Mostrar mensagens com a etiqueta reflexões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta reflexões. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

acabem-se as férias

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 6 de Agosto

No pretérito artigo “vida-e-morte- o valor certo da vida II” terminámos com a pergunta “Qual o valor certo da Guarda (ou de Portugal, ou de Vila Mendo, ou…)?” Deixamos a resposta (se a houver) a essa questão para depois das férias; e falemos aligeiradamente destas- as férias. Um dos grandes problemas da produtividade do país reside inequivocamente nas férias!!! Para além do que, na prática, não se trabalha nos dias de recesso, a questão maior é o que não se produz durante o ano laboral; e não tanto por incompetência ou má organização e gestão (o que acontece, não raras vezes!), mas talvez e sobretudo por passarmos metade do ano numa ânsia desmesurada para que elas cheguem, fazendo planos de planos, criando expectativas de expectativas, idealizando-as como se fossem a solução para todos os males e angústias que nos ensombram os dias (e as noites!). Depois passamos a outra metade em martírio por não termos feito tudo aquilo, ou nada daquilo que se programou. O que quer dizer, a bem ver, que passamos onze meses assim: com o pensamento imerso no que foi, e no que poderia ter sido, e no que vai ser da próxima vez. Claro, depois não será admiração que o trabalho sofra com o nosso sofrimento… e o país com isso! Sendo até caso para interrogar em forma de afirmação: Como é que o país pode andar para a frente?!. E ainda há uma nuance, toda uma outra nuance; é que mal entramos de férias começamos logo a remoer o seu términus: ai que já só faltam 10, 8, 3... dias para o fim. E pronto, lá passa o tempo sem ser aproveitado, ou melhor, sem nos aproveitar a nós mesmos! Portanto, estamos quase sempre na fase do “nunca mais chega”, “já está quase a acabar”, ou ainda do “nunca mais acaba”. De facto, parece que nunca estamos bem; e quando parece que estamos, arranjamos maneira de não estar! Somos assim. E não sabemos se poderíamos ser de outra maneira…
Já agora, e se for o caso, Boas Férias!

domingo, 9 de agosto de 2026

Reditos

Tenho monentos de melancolia, dos quais apenas consigo sair através da reflexão- Hannah Arendt

quinta-feira, 23 de julho de 2026

(vida-e-morte)- o Valor certo da Vida II

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 16 de Julho)

No pretérito artigo “vida-e-morte” terminámos com a proposição de uma questão: ”qual o valor certo da vida”? A resposta não é evidente, muito menos imediata; até porque no limite não há resposta. Quando muito há um sem fim de possibilidades que nos poderão aproximar (nunca chegar, talvez) a esse tal valor, ainda por cima, certo! Como humanos, gostamos de valores exactos; quantificamos tudo; o mundo de consumo rege-se por valores (entenda-se números) precisos; e se isso sim é uma evidência- porque no modelo de sociedade tudo ou quase é economia (se bem, se mal é todo um outro intrincado assunto) com as vicissitudes que isso nos traz (e nos leva!)- na reflexão que aqui se produz (pretensão) não é desse valor que nos importa… importando.
De facto não se pretende elencar, hierarquizar um conjunto de atitudes boas como de uma receita se tratasse; antes, e no máximo, ponderar (e o verbo aqui pode também não ser o a mais adequado) esse tal valor. E provavelmente nunca conseguiremos passar de uma insuficiente ponderação, quanto mais chegar à certeza desse valor. É… que a vida é… muitas vidas! A Vida são muitas pequenas vidas com que a vivemos e a surpreendemos como tal. São experiências, vivências, relações, emoções, sensações, realidades, percepções, partilhas variadas, ilusões, desilusões… Encontrar aqui um termo médio, um continuum produtivo e producente que, de alguma maneira, nos permita conciliar a quantidade (boa ou nem tanto) de estímulos e desafios com que somos assoberbados ao longo da existência e nos conduzem a contradições, tantas vezes insanáveis, comigo mesmo, e descobrir essa “media res”, e antes disso ter noção (ainda que esquiva) do meio termo de mim mesmo… seria chegar algo perto (na lonjura) do valor certo da Vida. Mas como a mente humana está, desde o início dos tempos, como que formatada para uma lógica competitiva dentro duma lógica de sobrevivência agimos (e reagimos ainda mais) de forma automática e insensata, camuflada por vezes naquilo que se designa por pragmatismo (e que é necessário em muitas situações, sem dúvida); porém quando sistematicamente e sistemicamente experienciamos a vida em binómios: bom ou mau; tudo ou nada; muito ou pouco; forte ou fraco; alegre ou triste, etc. ficamos reduzidos a eternos combates férreos que colectivamente conduzem quase que inevitavelmente a desgraças bastantes.
O valor certo da vida será portanto essa ponderação daquilo que são as múltiplas relações fixadas e multiplicativas ralações associadas que estabelecemos constantemente num processo infindo até ao fim (que é princípio para aqueles que acreditam na eternidade). É na perspectiva (e até na justificativa) de como encaramos os outros (e os outros nos encaram), como nos pomos no seu lugar e nos posicionamos nas interacções surgidas- e idealmente num processo simbiótico, levariam a benefício de todos- que poderemos alcançar um vislumbre fugidio desse valor. Deste modo, não haverá propriamente O valor certo da vida, mas poderá haver caminho… de possibilidades que nos irão (distantemente) aprochegar dele… e nos permitirão amenizar o medo imoderado da morte.
E, numa reviravolta um tanto ou quanto assombrosa na análise, qual o valor certo da Guarda (ou de Portugal ou de Vila Mendo ou…)?

sábado, 11 de julho de 2026

Respiros

Desponta o dia. Gélido. Os animais buscam uma réstia de aconchego sob os auspícios do sol. Mas nem assim. O vento cortante e penetrante convida ao sossego, possível. O calor abrasador ainda é uma memória distante. Há-de vir. Implacável. Para nos recordar que a natureza nos sujeita impiedosamente...

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

vida-e-morte

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 25 de Junho)

Aquilo que temos de mais certo (se de alguma coisa deriva certeza) é a de que quando nascemos já estamos a morrer. Aquando da juventude não pensamos, não queremos ou não sabemos pensar sobre a morte; e pressupõe-se natural: quando estamos no auge físico, inundados de sonhos, ávidos de descobertas até ela parece vencível. Talvez no inconsciente da humanidade ecoe um desejo, que é mais do que isso; uma esperança, e que não é só isso; quiçá uma vontade pura e dura e férrea de querermos ser imortais. Nessa aspiração (que tem pouco de inspirada) encontramos facilmente os predicados (os bons, claro!) que sustentariam a nossa ansiada e merecida imortalidade!.. Se quisermos ser frios, pragmáticos, racionais (?) antes de nascermos não fazíamos falta a ninguém na “terrinitude”; surgimos e fazemos falta a alguns- e às vezes só a espaços- e depois da morte faremos falta a uns quantos e só por algum tempo: posteriormente, o esquecimento perpétuo para a maioria da humanidade.
A religião (cristianismo-catolicismo) emerge muito deste querer ser imortal, deste querer ser lembrado; e oferece-nos a imortalidade-da-alma e a recordação (e já agora a salvação) eternas. E acreditando mais, ou nem tanto, ou não acreditando sequer o que importa é o (re)conforto- quando pensamos seriamente nestas questões existenciais- de podermos ter essa possibilidade de eternidade (ainda que não física) que preencherá o vazio do nada que carregamos desde o início dos tempos (simétrico à predisposição de plenitude do divino?). 
De facto a ideia de futuridade está incrustada na nossa mente (mitológica)- e se tal não constituirá a priori algo de negativo, pelo contrário, se e bem entremeada com a ideia de presente (alicerçada no passado)- o que pode de algum modo levar a desvalorizarmos sobejamente o agora, na esperança suposta de um tempo novo, de coisas boas e só boas. Ainda assim, são muitos aqueles para quem só o hoje conta, pouco o passado, e o depois da vida não é. Como seres humanos somos muito assim: o tudo ou o nada. E na questão da morte será muito isso: para uns a certeza da sua ultrapassagem, para outros a certeza de que tudo termina com ela (e para tantos, depende dos dias e das disposições). Contudo, nos dois (três) casos o que poderá ser comum é o medo. O medo de a enfrentar. A dor em nós. A dor no outro. Temos medo de morrer. Temos medo daqueles que nos são próximos morram. Temos um medo imoderado da morte. E talvez para o ultrapassar, ou pelo menos para o suavizar, para o suportar só com o encontrar (provavelmente “encontrar” não seja aqui o termo, o verbo certo) o valor certo da Vida: trabalho de uma vida, portanto! Consequentemente (ou não!) a pergunta que se impõe, e que aqui somente se propõe é: e qual o valor certo da vida?


sábado, 13 de junho de 2026

Seminário- Fundão (Guarda)- Encontro Antigos alunos- I

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 28 de Maio)

A entrada da Casa grande é imponente. Continua imponente. Passado todo este tempo e à cadência de uma vez por ano (mais para uns, menos para outros) a Casa agiganta-se assim que o portão é transposto: fica maior, maior; como as memórias que acorrem em torrente ao pensamento, e paramos. E não param as lembranças, ainda que às vezes pouco claras: como quando, por exemplo, os espaços são entremeados com os da outra… da outra Casa. da Guarda. A quietude, que aquela porta aporta, importa. muito. É o silêncio que aprendemos; Aqui. Não o silêncio imposto como ausência de ruído, mas o silêncio interior, o silêncio-estrutura producente e conducente à reflexão, capaz de ser transformativo e que estruturará a vida, a nossa vida como tal: como vida viva (em alegrias e não alegrias)!.. Entramos e esperamos… o cheiro! Queríamos aquele cheiro tão característico dos corredores infindos que nunca acabam, porque sempre ligados, religados por uma e outra gente que ali descobriu mundo; o mundo; e o mundo de si próprio. O cheiro, o cheiro já não está; já não é! Mas está. cá dentro. E sentimo-lo agora! Como se fosse ontem!.. E o som… o som é o mesmo. Esse sim ouvimo-lo. do silêncio. Ouvimo-lo na natureza à volta, nas laranjeiras do claustro (de tantas brincadeiras), no ranger da madeira que range igual, nas grades do chão das portas laterais que dão para a rua e que à passagem (agora mais encorpada) produzem aquela sonoridade de então. As mesmas grades que suportaram todos aqueles, todos estes pés que hoje são diferentes, mas iguais a mim mesmo, porventura. E o som… já não é o mesmo. Faltam todos aqueles rapazes, todos estes rapazes (que ainda o são e nunca deixarão de o ser). Falto eu, faltam tantos eus que ao longo de décadas e décadas se fizeram ali ouvir. Falta essa sonoridade de gente presente. Resta só (que é muito) a voz de todos nós que, espalhados por tantos lugares, a damos a ouvir: essa, esta voz Seminário!.. E tocamos em tudo, como que esperando que o tocado nos devolva o toque e me reconheça como ser único (no todo) e me diga a mim (Luís, João, Manel, Zé…): lembro-me de Ti. Daqui. Lembro-me do teu toque, das tuas correrias e alegrias e sobrancerias; dos amuos, das tristezas, das incertezas; das tuas sabedorias e algumas pequenas aleivosias próprias da idade, dos teus dons vários. Conheço-te. Já não somos nós que falamos com a Casa, é ela que fala connosco e nos conhece melhor do que nós próprios. Ali. Sempre ali. Reencontro-me comigo próprio e escuto: és tu agora, porque foste Aqui, ontem. O amanhã? Há-de vir. Como sempre vem!.. E paramos de novo, e vemos e ouvimos e cheiramos e tocamos tudo; e tudo com o pensamento que não se aquieta, numa espécie de inquietude boa. E sentimos… um sentimento que é mais do que isso (porque os sentimentos esfumam-se tantas vezes, demasiadas vezes, se calhar). Não é um bem um sentimento… é um acrescento ao sentimento, é… uma sensibilidade. É isso, uma sensibilidade-serena, e terrena; não mais não menos do que isso (se divina, seríamos santos!). A Casa grande (para tantos) grande Casa ofereceu-nos essa sensibilidade: se a aceitámos, se a quisemos aceitar, se a soubemos aceitar, se a recusámos aceitar é toda uma outra e intrincada questão. Eventualmente, talvez possamos ainda agora resgatá-la, voltando à Casa e experienciando todas estas sensações, que são emoções, e são realidade: e são realidades dentro da realidade de mim. E esse voltar, esse regresso não é um recesso, muito menos um retrocesso; pelo contrário, é um progresso no conhecimento de nós mesmos, no conhecimento dos muitos eus que me povoam (do estranho em mim) e me fazem a cada passo entrar em contradição comigo e com o mundo. Uma contradição insanável que caracteriza todo o ser humano e que não pode ser reparada, quiçá, mas que pode ser melhorada. Conhece-te a ti mesmo. Tremendamente complexo. Trabalho de uma vida.
No pretérito dia 23 de Maio realizou-se o já habitual encontro dos antigos alunos dos seminários do Fundão e da Guarda e pudemos regressar a um tempo de nós mesmos: só nosso e só… de todos. Agradecer às contínuas direcções e demais órgãos da Associação dos Antigos Alunos na pessoa do Presidente actual (Jorge Simão), por manterem a chama viva e vivida, e consecutivamente organizarem este momento marcante e actuante de partilha fraterna. Este ano, um grupo de gerações mais recentes estiveram presentes. Espera-se que no próximo mais se juntem. O Seminário está. cá. dentro. sempre. Sejamos-lhe sensíveis. Porque dessa sensibilidade seremos pessoas melhores.
Nota: Ainda que um pouco a despropósito (ou não), dar conta que o nosso Bispo não esteve presente, nem no ano passado! Um aparte, que faz parte. Tão só.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

da Ignorância. do Conhecimento. da Felicidade- V

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 14 de Maio)

(continuação)
À pergunta: ”E qual é essa visão e quem a viveu?” a propósito de possibilidades de mudança frutuosas na jornada da vida; a resposta (esta) é decididamente mais simples, ainda que não fechada. De facto, se São Paulo parece, nalgumas das suas enunciações, dar respaldo ao esvaziamento, à fuga do eu para me tornar outro- o tal Homem novo livre do passado, desobrigado do presente, amarrado ao futuro- também no Cristianismo, Santo Agostinho introduz e induz uma nova visão (que será a dominante!) para um melhor conhecimento de nós mesmos, para a tão almejada felicidade (possível). Propõe uma confrontação do eu, que se sujeita ao próprio escrutínio de si. Não acena nem encena o surgimento de alguém completamente transformado e renovado (o que não quer dizer que não aconteça de alguma forma; talvez não de forma radical). Diz que essa confrontação é dolorosa no seu começar, no seu desenrolar e no seu terminar (porque nunca termina); que é absorvente e esgotante, por vezes, mas possivelmente será a forma mais capaz, mais duradoura de fazermos caminho de felicidade: porque não nos escondemos de nós próprios, não nos escondemos dos outros, não nos escondemos do mundo (que sou eu também). Nessa confrontação do eu, nessa auto-confrontação, Deus teve (tem) um papel: simplesmente (?!) revela a Santo Agostinho o lado (o estranho em mim) que ele não consegue ver, que está nele e lhe causa o sofrimento que o atira para uma espiral de comportamentos e pensamentos erráticos e vazios. Não consegue descortinar esse seu lado de miséria e é por Deus, pelo cristianismo, que lhe é dado a conhecer e a reconhecer tal através dos seus, agora, olhos conscientes; e passa a ver esse seu lado escuro, obscuro que vai posteriormente aceitar e integrar e melhorar: Conhece-te a ti mesmo. Uma espécie de epifania-humana. Só isso. Tudo isso. Não há raios luminosos, quedas de cavalo, visões do que há-de vir. Não há Homem novo de um momento para o outro (como em São Paulo). Uma visão diferente; mais custosa; mas potencialmente mais producente a longo prazo.
Depois de 5 artigos sobre o conhecimento e o não conhecimento no alcançar da felicidade como tal, aquilo que podemos dar como certo é o de que na caminhada da vida ela- a felicidade- não será um fim; antes um processo longo. Duro. Para que esse processo tenha laivos constitutivos de alegria substanciais e substantivas, talvez só com um autoconhecimento superior de nós próprios: e sabendo que esse autoconhecimento é ele mesmo também e muito um processo… infindo. Se a ignorância é de matizes várias, a ignorância-do-eu é marcadamente a maior de todas.
Quem não se quer Conhecer a si mesmo para Conhecer o mundo e assim Conhecer vislumbres de felicidade? Quase toda a gente. Quem o faz de facto, de maneira constante, sem desistências várias e variadas? Muito poucos, talvez!.. Se podemos ser felizes? Sim, às vezes!..

sexta-feira, 15 de maio de 2026

da Ignorância. do Conhecimento. da Felicidade- IV

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 30 de Abril )

(continuação)
À pergunta: e quais as soluções-imposições que amiúde procuramos? A resposta (esta) é, de certo modo, objectivamente mais evidente. As soluções (que são sempre imposições que colocamos a nós mesmos antes de as colocarmos aos outros para nos solucionarem as angústias e os tormentos que nos acompanham a cada passo) procuradas (e que às vezes nos procuram!) tendem a ser de cariz e de matriz do instantâneo, do milagroso, do mágico; que resolvam. E não importa se deslindam, ou sequer se me aproximam (ainda que longinquamente) das origens da dor: das condições e das contradições insanáveis (?) que a alimentam.
As igrejas evangélicas, movimentos pentecostais, seitas mais, outras organizações que tais, superstições várias e de variada natureza; terapias diversas, coaching, mindfulness, etc. (a ordem é aleatória e pode ser injusto, até incorrecto, fazer referência a estas últimas neste contexto…) prometem, da noite para o dia, um novo Eu; um novo mundo interior; sem se importarem com o conhecer dos muitos eus a que nos sujeitamos e que espreitam a todo o tempo (tantas vezes a destempo): uma espécie de fast-food-feliz de conhecimento (diferente Do conhecimento), uma espécie de versão light-luminosa da conversão Cristã. Onde a nível psicológico se faz tábua rasa do passado, do que aconteceu, do que foi; onde se coloca no armário, bem no fundo do armário tudo aquilo que fizemos e que fomos para começar tudo de novo; para ser outro, para ser outra pessoa-nova. É nesta ilusão de soluções mágicas que tantas e tantas pessoas se embrenham até à desilusão (ou não!) de verificarem mais tarde da fantasia de que escondermo-nos de nós próprios não será o mais producente: é que acabamos sempre por nos encontrar a nós mesmos… naquilo que somos com o que fomos; naquilo que fazemos com o que fizemos. Fugir psicologicamente pode resultar e beneficiar por algum tempo. A longo prazo a história (de mim mesmo) será outra: a minha! Sempre a minha!..
Mas no atrás referido (e uma vez que falamos também de algum tipo de religião) São Paulo não terá, digamos que… alguma responsabilidade (!)? Não foi ele que disse, e cita-se “Por isso, se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que tudo se faz de novo.”? Ora numa análise ainda que pouco fina (e se quisermos um tanto ou quanto descontextualizada), esta frase dá aso a uma justificativa para uma fuga do eu: há uma conversão, esquece-se o passado, e há todo um mundo, todo um futuro promissor sem as amarras e as agruras do acontecido- um Homem novo, portanto. O próprio Cristianismo- catolicismo- (de quem São Paulo foi preponderante para a sua implementação e aceitação) preconiza e adopta outra visão como forma de viver e estar e ser Vida em contínuo crescimento pessoal e social; que nos indica um caminho diferente para uma mudança sustentada, maturada de vida: não-fácil, mas possível. De facto, na história da humanidade são poucos aqueles mudaram radicalmente (verdadeiramente) a sua existência através de circunstâncias epifânicas. E qual é essa visão e quem a viveu?
(continua)

sexta-feira, 1 de maio de 2026

da ignorância. do conhecimento. da Felicidade- III

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 16 de Abril )

(continuação)
À pergunta: E como sair desta prisão interna criada, estruturada e construída meticulosamente ao longo da existência? A resposta (mais uma vez) não é evidente e muito menos clarividente. Talvez (e sublinhe-se o talvez) só (que é uma enormidade) com o conhecimento E o reconhecimento E a aceitação das nossas profundas, profusas contradições e limitações, e de todos (?!) os defeitos constitutivos, portanto… e o E destacado atrás, reveste-se de particular importância porque liga, religa os (supostos) passos-essenciais com que poderemos libertar-nos de nós próprios: da tal prisão interna. Só conhecendo mais ou menos intimamente, depois reconhecendo paciente e seriamente, e finalmente aceitando- sem subterfúgios- que há um (ou vários) estranho em nós mesmos (que sou eu como um todo) podemos aspirar a sair dela: uma espécie de predisposição (que é uma coragem) para aceitar que há coisas, que há muitas coisas em nós que… são nossas, e muito nossas e com que temos de conviver dia a dia; no fundo, que temos de conviver connosco mesmos: o que às vezes é uma maçada. Maçamo-nos a nós próprios porque aborrecidos e às vezes tendemos a não nos suportar; e a não pensar… sobre isso; a não pensar… sobre tudo isso… E a não nos pensar sobretudo! Quando o conseguimos, ou quando o conseguirmos, demos um grande passo (decisivo?) para nos sabermos mais, para nos compreendermos melhor, para deixarmos de ser (tão) ignorantes, desconhecidos de nós mesmos, para podermos ser um pouco mais felizes (ou menos tristes): que isto da felicidade não é coisa pouca- é trabalho de uma vida. E mesmo que o consigamos, este trabalho, duro, de auto-análise nunca termina; só recomeça como seres complexos. complicados. inusitados.
Conseguir tal, almejo substantivo e substancial. Num tempo tecnológico onde tudo é, e não é; onde tudo é instantaneidade com grande dose de vacuidade, não há vagar… não há tempo para a subjectividade: condição essencial para pensar; para nos pensar. Ora, se não há tempo, não há paragem; logo não há escuta, e logo não há silêncio (não mera ausência de ruído, mas um silêncio estrutural, intencional, interior que abre toda uma perspectiva de uma realidade nova para a própria realidade de nós e da nossa existência)… e então essa reflexão (esse olhar ao espelho-reflexo) torna-se inoportuna, incomodativa, dolorosa e assim não a fazemos, e deixamos que a nossa vida siga em piloto automático; e quando o desligamos procuramos soluções (como que imposições, aos outros… sempre os outros) milagrosas, que resolvam o sofrimento com que nos apresentamos ao mundo: e ainda que finjamos essa dor, ela está lá. Ela está cá. Sempre cá. Dentro. Bem dentro. E adentro da nossa vida e das nossas relações e ralações… tão muito e por culpa (substituamos a palavra culpa por responsabilidade) demasiadas vezes próprias. E quais as soluções-imposições que amiúde procuramos?
(Continua)

sexta-feira, 17 de abril de 2026

da Ignorância. do Conhecimento. da Felicidade- II

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 26 de Março)

(Continuação)
À pergunta: Qual a diferença entre o modo como eu e a sociedade achamos que nos devemos sentir e o modo como nos sentimos de facto? A resposta não é evidente; mas é estridente e objetivamente (?) pungente. Tantas vezes essa diferença é avassaladora, no limiar da refundação das marcas constitutivas que caracterizam o nosso ser: aquilo que os outros e eu mesmo esperamos de mim próprio pode ser diametralmente oposto àquilo que fazemos; e ainda que façamos o que se espera, demasiadas vezes o sentimento perante tal é profusamente desconforme. Deveria sentir-me de uma forma e não sinto isso. E sentimos outra coisa, outras coisas que são… coisas indefinidas, indefiníveis, vagas, distintas, contraditórias; mas próximas, mas presentes, mas concretas… na dor, no sofrimento que causam, na confusão que aportam e está ali; e está aqui; dentro; e quase a entrar em erupção e acção: num irrompimento de um eu, de um outro eu, de outros eus! Demasiados eus com que o eu tem de lidar e harmonizar, portanto.
Desejávamos sentir-nos assim e não nos sentimos desse modo: porquê? Não sei. Mas o problema residirá com mais impactância quando ao porquê respondemos: não quero saber! Ou melhor (que é pior) sei (ou acho que sei!) mas não quero, recuso terminantemente pensar sobre isso! Deste modo (e por esse modo), deixamos de ser uma simples (que é complexa) interrogação para mim próprio para me tornar um estranho perante mim mesmo. De facto, amiúde temos pensamentos, sentimentos, ações e omissões discordantes com aquilo que seria suposto e até imposto. E isso assoberba-nos pela sua quantidade, volatilidade e complexidade. E resistimos-lhe. E resistimos a que eles aflorem à análise crítica e reflexiva que se propunha e impunha. E escondemo-los de nós próprios. Mas tudo isso está lá. está cá. dentro. bem dentro. prestes a surgir e a ressurgir uma e outra vez com dor. Com a dor que nos leva ao auto-engano e que nos leva a fugir não de, mas para uma prisão. A prisão interior: onde se acumulam e carregam todos aqueles pensamentos inusitados e perniciosos e tristes que causam enorme pressão interna, que provocam pressão externa que, por sua vez, causam mais pressão interna num ciclo contínuo… de desapropriação, de sofrimento e padecimento. E como sair desta prisão interna criada, estruturada e construída meticulosamente( ainda que inconscientemente, muitas vezes) ao longo da existência?
(Continua)

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Reditos

Sobre esta pergunta que me fazem frequentemente, sobre a bondade ou maldade humana, como responder? Que há homens bons, outros que o não são, que cada um é uma mistura de bom e de mau?- Primo Levi

domingo, 5 de abril de 2026

Reditos

Meus Deus, porque me abandonaste?- Jesus, na cruz- (remete-se para o artigo Aqui)

sexta-feira, 27 de março de 2026

da Ignorância. do Conhecimento. da Felicidade- I

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 12 de Março)

Podemos ser felizes na ignorância? Podemos. E não podemos. Duas respostas. Contrárias; mas não antagónicas. Talvez até complementares (?)! Às vezes sim. A maior parte das vezes não. Como que um jogo de ping-pong assim somos nós com a mente, com o nosso pensamento a ir e a vir, a vaguear de um lado para o outro, para a frente e para trás; a querer conhecer e a querer não conhecer, a aspirar a verdade e a recusar a verdade… em intrincados movimentos titubeantes e não menos errantes; por vezes paralisantes que ensinam e recordam da nossa humanidade-humilde como tal.
Conhecer, saber implica entrar em problemas-outros (e dos outros), implica trazê-los para dentro de nós e juntá-los à catadupa dos que já existem no eu. Não admira portanto que muitas vezes não queiramos saber… para não sofrer; ou pelo menos para não termos o trabalho de aportar soluções e tempo que resultam em chatices várias e variadas que nos consomem sobremaneira e de toda a maneira… Não saber de, poupa-nos certamente a algumas dores de cabeça. Contudo o problema (que será um grande problema) reside quando continuadamente nos recusamos (consciente ou inconscientemente, ou ambas) a querer conhecer, a querer saber, a pretender a verdade; aquilo que será primeiramente um mecanismo de defesa saudável para a nossa mente e necessário pontualmente, passar a ser prática sistemática e sistémica.
Essa recusa torna-se então como que marca constitutiva, característica marcada e marcante do eu, que ao não querer conhecer muito do mundo exterior, conhece pouco do mundo interior. Ora se o mundo exterior é complexo, até caótico; o nosso interior, decerto, o não é menos. Assim, entramos num ciclo (que às vezes parece um circo) vicioso e viciante e asfixiante: recusando muito do conhecimento exterior, fechamos portas ao conhecimento do “cá dentro”, que por sua vez inibe a vontade de um melhor conhecimento “do lá fora”. Acrescendo a tudo isto, quanto menos nos conhecemos interiormente mais sofremos, e quanto mais sofremos menos queremos conhecer-nos internamente. Um problema; muitas questões, portanto.
Aceder primeiro, aceitar depois o conhecimento não dúbio das nossas profundas e profusas limitações e contradições, dos nossos desejos e devaneios é difícil, confuso. E, também com isso, sofremos. muito. Bem sabemos que o sofrimento faz parte da condição humana, mas a forma como o encaramos é que nos tolda, nos molda e tolhe, ou nem tanto…. podendo até definir-nos e à nossa existência. E não é só a forma como encaramos o sofrer, que por si só deveria ser uma ação segunda; antes teríamos de decifrar de onde (?) provém o sofrimento. E demasiadas vezes ele não advém de um qualquer estado externo das coisas (do mundo), mas antes de um estado interno, de desapropriamento em que falha claramente a harmonia connosco mesmos nos pensamentos e acções (e omissões!). E aqui atingimos um patamar crucial no conhecimento sobre nós próprios: qual a diferença entre o modo como eu e a sociedade achamos que nos devemos sentir e o modo como nos sentimos de facto?
(Continua)


quinta-feira, 26 de março de 2026

Reditos

Tu nunca serás de novo/ Aquilo que nunca foste- Theodor Storm

quarta-feira, 18 de março de 2026

Reditos

Deixarmos de ser inocentes, mas desejarmos sê-lo, é parte da definição de adulto- W. H. Auden

segunda-feira, 2 de março de 2026

as Tempestades- de Nós

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 19 de Fevereiro)

A natureza é como a nossa própria natureza: imprevisível, por vezes irrascível, quase sempre incognoscível. Diz-nos da nossa tremenda pequenez e ainda mais da nossa vasta idiotez de nos considerarmos (os humanos) os donos do mundo. De facto, o Homem comporta-se como Criador; como se ele próprio não fosse criatura criada- o que o atormentará e lhe dará o ímpeto para através da vontade pura (e não menos dura) se permitir pôr e dispor de tudo e todos à sua volta; de todo o meio ambiente portanto. Um domínio avassalador, transformador (no sentido nullus do termo), aplanador físico das paisagens e recursos; planador das (suas) ideias e devaneios utópicos. Sabota a biodiversidade não se apercebendo que se sabota a si mesmo enquanto ser vivo deste mundo natural e plural- nunca singular. Um ímpeto criador, como se fosse regenerador (que não é), que postula uma supremacia sobre todos os outros seres aos seus desígnios. Que pensa (ou não pensa!) a vida global como conjectural para seu benefício. Até quando? Até um dia. Em que a natureza nos dirá da sua força imensurável e implacável.
As tempestades que assolaram o nosso país fazem-nos constatar a incapacidade (que é também e muito uma descapacidade) de lidarmos com a natureza e seus impactos. Paradoxalmente, ou não, com a inovação tecnológica como que nos forçámos a desistir de nos… diluir no meio ambiente, e com isso desistimos de uma certa… desaparição- que seria uma certa harmonia com a vida global como tal. A nossa (pretensa) superioridade terá um fim. Como será? Não sabemos. Podemos intuir. Querermos cegamente ser maiores do que nós próprios é meio caminho andado para sermos menores que todos os outros.
Particularizando; o tempo que assolou Portugal lembra-nos que o tempo não tem o tempo que o Homem quer. Acontece no tempo próprio da natureza. A forma como reagimos num primeiro momento a estas intempéries mostra aquilo que parece ser uma constante-inconstância ao longo da história do país: desorganização prévia e inicial. Num segundo momento ficamos aturdidos e abalados e lamentados. Depois a desorganização organiza-se; muito à custa do desenrascanço tão típico; e as competências, a ajuda, a solidariedade assomam fazendo com que as coisas (e as soluções) comecem a acontecer mais ou menos bem, mais ou menos rápido…
Parece ser sina; um sinal; uma marca da identidade portuguesa: a improvisação persistente. E não é só a improvisação: é o improviso do improviso! Portugal, forjado a partir de um impulso (ou de impulsos) alicerçou-se- a partir da dúvida e do medo permanentes pelo conseguimento efectivo da independência- na improvisação sistemática, característica essa que se foi mimetizando na história e que ecoa seminalmente no inconsciente colectivo dos portugueses até hoje (até sempre?).
Criticar negativa e destrutivamente a actuação das organizações e organismos responsáveis pelas respostas (ou falta delas) é sempre fácil, e é o mais fácil (não se sabe se o mais producente). Se fôssemos cada um de nós a decidir, a coordenar, a fazer… faríamos diferente? É possível. Faríamos melhor? É possível, mas questionável. A nível de coordenação, simplificação, clareza, interajuda das diversas organizações criadas para tais efeitos, os defeitos podem ser corrigidos? Claramente.
Prevejamos. Planeemos. Executemos. Bem. De maneira funcional e em cooperação (e sonhemos e esperancemos). As tempestades… hão-de ser muitas; as bonanças dependem, também e muito ou alguma coisa… de nós.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Reditos

O que existe concretamente não é o corpo-objeto descrito pelos cientistas, mas o corpo vivido pelo sujeito- Simone de Beauvoir (em O Segundo Sexo)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Reditos

 Quanto maior o conhecimento, maior o sofrimento- Eclesiastes 1:18 (paráfrase)

domingo, 8 de fevereiro de 2026

o Mundo. tribulado: e Portugal e a Guarda e Nós

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 29 de Janeiro)

Estamos num tempo atribulado. Não que as tribulações sejam mais do que antes (certamente não serão menos) talvez, e quando muito, um tanto ou quanto diferentes na aparência, já que quanto à sua natureza derivam da condição humana: agora e sempre (por todo o sempre?). O mundo gira e com ele giramos nós- indivíduos e humanidade na sua tremenda fragilidade. Uma fragilidade que nos humaniza por um lado- com os nossos defeitos e virtudes constitutivos- e nos desumaniza uma e outra vez com as atrocidades e maldades de todos os tempos e a todo o tempo. Queremos, achamos ser melhores que os outros; as comunidades, as sociedades, as nações, culturas e civilizações, todas, à sua maneira e sobremaneira, se acham superiores às outras numa lógica de competição-conflito permanente e pungente.
Se atentarmos na actual situação geopolítica mundial, verificamos essa tendência para a hegemonia de um ou mais blocos à boa maneira dos séculos XIX e XX. Uma corrida imperial-colonial pela supremacia económica, militar, social, cultural… total sobre os outros blocos e países, na tal lógica atrás. Sabemos o que aconteceu nesses tempos. Podemos presumir o que advirá (se bem que, em muitas partes do mundo, já adveio): conflitos contínuos, brutalidades várias. O mal como acção e substância.
Particularizando ainda mais, também em Portugal esse clima de conflitualidade está sempre latente e bem patente. Veja-se umas simples (complexas) eleições presidenciais em que o caldo de cultura ficou apurado na primeira volta; e agora teremos de o degustar na segunda. O confronto ardiloso sempre actuante na ânsia do poder dilacerante. Na arena-política (?) parece que tem de sobressair o “político animal”!
Na Guarda o mesmo (ou semelhante); os políticos, os pretensos políticos, os apolíticos e até os impolíticos (e os comentadores?!.) entram todos (ou quase) um pouco na lógica (pré)estabelecida… O que vale (vale?) é que bastantes guardenses passam ao lado disso (e de muitos “issos”!..).
Individualmente, passamos o tempo em tribulações. Muitas vezes com o mundo; tantas vezes com os próximos; sempre connosco próprios. E às vezes nem nos damos conta dessa conflitualidade intrínseca e imanente com que nos apresentamos a nós mesmos à humanidade. Talvez porque não nos reflictamos com a profundidade necessária; que nos permita ver, quiçá, as profusas contradições e imperfeições (nem sempre as contradições são imperfeições, mas as imperfeições são sempre contradições) que nos caracterizam (e incaracterizam) a cada passo, e que nos exasperam e desesperam, e nunca esperam o outro… porque não queremos, ou não sabemos esperar(-nos): o que nos permitiria perscrutar no Outro um Eu; e no Eu um Outro… aliviando assim (nunca cessando) os conflitos interiores; aliviando (nunca cessando, porventura) os conflitos exteriores… Se calhar, por tudo isso (ou por nada disso!) amiúde, parecemos escombros andantes do nosso interior.
Somos assim, e não sabemos se poderíamos ser de outra maneira; mas certamente (ou eventualmente) desta maneira, podemos. ser. melhores. um pouco.
Entretanto, o Mundo. tribulado pula e avança… para a FESTA do CHICHORRO em VILA MENDO.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Sugestão de leitura(s)

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 8 de Janeiro) AQUI

Começa um novo ano. Que de novidade (suposta) só as costumeiras desgraças do mundo; os infortúnios de um Portugal que se nos apresenta- desde quase sempre- embrenhado em crises de crises… E as constantes adversidades de uma Guarda cada vez mais interior, a necessitar e a (des)esperar do (seu) Interior!.. Nada melhor então do que nos darmos ao prazer da leitura e por essa via entregar-nos, não ao esquecimento, mas ao entendimento (se tal for possível!).
Ler é um acto profundamente nosso, profundamente solitário mas, e ao mesmo tempo, profundamente relacional e empático. Ler, leva-nos para dentro de nós e (paradoxalmente, ou não) orienta-nos para fora, para o mundo, para fora do mundo. Faz-nos imaginar. mais. Faz-nos pensar. melhor. Faz-nos imaginar o pensamento. Faz-nos pensar a imaginação. Ler, dá-nos Vida e dá-nos a vida que sonhamos (ainda que por instantes). Empodera-nos e torna-nos mais Eu… no Outro; com o Outro.
Os livros sugeridos não são os preferidos, ou os mais preferidos. São aqueles que têm mais sentido, hoje. Nem sequer ficam divididos por qualquer categoria. Apresentam-se na ordem que advêm ao pensamento, no agora; poderiam ser infinitamente outros. A excepção, o primeiro aqui apresentado, porque o primeiro lido (pelo menos na memória, de um livro lido na totalidade) em Vila Mendo, na escola primária:
Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro- para miúdos e graúdos: um Aquilino que escreve e nos reescreve com a sua dureza e crueza e pureza (pungente), como em Aldeia- Terra, Gente e Bichos. Tolentino Mendonça com, por exemplo, A Leitura Infinita, para nos compreendermos e a o mundo; a bíblia é aquele horizonte onde histórica e culturalmente nos inscrevemos. A História do Silêncio de Alain Corbain, o Silêncio, mais do que mera ausência de ruído... visto como valor filosófico e visto na sua dimensão educativa. Thomas Mann com José e os Seus Irmãos, algumas figuras bíblicas revisitadas e humanizadas; as virtudes e as fraquezas da condição humana neles presentes para poder dar resposta(s) à crueldade humana. James, a partir do clássico de Marck Twain As aventuras de Huckleberry Finn, o autor Percival Everett reinventa essa(s) história(s) e coloca o foco da acção num outro ponto de vista; e da perspectiva do escravo Jim. Luís de Sttau Monteiro e as Redacções da Guidinha, uma leitura humorística pelo olhar ingénuo, mas tremendamente perspicaz, de uma adolescente que nos delicia com um conjunto de crónicas de costumes fazendo-nos pensar das profundas e profusas contradições sociais e da condição humana. Fausto de J.W. Goethe, o pensamento da humanidade (ou pelo menos da civilização europeia e ocidental) é profundamente marcado pelas narrativas (alegorias) da queda (pecado) do Homem causadas pelo conhecimento: a Árvore do Jardim do Éden, a Tragédia Prometaica e o Pacto Fáustico: em Goethe este mito adquire novas possibilidades, novas potencialidades significativas. Moby Dick, um clássico adaptado para banda desenhada; o preto e branco muito bem dominado... fiel à história; a linha ténue entre a tenacidade e a loucura, ou a raiva ou ambas, aqui bem expressa. Trilogia- de Jon Fosse, leitura não-fácil mas depois de alguma estranheza, entranha-se. Paul Celan em Os Poemas, poesia de uma expressividade, de um minimalismo radical; profundamente hermética, quase (ou mesmo, por vezes) que imperscrutável e talvez, e por isso mesmo, de uma beleza... crua, pura e dura; um poeta marcado intimamente pelo holocausto: até ao fim; são poemas... do silêncio... do tempo; do silêncio das palavras; do silêncio entre as palavras. Qualquer livro de George Steiner, crítico literário, pensador de excelência, por exemplo As Artes do Sentido.
E agora mais apressadamente, mas não menos recomendáveis: Obra Completa de Arthur Rimbaud, poesia/prosa. De António Vieira O tempo e o sagrado- Deuses do deserto e deuses da floresta; e O perceber do Mundo- O Ser e o Saber. Nós, filhos de Eichmann de Gunther Anders. Tomás de Kempis com a Imitação de Cristo. Eduardo antes de ser Lourenço- textos de juventude. As sete últimas palavras de Timotthy Radcliffe OP. De Martim Puchner Cultura- uma nova história do mundo. Nuno Montemor com Rapazes e Moças da Estrela, Maria Mim, ou A Maior Glória. O Espaço Interior de José Gil. A Biografia de Hannah Arendt, por Thomas Meyer. Na Banda Desenhada, Paco Roca com O Farol, O Jogo Lúgrube ou Trilhos do Acaso. E os Astérix, nomeadamente o último, na Lusitânia… Os autores recentes da nossa cidade, ficarão (mais uma vez!) para outra momento quando forem lidos os seus últimos trabalhos.
Os jornais, todos (embora uns mais que outros…). Os da Guarda: Jornal A Guarda e O Interior, está claro. O Público com o seu suplemento Ípsilon, o Jornal de Letras, a revista Ler, a revista Electra são boas opções; e A Bola ou o Record também se podem assomar de quando em vez.
Enfim, um conjunto de sugestões que poderão interessar. Ou não. Leamos.