quinta-feira, 23 de julho de 2026

(vida-e-morte)- o Valor certo da Vida II

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 16 de Julho)

No pretérito artigo “vida-e-morte” terminámos com a proposição de uma questão: ”qual o valor certo da vida”? A resposta não é evidente, muito menos imediata; até porque no limite não há resposta. Quando muito há um sem fim de possibilidades que nos poderão aproximar (nunca chegar, talvez) a esse tal valor, ainda por cima, certo! Como humanos, gostamos de valores exactos; quantificamos tudo; o mundo de consumo rege-se por valores (entenda-se números) precisos; e se isso sim é uma evidência- porque no modelo de sociedade tudo ou quase é economia (se bem, se mal é todo um outro intrincado assunto) com as vicissitudes que isso nos traz (e nos leva!)- na reflexão que aqui se produz (pretensão) não é desse valor que nos importa… importando.
De facto não se pretende elencar, hierarquizar um conjunto de atitudes boas como de uma receita se tratasse; antes, e no máximo, ponderar (e o verbo aqui pode também não ser o a mais adequado) esse tal valor. E provavelmente nunca conseguiremos passar de uma insuficiente ponderação, quanto mais chegar à certeza desse valor. É… que a vida é… muitas vidas! A Vida são muitas pequenas vidas com que a vivemos e a surpreendemos como tal. São experiências, vivências, relações, emoções, sensações, realidades, percepções, partilhas variadas, ilusões, desilusões… Encontrar aqui um termo médio, um continuum produtivo e producente que, de alguma maneira, nos permita conciliar a quantidade (boa ou nem tanto) de estímulos e desafios com que somos assoberbados ao longo da existência e nos conduzem a contradições, tantas vezes insanáveis, comigo mesmo, e descobrir essa “media res”, e antes disso ter noção (ainda que esquiva) do meio termo de mim mesmo… seria chegar algo perto (na lonjura) do valor certo da Vida. Mas como a mente humana está, desde o início dos tempos, como que formatada para uma lógica competitiva dentro duma lógica de sobrevivência agimos (e reagimos ainda mais) de forma automática e insensata, camuflada por vezes naquilo que se designa por pragmatismo (e que é necessário em muitas situações, sem dúvida); porém quando sistematicamente e sistemicamente experienciamos a vida em binómios: bom ou mau; tudo ou nada; muito ou pouco; forte ou fraco; alegre ou triste, etc. ficamos reduzidos a eternos combates férreos que colectivamente conduzem quase que inevitavelmente a desgraças bastantes.
O valor certo da vida será portanto essa ponderação daquilo que são as múltiplas relações fixadas e multiplicativas ralações associadas que estabelecemos constantemente num processo infindo até ao fim (que é princípio para aqueles que acreditam na eternidade). É na perspectiva (e até na justificativa) de como encaramos os outros (e os outros nos encaram), como nos pomos no seu lugar e nos posicionamos nas interacções surgidas- e idealmente num processo simbiótico, levariam a benefício de todos- que poderemos alcançar um vislumbre fugidio desse valor. Deste modo, não haverá propriamente O valor certo da vida, mas poderá haver caminho… de possibilidades que nos irão (distantemente) aprochegar dele… e nos permitirão amenizar o medo imoderado da morte.
E, numa reviravolta um tanto ou quanto assombrosa na análise, qual o valor certo da Guarda (ou de Portugal ou de Vila Mendo ou…)?

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