sexta-feira, 15 de maio de 2026

da Ignorância. do Conhecimento. da Felicidade- IV

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 30 de Abril )

(continuação)
À pergunta: e quais as soluções-imposições que amiúde procuramos? A resposta (esta) é, de certo modo, objectivamente mais evidente. As soluções (que são sempre imposições que colocamos a nós mesmos antes de as colocarmos aos outros para nos solucionarem as angústias e os tormentos que nos acompanham a cada passo) procuradas (e que às vezes nos procuram!) tendem a ser de cariz e de matriz do instantâneo, do milagroso, do mágico; que resolvam. E não importa se deslindam, ou sequer se me aproximam (ainda que longinquamente) das origens da dor: das condições e das contradições insanáveis (?) que a alimentam.
As igrejas evangélicas, movimentos pentecostais, seitas mais, outras organizações que tais, superstições várias e de variada natureza; terapias diversas, coaching, mindfulness, etc. (a ordem é aleatória e pode ser injusto, até incorrecto, fazer referência a estas últimas neste contexto…) prometem, da noite para o dia, um novo Eu; um novo mundo interior; sem se importarem com o conhecer dos muitos eus a que nos sujeitamos e que espreitam a todo o tempo (tantas vezes a destempo): uma espécie de fast-food-feliz de conhecimento (diferente Do conhecimento), uma espécie de versão light-luminosa da conversão Cristã. Onde a nível psicológico se faz tábua rasa do passado, do que aconteceu, do que foi; onde se coloca no armário, bem no fundo do armário tudo aquilo que fizemos e que fomos para começar tudo de novo; para ser outro, para ser outra pessoa-nova. É nesta ilusão de soluções mágicas que tantas e tantas pessoas se embrenham até à desilusão (ou não!) de verificarem mais tarde da fantasia de que escondermo-nos de nós próprios não será o mais producente: é que acabamos sempre por nos encontrar a nós mesmos… naquilo que somos com o que fomos; naquilo que fazemos com o que fizemos. Fugir psicologicamente pode resultar e beneficiar por algum tempo. A longo prazo a história (de mim mesmo) será outra: a minha! Sempre a minha!..
Mas no atrás referido (e uma vez que falamos também de algum tipo de religião) São Paulo não terá, digamos que… alguma responsabilidade (!)? Não foi ele que disse, e cita-se “Por isso, se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que tudo se faz de novo.”? Ora numa análise ainda que pouco fina (e se quisermos um tanto ou quanto descontextualizada), esta frase dá aso a uma justificativa para uma fuga do eu: há uma conversão, esquece-se o passado, e há todo um mundo, todo um futuro promissor sem as amarras e as agruras do acontecido- um Homem novo, portanto. O próprio Cristianismo- catolicismo- (de quem São Paulo foi preponderante para a sua implementação e aceitação) preconiza e adopta outra visão como forma de viver e estar e ser Vida em contínuo crescimento pessoal e social; que nos indica um caminho diferente para uma mudança sustentada, maturada de vida: não-fácil, mas possível. De facto, na história da humanidade são poucos aqueles mudaram radicalmente (verdadeiramente) a sua existência através de circunstâncias epifânicas. E qual é essa visão e quem a viveu?
(continua)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Sugestão de leitura

Uma novela gráfica (Banda Desenhada) superlativa. O seu autor (Gianni De Luca) tem um traço a preto e branco claro, límpido. Conjuga exemplarmente a luz/sombra, o claro/escuro. A história é conduzida visualmente de forma magistral.
Quanto a Shakespeare, é uma boa forma de introdução à sua obra: a subjectividade, o conflito interior, a ambiguidade trágica do ser humano sempre presentes...

 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

sexta-feira, 8 de maio de 2026

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Momentos

Passeio de motas (50cc)- Póvoa de S. Domingos, no pretérito dia 26 de Abril.

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Reditos

Amigos, lembrai-vos: podemos cobrir as nossas piores acções com toda a terra do mundo, mas elas sempre reaparecerão, bem claras, à luz do sol- (Hamlet) Shakespeare

segunda-feira, 4 de maio de 2026

sexta-feira, 1 de maio de 2026

da ignorância. do conhecimento. da Felicidade- III

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 16 de Abril )

(continuação)
À pergunta: E como sair desta prisão interna criada, estruturada e construída meticulosamente ao longo da existência? A resposta (mais uma vez) não é evidente e muito menos clarividente. Talvez (e sublinhe-se o talvez) só (que é uma enormidade) com o conhecimento E o reconhecimento E a aceitação das nossas profundas, profusas contradições e limitações, e de todos (?!) os defeitos constitutivos, portanto… e o E destacado atrás, reveste-se de particular importância porque liga, religa os (supostos) passos-essenciais com que poderemos libertar-nos de nós próprios: da tal prisão interna. Só conhecendo mais ou menos intimamente, depois reconhecendo paciente e seriamente, e finalmente aceitando- sem subterfúgios- que há um (ou vários) estranho em nós mesmos (que sou eu como um todo) podemos aspirar a sair dela: uma espécie de predisposição (que é uma coragem) para aceitar que há coisas, que há muitas coisas em nós que… são nossas, e muito nossas e com que temos de conviver dia a dia; no fundo, que temos de conviver connosco mesmos: o que às vezes é uma maçada. Maçamo-nos a nós próprios porque aborrecidos e às vezes tendemos a não nos suportar; e a não pensar… sobre isso; a não pensar… sobre tudo isso… E a não nos pensar sobretudo! Quando o conseguimos, ou quando o conseguirmos, demos um grande passo (decisivo?) para nos sabermos mais, para nos compreendermos melhor, para deixarmos de ser (tão) ignorantes, desconhecidos de nós mesmos, para podermos ser um pouco mais felizes (ou menos tristes): que isto da felicidade não é coisa pouca- é trabalho de uma vida. E mesmo que o consigamos, este trabalho, duro, de auto-análise nunca termina; só recomeça como seres complexos. complicados. inusitados.
Conseguir tal, almejo substantivo e substancial. Num tempo tecnológico onde tudo é, e não é; onde tudo é instantaneidade com grande dose de vacuidade, não há vagar… não há tempo para a subjectividade: condição essencial para pensar; para nos pensar. Ora, se não há tempo, não há paragem; logo não há escuta, e logo não há silêncio (não mera ausência de ruído, mas um silêncio estrutural, intencional, interior que abre toda uma perspectiva de uma realidade nova para a própria realidade de nós e da nossa existência)… e então essa reflexão (esse olhar ao espelho-reflexo) torna-se inoportuna, incomodativa, dolorosa e assim não a fazemos, e deixamos que a nossa vida siga em piloto automático; e quando o desligamos procuramos soluções (como que imposições, aos outros… sempre os outros) milagrosas, que resolvam o sofrimento com que nos apresentamos ao mundo: e ainda que finjamos essa dor, ela está lá. Ela está cá. Sempre cá. Dentro. Bem dentro. E adentro da nossa vida e das nossas relações e ralações… tão muito e por culpa (substituamos a palavra culpa por responsabilidade) demasiadas vezes próprias. E quais as soluções-imposições que amiúde procuramos?
(Continua)