(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 25 de Junho)
Aquilo que temos de mais certo (se de alguma coisa deriva certeza) é a de que quando nascemos já estamos a morrer. Aquando da juventude não pensamos, não queremos ou não sabemos pensar sobre a morte; e pressupõe-se natural: quando estamos no auge físico, inundados de sonhos, ávidos de descobertas até ela parece vencível. Talvez no inconsciente da humanidade ecoe um desejo, que é mais do que isso; uma esperança, e que não é só isso; quiçá uma vontade pura e dura e férrea de querermos ser imortais. Nessa aspiração (que tem pouco de inspirada) encontramos facilmente os predicados (os bons, claro!) que sustentariam a nossa ansiada e merecida imortalidade!.. Se quisermos ser frios, pragmáticos, racionais (?) antes de nascermos não fazíamos falta a ninguém na “terrinitude”; surgimos e fazemos falta a alguns- e às vezes só a espaços- e depois da morte faremos falta a uns quantos e só por algum tempo: posteriormente, o esquecimento perpétuo para a maioria da humanidade.
A religião (cristianismo-catolicismo) emerge muito deste querer ser imortal, deste querer ser lembrado; e oferece-nos a imortalidade-da-alma e a recordação (e já agora a salvação) eternas. E acreditando mais, ou nem tanto, ou não acreditando sequer o que importa é o (re)conforto- quando pensamos seriamente nestas questões existenciais- de podermos ter essa possibilidade de eternidade (ainda que não física) que preencherá o vazio do nada que carregamos desde o início dos tempos (simétrico à predisposição de plenitude do divino?).
De facto a ideia de futuridade está incrustada na nossa mente (mitológica)- e se tal não constituirá a priori algo de negativo, pelo contrário, se e bem entremeada com a ideia de presente (alicerçada no passado)- o que pode de algum modo levar a desvalorizarmos sobejamente o agora, na esperança suposta de um tempo novo, de coisas boas e só boas. Ainda assim, são muitos aqueles para quem só o hoje conta, pouco o passado, e o depois da vida não é. Como seres humanos somos muito assim: o tudo ou o nada. E na questão da morte será muito isso: para uns a certeza da sua ultrapassagem, para outros a certeza de que tudo termina com ela (e para tantos, depende dos dias e das disposições). Contudo, nos dois (três) casos o que poderá ser comum é o medo. O medo de a enfrentar. A dor em nós. A dor no outro. Temos medo de morrer. Temos medo daqueles que nos são próximos morram. Temos um medo imoderado da morte. E talvez para o ultrapassar, ou pelo menos para o suavizar, para o suportar só com o encontrar (provavelmente “encontrar” não seja aqui o termo, o verbo certo) o valor certo da Vida: trabalho de uma vida, portanto! Consequentemente (ou não!) a pergunta que se impõe, e que aqui somente se propõe é: e qual o valor certo da vida?
Sem comentários:
Enviar um comentário