Manuel Gonçalves, nascido em Vila Mendo, bacharel com o curso Magistério Primário e licenciado em Educação Física. Os quarenta anos de atividade profissional docente no ensino público iniciaram-se em 1981 no Ciclo Preparatório TV (CPTV) no concelho de Ponta Delgada e prosseguiram nos diferentes ciclos de escolaridade obrigatória em escolas dos concelhos de Sesimbra, Almada, Barreiro, Moita e Seixal. A atividade docente foi interrompida durante 4 anos em que exerci a tempo inteiro as funções de dirigente sindical.
Enquanto professor, como analisas o atual estado do sistema educativo?
Nos últimos 15 anos, trabalho na escola sede de um agrupamento de escolas de vanguarda onde são testadas/experienciadas as novas ideias para a Educação: contratos de autonomia, projetos de toda a ordem, novas práticas/metodologias pedagógicas, … O início de cada ano letivo provoca-me sempre essa expetativa: o que há de novo, desta vez?
Portanto, para uma questão tão abrangente e complexa onde se pretende a opinião sobre a eficácia das políticas educativas nos diferentes graus de ensino, dir-te-ei de forma muito sucinta a expressão que melhor caracteriza o sistema educativo “em constante mudança”.
A problemática presente vai mudar a Educação, nomeadamente o papel do professor enquanto tal?
Curiosamente, iniciei a docência no CPTV, a designada telescola, como referi no início e, por vezes, em virtude dos tempos que vivemos devido à pandemia, interrogo-me se não acabará de igual forma com o E@D (Ensino a Distância).
Não creio que na escolaridade obrigatória o papel do professor deixe de ter a importância que a sociedade reconhece porque as aulas síncronas terão sempre um caráter de excecionalidade e meramente circunstancial. Noutros graus de ensino, no secundário e, particularmente, no ensino superior prevejo que as aulas não presenciais ganhem especial preponderância.
Uma mudança que implementarias (já) na Escola?
-Uma semana de formação para os EE,s, de frequência obrigatória, no início de cada ciclo de escolaridade.
-As literacias digitais, financeira e educação para os valores seriam prioridades curriculares a considerar.
Há muito a viver na zona de Lisboa, que imagem tens da Guarda, agora?
A cidade da Guarda, enquanto capital de distrito, apesar da interioridade sofreu, no meu entendimento, dos mesmos problemas das cidades do litoral: cresceu mais do que devia contribuindo sobremaneira para o despovoamento das aldeias do concelho. Descaracterizou-se.
O interior, as comunidades rurais; como vês o seu futuro?
Para fazer um trabalho em Sociologia do Desporto, li há muitos anos a obra 3ª Vaga, de Alvin Toffler, escrita há cerca de 60 anos, onde o autor preconizava que o escritório do futuro era a própria residência.
O teletrabalho e a imigração são janelas de oportunidade para o interior, para o repovoamento e fixação das comunidades rurais.
Onde te imaginas daqui a 10 anos?
Se houver saúde e disponibilidade financeira, imagino-me em qualquer parte do planeta, em viagem…
Uma pessoa que te tenha marcado na tua via aquando da tua juventude?
Os meus pais.
Uma memória de infância?
A realização de TPC,s nas escadas de uma casa na Rua do Zé Velho porque a professora me mandou para casa.
E, como já escrevi noutras memórias, o pior dos exemplos da classe docente- a horrível professora que tive na primária.
Que te diz Vila Mendo?
O lugar onde nasci e cresci dentro de um agregado familiar onde se cultivavam valores; a luta pela sobrevivência generalizada da população residente nas décadas de sessenta e setenta; um lugar para voltar.
Nota:
Só a insistência do Luís Filipe me levou a responder a esta entrevista.
O apreço que tenho e mais uma vez expresso pelo trabalho inigualável desenvolvido pelo agora ex-presidente da ACRVM não me permitiram outra saída para o ultimatum que me fez: “ Ou a entrevista sai até ao dia 14/10, ou então esquecemos”.