamente contraditórios, oscilamos entre o optimismo inebriante e o pessimismo inoperante, nos entretantos vivemos. como podemos. como nos deixam. poder. Assoberbados, abismados pelo bombardeio mediático e imediato e errático e erróneo… ficamos azedos por o mundo ser- assim; por nós próprios sermos- assim; e nem a nós mesmos nos conseguirmos mudar. Somos humanos- não mais, não menos do que isso (que já seria muito, se o fôssemos enquanto humanidade).
E uma tristeza do pensamento aflora. Uma tristeza que vem do princípio dos tempos; que vem do princípio do tempo da humanidade e que ecoa… ressoa, bem lá do fundo. E dessa tristeza não nos podemos livrar, ainda que o quiséssemos…
Neste afã existencial, umas vezes tornamo-nos como que egoístas-passivos: vivendo a própria vida, fazendo as pequenas coisas dos dias e dias sem querer incomodar ninguém, nem que ninguém incomode. Numa perspectiva de que o mundo, os outros, farão; mais tarde ou mais cedo há-de acontecer, embora esperando sempre o pior.
Outras vezes tornamo-nos como que egoístas-activos: vivendo a vida a partir de nós e para nós; os outros, o mundo servem para demonstrar a excelsidade própria.
Outras ainda, ficamos híper-optimistas; num optimismo que se fica por isso mesmo: olhando a vida de uma perspectiva muito colorida e boa, e sem que tal ultrapasse o mero pensamento positivo. Pleno de intenção, vazio de realização.
Deste modo, talvez precisemos cultivar a esperança. A esperança real (seja lá o que isto for). A esperança que o Cristianismo (independentemente de crentes ou nem tanto) nos apresenta e propõe. Uma esperança que é ao mesmo tempo racional e utópica. Que nos permita dar dois passos para alcançar o objectivo, e quando lá chegados e não conseguido nos permita dar mais dois, e mais dois, e… Uma esperança que não espera, que é caminho e princípio de acção, mobilizadora e marcadamente dinâmica e agregadora de vontades. Que é emaravilhamento. Neste mundo demasiadas vezes desmaravilhado.
Precisamos de nos emaravilhar e fazer com que os outros se possam emaravilhar. Não podemos transformar o mundo como quereríamos e de repente, mas podemos transformar (um pouco) o nosso próprio mundo e o dos que connosco privam. Passo a passo. E se há uma infinidade de coisas que não controlamos e nada dependem de nós, comecemos pelas pequenas coisas que estão ao nosso alcance. Sem expectativas desmesuradas, mas com atitudes permanentemente renovadas.
Mas esta contínua renovação do pensamento-acção pode, por desgaste paulatino, levar a silenciosas desesperanças. Pelo constatar da inumanidade da humanidade, pela maldade e misérias presentes a todo o instante e que faz (num exercício de fingimento e de autoconvencimento social) desacreditar da bondade humana, e assim levar-nos a cair numa espécie de impercepção-consensual, na medida em que ao não querer ver das crueldades do homem, como que consensualmente e por vontade as pessoas (a comunidade, a sociedade) não percepcionam, não dão muita importância, não ligam ao mal que à volta graça e é evidente. Importa que elas (as desesperanças) não nos façam desistir; antes nos incitem a continuar; determinados; pontuando-as com o agir metódico de fazer o bem.
Esse “fazer o bem sempre” (Teresa de Saldanha) de que a política e os políticos deveriam beber- antes de tudo- nestes ciclos eleitorais que se avizinham e a todos desgastam…
Utopia? Claramente. Realismo? Obviamente.
A todo o momento e em todos os lugares (em Vila Mendo, na Guarda) necessitamos esperar a Esperança.

sexta-feira, 14 de março de 2025

o Comentador (na Guarda)

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 27 de Fevereiro)

Aquilo que hoje se julga por comentador é diametralmente diferente daquilo que foi. O exegeta por excelência que decifrava e interpretava textos antigos e especializados (a Bíblia, o livro que mais comentadores e comentários suscitou, certamente) e com regras muito específicas, foi dando lugar ao comentário de texto aos textos literários nas universidades (mas em quase extinção, talvez).
Agora o comentador é aquele que apresenta um tipo de discurso derivado e cultivado no jornalismo (em que, por vezes, não há quase distinção entre factos e comentários). Além da decifração e da interpretação, ele prevê e esboça e arquitecta cenários de possibilidades infindas, a partir dos diversos momentos-presente. No fundo, analisa especulando a limites estratosféricos: projectando para o mundo a sua aura de intelectualidade pujante (pungente?!)
E o comentador dedica-se quase sempre à política: não há leitura (e só depois hermenêutica) intrínseca, imanente do discurso político; há configuração, a reconfiguração, a construção de narrativas… de narrativas, fortemente especulativas (o comentador como criador de conteúdos para serem comentados- o comentário que procura ardentemente outros comentários, e outros: numa profunda e profusa dialéctica auto-referencial).
E o comentador sabedor oferece e ajuda a perceber ao mundo a (sua) realidade, a (sua) verdade, o central na política. São tantos, e incessantemente, a oferecer tal que tudo se reduz a um vazio, a um nada que é quase… a uma passerelle de entendimentos-superiores-pretensos. Tudo se politiza e repolitiza a um nível desmedido que os cidadãos se tornam indiferentes, descrentes na causa pública e nos seus intervenientes. O comentador como agente político: os comentadores que se tornam políticos, e os políticos que se tornam comentadores- numa espécie de lógica de reversibilidade (político-comentarista)!
Na Guarda (e ainda que não atinjam o píncaro mediático dos nacionais) também temos os nossos comentadores, e com características (e funções) muito diversas e próprias que não importam (importando) agora deslindar e esmiuçar: ainda assim, mais profundos ou menos; mais interessantes ou nem tanto; mais previsíveis ou não; mais formatados ou nem por isso. Todos farão o (seu) caminho…
Seria interessante aferir na cidade se, e como se aplica essa tal lógica de reversibilidade nas eleições autárquicas que se avizinham. Seria interessante que alguns dos que comentam pudessem fazer o exercício de- quando em vez- verem e oferecerem um vislumbre de positividade naqueles e naquilo que constantemente e afincadamente criticam negativamente. Na sua leitura e análise à realidade conseguirem aportar sinais de esperança (real) à Guarda, fugindo ao modo do comentador como figura de reprodução, de eco, de reacção, de reflexo a…
Uma espécie de desafio retórico, sem o ser!..
Suscitações. somente. isso.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

o Conhecimento e as Elites (e a Guarda)

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 13 de Fevereiro)

Desde sempre (provavelmente para sempre) o conhecimento humano e o seu avanço, as conquistas técnicas, estéticas, científicas e todo um conjunto de coisas extraordinárias de que dependemos enquanto civilização, foram feitos à custa de uns poucos. A esmagadora maioria das pessoas- antes, agora- não contribuem com quase nada para tal. Limitamo-nos a ser receptores (de algum modo passivos) e a beneficiar da brilhantez de uns quantos ao longo da história da humanidade.
E porque é que isso acontece? Qual o papel da natureza e da cultura em tal? Quais os papéis (e quais as combinações desses papéis) da herança genética, dos factores económicos, sociais, geográficos na composição das capacidades humanas? A educação pode fazer com que muitos outros possam aceder e produzir um nível mais elevado de conhecimento, mas até que ponto? O “politicamente correcto” em que vivemos assolados, quase que atolados não nos deixa ter um debate sério e profundo sobre tais questionamentos.
O certo é que só a elite das elites chega ao limiar do desempenho superior e transforma verdadeiramente o mundo enquanto civilização: para o bem, tantas vezes para o mal. A maioria dos seres humanos irá escolher as telenovelas e sucedâneos em vez de Ésquilo, Kant ou Pessoa, ou… Irá sacralizar o futebol, os “influencers”, as redes (in)sociais e suas figuras mediáticas e medianas até aos píncaros; e o pensamento profundo, diferenciador e revelador será visto como algo distante, risível, senão ameaçador…
(Numa catástrofe hipotética em que toda a humanidade fosse atingida e em que se perdesse todo esse de legado de conhecimento, tecnológico por exemplo, que seria de nós? Conseguiríamos nós, pessoas comuns, recomeçar e aportar conhecimento a partir do quase nada?)
De facto- embora agora noutra dimensão, mais perceptível e mais nossa- também Portugal tem as suas elites. E são elas que nos conduzem e nos conduziram até aqui. São elas as responsáveis por estarmos como estamos (bem ou mal é outra questão). São elas que, apesar de serem autodestrutivas em e entre si, promovem e operam desenvolvimento do país. Sem elites as sociedades seriam inconcebíveis face à natureza humana. Quer queiramos quer não, beneficiamos dos que estão no poder, dos que fazem poder (embora muitas vezes soframos com esse domínio, infelizmente).
Esta análise não desresponsabiliza a maioria dos cidadãos “normais” nas suas virtudes, defeitos e papéis; e até na coragem para aguentar essas mesmas elites; em instância última, estas germinam do todo que é a sociedade. E se as elites moldam a população em geral, também esta os pode moldar e condicionar a eles… para melhor (?)…
E na Guarda? Existem elites? Em que áreas se destacam? Conseguimos dar-lhes nomes? O que fazem? Fazem? Como operam? Operam? Na penumbra? São transformativas? São limitativas (até com elas próprias)? Na Guarda, as elites são?!.
Indagações. somente. (tudo)isso.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

realidade(s). o perceber (d)o mundo

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 30 de Janeiro)

A realidade o que é? A realidade é? A realidade, o mundo poderão ser uma construção da nossa consciência, como que um assombro subjectivo: tal como as cores que estão em nós e não nos objectos? Que diálogo se estabelece (e cada um estabelece) entre a visão ávida de surpresa e a consciência eternamente insatisfeita e em alerta pela percepção? Que barreira, que cortina inultrapassável separa cada ser humano das percepções que os outros indivíduos obtêm dos mesmos objectos, das mesmas coisas, do mesmo mundo (da mesma realidade?)?
E poderíamos continuar com outras perguntas tais que originariam respostas mais (se as houver!). Talvez como certo, só uma ténue certeza de que a realidade se estrutura de múltiplas realidades, portanto de novos e surpreendentes e inusitados pormenores que vamos encontrando à medida que estamos expostos à Coisa-mundo…
((Abrindo aqui um grande parênteses – e quase como um despropósito que adveio agora alardeadamente ao pensamento e não se desassoma - particularizando e reflectindo na realidade política, poderíamos quase classifica-la como: a realidade do (real) fingimento. Da política nacional à política local assentam muito no fazer de conta. Muitos dos políticos fingem que se interessam pelos cidadãos e fingem tão completamente que se convencem (e convencem tantos) que o seu interesse é substantivo e substancial; colocando-se num estado em que a ficção e o real se entremeiam de tal forma que se tornam quase indissociáveis- actores em potência, ou de facto, ou!..
Os cidadãos, nas suas profusas (infelizmente não muito profundas) análises à polis já não fingem tanto e censuram sem piedade as muitas ficções e enredos que se lhes apresentam; de forma geral, pois quando em contacto directo com os eleitos ou candidatos, os sorrisos e os cumprimentos desdobram-se em reverências… Muitos dos políticos acham, de algum modo, o comum dos eleitores inferiores, uma maçada necessária! Estes acham aqueles hipócritas, no mínimo. Portanto, estão todos em estreita comunhão… na dissimulação.
E a realidade (alocada à verdade!) vai-se desconstruindo numa miríade de percepções de percepções. de impressões. de sensações. Normalmente negativas e catastrofistas.
Ainda assim, neste contínuo exercício de fingimento nem todos se envolvem ou deixam envolver e é por isso, se calhar, que ainda não vivemos num quase simulacro da realidade e da realidade de si, enquanto sociedade e enquanto indivíduos; ou vivemos?!.))
Fechando agora o grande parênteses, talvez a realidade ou as realidades nos advenham da experiência do que se passou, do que aconteceu “lá fora”, no mundo, e evocada “cá dentro”, na consciência, se estabeleça uma troca, uma interacção permanente entre a consciência do Eu e o pensar o Mundo… Será que é o Ver que dá origem ao Perceber (entendido como o trazer, o passar do “lá fora” para a consciência) que possibilita o Pensar?
Talvez o reflectir- que analisa demoradamente e em silêncio as coisas a partir de um eixo, de um centro interior primordial- seja profundamente subjectivo, e nessa subjectividade, qualquer reflexão, seja improvável transmiti-la ao outro; como se os olhos e os “olhos” do pensamento formem em si mesmos uma certeza última, sólida, diferente e, tantas vezes, oponente da do outro; e impossível de deslocar para fora de si essa “verdade” vivida e (re)confirmada no mais íntimo do ser: uma visão pessoal, individual da presença no mundo e da evidência do mundo que traz, e faz, prova (ontológica) do Ser. da Existência. da Realidade como tal… não se podendo transferi-la para um outro. Talvez.
O eu (entretecido) no mundo que se exprime e consubstancia a partir do Eu-mundo?
(e a Guarda- e Vila Mendo- e a realidade de si?)
Indagações. somente. isso.