sexta-feira, 1 de maio de 2026

da ignorância. do conhecimento. da Felicidade- III

(Publicado originariamente na edição do Jornal A Guarda do dia 16 de Abril )

(continuação)
À pergunta: E como sair desta prisão interna criada, estruturada e construída meticulosamente ao longo da existência? A resposta (mais uma vez) não é evidente e muito menos clarividente. Talvez (e sublinhe-se o talvez) só (que é uma enormidade) com o conhecimento E o reconhecimento E a aceitação das nossas profundas, profusas contradições e limitações, e de todos (?!) os defeitos constitutivos, portanto… e o E destacado atrás, reveste-se de particular importância porque liga, religa os (supostos) passos-essenciais com que poderemos libertar-nos de nós próprios: da tal prisão interna. Só conhecendo mais ou menos intimamente, depois reconhecendo paciente e seriamente, e finalmente aceitando- sem subterfúgios- que há um (ou vários) estranho em nós mesmos (que sou eu como um todo) podemos aspirar a sair dela: uma espécie de predisposição (que é uma coragem) para aceitar que há coisas, que há muitas coisas em nós que… são nossas, e muito nossas e com que temos de conviver dia a dia; no fundo, que temos de conviver connosco mesmos: o que às vezes é uma maçada. Maçamo-nos a nós próprios porque aborrecidos e às vezes tendemos a não nos suportar; e a não pensar… sobre isso; a não pensar… sobre tudo isso… E a não nos pensar sobretudo! Quando o conseguimos, ou quando o conseguirmos, demos um grande passo (decisivo?) para nos sabermos mais, para nos compreendermos melhor, para deixarmos de ser (tão) ignorantes, desconhecidos de nós mesmos, para podermos ser um pouco mais felizes (ou menos tristes): que isto da felicidade não é coisa pouca- é trabalho de uma vida. E mesmo que o consigamos, este trabalho, duro, de auto-análise nunca termina; só recomeça como seres complexos. complicados. inusitados.
Conseguir tal, almejo substantivo e substancial. Num tempo tecnológico onde tudo é, e não é; onde tudo é instantaneidade com grande dose de vacuidade, não há vagar… não há tempo para a subjectividade: condição essencial para pensar; para nos pensar. Ora, se não há tempo, não há paragem; logo não há escuta, e logo não há silêncio (não mera ausência de ruído, mas um silêncio estrutural, intencional, interior que abre toda uma perspectiva de uma realidade nova para a própria realidade de nós e da nossa existência)… e então essa reflexão (esse olhar ao espelho-reflexo) torna-se inoportuna, incomodativa, dolorosa e assim não a fazemos, e deixamos que a nossa vida siga em piloto automático; e quando o desligamos procuramos soluções (como que imposições, aos outros… sempre os outros) milagrosas, que resolvam o sofrimento com que nos apresentamos ao mundo: e ainda que finjamos essa dor, ela está lá. Ela está cá. Sempre cá. Dentro. Bem dentro. E adentro da nossa vida e das nossas relações e ralações… tão muito e por culpa (substituamos a palavra culpa por responsabilidade) demasiadas vezes próprias. E quais as soluções-imposições que amiúde procuramos?
(Continua)

Sem comentários: