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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

acabem-se as férias

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 6 de Agosto

No pretérito artigo “vida-e-morte- o valor certo da vida II” terminámos com a pergunta “Qual o valor certo da Guarda (ou de Portugal, ou de Vila Mendo, ou…)?” Deixamos a resposta (se a houver) a essa questão para depois das férias; e falemos aligeiradamente destas- as férias. Um dos grandes problemas da produtividade do país reside inequivocamente nas férias!!! Para além do que, na prática, não se trabalha nos dias de recesso, a questão maior é o que não se produz durante o ano laboral; e não tanto por incompetência ou má organização e gestão (o que acontece, não raras vezes!), mas talvez e sobretudo por passarmos metade do ano numa ânsia desmesurada para que elas cheguem, fazendo planos de planos, criando expectativas de expectativas, idealizando-as como se fossem a solução para todos os males e angústias que nos ensombram os dias (e as noites!). Depois passamos a outra metade em martírio por não termos feito tudo aquilo, ou nada daquilo que se programou. O que quer dizer, a bem ver, que passamos onze meses assim: com o pensamento imerso no que foi, e no que poderia ter sido, e no que vai ser da próxima vez. Claro, depois não será admiração que o trabalho sofra com o nosso sofrimento… e o país com isso! Sendo até caso para interrogar em forma de afirmação: Como é que o país pode andar para a frente?!. E ainda há uma nuance, toda uma outra nuance; é que mal entramos de férias começamos logo a remoer o seu términus: ai que já só faltam 10, 8, 3... dias para o fim. E pronto, lá passa o tempo sem ser aproveitado, ou melhor, sem nos aproveitar a nós mesmos! Portanto, estamos quase sempre na fase do “nunca mais chega”, “já está quase a acabar”, ou ainda do “nunca mais acaba”. De facto, parece que nunca estamos bem; e quando parece que estamos, arranjamos maneira de não estar! Somos assim. E não sabemos se poderíamos ser de outra maneira…
Já agora, e se for o caso, Boas Férias!

quinta-feira, 23 de julho de 2026

(vida-e-morte)- o Valor certo da Vida II

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 16 de Julho)

No pretérito artigo “vida-e-morte” terminámos com a proposição de uma questão: ”qual o valor certo da vida”? A resposta não é evidente, muito menos imediata; até porque no limite não há resposta. Quando muito há um sem fim de possibilidades que nos poderão aproximar (nunca chegar, talvez) a esse tal valor, ainda por cima, certo! Como humanos, gostamos de valores exactos; quantificamos tudo; o mundo de consumo rege-se por valores (entenda-se números) precisos; e se isso sim é uma evidência- porque no modelo de sociedade tudo ou quase é economia (se bem, se mal é todo um outro intrincado assunto) com as vicissitudes que isso nos traz (e nos leva!)- na reflexão que aqui se produz (pretensão) não é desse valor que nos importa… importando.
De facto não se pretende elencar, hierarquizar um conjunto de atitudes boas como de uma receita se tratasse; antes, e no máximo, ponderar (e o verbo aqui pode também não ser o a mais adequado) esse tal valor. E provavelmente nunca conseguiremos passar de uma insuficiente ponderação, quanto mais chegar à certeza desse valor. É… que a vida é… muitas vidas! A Vida são muitas pequenas vidas com que a vivemos e a surpreendemos como tal. São experiências, vivências, relações, emoções, sensações, realidades, percepções, partilhas variadas, ilusões, desilusões… Encontrar aqui um termo médio, um continuum produtivo e producente que, de alguma maneira, nos permita conciliar a quantidade (boa ou nem tanto) de estímulos e desafios com que somos assoberbados ao longo da existência e nos conduzem a contradições, tantas vezes insanáveis, comigo mesmo, e descobrir essa “media res”, e antes disso ter noção (ainda que esquiva) do meio termo de mim mesmo… seria chegar algo perto (na lonjura) do valor certo da Vida. Mas como a mente humana está, desde o início dos tempos, como que formatada para uma lógica competitiva dentro duma lógica de sobrevivência agimos (e reagimos ainda mais) de forma automática e insensata, camuflada por vezes naquilo que se designa por pragmatismo (e que é necessário em muitas situações, sem dúvida); porém quando sistematicamente e sistemicamente experienciamos a vida em binómios: bom ou mau; tudo ou nada; muito ou pouco; forte ou fraco; alegre ou triste, etc. ficamos reduzidos a eternos combates férreos que colectivamente conduzem quase que inevitavelmente a desgraças bastantes.
O valor certo da vida será portanto essa ponderação daquilo que são as múltiplas relações fixadas e multiplicativas ralações associadas que estabelecemos constantemente num processo infindo até ao fim (que é princípio para aqueles que acreditam na eternidade). É na perspectiva (e até na justificativa) de como encaramos os outros (e os outros nos encaram), como nos pomos no seu lugar e nos posicionamos nas interacções surgidas- e idealmente num processo simbiótico, levariam a benefício de todos- que poderemos alcançar um vislumbre fugidio desse valor. Deste modo, não haverá propriamente O valor certo da vida, mas poderá haver caminho… de possibilidades que nos irão (distantemente) aprochegar dele… e nos permitirão amenizar o medo imoderado da morte.
E, numa reviravolta um tanto ou quanto assombrosa na análise, qual o valor certo da Guarda (ou de Portugal ou de Vila Mendo ou…)?

quarta-feira, 8 de julho de 2026

vida-e-morte

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 25 de Junho)

Aquilo que temos de mais certo (se de alguma coisa deriva certeza) é a de que quando nascemos já estamos a morrer. Aquando da juventude não pensamos, não queremos ou não sabemos pensar sobre a morte; e pressupõe-se natural: quando estamos no auge físico, inundados de sonhos, ávidos de descobertas até ela parece vencível. Talvez no inconsciente da humanidade ecoe um desejo, que é mais do que isso; uma esperança, e que não é só isso; quiçá uma vontade pura e dura e férrea de querermos ser imortais. Nessa aspiração (que tem pouco de inspirada) encontramos facilmente os predicados (os bons, claro!) que sustentariam a nossa ansiada e merecida imortalidade!.. Se quisermos ser frios, pragmáticos, racionais (?) antes de nascermos não fazíamos falta a ninguém na “terrinitude”; surgimos e fazemos falta a alguns- e às vezes só a espaços- e depois da morte faremos falta a uns quantos e só por algum tempo: posteriormente, o esquecimento perpétuo para a maioria da humanidade.
A religião (cristianismo-catolicismo) emerge muito deste querer ser imortal, deste querer ser lembrado; e oferece-nos a imortalidade-da-alma e a recordação (e já agora a salvação) eternas. E acreditando mais, ou nem tanto, ou não acreditando sequer o que importa é o (re)conforto- quando pensamos seriamente nestas questões existenciais- de podermos ter essa possibilidade de eternidade (ainda que não física) que preencherá o vazio do nada que carregamos desde o início dos tempos (simétrico à predisposição de plenitude do divino?). 
De facto a ideia de futuridade está incrustada na nossa mente (mitológica)- e se tal não constituirá a priori algo de negativo, pelo contrário, se e bem entremeada com a ideia de presente (alicerçada no passado)- o que pode de algum modo levar a desvalorizarmos sobejamente o agora, na esperança suposta de um tempo novo, de coisas boas e só boas. Ainda assim, são muitos aqueles para quem só o hoje conta, pouco o passado, e o depois da vida não é. Como seres humanos somos muito assim: o tudo ou o nada. E na questão da morte será muito isso: para uns a certeza da sua ultrapassagem, para outros a certeza de que tudo termina com ela (e para tantos, depende dos dias e das disposições). Contudo, nos dois (três) casos o que poderá ser comum é o medo. O medo de a enfrentar. A dor em nós. A dor no outro. Temos medo de morrer. Temos medo daqueles que nos são próximos morram. Temos um medo imoderado da morte. E talvez para o ultrapassar, ou pelo menos para o suavizar, para o suportar só com o encontrar (provavelmente “encontrar” não seja aqui o termo, o verbo certo) o valor certo da Vida: trabalho de uma vida, portanto! Consequentemente (ou não!) a pergunta que se impõe, e que aqui somente se propõe é: e qual o valor certo da vida?


sábado, 13 de junho de 2026

Seminário- Fundão (Guarda)- Encontro Antigos alunos- I

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 28 de Maio)

A entrada da Casa grande é imponente. Continua imponente. Passado todo este tempo e à cadência de uma vez por ano (mais para uns, menos para outros) a Casa agiganta-se assim que o portão é transposto: fica maior, maior; como as memórias que acorrem em torrente ao pensamento, e paramos. E não param as lembranças, ainda que às vezes pouco claras: como quando, por exemplo, os espaços são entremeados com os da outra… da outra Casa. da Guarda. A quietude, que aquela porta aporta, importa. muito. É o silêncio que aprendemos; Aqui. Não o silêncio imposto como ausência de ruído, mas o silêncio interior, o silêncio-estrutura producente e conducente à reflexão, capaz de ser transformativo e que estruturará a vida, a nossa vida como tal: como vida viva (em alegrias e não alegrias)!.. Entramos e esperamos… o cheiro! Queríamos aquele cheiro tão característico dos corredores infindos que nunca acabam, porque sempre ligados, religados por uma e outra gente que ali descobriu mundo; o mundo; e o mundo de si próprio. O cheiro, o cheiro já não está; já não é! Mas está. cá dentro. E sentimo-lo agora! Como se fosse ontem!.. E o som… o som é o mesmo. Esse sim ouvimo-lo. do silêncio. Ouvimo-lo na natureza à volta, nas laranjeiras do claustro (de tantas brincadeiras), no ranger da madeira que range igual, nas grades do chão das portas laterais que dão para a rua e que à passagem (agora mais encorpada) produzem aquela sonoridade de então. As mesmas grades que suportaram todos aqueles, todos estes pés que hoje são diferentes, mas iguais a mim mesmo, porventura. E o som… já não é o mesmo. Faltam todos aqueles rapazes, todos estes rapazes (que ainda o são e nunca deixarão de o ser). Falto eu, faltam tantos eus que ao longo de décadas e décadas se fizeram ali ouvir. Falta essa sonoridade de gente presente. Resta só (que é muito) a voz de todos nós que, espalhados por tantos lugares, a damos a ouvir: essa, esta voz Seminário!.. E tocamos em tudo, como que esperando que o tocado nos devolva o toque e me reconheça como ser único (no todo) e me diga a mim (Luís, João, Manel, Zé…): lembro-me de Ti. Daqui. Lembro-me do teu toque, das tuas correrias e alegrias e sobrancerias; dos amuos, das tristezas, das incertezas; das tuas sabedorias e algumas pequenas aleivosias próprias da idade, dos teus dons vários. Conheço-te. Já não somos nós que falamos com a Casa, é ela que fala connosco e nos conhece melhor do que nós próprios. Ali. Sempre ali. Reencontro-me comigo próprio e escuto: és tu agora, porque foste Aqui, ontem. O amanhã? Há-de vir. Como sempre vem!.. E paramos de novo, e vemos e ouvimos e cheiramos e tocamos tudo; e tudo com o pensamento que não se aquieta, numa espécie de inquietude boa. E sentimos… um sentimento que é mais do que isso (porque os sentimentos esfumam-se tantas vezes, demasiadas vezes, se calhar). Não é um bem um sentimento… é um acrescento ao sentimento, é… uma sensibilidade. É isso, uma sensibilidade-serena, e terrena; não mais não menos do que isso (se divina, seríamos santos!). A Casa grande (para tantos) grande Casa ofereceu-nos essa sensibilidade: se a aceitámos, se a quisemos aceitar, se a soubemos aceitar, se a recusámos aceitar é toda uma outra e intrincada questão. Eventualmente, talvez possamos ainda agora resgatá-la, voltando à Casa e experienciando todas estas sensações, que são emoções, e são realidade: e são realidades dentro da realidade de mim. E esse voltar, esse regresso não é um recesso, muito menos um retrocesso; pelo contrário, é um progresso no conhecimento de nós mesmos, no conhecimento dos muitos eus que me povoam (do estranho em mim) e me fazem a cada passo entrar em contradição comigo e com o mundo. Uma contradição insanável que caracteriza todo o ser humano e que não pode ser reparada, quiçá, mas que pode ser melhorada. Conhece-te a ti mesmo. Tremendamente complexo. Trabalho de uma vida.
No pretérito dia 23 de Maio realizou-se o já habitual encontro dos antigos alunos dos seminários do Fundão e da Guarda e pudemos regressar a um tempo de nós mesmos: só nosso e só… de todos. Agradecer às contínuas direcções e demais órgãos da Associação dos Antigos Alunos na pessoa do Presidente actual (Jorge Simão), por manterem a chama viva e vivida, e consecutivamente organizarem este momento marcante e actuante de partilha fraterna. Este ano, um grupo de gerações mais recentes estiveram presentes. Espera-se que no próximo mais se juntem. O Seminário está. cá. dentro. sempre. Sejamos-lhe sensíveis. Porque dessa sensibilidade seremos pessoas melhores.
Nota: Ainda que um pouco a despropósito (ou não), dar conta que o nosso Bispo não esteve presente, nem no ano passado! Um aparte, que faz parte. Tão só.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

da Ignorância. do Conhecimento. da Felicidade- V

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 14 de Maio)

(continuação)
À pergunta: ”E qual é essa visão e quem a viveu?” a propósito de possibilidades de mudança frutuosas na jornada da vida; a resposta (esta) é decididamente mais simples, ainda que não fechada. De facto, se São Paulo parece, nalgumas das suas enunciações, dar respaldo ao esvaziamento, à fuga do eu para me tornar outro- o tal Homem novo livre do passado, desobrigado do presente, amarrado ao futuro- também no Cristianismo, Santo Agostinho introduz e induz uma nova visão (que será a dominante!) para um melhor conhecimento de nós mesmos, para a tão almejada felicidade (possível). Propõe uma confrontação do eu, que se sujeita ao próprio escrutínio de si. Não acena nem encena o surgimento de alguém completamente transformado e renovado (o que não quer dizer que não aconteça de alguma forma; talvez não de forma radical). Diz que essa confrontação é dolorosa no seu começar, no seu desenrolar e no seu terminar (porque nunca termina); que é absorvente e esgotante, por vezes, mas possivelmente será a forma mais capaz, mais duradoura de fazermos caminho de felicidade: porque não nos escondemos de nós próprios, não nos escondemos dos outros, não nos escondemos do mundo (que sou eu também). Nessa confrontação do eu, nessa auto-confrontação, Deus teve (tem) um papel: simplesmente (?!) revela a Santo Agostinho o lado (o estranho em mim) que ele não consegue ver, que está nele e lhe causa o sofrimento que o atira para uma espiral de comportamentos e pensamentos erráticos e vazios. Não consegue descortinar esse seu lado de miséria e é por Deus, pelo cristianismo, que lhe é dado a conhecer e a reconhecer tal através dos seus, agora, olhos conscientes; e passa a ver esse seu lado escuro, obscuro que vai posteriormente aceitar e integrar e melhorar: Conhece-te a ti mesmo. Uma espécie de epifania-humana. Só isso. Tudo isso. Não há raios luminosos, quedas de cavalo, visões do que há-de vir. Não há Homem novo de um momento para o outro (como em São Paulo). Uma visão diferente; mais custosa; mas potencialmente mais producente a longo prazo.
Depois de 5 artigos sobre o conhecimento e o não conhecimento no alcançar da felicidade como tal, aquilo que podemos dar como certo é o de que na caminhada da vida ela- a felicidade- não será um fim; antes um processo longo. Duro. Para que esse processo tenha laivos constitutivos de alegria substanciais e substantivas, talvez só com um autoconhecimento superior de nós próprios: e sabendo que esse autoconhecimento é ele mesmo também e muito um processo… infindo. Se a ignorância é de matizes várias, a ignorância-do-eu é marcadamente a maior de todas.
Quem não se quer Conhecer a si mesmo para Conhecer o mundo e assim Conhecer vislumbres de felicidade? Quase toda a gente. Quem o faz de facto, de maneira constante, sem desistências várias e variadas? Muito poucos, talvez!.. Se podemos ser felizes? Sim, às vezes!..

sexta-feira, 15 de maio de 2026

da Ignorância. do Conhecimento. da Felicidade- IV

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 30 de Abril )

(continuação)
À pergunta: e quais as soluções-imposições que amiúde procuramos? A resposta (esta) é, de certo modo, objectivamente mais evidente. As soluções (que são sempre imposições que colocamos a nós mesmos antes de as colocarmos aos outros para nos solucionarem as angústias e os tormentos que nos acompanham a cada passo) procuradas (e que às vezes nos procuram!) tendem a ser de cariz e de matriz do instantâneo, do milagroso, do mágico; que resolvam. E não importa se deslindam, ou sequer se me aproximam (ainda que longinquamente) das origens da dor: das condições e das contradições insanáveis (?) que a alimentam.
As igrejas evangélicas, movimentos pentecostais, seitas mais, outras organizações que tais, superstições várias e de variada natureza; terapias diversas, coaching, mindfulness, etc. (a ordem é aleatória e pode ser injusto, até incorrecto, fazer referência a estas últimas neste contexto…) prometem, da noite para o dia, um novo Eu; um novo mundo interior; sem se importarem com o conhecer dos muitos eus a que nos sujeitamos e que espreitam a todo o tempo (tantas vezes a destempo): uma espécie de fast-food-feliz de conhecimento (diferente Do conhecimento), uma espécie de versão light-luminosa da conversão Cristã. Onde a nível psicológico se faz tábua rasa do passado, do que aconteceu, do que foi; onde se coloca no armário, bem no fundo do armário tudo aquilo que fizemos e que fomos para começar tudo de novo; para ser outro, para ser outra pessoa-nova. É nesta ilusão de soluções mágicas que tantas e tantas pessoas se embrenham até à desilusão (ou não!) de verificarem mais tarde da fantasia de que escondermo-nos de nós próprios não será o mais producente: é que acabamos sempre por nos encontrar a nós mesmos… naquilo que somos com o que fomos; naquilo que fazemos com o que fizemos. Fugir psicologicamente pode resultar e beneficiar por algum tempo. A longo prazo a história (de mim mesmo) será outra: a minha! Sempre a minha!..
Mas no atrás referido (e uma vez que falamos também de algum tipo de religião) São Paulo não terá, digamos que… alguma responsabilidade (!)? Não foi ele que disse, e cita-se “Por isso, se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que tudo se faz de novo.”? Ora numa análise ainda que pouco fina (e se quisermos um tanto ou quanto descontextualizada), esta frase dá aso a uma justificativa para uma fuga do eu: há uma conversão, esquece-se o passado, e há todo um mundo, todo um futuro promissor sem as amarras e as agruras do acontecido- um Homem novo, portanto. O próprio Cristianismo- catolicismo- (de quem São Paulo foi preponderante para a sua implementação e aceitação) preconiza e adopta outra visão como forma de viver e estar e ser Vida em contínuo crescimento pessoal e social; que nos indica um caminho diferente para uma mudança sustentada, maturada de vida: não-fácil, mas possível. De facto, na história da humanidade são poucos aqueles mudaram radicalmente (verdadeiramente) a sua existência através de circunstâncias epifânicas. E qual é essa visão e quem a viveu?
(continua)

sexta-feira, 1 de maio de 2026

da ignorância. do conhecimento. da Felicidade- III

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 16 de Abril )

(continuação)
À pergunta: E como sair desta prisão interna criada, estruturada e construída meticulosamente ao longo da existência? A resposta (mais uma vez) não é evidente e muito menos clarividente. Talvez (e sublinhe-se o talvez) só (que é uma enormidade) com o conhecimento E o reconhecimento E a aceitação das nossas profundas, profusas contradições e limitações, e de todos (?!) os defeitos constitutivos, portanto… e o E destacado atrás, reveste-se de particular importância porque liga, religa os (supostos) passos-essenciais com que poderemos libertar-nos de nós próprios: da tal prisão interna. Só conhecendo mais ou menos intimamente, depois reconhecendo paciente e seriamente, e finalmente aceitando- sem subterfúgios- que há um (ou vários) estranho em nós mesmos (que sou eu como um todo) podemos aspirar a sair dela: uma espécie de predisposição (que é uma coragem) para aceitar que há coisas, que há muitas coisas em nós que… são nossas, e muito nossas e com que temos de conviver dia a dia; no fundo, que temos de conviver connosco mesmos: o que às vezes é uma maçada. Maçamo-nos a nós próprios porque aborrecidos e às vezes tendemos a não nos suportar; e a não pensar… sobre isso; a não pensar… sobre tudo isso… E a não nos pensar sobretudo! Quando o conseguimos, ou quando o conseguirmos, demos um grande passo (decisivo?) para nos sabermos mais, para nos compreendermos melhor, para deixarmos de ser (tão) ignorantes, desconhecidos de nós mesmos, para podermos ser um pouco mais felizes (ou menos tristes): que isto da felicidade não é coisa pouca- é trabalho de uma vida. E mesmo que o consigamos, este trabalho, duro, de auto-análise nunca termina; só recomeça como seres complexos. complicados. inusitados.
Conseguir tal, almejo substantivo e substancial. Num tempo tecnológico onde tudo é, e não é; onde tudo é instantaneidade com grande dose de vacuidade, não há vagar… não há tempo para a subjectividade: condição essencial para pensar; para nos pensar. Ora, se não há tempo, não há paragem; logo não há escuta, e logo não há silêncio (não mera ausência de ruído, mas um silêncio estrutural, intencional, interior que abre toda uma perspectiva de uma realidade nova para a própria realidade de nós e da nossa existência)… e então essa reflexão (esse olhar ao espelho-reflexo) torna-se inoportuna, incomodativa, dolorosa e assim não a fazemos, e deixamos que a nossa vida siga em piloto automático; e quando o desligamos procuramos soluções (como que imposições, aos outros… sempre os outros) milagrosas, que resolvam o sofrimento com que nos apresentamos ao mundo: e ainda que finjamos essa dor, ela está lá. Ela está cá. Sempre cá. Dentro. Bem dentro. E adentro da nossa vida e das nossas relações e ralações… tão muito e por culpa (substituamos a palavra culpa por responsabilidade) demasiadas vezes próprias. E quais as soluções-imposições que amiúde procuramos?
(Continua)

sexta-feira, 17 de abril de 2026

da Ignorância. do Conhecimento. da Felicidade- II

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 26 de Março)

(Continuação)
À pergunta: Qual a diferença entre o modo como eu e a sociedade achamos que nos devemos sentir e o modo como nos sentimos de facto? A resposta não é evidente; mas é estridente e objetivamente (?) pungente. Tantas vezes essa diferença é avassaladora, no limiar da refundação das marcas constitutivas que caracterizam o nosso ser: aquilo que os outros e eu mesmo esperamos de mim próprio pode ser diametralmente oposto àquilo que fazemos; e ainda que façamos o que se espera, demasiadas vezes o sentimento perante tal é profusamente desconforme. Deveria sentir-me de uma forma e não sinto isso. E sentimos outra coisa, outras coisas que são… coisas indefinidas, indefiníveis, vagas, distintas, contraditórias; mas próximas, mas presentes, mas concretas… na dor, no sofrimento que causam, na confusão que aportam e está ali; e está aqui; dentro; e quase a entrar em erupção e acção: num irrompimento de um eu, de um outro eu, de outros eus! Demasiados eus com que o eu tem de lidar e harmonizar, portanto.
Desejávamos sentir-nos assim e não nos sentimos desse modo: porquê? Não sei. Mas o problema residirá com mais impactância quando ao porquê respondemos: não quero saber! Ou melhor (que é pior) sei (ou acho que sei!) mas não quero, recuso terminantemente pensar sobre isso! Deste modo (e por esse modo), deixamos de ser uma simples (que é complexa) interrogação para mim próprio para me tornar um estranho perante mim mesmo. De facto, amiúde temos pensamentos, sentimentos, ações e omissões discordantes com aquilo que seria suposto e até imposto. E isso assoberba-nos pela sua quantidade, volatilidade e complexidade. E resistimos-lhe. E resistimos a que eles aflorem à análise crítica e reflexiva que se propunha e impunha. E escondemo-los de nós próprios. Mas tudo isso está lá. está cá. dentro. bem dentro. prestes a surgir e a ressurgir uma e outra vez com dor. Com a dor que nos leva ao auto-engano e que nos leva a fugir não de, mas para uma prisão. A prisão interior: onde se acumulam e carregam todos aqueles pensamentos inusitados e perniciosos e tristes que causam enorme pressão interna, que provocam pressão externa que, por sua vez, causam mais pressão interna num ciclo contínuo… de desapropriação, de sofrimento e padecimento. E como sair desta prisão interna criada, estruturada e construída meticulosamente( ainda que inconscientemente, muitas vezes) ao longo da existência?
(Continua)

sexta-feira, 27 de março de 2026

da Ignorância. do Conhecimento. da Felicidade- I

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 12 de Março)

Podemos ser felizes na ignorância? Podemos. E não podemos. Duas respostas. Contrárias; mas não antagónicas. Talvez até complementares (?)! Às vezes sim. A maior parte das vezes não. Como que um jogo de ping-pong assim somos nós com a mente, com o nosso pensamento a ir e a vir, a vaguear de um lado para o outro, para a frente e para trás; a querer conhecer e a querer não conhecer, a aspirar a verdade e a recusar a verdade… em intrincados movimentos titubeantes e não menos errantes; por vezes paralisantes que ensinam e recordam da nossa humanidade-humilde como tal.
Conhecer, saber implica entrar em problemas-outros (e dos outros), implica trazê-los para dentro de nós e juntá-los à catadupa dos que já existem no eu. Não admira portanto que muitas vezes não queiramos saber… para não sofrer; ou pelo menos para não termos o trabalho de aportar soluções e tempo que resultam em chatices várias e variadas que nos consomem sobremaneira e de toda a maneira… Não saber de, poupa-nos certamente a algumas dores de cabeça. Contudo o problema (que será um grande problema) reside quando continuadamente nos recusamos (consciente ou inconscientemente, ou ambas) a querer conhecer, a querer saber, a pretender a verdade; aquilo que será primeiramente um mecanismo de defesa saudável para a nossa mente e necessário pontualmente, passar a ser prática sistemática e sistémica.
Essa recusa torna-se então como que marca constitutiva, característica marcada e marcante do eu, que ao não querer conhecer muito do mundo exterior, conhece pouco do mundo interior. Ora se o mundo exterior é complexo, até caótico; o nosso interior, decerto, o não é menos. Assim, entramos num ciclo (que às vezes parece um circo) vicioso e viciante e asfixiante: recusando muito do conhecimento exterior, fechamos portas ao conhecimento do “cá dentro”, que por sua vez inibe a vontade de um melhor conhecimento “do lá fora”. Acrescendo a tudo isto, quanto menos nos conhecemos interiormente mais sofremos, e quanto mais sofremos menos queremos conhecer-nos internamente. Um problema; muitas questões, portanto.
Aceder primeiro, aceitar depois o conhecimento não dúbio das nossas profundas e profusas limitações e contradições, dos nossos desejos e devaneios é difícil, confuso. E, também com isso, sofremos. muito. Bem sabemos que o sofrimento faz parte da condição humana, mas a forma como o encaramos é que nos tolda, nos molda e tolhe, ou nem tanto…. podendo até definir-nos e à nossa existência. E não é só a forma como encaramos o sofrer, que por si só deveria ser uma ação segunda; antes teríamos de decifrar de onde (?) provém o sofrimento. E demasiadas vezes ele não advém de um qualquer estado externo das coisas (do mundo), mas antes de um estado interno, de desapropriamento em que falha claramente a harmonia connosco mesmos nos pensamentos e acções (e omissões!). E aqui atingimos um patamar crucial no conhecimento sobre nós próprios: qual a diferença entre o modo como eu e a sociedade achamos que nos devemos sentir e o modo como nos sentimos de facto?
(Continua)


segunda-feira, 2 de março de 2026

as Tempestades- de Nós

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 19 de Fevereiro)

A natureza é como a nossa própria natureza: imprevisível, por vezes irrascível, quase sempre incognoscível. Diz-nos da nossa tremenda pequenez e ainda mais da nossa vasta idiotez de nos considerarmos (os humanos) os donos do mundo. De facto, o Homem comporta-se como Criador; como se ele próprio não fosse criatura criada- o que o atormentará e lhe dará o ímpeto para através da vontade pura (e não menos dura) se permitir pôr e dispor de tudo e todos à sua volta; de todo o meio ambiente portanto. Um domínio avassalador, transformador (no sentido nullus do termo), aplanador físico das paisagens e recursos; planador das (suas) ideias e devaneios utópicos. Sabota a biodiversidade não se apercebendo que se sabota a si mesmo enquanto ser vivo deste mundo natural e plural- nunca singular. Um ímpeto criador, como se fosse regenerador (que não é), que postula uma supremacia sobre todos os outros seres aos seus desígnios. Que pensa (ou não pensa!) a vida global como conjectural para seu benefício. Até quando? Até um dia. Em que a natureza nos dirá da sua força imensurável e implacável.
As tempestades que assolaram o nosso país fazem-nos constatar a incapacidade (que é também e muito uma descapacidade) de lidarmos com a natureza e seus impactos. Paradoxalmente, ou não, com a inovação tecnológica como que nos forçámos a desistir de nos… diluir no meio ambiente, e com isso desistimos de uma certa… desaparição- que seria uma certa harmonia com a vida global como tal. A nossa (pretensa) superioridade terá um fim. Como será? Não sabemos. Podemos intuir. Querermos cegamente ser maiores do que nós próprios é meio caminho andado para sermos menores que todos os outros.
Particularizando; o tempo que assolou Portugal lembra-nos que o tempo não tem o tempo que o Homem quer. Acontece no tempo próprio da natureza. A forma como reagimos num primeiro momento a estas intempéries mostra aquilo que parece ser uma constante-inconstância ao longo da história do país: desorganização prévia e inicial. Num segundo momento ficamos aturdidos e abalados e lamentados. Depois a desorganização organiza-se; muito à custa do desenrascanço tão típico; e as competências, a ajuda, a solidariedade assomam fazendo com que as coisas (e as soluções) comecem a acontecer mais ou menos bem, mais ou menos rápido…
Parece ser sina; um sinal; uma marca da identidade portuguesa: a improvisação persistente. E não é só a improvisação: é o improviso do improviso! Portugal, forjado a partir de um impulso (ou de impulsos) alicerçou-se- a partir da dúvida e do medo permanentes pelo conseguimento efectivo da independência- na improvisação sistemática, característica essa que se foi mimetizando na história e que ecoa seminalmente no inconsciente colectivo dos portugueses até hoje (até sempre?).
Criticar negativa e destrutivamente a actuação das organizações e organismos responsáveis pelas respostas (ou falta delas) é sempre fácil, e é o mais fácil (não se sabe se o mais producente). Se fôssemos cada um de nós a decidir, a coordenar, a fazer… faríamos diferente? É possível. Faríamos melhor? É possível, mas questionável. A nível de coordenação, simplificação, clareza, interajuda das diversas organizações criadas para tais efeitos, os defeitos podem ser corrigidos? Claramente.
Prevejamos. Planeemos. Executemos. Bem. De maneira funcional e em cooperação (e sonhemos e esperancemos). As tempestades… hão-de ser muitas; as bonanças dependem, também e muito ou alguma coisa… de nós.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

o Mundo. tribulado: e Portugal e a Guarda e Nós

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 29 de Janeiro)

Estamos num tempo atribulado. Não que as tribulações sejam mais do que antes (certamente não serão menos) talvez, e quando muito, um tanto ou quanto diferentes na aparência, já que quanto à sua natureza derivam da condição humana: agora e sempre (por todo o sempre?). O mundo gira e com ele giramos nós- indivíduos e humanidade na sua tremenda fragilidade. Uma fragilidade que nos humaniza por um lado- com os nossos defeitos e virtudes constitutivos- e nos desumaniza uma e outra vez com as atrocidades e maldades de todos os tempos e a todo o tempo. Queremos, achamos ser melhores que os outros; as comunidades, as sociedades, as nações, culturas e civilizações, todas, à sua maneira e sobremaneira, se acham superiores às outras numa lógica de competição-conflito permanente e pungente.
Se atentarmos na actual situação geopolítica mundial, verificamos essa tendência para a hegemonia de um ou mais blocos à boa maneira dos séculos XIX e XX. Uma corrida imperial-colonial pela supremacia económica, militar, social, cultural… total sobre os outros blocos e países, na tal lógica atrás. Sabemos o que aconteceu nesses tempos. Podemos presumir o que advirá (se bem que, em muitas partes do mundo, já adveio): conflitos contínuos, brutalidades várias. O mal como acção e substância.
Particularizando ainda mais, também em Portugal esse clima de conflitualidade está sempre latente e bem patente. Veja-se umas simples (complexas) eleições presidenciais em que o caldo de cultura ficou apurado na primeira volta; e agora teremos de o degustar na segunda. O confronto ardiloso sempre actuante na ânsia do poder dilacerante. Na arena-política (?) parece que tem de sobressair o “político animal”!
Na Guarda o mesmo (ou semelhante); os políticos, os pretensos políticos, os apolíticos e até os impolíticos (e os comentadores?!.) entram todos (ou quase) um pouco na lógica (pré)estabelecida… O que vale (vale?) é que bastantes guardenses passam ao lado disso (e de muitos “issos”!..).
Individualmente, passamos o tempo em tribulações. Muitas vezes com o mundo; tantas vezes com os próximos; sempre connosco próprios. E às vezes nem nos damos conta dessa conflitualidade intrínseca e imanente com que nos apresentamos a nós mesmos à humanidade. Talvez porque não nos reflictamos com a profundidade necessária; que nos permita ver, quiçá, as profusas contradições e imperfeições (nem sempre as contradições são imperfeições, mas as imperfeições são sempre contradições) que nos caracterizam (e incaracterizam) a cada passo, e que nos exasperam e desesperam, e nunca esperam o outro… porque não queremos, ou não sabemos esperar(-nos): o que nos permitiria perscrutar no Outro um Eu; e no Eu um Outro… aliviando assim (nunca cessando) os conflitos interiores; aliviando (nunca cessando, porventura) os conflitos exteriores… Se calhar, por tudo isso (ou por nada disso!) amiúde, parecemos escombros andantes do nosso interior.
Somos assim, e não sabemos se poderíamos ser de outra maneira; mas certamente (ou eventualmente) desta maneira, podemos. ser. melhores. um pouco.
Entretanto, o Mundo. tribulado pula e avança… para a FESTA do CHICHORRO em VILA MENDO.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Sugestão de leitura(s)

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 8 de Janeiro) AQUI

Começa um novo ano. Que de novidade (suposta) só as costumeiras desgraças do mundo; os infortúnios de um Portugal que se nos apresenta- desde quase sempre- embrenhado em crises de crises… E as constantes adversidades de uma Guarda cada vez mais interior, a necessitar e a (des)esperar do (seu) Interior!.. Nada melhor então do que nos darmos ao prazer da leitura e por essa via entregar-nos, não ao esquecimento, mas ao entendimento (se tal for possível!).
Ler é um acto profundamente nosso, profundamente solitário mas, e ao mesmo tempo, profundamente relacional e empático. Ler, leva-nos para dentro de nós e (paradoxalmente, ou não) orienta-nos para fora, para o mundo, para fora do mundo. Faz-nos imaginar. mais. Faz-nos pensar. melhor. Faz-nos imaginar o pensamento. Faz-nos pensar a imaginação. Ler, dá-nos Vida e dá-nos a vida que sonhamos (ainda que por instantes). Empodera-nos e torna-nos mais Eu… no Outro; com o Outro.
Os livros sugeridos não são os preferidos, ou os mais preferidos. São aqueles que têm mais sentido, hoje. Nem sequer ficam divididos por qualquer categoria. Apresentam-se na ordem que advêm ao pensamento, no agora; poderiam ser infinitamente outros. A excepção, o primeiro aqui apresentado, porque o primeiro lido (pelo menos na memória, de um livro lido na totalidade) em Vila Mendo, na escola primária:
Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro- para miúdos e graúdos: um Aquilino que escreve e nos reescreve com a sua dureza e crueza e pureza (pungente), como em Aldeia- Terra, Gente e Bichos. Tolentino Mendonça com, por exemplo, A Leitura Infinita, para nos compreendermos e a o mundo; a bíblia é aquele horizonte onde histórica e culturalmente nos inscrevemos. A História do Silêncio de Alain Corbain, o Silêncio, mais do que mera ausência de ruído... visto como valor filosófico e visto na sua dimensão educativa. Thomas Mann com José e os Seus Irmãos, algumas figuras bíblicas revisitadas e humanizadas; as virtudes e as fraquezas da condição humana neles presentes para poder dar resposta(s) à crueldade humana. James, a partir do clássico de Marck Twain As aventuras de Huckleberry Finn, o autor Percival Everett reinventa essa(s) história(s) e coloca o foco da acção num outro ponto de vista; e da perspectiva do escravo Jim. Luís de Sttau Monteiro e as Redacções da Guidinha, uma leitura humorística pelo olhar ingénuo, mas tremendamente perspicaz, de uma adolescente que nos delicia com um conjunto de crónicas de costumes fazendo-nos pensar das profundas e profusas contradições sociais e da condição humana. Fausto de J.W. Goethe, o pensamento da humanidade (ou pelo menos da civilização europeia e ocidental) é profundamente marcado pelas narrativas (alegorias) da queda (pecado) do Homem causadas pelo conhecimento: a Árvore do Jardim do Éden, a Tragédia Prometaica e o Pacto Fáustico: em Goethe este mito adquire novas possibilidades, novas potencialidades significativas. Moby Dick, um clássico adaptado para banda desenhada; o preto e branco muito bem dominado... fiel à história; a linha ténue entre a tenacidade e a loucura, ou a raiva ou ambas, aqui bem expressa. Trilogia- de Jon Fosse, leitura não-fácil mas depois de alguma estranheza, entranha-se. Paul Celan em Os Poemas, poesia de uma expressividade, de um minimalismo radical; profundamente hermética, quase (ou mesmo, por vezes) que imperscrutável e talvez, e por isso mesmo, de uma beleza... crua, pura e dura; um poeta marcado intimamente pelo holocausto: até ao fim; são poemas... do silêncio... do tempo; do silêncio das palavras; do silêncio entre as palavras. Qualquer livro de George Steiner, crítico literário, pensador de excelência, por exemplo As Artes do Sentido.
E agora mais apressadamente, mas não menos recomendáveis: Obra Completa de Arthur Rimbaud, poesia/prosa. De António Vieira O tempo e o sagrado- Deuses do deserto e deuses da floresta; e O perceber do Mundo- O Ser e o Saber. Nós, filhos de Eichmann de Gunther Anders. Tomás de Kempis com a Imitação de Cristo. Eduardo antes de ser Lourenço- textos de juventude. As sete últimas palavras de Timotthy Radcliffe OP. De Martim Puchner Cultura- uma nova história do mundo. Nuno Montemor com Rapazes e Moças da Estrela, Maria Mim, ou A Maior Glória. O Espaço Interior de José Gil. A Biografia de Hannah Arendt, por Thomas Meyer. Na Banda Desenhada, Paco Roca com O Farol, O Jogo Lúgrube ou Trilhos do Acaso. E os Astérix, nomeadamente o último, na Lusitânia… Os autores recentes da nossa cidade, ficarão (mais uma vez!) para outra momento quando forem lidos os seus últimos trabalhos.
Os jornais, todos (embora uns mais que outros…). Os da Guarda: Jornal A Guarda e O Interior, está claro. O Público com o seu suplemento Ípsilon, o Jornal de Letras, a revista Ler, a revista Electra são boas opções; e A Bola ou o Record também se podem assomar de quando em vez.
Enfim, um conjunto de sugestões que poderão interessar. Ou não. Leamos.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

o(s) Presente(s)

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 25 de Dezembro)

O pensamento do Homem (porventura, excessivamente funcionalizado) pensa, ou melhor, percepciona o tempo ou os tempos- passado, presente, futuro- como compartimentos estanques e bem delimitados e bem delineados. Mas o tempo define-se, caracteriza-se por tal? Segmentado nesses três momentos diferentes e que se consideram diferenciados e mais ou menos distantes? Porventura, tal não sucede. Quiçá, não haja divisão entre passado, presente e futuro: pois entrelaçam-se, mesclam-se, confundem-se e confundem-nos em percepções de percepções, tantas vezes erradas e erróneas. Talvez, o passado seja presente que já foi; o presente seja passado que já é; e o futuro… o futuro, talvez não seja, porque nunca foi! O futuro é (?) um presente-outro, são presentes outros.
E talvez seja aqui que nos devemos ou podemos situar como humanidade: no presente- sempre eterno. Passível de ser moldado, melhorado e explorado de maneira superlativa pelo ser humano: com uma vontade que nos interpela a agir no agora para que possamos ter outros agora- producentes, idealmente- mas diferentes da Vontade pura, chamemos-lhe assim, postulada nalgum pensamento filosófico que pressupõe que o mundo é no princípio e no fim somente vontade, traduzida no voluntarismo, no domínio avassalador e “vassalador” sobre o mundo; no fundo, no triunfo da vontade total como tal, cujos resultados últimos (senão primeiros) são as guerras, os confrontos e os conflitos permanentes, sempre latentes e sempre pungentes.
Muitas vezes, vivemos afincadamente numa espécie de passado, assoberbados com uma espécie de futuro, e o presente, esse, deixamo-lo ir… sem rumo ou destino que nos ampare e nos prepare para os tantos “quês”, nos inúmeros porquês, e sem vislumbre dos “para quês”. Vivemos como que numa realidade-ilusória do antes, que se projecta uma e outra vez para o depois em saltos “quânticos”, que nunca está no agora, no hoje; no que importa; se é que importa!.. E passamos o tempo importando formas e fórmulas que nos preparem para o que há-de ser (martirizados pelo que foi); e deixamos de ser; porque nos esquecemos de ser-agora…
Neste tempo de renascimento, de (re)união, de (re)esperança que é o Natal, talvez devamos tentar o Aqui. Deixar o ontem (sem o esquecer) e o amanhã (sem o perder!) e: parar. e esperar. e valorizar. o outro. que sou eu. também…
E no presente, o melhor presente é estarmos presentes na Vida; e na vida de todos aqueles que nos consideram. É estarmos presentes nas relações (e nas ralações) de todos os que gostamos. E de quem não gostamos tanto! Mas isso… é somente isso. Que é tudo, ou quase!..
Boas Festividades.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

esperar o Esperar

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 4 de Dezembro)

O pensamento da humanidade (pelo menos o ocidental) está profundamente ancorado à morte de Cristo (e de Sócrates). No nosso inconsciente colectivo ecoa seminalmente esse momento, esses momentos de sofrimento do Criador- também ele criado- às mãos da criatura: o Homem. Considerando metaforicamente a jornada da humanidade balizada entre a Sexta-feira (da Paixão), o Sábado e o Domingo (da ressurreição), encontramo-nos na longa caminhada do dia de Sábado; aprisionados entre a dor, as desgraças, as ignomínias que ocorrem a todo o tempo e em todo o tempo- que é Sexta-feira- e a Utopia (?) do Domingo em que todas as nossas aspirações e preocupações, efabulações e manifestações de toda a índole já não terão lógica ou necessidade pela realização plena com Ele.
Esta tal longa caminhada de Sábado em que nos encontramos, é caracterizada por um longo esperar. Uma espera nesse Domingo que há-de vir (e com ele o sonho da libertação, do renascer, dum tempo de felicidade total), mas que nunca chega; e nos desespera e nos angustia e nos revolta. Um estado contínuo de desilusão com que somos assolados por não chegarmos… E uma paciência aflora, ou tem de aflorar para que o imenso Sábado se não eternize e se veja o vislumbre do Domingo. Todas as nossas apreensões, figurações, representações… no puzzle da imaginação (?) metafísica ganham (algum) sentido com essa paciência que emerge, talvez, a partir da arte e das artes como tal, que nos permite suportar o sofrimento, a solidão, a perda inexplicável ao longo de todos os tempos, como seres simplesmente humanos. E não mais; Mas, não menos do que isso…
E esta espera exige. Exige silêncio e atenção. Exige uma constante e dura luta mental: onde os pequenos pensares supérfluos e inúteis (?) dominam amiúde o pensamento e, não raras vezes, a acção. Talvez, tenhamos de esperar pela Palavra, por outra (?) Palavra (de Deus) que ainda não foi dita; ou se dita, ainda não escutada- muito menos compreendida: se calhar, porque a linguagem humana ainda a não consegue proferir… e esperá-la no silêncio do mundo, surgido a partir do silêncio de nós. Trabalho árduo e desgastante, portanto.
Num tempo de apressamento voraz que não se satisfaz, se impacienta e não se silencia com nada nem com tudo; teremos de querer compreender o todo (como se tal fosse possível!) para que o Sábado seja uma simples (complexa) passagem- que é (?). Teremos de voltar a colocar a espera no nosso querer. Teremos de esperar o Esperar: para que a Sexta-feira seja pretérito mais-que-perfeito; o Sábado pretérito; e o Domingo, presente eterno…

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

o Homem criador (e o Criador)

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 20 de Novembro)

Talvez o Homem seja profundamente complexado; que advém (?) de impulsos, ou de um impulso (inconsciente) de provar e de se provar como ser arquitector, construtor, fazedor face à sua condição de criatura, portanto criada e feita. E, por tal, busca e deseja ardentemente por todos os meios ser fazedor; criador, porque não se criou, não se originou a ele próprio. Será essa a causa da instabilidade urgente e sempre presente e sempre pungente do mundo? No fundo, uma desenraização com que somos assolados e atolados e dela nãos nos podemos livrar como humanidade; ou podemos? Uma instabilidade (já enraizada) que culmina, uma e outra vez, nas maiores desgraças, nas maiores monstruosidades ao longo da história.
Nesta “complexação-instável” (que será também uma vergonha-enredada) a técnica- a tecnologia agora- assume, ou poderia ou quereria assumir, porventura, um papel de estabilização no pensamento-acção do Homem. E consegue-o?
Talvez na tentativa de compensar e ultrapassar esse complexo, a humanidade tem utilizado a técnica e a tecnologia a uma escala que, hoje, está num patamar tão incrível que no amanhã será imensurável. A quantidade de dispositivos e produtos tecnológicos associados que nos auxiliam, quiçá sejam uma forma de o Homem se compensar a ele próprio pela sua não participação no surgimento primeiro; por não se ter planeado a ele mesmo e à sua natureza, a partir da razão… E se muitas vezes a tecnologia nos ajuda e nos permite a tal estabilidade, globalmente e numa análise mais fina, mais funda, ela é (também) responsável pela desestabilização do mundo (que já esteve mais longe de ser absoluta). Nessa perspectiva, como que nos diluímos nos artefactos criados. E deixamos de ser nós sem nunca sermos os artefactos. Ficamos como que numa terra de ninguém, num limbo sem referências ou inferências que nos respaldem como seres simplesmente (!) humanos.
Se atentarmos, por exemplo, na inteligência artificial tão premente e tão preocupante pelas possibilidades que (já) se vêem e pelas imensidades que se antevêem, há como que um paradoxo-primeiro: a inteligência artificial- a coisa criada, chamemos-lhe assim- torna-se criadora. Ora, se ecoa seminalmente no inconsciente da humanidade uma vergonha, pela nossa natureza não fabricada pela razão; e se sempre quisemos ultrapassar (até mesmo “matar”) Deus- o Criador- agora, criamos uma coisa que nos vai recriar. Nunca conseguimos fugir da sombra do Criador e na ânsia de lhe escaparmos originamos algo que vai suplantar quem lhe deu origem (o Homem): a criatura supera o próprio criador, algo que o Humano nunca conseguiu com o seu Autor… Será que à conta de tal, iremos assistir num amanhã a que a Criação origine uma reCriação que se tornará descriação- total, fatal?
Não sabemos bem o que nos espera, mas já sabemos o que nos desespera: o pensar na possibilidade do ser humano na Criação (portanto no mundo de todos os seres vivos) ser um seu excesso! E como tal, os excessos tendem a ser eliminados. E o que nos angustia ademais, é prever/saber que será o excesso a eliminar-se a si mesmo, em movimentos-evoluções autofágicos… Tormento rumoroso no silêncio de nós.
Pessimismo azucrinante? Eventualmente. Mas ainda e sempre com uma esperança ardente de que o Criador (se for o caso) “compareça” e se compadeça…

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

o Homem e a(s) Ausência(s)- Pe. Zé- Pe. Quim Tó- Tiago

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 23 de Outubro)

A vida é princípio do fim. Fim que é princípio para aqueles que acreditam na eternidade da existência.
A vida é viagem. É destino. Mas importa a viagem se não há (ou não se vislumbra) destino? Importa o destino se a viagem é incerta, dura, trágica… tantas vezes?
A vida é presença. É ausência. De facto, a humanidade anseia por presença (física- agora também virtual). Num tempo em que há um afã assoberbado e acrítico pela novidade (suposta), o homem quer estar em todo o lado a todo o momento com todos, e quer que todos a todo o momento estejam em todo o lado com ele; num excesso de presença que se impacienta, que não se reserva nem se silencia: uma presença de sucessivos presentes… eternos.
A cultura moderna quer sondar, desvelar e revelar intimamente todos os mistérios e submetê-los; agrilhoá-los por meio do conhecimento… total, por meio de uma racionalidade… total- optimista. Uma cultura de Presença, do revelado por oposição à Ausência e ao velado. Como o modelo de racionalidade absoluta não conseguiu (consegue) resolver os principais problemas da humanidade, nem muitos dos seus mistérios, estaremos agora numa cultura de pós-modernidade- pessimista. Sem saber onde se deve ou pode respaldar. E esta mesma cultura que celebra a presença e aquilo que é manifesto coloca de novo a hipótese do invisível, do mistério, do intocável, do insondável, do não revelado … mas não necessariamente Deus nem a cosmovisão que Ele propõe (e a religião impõe); antes microvisões, pequenas narrativas locais, fortemente identitárias, incoerentes e inconsequentes, não raras vezes. Por tal vivemos debaixo destas duas realidades concomitantes: a Presença e a Ausência (complementares e antagónicas ao mesmo tempo).
A própria religião (cristianismo) está fortemente ancorada na Presença- divina (são disso exemplos os sacramentos) e tem dificuldade em falar da ausência e do seu sentido; até porque Deus é, ou pelo menos também é, Ausência. Num tempo em que há uma ausência de sentido e nada faz sentido (o que ajuda e justifica- racionalmente- ao cometimento das maiores atrocidades e desumanidades) era importante que a religião (pese embora tenha sido e seja uma, ou mesmo a maior fonte de sentido existencial nas sociedades) propusesse um sentido para a Ausência. Um sentido para o silêncio… da Ausência! Um sentido para a presença da palavra silenciosa… de Deus (?).
A ausência, e particularizando nas nossas experiências vivenciais e entendida aqui e agora como a falta de; desaparição de; separação de… revela-se algo custoso, sofrido… sem sentido! Somos seres profundamente relacionais. O desaparecimento de alguém importante, que connosco comungou de tantos momentos e de todos os momentos (bons e nem tanto), congrega em si mesmo um acto de profunda reflexão, de uma funda inquietação que nos leva a uma terrível, quase que terrorífica pergunta: Porquê? De resposta nenhuma. E fazemos outra: Para quê? De vislumbre nenhum. E acabam as perguntas… sem acabarem, nunca.
Também aqui precisamos do sentido para a ausência. O que nos leva a mais perguntas: Onde? Quem? Como?.. De resposta sumida. E acabam as perguntas… sem acabarem, nunca.
Foram três os amigos que, mais ou menos recentemente, nos deixaram: o Tiago Gonçalves de Vila Mendo, amigo de sempre, em 2020 aos 36 anos; o Quim Tó, amigo de há tanto, em 2023 pelos 50 anos; e o Zé Dionísio aos 58 no mês passado. Com a morte do Pe. Zé revivemos na tristeza profunda (mas paradoxalmente também na alegria das memórias que permanecem vivas e vividas) os outros dois irmãos: um exemplo de pessoa e de padre, sempre solícito e importado com os demais. Conheci-o em pequeno no seminário do Fundão e até ao pretérito e fatídico dia 13 de Setembro fez o favor de me (nos) distinguir com a sua amizade sincera e presente e contagiante e… Aquilo que dizia nos seus últimos dias de padecimento é revelador e avassalador: “Não tenho medo de morrer, sei que vou ressuscitar”. Exemplo de fé e de dádiva. Entre muitas e variadas actividades, em que deu corpo e alma, salientam-se os Encontros de Liturgia em muitas comunidades da Diocese; e a Escola de Música Sacra no Seminário da Guarda: dois exemplos de evangelização de proximidade- feita com método, propósito e substância- frutuosa (que pude testemunhar por dentro). Uma perda irreparável. Três perdas insupríveis. Três homens bons.
A eles, à minha querida mãe e às contínuas gerações de Vilamendenses que fizeram Vila Mendo e me, e nos fazem (ainda agora)- Nós…
A todos os que se amargam e se consomem com a(s) ausência(s)…
Ausência: presença-sofrida-silenciosa!


sexta-feira, 10 de outubro de 2025

a Guarda e as candidaturas autárquicas

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 25 de Setembro)

Tentar analisar as candidaturas autárquicas à Câmara da Guarda com traços de não parcialidade afigura-se complexo e com poucos, ou nenhuns, laivos de completude. Aspirar à imparcialidade absoluta é, no mínimo, inglório (no máximo despropositado). As convicções e as percepções; as suposições e as motivações; as ambições emanadas das nossas imperfeições; o conhecimento e as afinidades mais ou menos próximas- independentemente de intencionalidades- conduzem-nos (até inconscientemente e quase que imperceptivelmente) ao deixar entrar nas nossas boas graças Este ou Aquele; Isto ou Aquilo (e o seu contrário, também)
Portanto esta tentativa de análise-equidistante enferma duplamente: primeiro, da sua quase impossibilidade que advém da sua natureza própria; depois, pela consciência dessa mesma impossibilidade… Ainda assim, arrisca-se um pequeníssimo exercício de uma análise muito geral com alguma profundidade (!) em contraponto a uma análise muito específica que seria, por certo, superficial… outros o farão, decerto, melhor. E é um exercício de mais perguntas do que respostas em que talvez, no máximo e por essa - e só por essa- via, se tentam dar à compreensão (ou pelo menos à reflexão) algumas incompreensões.
Quando se olha para as diversas candidaturas e ao sem fim de candidatos a qualquer coisa, aquilo que nos sobrevém ao pensamento é: porquê estas pessoas? Porquê estas e não aquelas? Que critérios, que nuances determinaram a sua escolha, e que critérios foram determinantes para a escolha de quem escolhe? No fundo, quem escolhe os escolhidos e quem escolhe o que escolhe (na suposição que que é o cabeça de lista que opta pelos demais)? Foram decisões pensadas e previstas e planeadas de acordo com uma visão estratégica e estruturante para a Guarda?
De facto, e tirando o actual Presidente da Câmara Sérgio Costa de quem já se sabia da sua intenção de se reapresentar a eleições, as candidaturas, presume-se, desenhavam-se muito diferentes há tão somente três meses atrás. E há seis meses as conjecturas ainda seriam outras, e antes o mesmo. Parece que- de forma transversal- foram feitas e preparadas sem o tempo que este tempo (da cidade) exigiria. Talvez tenham sido estes os designados, face às circunstâncias e às urgências… Fica a sensação de que numa fase anterior (ou até posterior!) muitos dos candidatos seriam outros: calharam a ser estes!
É este calhar (de que não nos podemos livrar sempre, é certo!) que neblina a nossa Guarda e a sua afirmação e o seu despontar como comunidade verdadeiramente comum… uma comunidade que caminha a passos largos para algum tipo de polarização que não augura futuros fáceis pelos presentes já extremados no nós os bons e sabedores, vós os maus e insipientes; de que as redes sociais se alimentam vorazmente, deixando-nos um pecúlio de intolerância patente e maldade latente.
Os políticos que são agora indicados para tentarem ser eleitos nas eleições, deixaram e deixar-se-ão ser escolhidos, portanto resta-lhes só (que é muito) trabalhar para o bem-comum: simples. complexo. doído. desafiador. recompensador. Os outros políticos não são inimigos; são apenas adversários (e basta). Trabalhem- e trabalhemos todos- em genuína cultura democrática e não maldizente nem fortemente adjectivadora… Esperança utópica? Quiçá! Mas é a esperança que confirma a nossa presença no mundo. A vida, sem esperança, é? E que elites esperamos- para tal? As elites na Guarda são? Operam? Na sombra? E outras indagações afloram ao pensamento sem que as respostas se deixem entrever…
Nota: o Acácio Pereira de Vila Mendo, portanto um Vilamendense e amigo de sempre, é candidato a presidente à Junta de Freguesia da Guarda. Uma palavra de reconhecimento, independentemente dos resultados próximos. Que seja exemplo do atrás aludido.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

o Tédio (e a Política e a Guarda)

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 11 de Setembro)

Nestes tempos altamente imediatistas em que se quer fazer mais e tudo, em que se quer produzir mais e tudo, não há tempo para a paragem. A voragem dos dias pressiona-nos a entrar numa espécie de espiral de excesso de informação, de estímulos, de impulsos de que o excesso de positividade é anunciador. A percepção, a realidade e a percepção da realidade tornam-se marcadamente fragmentárias, amplamente dispersas e dispersantes. A gestão do tempo torna-se quase como que um imperativo moral (sem moral, tantas vezes). Saltitamos de tarefa em tarefa para convencer os outros e a nós mesmos que fazemos muito, variado e bem (e fazemos também); para demonstrarmos ao mundo a nossa excelsidade…
Mas essa gestão tem implicações várias na atenção. Não na atenção digamos que superficial, embora ampla com que conseguimos executar e funcionalizar actividades múltiplas e com resultados meramente produtivos; mas com nulos ou poucos resultados criativos: estes só ao alcance da atenção profunda; que permite a reflexão, através do pensamento, por via do silêncio… que pode derivar do Tédio!
Um Tédio que não é aborrecimento paralisante, antes pensamento-referente-em-acção. Um tédio que inaugura um tempo novo da atenção profunda de que germinará todo o processo criativo tão necessário à cultura, às artes, ao avanço técnico e civilizacional como tal. A pressa, a imediatez, o frenesim (por si sós) não gerarão nada de novo; limitando-se a apressar o já existente.
O Tédio que permite a atenção profunda que possibilita o escutar, que propicia o espanto, que se faz criação... Esse escutar tão arredado que está do nosso modo de vida tão ávido do Eu hiperactivo que não dá ao espaço ao Outro (esse Outro que também sou Eu). De facto, a capacidade de escuta é o primeiro e primordial passo para nos colocarmos no lugar dos outros, e com isso e com a serenidade subsequente evitarmos as maiores violências e barbáries com que somos assolados desde o início dos tempos.
Poderíamos então, quiçá, cultivar o tédio. Essa arte de nada fazer (e termos essa consciência, plena) para se fazer tudo (ou alguma coisa significante e transformante) depois.
Em jeito de nota sem o ser (sendo), também na política este tédio poderia ser cultivado. Em primeiro lugar na Guarda (não se nomeia aqui Vila Mendo!..). Que políticos somos- cada um de nós? Como nos posicionamos e como contribuímos, dentro das nossas possibilidades e impossibilidades e capacidades para o desenvolvimento da Pólis? Que políticos temos, desejaríamos ter, ou era melhor ter? Agora que chegam as eleições autárquicas e o frenesim que lhe subjaz, era tempo dos candidatos se imbuírem deste tédio, que lhe seria útil para aprimorarem a atenção profunda; no silêncio; escutando e reflectindo verdadeiramente; o que certamente lhes possibilitaria actuar na realidade (e até nas suas percepções) de maneira valorativa e transformativa- na comunidade que nos suporta e nos importa: a nossa Guarda. Aguardando isso, talvez não se deva aguardar por tal: é que até a esperança (utópica) tem os seus limites!..
E agora como nota mesmo: talvez se faça aqui uma análise geral às candidaturas à câmara da Guarda… se o tédio (não este de que se fala aqui, mas do outro useiro e costumeiro) não se apoderar do pensamento e dos pensamentos…
O Tédio… e o tédio…

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

o gostar de não gostar (de odiar?)

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 31 de Julho)

A condição humana remete o Homem (recorrentemente) para o conflito… com os outros; com ele mesmo. E uma tristeza advém ao pensamento e apodera-se dele, e por ele se cometem as maiores atrocidades (as maiores virtudes, também). Esse pensamento que fica preso e represo em ruminações, remoendo a realidade; tantas vezes a irrealidade.
Um dispêndio de energia que nos esgota e não dá resposta às nossas conjecturas de conjecturas mais. Mas ainda assim, fatigados com esses pequenos e inúteis pensamentos, gostamos de não gostar de alguém. E se frequentemente esse não gostar se queda por meros pensares, outras vezes fazemos questão de o demonstrar através de palavras e acções e omissões.
O que é facto (senão porque seria?) obtemos um certo prazer de pensar, dizer ou fazer mal a alguém. Algo que está cá dentro, e como que um tormento não o conseguimos debelar completamente (conseguimos?), esse pulsar- latente- de ódio, até. No fundo, gostamos de fazer o mal, ou pelo menos um certo mal (seja lá o que isso for); censuramos o próximo, ciosos de o vigiar e inquisitorialmente questionamos os motivos dele e de todos os próximos (raramente os nossos).
Talvez busquemos motivos (fúteis e inúteis), razões de queixa e queixumes, todas as fontes de insatisfação, até sobre os amigos: para nos afastarmos deles, para nos justificarmos a nós próprios que (já) não os apreciamos e pouco queremos a sua companhia. Exemplos mais seriam incontáveis.
A repetição, o enfado, a rejeição tomam conta de nós a cada passo, e cercam-nos e cerceiam- nos ficando como que aprisionados nos pensamentos-acções que destilam indiferença (que se faz presença, notada) do outro.
Comunitariamente, o ódio lança sociedades contra sociedades, países contra países numa deriva autodestrutiva cujo fim se depreende e cuja finalidade se não entende. De facto, desfiando, e por tal deslindando, a teia da vida humana nas suas múltiplas e infindáveis meadas (entremeadas), damo-nos conta que- delas- fazem parte várias nuances de maldade: falta de empatia, falta de sentimento, compreensão, desprezo dos outros e ignorância de nós mesmos… em que os hábitos costumeiros se sobrepõem à excelência, e esta reiteradamente dá lugar à infâmia.
Entrincheirados numa espécie de frenesim-maldizente- de que as redes (in)sociais são eco último- passamos o tempo a congeminar, a vociferar contra o outro de forma destrutiva; nesse tempo que se torna destempo… Assim, fazemos o bem, mal; e fazemos o mal, bem! Exasperante contradição que nos arquitecta e imprime a marca indelével da condição humana.
Poderíamos mudar e transformar um pouco essa condição? Talvez! Mas talvez isso seja difícil, custoso e exija uma permanente e profunda reflexão individual que se torna quase insuportável: por estarmos, sem filtros, connosco próprios e darmos conta das nossas imensas e antagónicas fragilidades- defeitos constitutivos, portanto. Não muito diferentes dos outros. Preferindo a ilusão do faz-de-conta da nossa superioridade total, ao constatar real da nossa imperfeição substancial…
Gostamos de não gostar, e isso irrita-nos. E define-nos.
Nota: Nos próximos tempos de campanha autárquica na Guarda é provável que o seu objecto primeiro (e último?) seja a crítica maldizente. Infelizmente. Somos assim, e não sabemos se poderíamos ser de outra maneira!..